quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Paraíso




Paraíso


– Miguilim, vamos fazer um passeio hoje?

– E aonde vamos, Doutor?

– Em um cantinho de terra onde eu tive muitas alegrias.

– Em um cantinho? Assim como no Mutum? Um lugarzinho longe que a gente tem guardado bem aqui dentro, que desfia na cabeça que nem uma fita de cinema que não para nunca de rodar?

– Assim mesmo, Miguelim, um cantinho querido da memória.

– Mas o Doutor nunca morou num cantinho de roça assim que nem o meu.

– Não, não morei, mas por isso mesmo eu tinha uma paixão por um lugar que muitas e muitas vezes eu ia visitar quando era menino.

– Era bonito esse lugar?

– Quando menino achava-o muito gostoso, mais tarde passei a admirar o tanto de riqueza que se levantava de tão pouca terra.

– Por quê? Era terra muito rica, Doutor?

– Pelo que ela produzia, Miguelim, era realmente muito rica, mas a riqueza dela ficava escondida atrás do trabalho diligente dos meus primos.

– Ué, Doutor, se fosse tão rica não precisava de tanto trabalho.

– Verdade, mas o trabalho esforçado, que transforma a terra em riqueza, recompensa quem o faz com um tesouro.

– Nossa, Doutor, deve ser assim como achar ouro, um montão!

– Mais ou menos, Miguelim, o ouro era minerado pela educação que meus primos davam para os filhos: o resultado de tanto trabalho acumulou uma riqueza.

– E era mesmo tanto trabalho assim?

– O dia era bem pouco para o que se necessitava fazer. Lá naquele cantinho não se podia pôr um freio na vida para gozar o namoro com a vida mansa que se pensa da roça.

–Era bem assim lá no Mutum também, Doutor, com meu pai e minha mãezinha, era só um duro labutar.

– Pois é, Miguelim, para nós que lá íamos brincar, era tudo só prazer; para eles, um esforço diário para não deixar o trabalho esmorecer.

– E como você ia para lá?

– Quando eu era muito menininho, perturbava meu pai, eu mais meus irmãos, para levar-nos nas tardes de domingo.

– E por que você falou perturbava, ele não queria ir?

– Não, ele queria sim, mas aquelas tardes eram momentos sagrados para descanso. Após o almoço ele se retirava para o quarto dele e dormia algumas poucas horas de sono.

– Ah sei, se ele os levasse a passear, ele perdia o soninho.

– Pois é, mas muitas vezes ele fazia o sacrifício do seu descanso, chamava o.Teodoreto e embarcava a tropa toda no velho Chevrolet preto.

– Era longe?

– Não era longe, mas as nossas perninhas sofriam para cobrir a meia-légua até lá, mas na volta elas tinham que funcionar.

– E lá no cantinho, o que havia de tão gostoso?

– Muitas brincadeiras e muita coisa gostosa. O sítio era cheio de frutas de todos os tipos e, se era tempo de laranjas, o primo Celiton levava meu pai para encher um saco de suculentas de tipos e sabores diferentes.

– E todo mundo se deliciava a chupar as gordinhas?

– Fazia-se uma roda grande e os adultos iam conversando e descascando as laranjas para as crianças, que faziam algazarra nas brincadeiras ao redor. Enquanto isto, o tio Custódio, para nós apenas tio Tó, sem camisa, mostrando as costelas que marcavam a sua magreza, batia uma garrafa de manteiga.

– Ele ficava sacudindo a garrafa na mão?

– E passava a tarde naquela tarefa enfadonha, batendo aquela garrafa, mas o resultado era aquela manteiga deliciosa que nunca mais provei igual.

– Hum, que saudade da manteiga feita na lá no Mutum. E tinha muitas frutas mais?

– Tinha jabuticabas com fartura, que enchiam nossa gula de perigos. No dia seguinte pagávamos caro a preguiça de jogar os caroços fora. A barriga endurecia e não se conseguia botar os caroços para fora. E tome laxante para fazer o alívio.

Eu bem sei que mal esse, Doutor, de ficar entupido.

– E muitas outras frutas que tínhamos que aguardar a época própria para poder sufocar a nossa gulodice, que não esperava o adocicar que a maturação trazia, e as comíamos mesmo “de vez”, como as mangas.

– E que fruta mais?

– Abiu, que tinha a alegria de uma doçura sem igual e a tristeza de tão pouca alegria no caldo pouco e caroços imensos.

– Que delícia um abiu! E que mais?

– Cajá-manga, que o tio Tó comparava ao casamento: ele dizia que no princípio era meio ácido, depois a parte mais doce trazia os espinhos do caroço, que eram os filhos.

– Essa fruta eu nem conheço, Doutor.

– É mesmo, Miguelim, mineiro destas paragens não sabe nada de cajá-manga, tão raro aparecer por estas bandas, mas por lá dava de montão.

– Com tanta fruta devia ser mesmo muito gostoso esse cantinho.

– Logo que nossas pernas ganharam ares de liberdade para cobrir a estrada sozinhas, eu e meu primo, que éramos gêmeos de famílias diferentes, partíamos para lá passando pela estação e seguíamos de trem até quase a entrada da estradinha que saía da estrada da Rodagem.

– Que legal, Doutor, vocês iam deveras de trem?

– Pelo menos em nossa imaginação, Miguelim. Seguíamos pelas linhas do trem brincando sobre os dormentes que as pernas pequenas tinham que espichar para tocar.

– E não tinham medo de um trem chegar bem ligeiro?

– Não havia mais trens, só os trilhos ficaram durante um longo tempo com saudade das locomotivas que resfolegavam. Mas lembro-me de ceder os trilhos para o trem passar, mas era muito pequeno para estar sem a companhia de meu pai, e era muito divertido.

– E o trem passava bem pertinho.

– Nossa estação era fim de linha, e foi logo desativada quando os carros passaram a mandar.

– Que pena, Doutor, andar de trem devia ser bem legal.

– Eu nem sabia, Miguelim, levou muito tempo para que eu subisse em um trem, mas lembro-me muito de nossas fugidas para o cantinho, e de maneira especial de um dia quando resolvemos fazer um caminho que achávamos que era um atalho para lá chegar.

– E ficava mais perto?

– Nem sabíamos, mas quando estávamos por lá víamos a estrada que levava a uma fazenda atrás do morro e aprendemos que subindo por aquela estrada poderíamos nos embrenhar pelos pastos, descer o morro e chegar no vale.

– Então era bem mais custoso.

– Mas o espírito de aventura e vontade de desbravar nos empurrava para a novidade, assim nesse dia não pegamos a estrada de ferro, seguimos pela Rodagem em busca da estrada que ia para aquela fazenda.

– Eu também gostava de aventuras assim, sair pelo meu sertão em busca de lugares que nunca antes pisaram os meus pezinhos.

– E assim fomos subindo aquele morro e procurando nas brincadeiras maneiras novas de fazer a estrada menos penosa, até que chegamos aonde já avistávamos o sítio e resolvemos entrar no pasto para descer o morro.

– E tinha uma trilha para seguir?

– Não, não era um caminho usado nem pelo gado. Ao chegar na cerca de arame farpado vimos uma novilha ali perto pastando. Como estávamos acostumados a viver no meio daqueles bichos, não nos abalamos e passamos a cerca.

A cerca de arame e o sítio lá no fundo

– Tem-se que ter cuidado para não se espetar nas farpinhas.

– Estávamos acostumados a levar cavalos para os pastos e nada daquilo nos intimidava. Quando nos vimos dentro do pasto e após dar alguns passos, a novilha resfolegou; acho que não gostou da nossa bravura e avançou para nós em carreira certeira.

– Nossa, Doutor, e que aconteceu?

– Foi aí que o susto destravou as rédeas da nossa coragem que não sabíamos mais onde foi ela parar. Cada um saiu correndo para um lado, deixando ao destino a escolha do coitado que ia sofrer.

– E aí, Doutor, estou eu aflito de susto também, quem ela escolheu?

– Ela veio direto para cima de mim, corri um tanto e sentindo ela pertinho joguei-me no chão, pelo menos para evitar uma cabeçada da fera.

– E ela não te pisou?

– Não sei de onde apareceu um moço, não o tínhamos visto; ele veio como do nada e afastou a novilha de onde eu estava.

– Poxa, Doutor, tive um medão por você!

– Imagine o meu! Naquele momento eu me vi pisoteado e espremido pela cabeça da besta.

– E chifrado.

– Quando dei-me conta que ela não me tocou, vi-a correndo para outro lado, e o moço agitando os braços e gritando com ela.

– Que alívio, Doutor.


– Pusemos os dois os rabos entre as pernas e descemos o pasto sem nem agradecer ao moço por livrar-nos do mal pior, os corações disparados e num acordo mudo de não contar para ninguém o que havíamos passado.

– Eu ia correr pra contar pra minha mãezinha o susto que eu tive.

– Mas nós prezávamos nossa liberdade, melhor os sustos que perdê-la; apertos nós passávamos em diversas ocasiões, mas, depois do susto, brincar era a regra e despachávamo-nos para a farra.

– E tinha muita coisa gostosa pra fazer lá?

– E como tinha. No alto do morro havia uma mata cerrada onde gostávamos de ir brincar: cipós correndo do alto das árvores faziam-nos virar o Tarzan e balançar sobre o declive do morro, bem alto.

– Acho que vocês deviam mais parecer a Chita.

– Fazíamos mesmo muitas macaquices e entrávamos pela mata a brincar de caçadores.

– E enquanto vocês brincavam, a trabalheira dos primos continuava...

– Pois é, e nem tínhamos consciência do que era preciso para ter aquela mesa farta de biscoitos e bolos que nos enfeitavam os olhos no café da tarde.

– Quanta gostosura no café da roça!

– Queijo, manteiga, leite, tudo feito lá mesmo, e muito mais. E foi então que meu primo comprou um Fordinho para poder levar suas mercadorias para a cidade, e para nós foi mais uma alegria, pois nos acordes da música “O Calhambeque” divertíamo-nos a valer.

– Que legal, Doutor!

– E fomos crescendo e outros interesses nos afastaram de lá, enquanto minha admiração pelo trabalho dos meus primos ia também crescendo, pois passei a compreender o esforço do trabalho feito com tanto amor!

– Poxa!

– É tarde, Miguelim, trate de dormir. Boa noite!

– Boa noite, Doutor, gostei muito de visitar o seu Paraíso!

-o-


Os primos do cantinho: Hercilia, Celiton, Terezinha, José Weliton e Washington