Mostrando postagens com marcador esparsos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador esparsos. Mostrar todas as postagens

domingo, 17 de maio de 2020

A recompensa final


A recompensa final



Dona Gertrudes, nos tempos idos, descuidara-se dos seus compromissos com a Igreja devido aos afazeres domésticos. Com as crianças nascendo, até a Santa Missa dos domingos foi relaxada em benefício do trabalho com os filhos, que não foi pouco, pois a penca chegou a inchar com treze criaturas. “Não perdi unzinho”, dizia com orgulho.


As crianças crescendo junto com o trabalho, ela ia levando a canseira afastada das compensações religiosas, não sem um pouco de pesar e remorso. Quando a fabricação de rebentos foi paralisada pelas normas da natureza, ela já ia bem carregada de anos, e os primeiros filhos já adultos, de vidas feitas, só apareciam de visita.  A casa esvaziando pouco a pouco, os domingos já deixavam brecha para voltar a frequentar a missa.

Os últimos filhos deixando a infância, passou a ter tempo para voltar aos bordados e tricôs, que fazia com maestria, ajudando nos gastos da casa com o dinheirinho que recebia pelas toalhas, blusas e outros apetrechos.

E ficou viúva. E a necessidade de consolo na religião foi cada vez tornando-se mais e mais importante. Aliviada por nenhuma necessariedade de pecado, vez em quando confessava somente para relatar um momento de raiva, principalmente se errava um ponto em seu bordado, ou de uma gulazinha por um pudim que ela fazia como nenhuma outra, e, lógico, por este orgulho também. E comungava em todas as missas que ia, não só aos domingos.

A casa vazia, todos os filhos levados pela vida própria, sentindo a pensão que recebia bastante satisfatória a suas necessidades modestas, passou a dedicar os seus trabalhos manuais à igreja, confeccionando toalhinhas e tudo o mais que os altares pudessem enfeitar, e, quando estes estavam bem aparelhados, fazia peças para vender nas quermesses da paróquia em benefício das obras sociais.

Tornou-se muito importante para a paróquia e muito benquista.

Muito anos assim passados, a idade foi pesando mais e mais. Ela contratou para ajudá-la nas tarefas domésticas uma senhora, a Creuza, que duas vezes por semana ia fazer a faxina da casa. E um pensamento mais assíduo no dia último levou-a a interessar-se pelos anúncios que tomava conhecimento da boa morte. Deu-lhes mais atenção, e a ideia lhe pareceu interessante de não causar consternação aos filhos, deixando tudo arrumado para o seu último passeio.

Recebeu em sua casa diversos mercadores da morte que faziam louvores aos velórios que podiam oferecer, e que dispunham dos caixões mais confortáveis, mais impermeáveis, biodegradáveis ou hidrossolúveis, das flores mais ao seu gosto e do mais que pudesse alegrar o futuro defunto. Finalmente, para ver-se livre dos agoureiros, escolheu um plano de morte que lhe oferecia a possibilidade de receber o caixão para manter em sua própria guarda, sem se esquecer de contratar uma missa de corpo presente. Assim, sentiu-se segura, pois a cova há muito já tinha assegurada no andar de cima da sepultura onde depositara o finado marido. Quando os filhos souberam do arranjo, dividiram-se entre os que elogiaram o seu senso prático e os que acharam que ela tinha enlouquecido. A caçula, coitada, quase foi parar no hospital.

Quando o belo caixão chegou, em nogueira com verniz marítimo combinando com os seus móveis, foi alojado em um quarto que agora era usado pelos hóspedes, muito raros ultimamente, em pé, encostado na parede de fundo como um mobiliário a mais.

Terça-feira, dia da Creuza. Como de hábito ela chegou cedo e foi cuidar da cozinha da véspera, da roupa a lavar e passar. Findo estes afazeres, dirigiu-se aos quartos e...

– Ai, Dona Gertrudes!!! - berrou a Creuza.

Dona Gertrudes abandonou a toalha que estava bordando e foi acudir a Creuza, que estava parada em frente à porta do dito quarto encostada na parede do corredor, a mão no coração, a vassoura caída no chão.

– Dona Gertrudes! Um defunto!

Dona Gertrudes não pôde conter o riso quando viu o motivo do susto da Creuza.

Que isso, Creuza, é apenas o meu caixão.

Seu caixão?! Então a senhora está...

Deixa de ser doida, Creuza, estou vivinha, não está vendo?

E, então, para que é o caixão?

Ora, para quando eu precisar dele.

– A senhora já adiantou a compra do caixão e vai deixá-lo assim, como um aviso de morte?

– Mais ou menos isso, Creuza, assim eu vou me acostumando e tendo uma convivência mais afetiva com ele.

– Cruz Credo, Dona Gertrudes, isso deve ser de mau agouro, deixar isso ali a esperar a senhora. Ele pelo menos está trancado?

– Não, Creuza, a tampa não está lacrada, senão pode dar mofo e estragar o tecido de dentro, e também é preciso limpá-lo para não deixar acumular pó. Pó, ali, só o meu, quando me for a hora.

– Estou aturdida. E eu... Eu vou ter que limpar isso?

– Bom, Creuza, espero que você tenha essa consideração comigo e possa fazê-lo.

– Ai, meu Jesus! E a senhora já experimentou, Dona Gertrudes, já deu uma voltinha ali dentro?

– Já, e achei bastante confortável. Se você quiser pode experimentar também.

– Cruzes! Que ideia mais louca! A senhora comprou caixão, cova e tudo mais?

– Comprei, não quero dar trabalho para ninguém.

– E comprou também a entrada?

– Entrada, Creuza, que entrada?

– Para lá...

– Para lá onde?

– Para a porta de São Pedro.

– Ah, comprei. E paguei em pequenas prestações por toda a vida.


-o-

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Revelações


Revelações




Para que se possa aclarar os fatos é preciso contar e requentar as palavras, que estão envoltas em uma nuvem de insignificados, lavadas que estão por águas barrentas, que mais escondem que põem a nudo. Eu me permito a repassar minhas lembradas memórias na superfície, sem desnudar o mapa dos lugares onde foi o ocorrido real, pois é de fato o necessário resguardar a intimidade dos seres aludidos, que não devem ser expostos à predatória curiosidade, que sabemos ser portadora de malevolência sem limites.


 Depois que se difundiu por papéis e falas a existência em meu terreiro desses pequeninos seres, fui solicitado por todos os tipos de curiosos a revelar como se iniciou a minha convivência com os tais. Tranquei-me em rumoroso silêncio que enterrava o medo das maldades que o inusitado normalmente desperta nos indiferentes ao bem-viver dos outros, quem quer que seja o outro, gente ou bicho. E o que seriam meus amiguinhos na boca dos fanáticos intolerantes e Ignorantes? Seres sem alma, criaturas cuspidas das entranhas do inferno, passíveis das promessas de eliminação, que lhes são atiradas simplesmente por não serem incapazes de causar perplexidades. É por medo de causar prejuízos inomináveis aos de sua estirpe que deixo em reticências o local do ninho onde os encontrei.

Em muitas décadas atrás, quando tinha a juventude como uma deslembrada que não se sabia efêmera, eu corria pelos grandes rios do Brasil central à cata de emoções da pescaria e da caça, de verdade um mero predador abútrico. Sem as amarras que meu amadurecer impôs a minhas mãos, o divertido era brigar com o bicho e conquistar a sua derrota na ponta de um anzol, que lhe dilacerava a boca, jogo desigual onde o vitimado está de prévio definido. Tinha como guia mais procurado, tanto que muito se tornou um vero amigo, o Beto, um caboclo que me conduzia em uma voadeira pelas águas mais propícias. Figura esquálida tanto física quanto em coisas de atitude, e também de fala, divertia-me a contar com ingenuidade as suas não peripécias do aprender a vida, desnudando um caráter isento de malícias e sem preocupações em se fazer ridículo ao contar, não tendo intenção alguma de graça, episódios onde a sua ingenuidade o fizera ser a diversão dos amigos, e nossa, então, nos descansos noturnos a saborear um peixe, embalados pela fala lenta e pausada daqueles casos.

Foi um dia, éramos apenas os dois largados a correr o rio, talvez o calor, talvez algum rescaldo de uma refeição mal preparada, em que me vi a tremer em desmesura em febre, que cresceu a ponto de me deixar anuviado, e ao Beto um pouco alvoroçado por estarmos ali sem recursos ao sabor de uma natureza que nos considerava intrusos. Antes de entregar-me ao oblívio, eu o ouvi dizer que estávamos próximos a uma ilha que ele sabia poderia conseguir ajuda curadora.

Não tinha eu medida do quanto fiquei a navegar no tempo quando me vi desembarcado direto em uma cama feita de folhas. Não fosse o meu precário estado de juízo, eu decerto teria um baita susto ao distinguir, ao meu lado, pequenas sombras negras que cuidavam de ajeitar-me sobre as folhas com acurada leveza. Aquele carinho de gestos me afiançava que nenhum receio deveria ter daquelas figurinhas estranhas, e fui acostumando-me ao susto que não tive enquanto tomava ar a minha pessoa. Do Beto, não havia presença.
Quando consegui articular palavra, perguntei:

- E Beto?

Um riso largo cobriu aquela diminuta carinha negra, mostrando nos dentes a satisfeita recompensa de me ver ressurgido.

- Beto foi casa. E volta.

Foi então que tomei ciência da outra figurinha, de cócoras, a cuidar sobre uma fogueira de um pote em que derramava uma erva. Terminada a cocção, derramou a tisana em um pequeno jarro de barro e veio a mim, saltitando, oferecendo-a debaixo de um largo sorriso branco. Talvez por já sedado pela gentileza dos cuidados, tomei a beberagem resoluto, que me correu amargosa pelas entranhas, deixando-me no imediato mando da minha própria postura do ser.

Em momentos de necessidade de apaziguamento, de normal lançava mão de um cachimbo que me acompanhava por muitos invernos, e ali de lado se achava meu bornal que o agasalhava. Enquanto aconchegava um punhado de fumo no fornilho, os pequeninos ladearam-me em olhos curiosos a seguir meus gestos rituais, e desdobraram risos quando botei fogo na massa. Puxei vagaroso e firme no tabaco quente e livrei uma longa baforada. Meus enfermeirinhos lançaram gritos de admiração. Ofereci o cachimbo. Os olhos de regozijos brilhando provaram e aprovaram, sem engasgos nem tosses, e lá se foi o meu companheiro de tantas jornadas, pois não fui de coragem a tomar-lhes tal alegria.

O Beto voltou para me buscar. Indaguei-lhe se na vila conheciam a ilha.

- A ilha sim, mas os pequeninos não. Eles só se deixam ver pelos que lhe são confiantes, e, pelas maliciosas sacizagens que eles aprontam, a gente da vila tem medo da ilha, e correm por lá relatos que dizem ser povoada por demônios e espíritos malfazejos.

Eu de pronto disse ao Beto que era meu querer ficar por ali mais tempo a conhecê-los com mais apuro. Fizemos trato que viesse de retorno a me buscar passados três dias. Assim se deu que passei o tríduo em desigual liberdade na natureza crua daquela ilha desmapeada, no coração das brincadeiras da corriola descompromissada com cruezas da vida. Tal foi nossa amizade que o casal que me cuidara a mazela se me apegou talmente que quis trilhar comigo minha viagem de retorno. O Beto nos levou à vila onde peguei a camioneta e varei de volta para cá. Muitos desenfadamentos aprontaram, sendo vítimas principais os frentistas dos postos de abastecimento, que levavam sustos com barulhos saídos do nada, tratando-me com desconfiadas atitudes.

Tal e qual foi esta a origem dos meus amiguinhos.

-o-


segunda-feira, 23 de março de 2020

O Silêncio



O Silêncio


- Biju!

Como costumeiro nos domingos, o grito invadiu o silêncio maior da tarde, maior que tantos outros domingos. A matraca soava mais forte abafando o som da TV, mais insistente, pretendendo ferir a indiferença. Não! Que digo? Indiferença?

Os corações ouviam angustiados sem ousarem levantar-se. A matraca mais alta ressoava um grito de angústia que jazia sufocado em todos os corações. O grito de um pai a quem cortaram a mão que leva o pão de cada dia a seu filho. O grito do filho que chora pedindo o pão sem entender o porquê do lamento em resposta de seu pai.

O medo proíbe atender o seu chamado. Já não sabemos se podemos ser solidários. Aquele grito pode nos trazer o mal que nos forçou ao isolamento. Aquela matraca é uma violência que transforma o delicado sabor do biju em perigoso veneno. A mão, que sacode a matraca, sacode a pedra em que me tornei congelado pelo medo, obrigado pela responsabilidade com todos os demais.

Eu sangro. Sei que os poderes que deveriam ouvir o grito se movem pachorrentamente. 
Sei que o que prometem é um quase nada. Sei que chegará quando será tarde.

Ouço gritos que se levantam nas janelas levando orações em uníssono.

O Silêncio responde.

Pai, por que me abandonaste?

O Silêncio responde.

Vejo de branco um anjo da saúde que sai para trabalhar enfrentando os seus medos. Ele tem uma mãe em casa chorando de impotência. Isolada. Angustiada. Sem poder exercer o seu amor. E vejo o filho retornando do trabalho opressivo fugindo ao contato. Vejo o filho que se remói porque seu cuidado não foi suficiente e leva sua mãe ao hospital. E chora!

O Silêncio responde.

Vejo outro que deixa o filho em casa e vai cumprir seu papel de anjo apesar de suas próprias debilidades, e sucumbe. Ouço o seu grito ao entregar seu filho aos cuidados de...

E O Silêncio responde.

Lembro-me dos gregos, cujo espírito guerreiro confinou dentro de uma caixa o último mal. É proibido abrir a caixa: lute, conte com sua força! Morra o fraco! Foi preciso que um ser iluminado viesse ao mundo para abri-la dizendo: “Meu Reino não é deste mundo”.

E eu grito: multiplique os pães!

O Silêncio responde.

Pelos anos, andei em busca de conhecimento e deparei-me com o pensamento sufi: quando seu ego não mais for, você estará pronto para bater à porta. Fico a ouvir um eco repercutindo: "eagles don't fly together" (em português, algo assim: “águias/egos não voam em bando”). E agora me exortam a trancar-me em casa e fechar a porta, a ser um gavião solitário a alimentar-se com o que conseguiu rapinar.

Sei que nas minhas três noites escuras eu contemplei a presença dos anjos, que falam tão sutilmente que necessitei de toda a minha atenção para ouvi-los. Mas quando o dia se faz e minha atenção se dispersa, eu contemplo 

O Silêncio.

-o-


domingo, 1 de março de 2020

A Morte Desolada



A Morte Desolada




1. Pierre Pardeux

– Pierre Pardeux? Que surpresa vos encontrar por aqui.

– Surpresa, Madame, por quê?

– Realmente não deveis vos lembrar que tínhamos um encontro marcado hoje, mas lá em Paris. Não sabia de sua fuga para cá, mas os fados não deixaram que nos perdêssemos.

– A Madame está enganada, nada tenho agendado. Aliás, nem tenho uma agenda, não gosto de compromissos.

– Com certeza não vos lembrais, pois memórias de lá não são aqui permitidas, mas aqui tenho o vosso contrato de nascimento, que estipula o vosso resgate precisamente para hoje. Como vedes, de nada adiantou a vossa fuga.

– Fuga, Madame? Não houve fuga nenhuma de Paris, não tinha motivos para fazê-lo. Eu apenas vim para Salvador conhecer o carnaval, deslumbrei-me com isto aqui e decidi ficar.

– De qualquer forma, aqui estamos frente a frente, estou surpresa por encontrar-vos assim tão bem-disposto, pois este documento diz que estaríeis definhando com um câncer nos pulmões decorrente dos vossos excessos com o fumo.

– Ah, é por isso? Désolé! A Madame não sabe dos progressos da nossa medicina? Aquilo me causou realmente alguns transtornos, mas foi descoberto a tempo para uma cura perfeita. Aliás, foi para comemorar que vim para esbanjar no carnaval, e tanta farra deu-me disposição. Cigarros!? Pas plus! Nunca mais foi necessário.

– Nada disso me importa, estou aqui para executar a minha tarefa. Se não foi o câncer, temos que encontrar outra causa.

– Ha, ha! Désolé! Não tenho tempo nem disposição para lidar com sua decepção! Quero muito à minha vidinha para desperdiçar com lamúrias de uma velha decrépita, e bem anacrônica.

– Se não vai por bem, vai por mal. Terei que usar a força da minha foice para vos convencer a não opor obstáculos ao desenvolvimento natural dos desígnios do universo?

– Ah, com essa ridícula ferramenta enferrujada acha que vai amedrontar-me? O máximo que você conseguiria seria causar-me uma pequena escoriação, mas, isto, se antes conseguisse pegar-me, não me venha com ilusão tamanha.

– E ainda me tratais com tamanho desrespeito! Se estou aqui, conduzida pelas forças que regem o mundo, é para cumprir minhas obrigações, e não podeis furtar-vos a vos aquiescerdes.

– Ha, ha! Désolé! Volte daqui a cem anos, mas esteja certa que de tudo farei para decepcioná-la novamente com as graças da santa ciência. Aconselho-a a procurar por aí um - quelle horreur! - um suicida para que sua fome seja saciada.

– Vou queixar-me ao tribunal dos santos!

– Vá, vá. Adieu.


2. Maria Augusta Comodoro

– Droga! Como posso cumprir desse jeito a droga das minhas obrigações? Isso está deixando-me enlouquecida e sem o respeito que deveria ter pelas almas que deveria carregar.

– Oh, minha boa senhora, não estás passando bem? O que houve?

– O que houve!? Ainda perguntas? Audácia! Ou vais negar que és a Maria Augusta Comodoro?

– Mas sou eu mesma! Nós nos conhecemos de algum lugar? Já te fiz algum mal para te mostrares assim tão agressiva para com a minha pessoa?

– Decerto que não te lembras, se aqui memória lá de cima não se consente. Mas de acordo com o contrato que firmaste, quando da sua partida para cá, eu hoje deveria encontrar-te em cima de uma cama após tua razão e tuas forças se terem esvaído durante quinze anos.

– Eu? Não me lembro de contrato nenhum. Mas se te referes àquele mal que me ia deixando aluadinha, não prosperou. A medicina tem avançado muito e os meus neurônios avariados foram repostos, e cá estou em minha mais perfeita sanidade. E não tenho nenhuma pena de ti se o que me querias era encontrar-me acabada daquela forma.

– E como vou apresentar-me no tribunal dos céus com as mãos vazias?

– Pois procure quem não goste da vida, por que teimar em tirá-la de quem lhe tem tanto apreço?

– Precisamos de almas experientes lá em cima, esses que se apressam em ir não têm acumulados os predicados suficientes para executar tarefas importantes.

– Pois então vais ter que esperar, eu sou apenas uma bisavó, e quero conhecer os meus trinetos, os tetranetos, os pentanetos, e nem sei mais seguir nomeando os meus rebentos.

– E o céu vai ficar deserto? E por aqui os empedernidos vão continuar a gerar problemas para a previdência, recebendo aposentadoria por dezenas e centenas de anos?

– Problema para os governantes e o Todo-Poderoso lá de cima, mas vamos ter muita disposição para trabalhar.

– Haja emprego por aqui, enquanto lá em cima há vagas em profusão.

– Sabes o que falta por lá? Um departamento de propaganda que funcione com eficiência.

– Propaganda?

– E não? O que sabemos nós de lá?

– Será que funcionaria?

– Pois vou te dizer que por aqui até os cemitérios estão aumentando a publicidade, prometendo uma morte mais feliz, embora saibamos que não está dando muito resultado, pois tenho ouvido falar de falência de cemitérios, o que confirma que tua empresa está muito pior, pois nenhuma publicidade faz.

– Pois aí está, deste-me uma ideia.


 3. Férias da Morte


Desolada por não poder executar as suas obrigações com a antiga eficiência, a Morte resolveu tirar férias e vagar por este mundo para poder entender aquela gente que se recusava a ir para o Paraíso. Queria saber dos seus motivos para se apegarem tanto a suas vidas por aqui, onde agora se encontrava livre de compromissos, centrada apenas em aprender para poder recuperar sua antiga força.

Desfez-se de seus poderes, fantasiou-se como uma mulher do povo, que pudesse vagar por qualquer lugar sem atrair demasiada atenção. Como primeiro objetivo, decidiu ir a Salvador para conhecer o carnaval tão louvado por aquele francês ingrato. Vasculhou a internet para saber tudo o que poderia antecipar sobre aquela festa, surpreendeu-se ao saber que era uma preparação à entrada dos rigores da quaresma: antes das práticas ascéticas, um período onde a alegria devia ser obrigatória.

Viajou para Salvador, adquiriu um abadá como lhe fora recomendado para apreciar melhor a festa e se deixou levar nas ondas do povo. Daqui e dali ofereciam-lhe algo para comer, beber e cheirar. Inebriou-se.

Acordou na quarta-feira pelo vozerio de pessoas. Estava deitada debaixo das multicoloridas fitas esvoaçantes no alto da escadaria da Igreja de Nosso Senhor do Bonfim. Entorpecida em uma sensação de sonho pelo tremeluzir das fitas, olhando para cima reconheceu vagamente o guarda municipal, ainda uniformizado, que lhe oferecera o último gole da véspera em meio à folia, cuja coxa servia-lhe de travesseiro, e que ainda dormia com a boca escancarada. Acordou-o. Viu-o abrir os olhos assustados e rapidamente desaparecer escada abaixo.

Curiosa em saber o porquê de tantas fitas, indagou-o a uma baiana vestida toda de branco. Ela lhe contou da história e da esperança dos três pedidos. A Morte escolheu uma fita branca, de Oxalá, e seguiu o ritual, pedindo a cada nó dado na fita somente que pudesse voltar a executar a contento as suas tarefas. Desceu a escadaria e prosseguiu pela cidade para conhecer a sua rotina, surpreendeu-se ao ainda encontrar muitas manifestações da folia, pois ela apenas sentia o cansaço de tudo que vivenciara.

Continuou a vagar pelo país onde a publicidade das agências de viagens a conduziam no meio das pessoas em férias ansiosas por conhecer e admirar os mais diversos cenários. E como se lembrava reiteradamente dos conselhos da abusada Maria Augusta, pensou em procurar onde pudesse estudar os meandros da propaganda, aceitando a crítica que os seus não sabiam utilizar os eficientes meios de divulgação para alardear as delícias do Paraíso.


4. Novas diretrizes


– Acorda, velha decrépita, não temos tempo a perder.

– Ah, o que é isso!?

– Vamos logo, de pé, vamos trabalhar!

– Ah, é você. Mas... Que liberdades são essas com que me toma?

– Vamos, sua negligência não lhe permite mais tomar ares, temos que recuperar o tempo enorme que você desperdiçou. Precisamos urgentemente de novas almas.

– Como se eu não estivesse envidando os meus esforços para consegui-las, mas os meus métodos normais não mais estão funcionando. Estou planejando lançar uma grande campanha de publicidade para atraí-los espontaneamente, mostrando-lhes que no Paraíso terão o carnaval o ano todo, com apenas três dias para descanso e recolhimento.

– Não vai funcionar, os crentes vão achincalhar dizendo que é tudo uma armação de Satanás para enganá-los. É preciso usar as mesmas armas que eles estão utilizando para nos derrotar. É por isso que aqui estou, mandaram-me para ajudá-la a consegui-las.

– E o que seriam essas armas?

– As Ciências!

– As Ciências... E como vamos usar as ciências se são ferramentas deles para justamente nos atrapalharem?

– Ora, vamos criar os nossos métodos próprios. Vamos deixar de lado que o acaso nos ajude e seremos nós a criarmos as condições para que possamos interferir no mundo deles a nosso favor.

– Bom, a ideia é interessante, mas o meu departamento não tem recursos para desenvolver uma ciência da Morte.

– Não lhe cabe tal, deixe por minha conta e dos outros cavaleiros. Não vamos mais ficar à espera que a evolução nos forneça as armas para infectar os corpos deles, os meus acólitos já estão nos laboratórios criando novas formas que possam suplantar as suas defesas.

– E por que não incrementar o método mais antigo que já utilizamos enviando-lhes a Guerra com armas mais poderosas?

– Fizemos muitos estudos a respeito, o uso da tecnologia nuclear seria devastador e contrário a nossos interesses, e a guerra convencional não é eficiente, pois atinge demasiado os menos favorecidos, e os possuidores de recursos escapam com facilidade.

– E eles não escapariam seja qual for o método que utilizarmos?

– É por isso que estamos utilizando todos os nossos recursos para interferir no DNA de muitos organismos, acelerando a sua evolução para que sejam altamente contagiosos através do ar. Vamos pegá-los com o que eles não podem deixar de usar.

– Você me animou, Peste, vou recuperar minha foice para voltar ao trabalho com muita vontade! E faça-me um grande favor, pegue primeiro aquele Pierre Pardeux.

-o-












domingo, 21 de julho de 2019

O Jogo do Castelo Interior



O Jogo do Castelo Interior





Introdução

Esta história me foi contada por Philip K. Dick em uma das imersões que habitualmente faço no mundo dos espíritos quando entro em profunda meditação. A placidez que dele emanava contrastava totalmente com o emaranhado de loucura que tinha sido a sua vida em nosso meio. Nada revelava da sua frustração em vida por não ter alcançado o sucesso literário que tanto perseguira, nem da fama póstuma que o elevou, talvez, a ser o maior escritor de ficção científica já conhecido; externava apenas uma pequena preocupação com a evolução do nosso mundo, como a sua própria trajetória de sucesso era um exemplo. Como é sabido, a sua fantástica imaginação criou uma prolífica obra, publicada em revistas especializadas e livros, que, embora lhe tenha permitido dela viver, só foi elevada ao reino dos sucessos após o seu falecimento, quando foi transformada em filmes. Ele não pôde assistir nem mesmo ao primeiro: Blade Runner, baseado em seu livro Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, que levou seu nome para todo o nosso mundo; muito menos aos que o seguiram, como O Vingador do Futuro, baseado em Podemos Recordar para Você, por um Preço Razoável; Minority Report, baseado no conto homônimo; e muitos outros sucessos cinematográficos.

Durante o nosso passeio, rimos muito quando passei a citar os anacronismos que encontrava em sua obra, que relatava mundos de uma tecnologia impensável, mesmo no mundo de hoje, enquanto fichas com ranhuras eram usadas para ligações telefônicas e o telégrafo para mensagens rápidas. Ele se divertiu ao constatar esses pequenos lapsos da imaginação, e, quando mencionei as fitas perfuradas do módulo de controle das formigas elétricas, que faziam o suprimento de realidade, explodimos em uma gargalhada uníssona.

A sua preocupação, que mencionei acima, cresceu ao contemplar no futuro a substituição total das páginas brancas do livro por um sistema de transmissão (streaming) diretamente para uma tela virtual, que se formará diante dos olhos dos poucos leitores que ainda existirão, onde o movimento dos olhos controlará o fluxo das palavras. E, em 2041, com o surgimento dos jogos holográficos, ele viu que as alucinações que vivera através das drogas e do êxtase paranormal serão colocadas ao alcance de todos, com efeitos psicológicos explosivos. E foi em decorrência dessa preocupação que ele me contou esta história, que passo a transcrever.


A Festa de Aniversário Que Não Houve

Naquele ano, o Felipe não teve uma festa de aniversário, pois concordara em trocá-la pelo Jogo do Castelo Interior, embora um tanto contrariado. Na verdade, nem partira dele a ideia do presente, pois nem sequer ainda ouvira falar do jogo, mas ela havia aparecido na mesa de jantar da família, trazida pelo pai, que falou das maravilhas do jogo:

– Felipe, que tal ganhar de presente o Jogo do Castelo Interior?

– Que jogo é esse, pai? Nunca ouvi falar.

– Ei, ei – interrompeu a mãe – isso deve ser muito caro, vamos analisar a possibilidade com mais atenção.

– Não se preocupe – o pai atalhou – eu já sei como resolver isso.

E dirigindo-se novamente ao Felipe:

– Pois é, filho, é um lançamento sensacional. A gente pode vivenciar tudo que quiser.

– Tudo? Eu posso imaginar que sou um rei poderoso e conquistar o mundo?

– Bom, ainda não entendi direito como tudo funciona, mas comenta-se que podemos transformar as nossas disposições interiores em uma realidade.

  Não entendi nada, como funciona isso?

– Pelo que me contaram, joga-se em um quarto fechado e, ao se ligar o aparelho, o quarto é transformado em um mundo novo, totalmente saído da sua mente e dos seus desejos. Nessa nova realidade, formada por imagens criadas por holografia, você vai subindo de nível, penetrando cada vez mais fundo dentro de você mesmo.

– É pai, parece legal – Felipe assentiu, mas não estava muito convencido de que percorrer a sua própria alma, sem interagir com seus amigos, fosse assim tão legal.

– Mas tem um porém, filho, o jogo realmente custa muito caro, e só poderemos comprá-lo se economizarmos cortando a sua festinha de aniversário.

– Ahn? – Felipe quase pulou da cadeira.

– Pois é, filho, é sempre preciso fazermos sacrifícios quando desejamos muito alguma coisa.

– Mas, pai, eu nem sei se quero tanto assim esse jogo. E perder a festa com meus amigos?!

Ora, Felipe, você poderá convidar os seus amigos para jogar.

– Mas, pelo que você falou, cada um tem que jogar sozinho, no seu próprio mundo.

– O divertido é que todos podem criar as fantasias que trazem bem dentro de si, e depois vão poder contar as suas experiências.

– E isso de viver fantasias interiores ou, sei lá, realidades interiores, não pode ser um tanto perigoso? – perguntou a mãe.

– Que perigo pode haver? Sendo uma realidade virtual não deixa traços em nosso mundo real.

– Sei não, liberar sem freio o que está em nossa mente pode levar a consequências não muito agradáveis, eu acho.

– Ora, que besteira, são apenas brincadeiras inconsequentes, nenhum mal pode fazer.

– Espero mesmo que assim seja.

– E então, Felipe, temos um trato? Negócio fechado?

– Mas... sem festa de aniversário, pai?

– Isso mesmo, Felipe. Então estamos definidos, sem festa de aniversário.


As Instruções Para o Jogo

Os dias passaram a se alongarem, arrastando-se preguiçosamente. Não foi possível aguentar a espera. No sábado anterior ao dia do aniversário, que seria na quinta-feira, o pai do Felipe acordou-o com a ansiedade esparramada sobre a caixa do jogo, interrompendo o seu permitido sono mais longo dos fins de semana.

– Oi, filhão, olha o que tenho para você.

– Ah, pai, – o Felipe apenas entreabriu os olhos, viu uma sombra projetando-se sobre ele, virou para o outro lado – deixe-me dormir.

– Acorde, filho, já preparei o seu café, precisamos montar o jogo.

– Ufa, pai, hoje é sábado, você bem que podia me deixar dormir mais um pouco.

– Vai. Passa uma água na cara para liquidar a leseira e vai tomar seu café.

E lá foi o menino arrastando-se. Não é que ele demorou mais, pois normalmente ele não era muito rápido para fazer as suas refeições, mas o pai até achou que ele estava agindo de propósito.

 – Vai, Felipe, acabe logo com isso e vai escovar os seus dentes.

Quando ele, finalmente, chegou ao quarto onde os brinquedos ficavam em completa desorganização, já estava mais ativo. O pai entregou-lhe a enorme caixa embrulhada em papel de presente antevendo a satisfação que o filho teria em desvestir o desejado jogo. Aberta a caixa, as instruções de montagem nela contidas foram lidas rapidamente. Era simples montar o aparelho, bastaria juntar algumas peças que vinham separadas na caixa para diminuir o seu volume. Quando o Felipe pegou a primeira peça:

– Deixe que eu faço, Felipe.

– Mas eu quero fazer, pai, o presente é meu, não é?

– É, filho, mas você quer correr o risco de estragá-lo? É preciso experiência para fazer isso direito.

– Que droga! Não tem nenhum segredo nisso!

– Mas é preciso fazer com cuidado, deixe que eu faço.

E o Felipe, embora contrariado, enquanto o pai fazia a montagem do projetor de imagens, ativou no aparelho o sensor que captava automaticamente a energia solar e apertou o botão de instruções para a utilização do jogo. Uma tela virtual foi projetada a sua frente e ele pôs-se a ler:

O jogo é muito fácil de usar, pois nada é necessário além de apertar o botão que liga o aparelho, e, quando um jogador quiser iniciar a sua jornada, deve acionar a tecla de entrada, dando início à conexão que será feita entre o scanner do aparelho e a frequência de pensamento do jogador; ao apertar a tecla, deve-se mantê-la pressionada por três segundos para que a sintonia seja estabelecida. Feito isto, o aparelho começa a projetar para o jogador o conteúdo mais adequado ao seu perfil do momento. Ele estará dentro do seu Castelo Interior, que possui muitas salas distribuídas em sete níveis. A cada nível conquistado, ele estará penetrando mais profundamente no seu Eu; o que o jogador encontrará no sétimo nível dependerá somente dele.

É realmente muito fácil jogar, no entanto, temos algumas recomendações a fazer:

1. O que encontrarás em tua jornada depende do teu estado emocional e psicológico, portanto, recomendamos uma preparação antes de te aventurares sem um perfeito controle dos teus objetivos.

2. Tudo dependerá do conteúdo do teu Eu mais profundo, terás toda a liberdade de escolher os teus alvos; as diversas galerias conduzem a todos os tipos e meios para a tua travessia, nada te será escondido, porém o teu estado espiritual predetermina a tua escolha.

3. Para te permitir entrar num clima mais adequado, o aparelho emitirá para o teu cérebro uma trilha sonora em resposta ao teu desenvolvimento, estimulando-te ou acalmando-te conforme tuas próprias escolhas.

4. Poderás, como exemplo, enfrentar uma batalha sem trégua contra inimigos terríveis ou um passeio harmonioso conhecendo os espíritos da natureza em uma floresta.

5. Cada jogador tem a sua própria realidade virtual independente, em circunstâncias normais não há interpenetração dos mundos gerados para cada um, mas poderá haver janelas em que se possa estabelecer ligações com o mundo do outro em casos excepcionais de afinidades.

 6. Não é demais recomendar uma preparação de relaxamento: um tanto de meditação ou oração, conforme tuas convicções, nunca será desprezível.

7. Se estiveres a enfrentar perigos, lembra-te que és como um fio de algodão, deves ter por meta te entreteceres em uma trama que te dê a força necessária para superar os desafios, não desprezes a ajuda que possa decorrer da tua generosidade.

8. Por fim, queremos lembrar que penetrarás em um templo que não tem nenhum aviso como aquele de Apolo, em Delfos, por isto o repetimos aqui: CONHECE-TE A TI MESMO E CONHECERÁS OS DEUSES E O UNIVERSO.


Primeiras aventuras

– Está tudo pronto, Felipe, já podemos jogar.

– Pai, aqui tem instruções para o jogo, acho bom você dar uma lida nelas.

– Besteira, Felipe, já sei de tudo que preciso saber, vamos em frente – e apertou o botão de entrada no jogo.

1) O Felipe ainda ficou algum tempo observando o pai que parecia ter imergido em um sono profundo. Lembrando-se das instruções, preparou-se adequadamente para penetrar em um mundo de aventuras que já conhecia nas suas fantasias. Apertou o botão de entrada e, de repente, ele estava em um pátio circundado por altas paredes, onde não havia nenhum sinal de outros seres além de um cavalo arreado, que provavelmente ele teria utilizado para ali chegar. Procurou familiarizar-se com o local, percebeu que estava dentro de um castelo medieval cuja gravura alimentara os seus sonhos de herói. Vasculhou tudo, estava realmente sozinho. Pelo lado oeste do castelo, o sol, escondendo-se atrás de uma montanha, deixava seus últimos raios invadirem o portão do castelo. A ponte levadiça estava baixada, convidando-o a abandonar aqueles muros sombrios e vazios, mas sobre o portão, cinzelada nas pedras do muro, uma inscrição intimidava: Abandona toda a esperança aquele que por aqui sair.

Parou a refletir: onde já vira aquela frase? Lembrou-se da sua professora a falar do Inferno de Dante, onde na entrada uma frase similar alertava os que ali entrassem. Estremeceu dentro da cota de malha que vestia, mas se estava à procura de aventura, nada havia a reclamar. Montou o cavalo e cruzou a ponte. Pegou o caminho que dobrava à direita, dirigindo-se ao norte. A noite instalando-se, a lua enorme iluminava a estrada que o levou a um bosque; no meio das árvores, fiapos do luar contribuíam para criar sombras perturbadoras. No bosque, uma luz vacilante surgiu mais forte a sua frente, um uivo longo agitou as sombras. Avançou para aquela estranha claridade, encontrando uma clareira onde uma fogueira queimava.

2) Um cão enorme, negro como a noite, estava ao lado de uma velha vestida de trapos cozinhando algo em um caldeirão disposto sobre as chamas. Ele permaneceu montado enquanto avaliava o lúgubre cenário; foi a velha quem quebrou o longo silêncio:

– Com que fim tão nobre cavalheiro vem pela estrada da perdição sem as armas necessárias para vencer os perigos da jornada sem fim?

– Venho em busca da aventura do conhecimento.

  Na sua mais pura inocência deixaste o teu corpo físico para aventurar-se pelo reino das sombras, onde a cada encruzilhada os olhos do mal te espreitam?

– Aquele castelo, embora cercado de muros protetores, não mais podia conter o fogo do meu espírito.

– Disseste bem, a tua frente correu este cão de olhos vermelhos de fogo, trazendo esse teu espírito rebelde; eu te fiz o favor de pará-lo para que te esperasse, a impaciência e a avidez não são boas companheiras. Tu deves mantê-lo ao teu lado, dominado apenas pelo teu desejo, siga o caminho da tua vontade até que consigas obter a maçã de ouro, que te permitirá voltar ao teu castelo.

– E aonde devo ir para encontrar esse fruto?

– Apenas sigas o caminho, mas lembra-te que sempre terás o teu castelo ameaçado pelo medo, um teu estremecimento partirá o fio que liberará a avalanche que o destruirá.

– Minha boa senhora, podes me dizer o que tens nesse caldeirão a cozinhar?

– São todos os teus predicados, bons e maus, favoráveis e desfavoráveis, que estou a misturar na temperatura adequada para fazer um poderoso elixir. Guarda contigo este frasco que com ele preparei, ele terá o poder de curar ou aniquilar, de acordo com a tua disposição e o momento, mas nunca poderás utilizá-lo em ti, pois o resultado seria a perda total da tua razão.

– Obrigado, bela senhora, as sombras haviam enegrecido os meus olhos. A quem devo tanta gentileza?

Ela sorriu, e logo ele estava sozinho, restando ao seu lado apenas o cão negro de olhos de fogo.

E Felipe seguiu o caminho penetrando novamente no bosque. Por um breve momento viu entre as árvores uma imagem de seu pai brandindo uma acha de dois gumes e uma espada, assaltando um castelo, excitado e febril.

3) A estrada levou-o à entrada de um túnel, onde a luz pouco penetrava. Seguiu por aquela caverna escura ouvindo barulhos que pareciam vir de alguém a cavar. Quando se aproximou da fonte das batidas, uma sombra dentro de uma cova estava a aprofundá-la. Ele parou a observar o trabalho, que continuava sem que o escavador interrompesse sua atividade, desceu do cavalo e, curioso, indagou:

 – Ó, boa alma, que fazes a cavar em sítio tão sombrio?

– Cavo a minha própria sepultura.

– Como? Estás, por acaso, condenado por alguma doença?

– Simplesmente necessitando de repouso.

– Posso ser-lhe útil de alguma forma?

– Vejo que és um bondoso cavalheiro; sim, poderias ajudar-me a provar se minha cova está confortavelmente espaçosa, mas, antes, ajuda-me a plantar essa cruz, que tens a teus pés, em seu lugar.

Felipe se prestou a fincar a cruz na cabeceira da cova, afundando-a na terra seca com o punho de sua espada. Quando aprumada, não pôde distinguir no escuro o seu nome lavrado na trave.

– Pronto, aí está.

– Muito te agradeço por tão grande ajuda, pois o cansaço já me entorpece, poderias agora deitar-se na cova para ver se o tamanho está adequado? – perguntou a sombra saindo de dentro da cova.

Como se estivesse apanhado pela vontade de um poderoso feitiço, Felipe entrou no buraco e deitou-se, sentindo apenas os primeiros rojões de terra que caíram sobre seu corpo.

Enquanto tudo isso se desenrolava, o cão de olhos de fogo estivera a observar, demonstrando nervosismo com seus grunhidos. Quando Felipe perdeu os sentidos, ele pulou sobre aquela sombra.

Felipe acordou com a língua do cão sobre a sua face. A sombra desaparecera. Ele sentiu-se revigorado, aliviado como se tivesse perdido um grande peso. Continuou ao longo do túnel que terminou abrindo-se para um grande vale onde corria um rio caudaloso.

4) Saiu da escuridão diretamente para um mundo de luz cegante, estava ao pé de uma massa enorme de rochas que subia vertiginosamente, comprimindo um rio que se agitava desesperado na luta das suas águas em busca de repouso. Parado na margem daquelas águas tumultuadas, contemplava o vale coberto de árvores que se abria a sua frente; no meio do verde erguia-se solitário sobre uma elevação um castelo com quatro torres. Distraído pela beleza que contemplava, não percebeu uma sombra que deslizava furtivamente escondido atrás de uma rocha. Não teve tempo para se defender quando aquele ser se arrojou contra ele, empurrando-o para dentro das águas revoltas.

 Como um boneco, foi arrastado pelo ímpeto da corrente que corria em direção leste. Do susto do empurrão passou ao da completa incapacidade de lutar contra aquela força descomunal, a qual sentiu-se incapaz de vencer. Viu correndo para si um sorvedouro formado entre duas grandes pedras, lembrou-se das palavras da velha do caldeirão, por um breve lapso pensou ter chegado ao fim da estrada; ouviu a velha a dizer-lhe para apenas seguir o caminho, acalmou-se no abandono. O turbilhão de água lançou-o para o fundo. Suas mãos o protegeram de um choque com as pedras; rolou sem vontade no leito como uma migalha da areia que sentia chicoteando seus braços. E foi lançado de volta para a claridade da superfície, onde pôde buscar um pouco de ar antes de novamente ser submergido por outro turbilhão. Visitou novamente o fundo do rio, rolou e foi jogado de volta à tona, só para perceber que sua viagem não terminara. Repetiu ainda uma vez aquela sensação de ser um boneco sem vontade comandado pelas águas, e viu, ao recuperar o ar livre, que se achava próximo ao remanso da margem oposta, aonde conseguiu chegar após vigorosas braçadas.

Quando se pôs de pé, arfando e quase sem acreditar que pudesse respirar livremente, viu chegar ao seu lado o cão de olhos de fogo. Alegrou-se que pudesse contar com o seu fiel companheiro enquanto observava que, do outro lado, o seu carrasco montava o seu cavalo e se afastava calmamente acompanhando a margem do rio.

5) Recuperando-se rapidamente, encontrou a sua trilha que o levou por dentro da mata densa, que se elevava seguindo o rio, virando em direção sul. Saindo da mata, deparou-se na borda de um imenso precipício de onde pôde contemplar o vale que cercava o castelo de quatro torres. Seguiu o único caminho que lhe era oferecido sobre aquela plataforma até encontrar uma cascata de águas borbulhantes, que formava uma lagoa convidativa ao repouso.

Quando acordou ao som de gargalhadas, viu alguém que brincava alegremente em um balanço que, suspenso sob o galho de uma enorme árvore, agitava-se sobre o abismo. Quando se aproximou da árvore, pôde distinguir a velha senhora do caldeirão.

 – Portaste-te muito bem até agora, metade da tua jornada está cumprida, conquistaste o direito e o dever da alcunha de Senhor da Chama. A tua grande batalha para consolidar tua conquista está prestes a acontecer.

 – Tenho o direito de saber por que Senhor da Chama?

– Vê com os teus olhos, debruça-te sobre as águas e contempla a tua imagem.

Ele seguiu o que a senhora lhe disse e viu seu reflexo na água. Ao seu lado, o cão de olhos de fogo estava refletido e ele pôde ver que de seus olhos incandescentes crescia uma labareda, que não parecia brotar da água. Virou-se para o cão já empunhando sua espada. A cabeça da besta expandiu-se em uma enorme chama que se precipitou sobre ele. Ainda deitado, sustentou o impacto do choque dirigindo a espada para onde deveriam estar os olhos da besta de fogo, girando o corpo para o lado. A espada ardeu no calor da chama, chamuscando o seu braço. Puxou-a e soltou-a enquanto a besta se consumia no fogo.

Quando se levantou sentia a mão ardente, e ouviu a senhora:

– Agora estás fortalecido pelo fogo, mas tua jornada continuará em total solidão. Teu caminho segue pela estrada que o Sol traça no trajeto do dia. Ao pé desta árvore encontrarás um aparelho que te permitirá vencer o abismo.

E a velha senhora jogou-se no ar desaparecendo no abismo.

6) O Senhor da Chama olhou perdidamente para o imenso vazio que não lhe oferecia possibilidade de atravessar. Respirou fundo perguntando-se o que teria sua mestra lhe ofertado para realizar o seu destino. Caminhou devagar para a árvore recuperando forças.
Encostada no tronco da árvore encontrou uma estrutura em forma triangular que lhe trouxe à memória as pipas como as que brincava ao vento, mas esta era bem maior. Sob uma cobertura de seda havia correias que serviriam para amarrá-lo à estrutura que sustinha a vela e apoio para as mãos e pés.

Vestido com a armadura de pássaro voltou à beira do abismo e um tremor percorreu seu corpo. Sentiu a fragilidade dos seus ossos que poderiam se destruírem no fundo daquele imenso vazio. Recompôs-se. Seu caminho estava traçado. Lançou-se ao ar.

Caindo em mergulho, uma corrente de ar tomou-o como uma pluma. Deslizou no rastro do sol em direção ao castelo de quatro torres. Ao longe, pôde observar seu pai, extenuado, que lutava freneticamente à porta de um castelo edificado sobre uma enorme rocha, mas, sem poder afastar-se da sua trilha de luz, seguiu seu destino. Aproximando-se do seu castelo descreveu sobre ele três círculos, descendo gradualmente. Chegou ao solo em frente à porta por onde saíra no começo de sua jornada.

7) Sua protetora recebeu-o ante o portão do castelo. Ele ajoelhou-se agradecendo por toda a sua assistência. Ela entregou-lhe como recompensa a desejada maçã de ouro, abençoou-o e disse:

– Ainda tens uma missão a cumprir. Toma a tua asa, volta a entrar no teu castelo e suba na muralha por aquele acesso bem em frente ao portão, e vá cuidar de teu desventurado pai, que foi ferido por uma lança. Cumpriste a tua jornada de renascimento e nada mais precisas de meu auxílio. Bom regresso, adeus.

Ele subiu a escadaria e na borda da muralha olhou por onde ela indicara e avistou o pai caído à porta do castelo que tentara conquistar. Lançou-se novamente no ar e voou em sua direção. Descendo onde o pai se encontrava, despojou-o de sua armadura, do machado de guerra, da pesada espada, e de todos os apetrechos que o pai acumulara em sua desvairada aventura. Usou o líquido que a velha senhora lhe dera, no início de sua jornada, para curar as feridas do pai.

Quando o pai voltou a si, surpreendeu-se por encontrar o filho ao seu lado a esperar o seu despertar. Nada disse. O filho tomou-o pela mão e encaminharam-se para a porta daquele castelo que o pai tentara conquistar. Sobre o portão, o pai pôde ler esta inscrição:

 “E UMA CRIANÇA PEQUENA OS GUIARÁ” (Isaías 11.6).

A porta abriu-se e os dois entraram. Estavam de volta ao quarto do jogo.

-o-