Mostrando postagens com marcador Crônicas de uma saudade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônicas de uma saudade. Mostrar todas as postagens

sábado, 7 de julho de 2018

Contingências



Contingências




Recuerda, pues, o sueña tú, alma mía
— la fantasía es tu sustancia eterna —
lo que no fue;
con tus figuraciones hazte fuerte,
que eso es vivir, y lo demás es muerte
(Miguel de Unamuno)

O ano era o fatídico 1968: os nossos quinze anos regozijavam-se da próxima conclusão do ginasial, no Colégio N. Sra. das Graças, enquanto a agitação estudantil incendiava o país e o mundo. Sem ainda nos preocuparmos com a situação política do país, cuidávamos principalmente do futuro dos nossos estudos no ciclo médio, que teríamos logo à frente, pois a perspectiva de fazê-los em Miracema não era muito promissora.

Setembro. O Deputado Márcio Moreira Alves fez um discurso na Câmara após a ocupação da Universidade de Brasília pelos militares: “...que as mulheres de 1968 repetissem as paulistas da Guerra dos Emboabas e recusassem a entrada à porta de sua casa àqueles que vilipendiam-nas”. A contundente frase aludia ao episódio das mulheres paulistas na citada guerra, similar ao que era retratado na peça que estava sendo encenada em São Paulo, a Lisístrata, uma comédia grega antiga, de Aristófanes, onde a personagem que dá nome à comédia chefiou uma greve de sexo das mulheres gregas, que seria apenas encerrada se as inúteis guerras entre Atenas e Esparta tivessem um fim. O deputado exortava nossas mulheres a repudiarem os consortes militares enquanto estes não voltassem aos quarteis. Em nossa inocência dos males em que o país estava mergulhado, fizemos inscrição para ingressar na EPCAR, Escola Preparatória dos Cadetes do Ar, em Barbacena, em busca de uma escola integralmente gratuita, de excelente qualidade, com o sonho futuro de ir para o ITA.

A matéria dos exames de admissão era vasta; uma parte importante de matemática não tinha sido aplicada pelo Professor Felicíssimo, e teríamos que estudá-la por conta própria. O professor graciosamente se ofereceu para ajudar-nos, e nos reuníamos em uma salinha da prefeitura: Felicíssimo, José Márcio, Marcelo e eu passamos algumas horas ali, estudando, pois o professor nunca havia lecionado as inequações de segundo grau, e aprendemos juntos.

Dezembro. Se a greve na peça grega teve sucesso absoluto derrotando Príapo e seus acólitos intumescidos, o discurso do deputado e a recusa da Câmara a que ele pudesse ser processado provocaram a promulgação do AI 5, mergulhando ainda mais o país nas trevas da democratura, conforme ele chamava o regime,  ao fechar o Congresso e institucionalizar as prisões arbitrárias e a tortura. Parecia mesmo uma encenação das palavras de Lisístrata: “Os homens em fúria atearam fogo no templo, os militares atearam fogo no país”. E, em meio ao caos político e institucional que víamos de tão longe, seguimos para Barbacena para fazer os exames. O trajeto me era bastante familiar, pois por três anos viajara, muito além de Barbacena, até Campo Belo. E a cidade guardava muitos de nossos parentes, dos dois Moreiras, pois fora origem de nossa família que migrou para Miracema seguindo a trilha de Dona Ermelinda, a fundadora da nossa cidade, e levávamos recomendações para visitar primos e tios.

Na EPCAR entramos em um ambiente, até então obscuro para nós, de um quartel, onde o espírito de tribo tinha o papel principal. Embora ainda apenas candidatos a lá ingressar, fomos submetidos aos trotes costumeiros, em que os alunos não mais calouros estão ávidos para a desforra do que sofreram. É verdade que os experimentamos em nível bem mais brando do que nos foi prometido que sofreríamos ao realmente lá ingressar. Fomos advertidos por um dos alunos que a revolta em participar dos trotes não era boa política, como era o seu exemplo, que passou a ser alijado do bom convívio da tribo. Os alunos, chamados pré-cadetes, eram considerados como suboficiais, e os soldados, que cuidavam da segurança e de outros serviços, passavam maus momentos sob a tutela de alguns mais truculentos e abusivos.

Passeando pela cidade pudemos verificar o prestígio que os pré-cadetes tinham entre as meninas, pois, ao passarmos em frente a uma escola de inglês, ouvíamos gritos vindos das janelas que já nos eram dirigidos chamando-nos de “Pré”. As histórias de abandonos de namoradas pelos alunos, algumas grávidas, que terminavam o curso e iam embora da cidade, parece que não contribuía para diminuir o glamour que eles tinham, como mais tarde pude constatar, quando lá abri uma empresa, ao ouvir de uma minha funcionária o seu caso de decepção.

Fizemos os exames e voltamos para casa para aguardar o resultado. Algum tempo depois, o Aldemar, outro colega de nossa turma, entregador de telegramas nos Correios, levou-me uma convocação, e ao Marcelo, para que nos apresentássemos para fazer os exames de saúde. Voltamos a Barbacena e de lá nos colocaram em uma jardineira que nos levaria ao Campo dos Afonsos, no Rio. Desta vez, tínhamos como companheiro um filho de um major da escola; todas as vezes que nos chamavam, a ordem alfabética era utilizada, porém arrumaram para ele um a na frente do seu nome, pois ele era o primeiro em tudo. Primeiro também nas brincadeiras de mau gosto a que se entregava com muito gosto.

Depois de um dia na estrada, pois a jardineira quebrou na descida final da serra de Petrópolis, onde ficamos soltos na estrada à espera de outra condução, chegamos ao Campo dos Afonsos onde jantamos satisfeitos em um rancho reservado aos sargentos. No dia seguinte, um domingo, o quartel se esvaziara, o rancho dos sargentos estava fechado e fomos encaminhados para outro, dos soldados. Tive que fazer greve de fome. A comida já não era do mesmo nível e uma valeta corria bem no meio do refeitório exalando um cheiro de esgoto insuportável. Felizmente, no dia seguinte, seguimos para o centro do Rio, para o Ministério da Aeronáutica, para fazermos os exames em que todo o nosso corpo seria vasculhado.

O exame de vista eliminou o Marcelo logo no início da manhã, mas, se não tivesse autorização de um parente para deixar o grupo, ele teria que permanecer conosco até o fim e voltar para Barbacena. Armamos uma fuga para que ele fosse encontrar-se com sua mãe, que estava em Niterói. Do Ministério à estação das barcas era perto, mas ele não sabia ir; eu já conhecia um pouco do centro do Rio por ali ter andado com um primo em busca de fotografias de aviões nas companhias aéreas, objetos de coleção. Durante o intervalo para almoço, eu fui com ele até a Praça XV; no final da tarde ele estava de volta com a autorização para que ambos abandonássemos o grupo ali mesmo no Rio; o mesmo sobrenome, Moreira, permitiu que nossa estratégia funcionasse, liberando-me também. Voltamos ao Campo, pois ele tinha que buscar sua bagagem, e no dia seguinte ele voltou com o grupo para o centro e foi para Niterói. Eu continuei com os exames, perdendo pontos com um problema nasal, com a estatura e, essencialmente, na entrevista com o psicólogo: ele me perguntou por que eu queria ser aviador militar e não civil, e como eu nunca tivera interesse em ser aviador de nenhuma espécie, respondi qualquer idiotice sobre patriotismo e baboseiras tais; ao sair, não percebi que a maçaneta da porta era apenas um engodo, simplesmente apoiada em um buraco aberto na porta, e puxei-a. Fiquei constrangido segurando-a na mão e tendo que enfiá-la novamente no buraco.

Recebi a notícia dos meus pontos que excediam o permitido sem dar muita importância, talvez fazendo o papel da raposa desdenhando as uvas fora de alcance, mas aquele ambiente de ordens, prepotência e desprezo pelos soldados já me deixara demais incomodado, e, ainda, tendo ficado sozinho sem o apoio dos colegas, já não estava muito propenso àquela escola, onde seguramente seria um elemento estranho.

Voltei ao Campo ainda naquela tarde e na manhã seguinte peguei um ônibus para a Praça XV, enquanto o resto do grupo seguiria para Barbacena. Fui para a casa de meu tio Inaldo, em Niterói; ele estava viajando com a família, mas sua sogra tratou-me com muita preocupação, pois achou-me muito necessitado, dizendo que eu deveria ter sido muito maltratado. E, assim, o sonho que acalentei de um dia ir para o ITA foi sepultado, pois as condições de minha família pediam que eu próprio custeasse os meus estudos. Fiz o primeiro científico no N. Sra. das Graças enquanto dava aulas particulares para os alunos que o Felicíssimo me encaminhava, bem como para os meus próprios colegas, de Física e Matemática.

O Marcelo tinha ido para o Rio cursar uma escola técnica, e eu vim para Belo Horizonte, onde passei a trabalhar como controlador da produção de trefilados na Belgo Mineira, estudando à noite no Colégio Estadual Central, que naquela época ainda era uma escola conceituada, onde alguns professores foram os mesmos que mais tarde encontrei na universidade. Durante o segundo semestre do terceiro ano do científico, pela primeira vez encarei os estudos com afinco, com o objetivo do vestibular. Como trabalhava o dia inteiro, para estudar aproveitava os trinta minutos de trajeto do ônibus que me levava para o trabalho, e, à noite, o próprio horário das aulas, a cuja frequência estava obrigado, mas os professores me conheciam e não se importavam com minha desatenção as suas aulas, com exceção da professora de Biologia, que constantemente mandava-me sair da sala, mas eu provocava um pouco, a antipatia era mútua.

1972. Entrei para o ICEX para fazer os dois anos básicos preparatórios para Engenharia. Com dois meses de aula minha decepção com a universidade já se manifestou, nada era diferente dos meus tempos de colégio. Achava que perdia tempo nas salas de aula a ouvir professores que eu podia, no mínimo, igualar em conhecimento sobre as matérias, pois as estudava antecipadamente sempre que podia. A frequência não era um quesito muito rígido, e tornei-me um estudante ausente das aulas, comparecendo apenas para fazer provas e aulas práticas; quando necessário usava xerox das anotações de alguns colegas que me auxiliavam, pois sabiam da minha necessidade de trabalhar. Tendo deixado a Belgo por causa da faculdade, fui monitor de Física no Colégio Pitágoras no primeiro semestre, onde descobri que dar aulas não me era recomendável, pois não tinha paciência com a dificuldade dos alunos, mas naquele ano ainda dei aulas particulares auxiliando a muitos alunos a enfrentarem os seus exames. Com o acesso aos computadores da escola para fazer testes de programas, em poucos dias estudei toda a linguagem Fortran, e resolvi ganhar dinheiro na área de computação. Consegui um curso na IBM de uma linguagem comercial e me embrenhei na área. Ainda com relação a minha frustração, conversei com alunos de Física, e mesmo um professor, falando da minha vontade de trocar a Engenharia pela Física. Fui demovido. Todos alegavam que, no fim, o que me restaria seria apenas ser um professor, pois a universidade não oferecia nada além.

No início do ano seguinte, encontrei-me com o Marcelo, que tinha passado brilhantemente nos vestibulares do ITA, da Nacional e da UFF, podendo escolher à vontade onde estudar. Eu lhe relatei a minha experiência frustrante com a universidade e, aliado às ressalvas que fazia aos militares, que nos faziam calar, ficarmos cegos e surdos a tudo que não estivesse de acordo com suas verdades, disse-lhe: em minha opinião, acho que não deveria ir para o ITA; mas o seu sonho falou mais alto.

Passados dois anos, tive na Escola de Engenharia um colega que deixara o ITA. Perguntei-lhe se conhecera o Marcelo; ele o conhecera. Perguntei-lhe como ele suportava aquele ambiente e sua resposta foi que o interesse dele estava voltado para as artes, para o teatro, e que levava a escola na “flauta”.

1975. Naquela época, envolvido com o trabalho e os estudos, já casado, pouco tempo eu tinha para leitura de jornais, e utilizava a revista Veja como uma maneira de manter-me menos desatualizado. Um dia, encontro uma página onde uma foto estampava meu primo e amigo, e um relato de prisão e expulsão do ITA de um grupo de alunos que liderara uma luta contra a militarização da escola.

O processo a que foram submetidos pelo regime enquadrava-os como um “agrupamento perigoso à segurança nacional”, e por três anos se arrastaria. A expulsão do ITA os marcara e não conseguiam outra escola que aceitasse suas transferências, até que a Universidade de Campinas os acolheu. Ainda houve uma tentativa de levá-los ao DOPS quando já alunos da Unicamp, mas a interferência da universidade frustrou os agentes que foram buscá-los. Em um relato da Unicamp:

“Condenados pelo Supremo Tribunal Militar em 23 de setembro de 1976 e com ordem de captura no Dops, os cinco ex-alunos do ITA permaneceram foragidos até março do ano seguinte, quando resolveram se entregar à Auditoria Militar de São Paulo. Libertados em setembro do mesmo ano, retomaram seus cursos no ponto em que os tinham abandonado. Em fevereiro de 1979, numa reviravolta, o STM os absolveu. Em março de 2004, quase trinta anos depois do famigerado expurgo de alunos, o ITA fez justiça a 21 deles que estavam prestes a se formar na época, entre os quais Sérgio Salazar e Osvair Trevisan. Dos cinco ex-alunos do ITA abrigados pela Unicamp em 1976, Trevisan, Gallo e Ganzarolli são hoje professores da universidade.” (http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/maio2006/ju325pag6-7.html)

Ainda estive com o Marcelo uma vez após a sua expulsão do ITA. Conversamos sobre o episódio e ele me disse que tortura ele não sofreu, mas que ficou preso com pessoas que participaram da luta armada, tendo com eles aprendido técnicas que nunca utilizou.

Como dizia o Riobaldo, viver é perigoso, e eu acrescento que, às vezes, sonhar também pode sê-lo. Mas tudo terminou bem, hoje o Professor Marcelo Moreira Ganzarolli tem renome em sua área, com diversos trabalhos publicados. E é com muito pesar que perdi contato com ele, devido à distância que nos separa. Em 08/12/2005 recebeu do ITA o título de Engenheiro Honoris Causa.     

Infelizmente, muitas mulheres desconheceram sua potencialidade para mudar os rumos do país não aderindo à greve Lisístrata, e tivemos que nos calar e sofrer barbaridades por tantos longos anos. E se o arauto espartano na peça pôde dizer:

“Cada soldado apareceu com uma arma nova, que só não assusta o inimigo porque o inimigo surgiu com arma igual.”

Aqui, os inimigos dos bárbaros não tinham as mesmas armas, munidos muitas vezes apenas das suas palavras, que tanto medo causaram e causam. Esperemos que as vozes emudecidas para os ouvidos que insistem em esquecer sejam repetidas e repetidas e repetidas, emudecendo aquelas que só sabem ouvir o que lhes agrada, esforçando-se sempre para calar as demais, sejam elas de caráter político, filosófico, religioso ou de comportamento, com todas as armas que podem utilizar, inclusive a morte. Se as parábolas de Cristo fossem proferidas nestes novos tempos de intolerância, ele não escaparia da cruz.

“Ninguém consegue tirar das coisas, incluindo os livros, mais do que aquilo que ele já conhece. Pois aquilo a que alguém não pode chegar por meio da experiência, para isso ele não terá ouvidos.” (Nietzsche)

-o-


sábado, 30 de junho de 2018

Três esquinas



Três esquinas




A cabeça da Rua da Capivara deita sobre um travesseiro na ladeira que faz a Rua Dr. Monteiro, deixando seu corpo rígido traçar um T e criando duas esquinas que suportam casas nada orgulhosas. Pelo ombro direito sobe-se para o Campo de Aviação, e, nos tempos aqui relatados, bem antes do topo, uma outra esquálida rua pelo lado esquerdo dava acesso à mina onde água boa fresca podia ser colhida, onde também terminava o calçamento. O resto da subida, enrugada e maltratada, não permitia acesso aos carros; pelo lado direito, muitas vias serviam de suporte para as sofridas moradias cobertas de sapé, que coloriam o morro com a melancolia que traz a pobreza. Por esta ladeira desciam muitas tristezas sufocadas pela vergonha, e também outras alardeadas incontroladamente.

Nossa casa postava-se como uma sentinela que vigiava a esquina, ali, bem antes de fazer a curva. Sobre a curva, um boteco se sustinha com os pinguços que desciam o morro e com picolés não muito apreciados, mas que os poucos trocados obtidos conseguiam tornar prazerosos nas tardes tórridas, além de guardar na casa ao lado, os nada indefectíveis adversários, meninos vizinhos guardados à chave, que perturbavam nossa vizinhança, audaciosos sob a proteção que tinham por detrás das janelas, onde se penduravam, de um rápido grito pela mãe, que chegava trazendo na boca todas as pedras que a mão não podia atirar.

A rua chegava ali como se viesse para uma prosinha regada à cachaça com os habituais fregueses do Seu Manoel, outro boteco que lhe barrava o caminho à frente, e ali parava à espera do Pinga-Fogo, freguês assíduo de todos os domingos. Semana toda a passar com a massa na mão, correndo paredes e outras miudezas no seu ofício de pedreiro, domingo tirava folga para devanear e passar a limpo o cansaço e a falta de esperança. Enfatuado com sua roupa domingueira de ver Deus, fato branco impecável colorindo a pele negra, digno chapéu na cabeça, descia o morro ainda em passos firmes. Mas se o destino final algum dia foi a Matriz, agora era esse boteco, onde dançavam os copos ardentes do esquecer. E milagre mesmo acontecia, transformando o alvanel em insigne orador; e este subia no púlpito que a ladeira lhe oferecia e despejava discurso para desatentos ouvintes, que já não prestavam cuidados, amortecidos da surpresa por ser contumaz o quadro. Ao meio-dia o boteco era fechado e os fregueses dispersos; sumia o Pinga-Fogo, talvez para o recanto de sua pobre morada, para emudecer os disparates, pois na segunda cedo seria a cachaça do trabalho.

Aquela ladeira alimentou uma grande fome, ou lhe deu início, pois, bem ali no seu joelho esquerdo, a casa da Leila abrigava preciosidades, que bem antes de ir para a escola me despertaram a vontade de ler e conhecer tudo o que pudesse pôr os olhos: as histórias em quadrinhos. Estas ainda não eram os gibis que mais à frente seriam minhas grandes alegrias e meus maiores tormentos, eram preferencialmente contos de fadas, ou de bichinhos, como dizíamos, e em profusão, que delicadamente ela emprestava para que me pudesse extravasar no aprendizado das letras.

Em frente à casa da Leila, uma outra família estava bem presente em nossa vida, de um outro pedreiro, o Tião, com uma penca de filhos, que por terrível brincadeira de Deus chegavam aos pares, deixando a mãe mais parecida com um daqueles animaizinhos carregando a prole pendurada nas costas. O Tião, que costumava chamar-me carinhosamente de primo rico, embora estivéssemos só  uns poucos centímetros na proximidade de sua indigência, sem envergar um terno branco, também se entregava ao excesso da cachaça, mas este era silencioso ao liquefazer-se e, na consciência de sua triste sorte, que procurava afogar, um dia me disse: “a maior invenção do homem é a cachaça, porque permite que a gente esqueça tudo”.

Abaixo da casa do Tião, fazendo a outra esquina das duas ruas, um sobrado antigo erguia-se tentando rivalizar sua altura com as casas que estavam em nível mais elevado. Ao rés do chão, nele morava um artesão do couro, que fazia trabalhos de selaria, e uma porta abria sua oficina para a Rua da Capivara. Na parte superior do sobrado funcionava o Centro Espírita Bezerra de Menezes, acho que era este o nome, mas com certeza era um centro onde reuniões noturnas acendiam nossa curiosidade sobre o que nelas acontecia. Vivendo em família de profunda tradição católica, éramos proibidos de especular sobre tais assuntos, pela mãe e pelas tias, e pela incredulidade de meu pai sobre assuntos de conversas com espíritos, que cortava nossas perguntas taxando-os de pura besteira. Mas, ali tão próximos, estávamos sempre à mercê de ouvir dos meninos mais velhos, supostamente mais expertos, relatos estranhos de mãos que saíam detrás de cortinas ou de sons de vozes e outros barulhos saídos do nada, assuntos um tanto arrepiantes, principalmente nas noites escuras sem a energia elétrica, que nos tempos-criança era como um vaga-lume.

Em um domingo como outro qualquer encharcado de discursos bêbados, já enxugados após o almoço mais trabalhado que os dias comuns, que trouxe o sempre esperado arroz de forno, macarronada e frango, estando a esperar o nada que um dia ensolarado nos afugentava da rua, e talvez a seguir na televisão uma corrida dos Fittipaldis na Fórmula Um, a modorra que imperava foi sacudida por um assombroso barulho vindo da rua, jamais ouvido tão ensurdecedor, que não se fazia explicar o que seria.

Já o susto me fizera pular do assento e ir ver o acontecido. Ao pisar na varanda, uma nuvem de poeira dela tomara conta, quase nada mais permitindo ver. Tapando a boca e protegendo os olhos, cheguei ao portão para apenas ver, sob a cortina espessa de poeira, a rua entulhada de escombros, pedaços de paredes, tijolos e telhas: a parte superior do sobrado tinha-se desfeito desabrigando todos os espíritos que ali tinham seu lar. Talvez pela consciência deles, a parte de baixo não foi afetada, provocando apenas um susto ao senhor artesão que ali morava, que a memória não me deixa lembrar o nome.

Os espíritos sem teto, alvos de nossas brincadeiras e piadas sobre aquele acontecimento inusitado, talvez tenham sofrido uma necessidade de transformação, aproveitando um vento leve soprado sobre o telhado do sobrado, que trouxe aquele último segundo de tolerância, para uma rebelião.

Talvez o sobrado se tenha esquecido do martelar incessante dos raios do sol e da lua, que só o presente pressente, esquecendo como se um nada fosse os muitos anos de sua decrepitude formada na terceira esquina daquelas duas ruas com a rua do senhor tempo, que possivelmente não substituiu aquela pedra do calçamento onde deixei um bom pedaço da pele de meu dedão do pé.

Ou terá sido inveja da perenidade do T, que tantos anos passados ainda lá está, modificado, com novos personagens que nada sabem ou lembram da minha vizinhança da infância, perdida na terceira esquina.

-o-




quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Crônicas de uma Saudade



                                              Crônicas de uma Saudade


O vento sopra onde quer, e lhe ouves a voz, mas não sabes de onde ele vem nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito.”                                                                              (João 3,8)


Dizem que a palavra saudade não tem tradução em outros idiomas, que a traduzem como nostalgia, mas que esta não reflete o caráter ambíguo de dor e prazer que saudade tem. E estas crônicas vão navegar através desta bipolaridade que é a herança que nossas vidas nos concedem.
Quando nasci, uma série de enganos parece ter ocorrido simultaneamente. Esta impressão ficou devido a certos eventos um tanto, como dizer, no mínimo curiosos.
O primeiro engano parece ter ocorrido a respeito do momento do nascimento, pois me foi dito, alguns anos depois, evidentemente, ter nascido cerca de onze horas da noite do dia 5 de julho, mas um tio insistiu para que me registrassem no dia 6, pois este era o dia de seu aniversário, e assim foi feito: fui registrado como nascido a uma hora do dia 6. E por causa dessa pequena alteração é claro que os céus ficaram muito confusos com qual horóscopo eu deveria ser conduzido, portanto, nasci com o ascendente no signo da confusão.
Além dessa confusão de dia e hora, não é que mudaram também o lugar do meu nascimento? Pois é, nasci em Itaperuna, estado do Rio de Janeiro, onde morava minha avó, para onde minha mãe foi para ter sua assistência naqueles dias, e fui registrado como nascido em Miracema, cidade vizinha, também naquele estado. Pois então já eram duas enganações que aprontavam com meu horóscopo; além da camuflagem do dia e hora, também o lugar estava deslocado. Acredito que o diabo deve ter-se aproveitado bastante da situação.
Acham que parou por aí, ainda não. Itaperuna e Miracema são cidades fronteiras de Minas Gerais e logo toda a minha vida seria desviada para este estado. Sou tão mineiro quanto qualquer um nascido em Minas, embora o diabo tenha tentado enganar-me. Mais estranho ainda, meu pai contou-me que, nascido em uma fazenda, ela pertencera a Minas Gerais; com adequação das fronteiras, mudou de lado. Vejam, minhas raízes mineiras são bem mais profundas. Faz-me lembrar um causo contado pelo Boldrin em que um fazendeiro turrão ficou insatisfeito porque, ao serem alteradas as divisas entre os estados, mudaram sua fazenda de Minas Gerais para São Paulo e, de imediato, pôs à venda sua fazenda. Quando lhe perguntaram por que estava ele vendendo seu torrão, onde nascera e criara sua família, respondeu que ele não se dava bem com o clima de São Paulo. É mais ou menos por aí, estou bem identificado com o jeito mineiro de ser, encravado no meio das montanhas e no meio de mim mesmo, este morro muito mais difícil de ser transposto.
Agora vejam, outro fato estranho foi que parece que se enganaram com o meu nome, pois deixa a impressão de um erro cometido por um escrivão incompetente, como tantos havia por esses interiores. Talvez eu devesse chamar Giovani, tradução italiana de duas grandes personagens dos evangelhos para o nome de João, mas não, meu pai nem me soube explicar de onde ele leu esse nome, mas foi intencional mesmo. Assim, fui pela vida afora com um nome que ficava parecendo um erro, algo assim como Soão. Não estou reclamando, ele me deu uma identidade que nem necessita de um sobrenome para identificar-me, o que pode ser um problema no caso de não me comportar muito bem.
 Acho que fiquei divagando e perdi o senso, deixem-me voltar para o objetivo deste texto. Mesmo com todos os enganos fui criado por uma família católica, bem dentro da igreja, posso mesmo dizer quase dentro do altar, participando de todas as festas com uma alegria imensa por cumprir meus deveres e tendo que inventar alguns ridículos pecados para não ter que toda semana confessar os mesmos e iguais. Logo que tive suficiente idade fui coroinha, e para a felicidade de todos parti, aos dez anos, deixando minha família.
E parti para o cemitério. Não, desculpem-me pelo lapso inconsciente, parti para o seminário, por isto toda a minha família ficou feliz, não foi porque estava livre de mim como podem ter imaginado. Fui para Campo Belo iniciando minha jornada como mineiro. Era 1964. Naquele tempo levava dois dias na viagem: de Miracema ia a Leopoldina e a manhã do primeiro dia ia embora; à tarde fazia o percurso para Juiz de Fora, onde dormia na casa paroquial da Igreja de Santa Rita de onde guardei boas lembranças de um padre camarada (Padre Haroldo); no dia seguinte embarcava para Belo Horizonte, onde chegava pela hora do almoço e, à tarde, finalmente tomava o ônibus que me levaria a Campo Belo. Este percurso tornou-se importante em minhas memórias pelo que, muitos e muitos anos depois, um dia me revelou uma estranha coincidência que espero contar em outra crônica. 
Como menino que era tive momentos bons e ruins pelos três anos que lá passei, mas como a adolescência foi se instalando, junto com ela fui perdendo a essência de criança que podia acreditar em tudo que afirmavam. E crescia comigo a ciência e a capacidade de criticar, e as dúvidas foram tomando-me. Foram muitos os padres com quem por lá convivi, dos perfis mais variados, desde aqueles onde podíamos enxergar uma piedosa devoção até àqueles onde víamos pura vaidade e arrogância, e outros mais como em qualquer porção de nossa sociedade. Antes que me façam a pergunta sobre abusos, coisa comum de ouvir quando digo que estive no seminário, respondo que nunca sofri e nunca soube que quaisquer dos meus colegas os sofressem.
Meu primeiro grito de independência foi dado no final daqueles três anos. Eu sabia que iria causar um rebuliço na família, mais que rebuliço, uma enorme decepção, mas mesmo assim, ao voltar para casa de férias, comuniquei a todos que não retornaria e que nada poderia ser feito para que eu o fizesse. Tive compaixão das minhas tias.
O lapso que cometi acima a respeito do cemitério talvez tenha sido porque lá também ficou enterrada a minha crença na igreja, e, consequentemente, por confundir o continente com o conteúdo, em coisas do espírito. E sem eu perceber que era esta a falta, a aridez foi tomando conta do meu ser e eu fui adentrando um deserto onde passei a conhecer só a sede, ou a morte (“...e deixa os mortos sepultar seus mortos”, Mt 8,22).
E fui subindo a escada, ora empurrado, ora empurrando. A dor maior não era causada pelo tamanho dos degraus, mas em ver aumentar o abismo que ia crescendo, deixando-me tão distante daquele ser que podia perder-se no mundo dos seus gibis em aventuras de Tarzan, do Zorro, do Cavaleiro Negro e muitos outros heróis, mas também podia acreditar quando lhe falavam do Amor. Talvez aquele menino pudesse vislumbrar, sem entender os reais motivos, que este era o mote que existia em todas aquelas aventuras de heróis e jornadas fantásticas. E durante a subida, a desilusão de um Dom Quixote retornado à racionalidade suprimia qualquer possibilidade de contato com aquela esfera.
A saudade foi crescendo, camada por camada, e tornou-se tão doída, tão desesperada, que, quando não mais parecia ser suportável, houve um choque quando alguém sussurrou que era possível vê-lo renascer, que era possível ressuscitá-lo. E foi quando um velho amigo fez-se vivo.







-o-


            Sonho
                                    Olavo Bilac

Quantas vezes, em sonho, as asas da saudade
Solto para onde estás, e fico de ti perto!
Como, depois do sonho, é triste a realidade!
Como tudo, sem ti, fica depois deserto!

Sonho... Minha alma voa. O ar gorjeia e soluça.
Noite... A amplidão se estende, iluminada e calma:
De cada estrela de ouro um anjo se debruça,
E abre o olhar espantado, ao ver passar minha alma.

Há por tudo a alegria e o rumor de um noivado.
Em torno a cada ninho anda bailando uma asa.
E, como sobre um leito um alvo cortinado,
Alva, a luz do luar cai sobre a tua casa.

Porém, subitamente, um relâmpago corta
Todo o espaço... O rumor de um salmo se levanta
E, sorrindo, serena, apareces à porta,