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domingo, 5 de janeiro de 2020

Retrovisor


Retrovisor




Se é que fosse possível naquele mundo, ele estava sentindo o cansaço de uma vida interminável, sem começo, sem fim, sem que o tempo se mexesse. Abrir e fechar portas, viver as aventuras de cada estação a que as portas o conduziam enchia-o da resignação de uma lua que atravessa os dias sem mudar a face que apresenta ao mundo. Deixou-se cair ao chão, olhou para o Velho Guardião como se estivesse vindo das dezenas de bilhões de anos do universo.

O Velho deixou-o ficar à vontade, que importa quando o tempo inexiste, quando Cronos não pode devorar seus filhos.

Ao se levantar, carregava nos ombros o peso de todas aquelas portas que se abriram para ele. Arrastou-se pela rampa central que subia em lances de escada que cruzavam toda a extensão do salão. Subiu por muitos lances e deparou-se com uma porta aberta no vigésimo primeiro lance que o convidava novamente para um novo sonho. Olhou o Velho parado lá embaixo no salão que sorria de maneira irônica ao ver seus gestos de cansaço e tédio. Entrou:

Ele se levantou como de costume para ir ao trabalho. Nada especial a esperar de um dia como qualquer outro. Gestos robóticos da tarefa diária de aprontar-se para sair: lavar-se, barbear-se, comer, limpar os dentes, pegar o carro, chegar ao prédio do trabalho. Entrou no corredor que o levava a sua sala. Uma porta fechada barrava a entrada para o setor onde ele tinha sua mesa. Abriu-a, sua sala estava em frente à porta; a sua direita, uma outra era ocupada por duas outras funcionárias. Antes de entrar na sua sala, Clélia o chamou, sem mesmo dar a atenção de um bom dia. Era-lhe agradável atendê-la, a relação carinhosa que se estabelecera entre os dois tornava-os cúmplices em delicada amizade. Foi até ela no fundo da sala. Sentada atrás de sua mesa de trabalho, ela tinha em sua frente outra funcionária.

Clélia estendeu-lhe duas revistas, dizendo-lhe apenas:

– Toma.

– O que é isso?

– Eu quero que você leia. Leia as duas.

– Dois pesos, duas medidas – completou a outra que lá estava.

– E por quê?

– Eu quero que você leia.

Na voz havia mais que uma sugestão, era uma ordem. Ele olhou-a interrogativo, mas ela se voltara para os papéis que tinha a sua frente. Sem nada entender, pegou as duas revistas e foi para seu lugar. Intrigado, folheou as revistas. Uma delas era sobre turismo, com artigos sobre lugares que valiam a pena serem visitados; a outra era uma revista que continha matérias variadas como as revistas de salas de espera. Deixou-as de lado para iniciar seus trabalhos e guardou-as para levar para casa, onde poderia procurar o que pudesse chamar-lhe a atenção.

O Velho observava o desenrolar do cenário trazendo no rosto a gravidade que o momento exigia. Observava a ação da menina com um gesto de aprovação, verificando que ela desempenhava com eficiência a tarefa que era de sua incumbência, embora inconsciente do seu papel.

O carinho que Clélia dedicava-lhe era algo indefinido entre uma atração e o amor de uma filha, acrescido de uma admiração por sua distinta capacidade e comportamento. Ela brincava muito com ele, fazendo-o rir com piadas carinhosas, provocando-o para ouvir suas opiniões e conselhos, sentando-se ao seu lado para entreter longas conversas. Ele se entregava a tudo com alegria, gostando de passar aqueles momentos com ela. Mas aquele gesto de impor-lhe as revistas era inusitado, jamais acontecera antes algo semelhante, por isto a cisma.

A manhã continuou em seu ritual costumeiro, até que ele foi ao banheiro. De repente o comum se revestiu de uma camada de surpresas. Em frente à pia, um espelho grande cobria a parede. Enquanto lavava as mãos, olhou com espanto para sua imagem, não se vendo, mas vendo as feições de seu pai estampadas em sua face. O Velho levantou as sobrancelhas com um certo ar de diversão.

Talvez fosse normal achar a face do pai sobre a sua, devido a semelhanças genéticas, mas isto não acontecia. Os dois não tinham as feições assim tão reconhecíveis, tendo sido o pai muito magro, com faces encovadas curtidas pelo trabalho pesado; o filho apresentava feições mais cheias sem semelhanças óbvias. Surpreso, parou a admirar o pai olhando-o fixamente, e pouco a pouco sua própria imagem aflorou novamente no espelho. O Velho sorriu, o roteiro havia sido executado como previsto.

Voltando a sua sala, comentou com a sua colega de trabalho:

– Acabei de ver, agora mesmo, a imagem de meu pai no espelho.

Ela já estava acostumada com as estranhezas que ele normalmente lhe relatava e recebeu com naturalidade a observação. Ele seguiu para sua mesa, pegou uma caneta para escrever alguma coisa do serviço que estava realizando, e mais uma surpresa o apanhou ao escrever algumas palavras:

– Mas essa letra não é minha, – ele falou – é a letra do meu pai!

E tudo ficaria parado nesse cenário, nada havendo a acrescentar naqueles acontecimentos não usuais, não fossem aquelas revistas que recebera de manhã. Levando-as para casa, suspeito do que aquela ordem de Clélia pudesse ter algo mais a revelar, à noite pegou a revista de turismo para folhear, nada achando que não fosse comum sobre aqueles assuntos: belos lugares, belas reportagens, nada a chamar a atenção. Passou para a outra revista onde encontrou matéria interessante sobre o bruxo do Cosme Velho, passeou pelos outros artigos, cansou-se da leitura.

Somente no dia seguinte, depois de mais um dia de trabalho rotineiro, voltou a pegar a revista para completar o vasculhar dos artigos restantes. O último artigo da revista era um conto. Leu-o. Se pudesse vê-lo, veria que o Velho sorria.

A história falava de um menino que tinha um jogo de futebol na escola, para onde foi acompanhado do pai. Sendo ele o melhor jogador do seu time, o menino ansiava fazer uma partida que encantasse o pai, que pudesse enchê-lo de orgulho. O jogo se desenvolveu sem grandes lances a estimular o pai, permanecendo empatado, aumentando a tensão do menino e o esforço para uma jogada que resolvesse a partida. Surgiu então a oportunidade que ele tanto esperara, pois fora marcado um pênalti a seu favor. A expectativa foi grande, do pai e do menino, o nervosismo intenso: o menino chuta e perde o gol...

Ele levanta os olhos da revista e começa a pensar em seu próprio pai, no relacionamento entre eles que se havia deteriorado por causa de seu divórcio. E ressentia-se da falta de diálogo com o pai que não pôde admitir que um filho seu pudesse realizar, em seus critérios, tal ato falho de caráter. Os princípios rígidos do pai, baseados nos alicerces da Igreja Católica, não podiam aceitar a dissolução do casamento. No princípio o pai nem o aceitara em sua casa, mas aos poucos o mal estar foi abrandado pela interferência de pessoas que conheciam ambos, que não entendiam aquele radicalismo e que tinham apreço pelos dois; mas a alegria que antes tivera pelo filho, esta não pôde ser mais vista no semblante do pai, e quando a morte levou-o, ainda havia algumas arestas não consertadas. Como o menino do conto, ele ressentia-se de ter decepcionado o pai.

Voltou à leitura. No retorno para casa o menino afundara-se no banco do carro, abatido, desviando os olhos do pai, não querendo nele ver a frustração. E tudo acontecia em silêncio. Quando ousou levantar os olhos, viu o pai olhando-o pelo espelho retrovisor. Tinha um sorriso consolador nos lábios e lhe fazia um aceno para olhar para a frente, que nada daquilo importava mais.

Ele parou surpreso. O Velho novamente entreabriu os lábios em algo que bem parecia um sorriso.

Ele parou a imaginar a sucessão de estranhos efeitos que teriam que ser postos em prática para que aquela coincidência pudesse acontecer: a elaboração e impressão do conto; as revistas que lhe chegaram pelas mãos da Clélia daquela maneira imprevista e não provável; a imagem do seu pai na sua face no espelho refletindo a cena do menino olhando o retrovisor para ver o aceno reconfortante do pai.

Ele entendeu.

A sala se desfez e ele se encontrava novamente no salão das portas. O Guardião olhava-o enxugar as lágrimas que atravessaram os dois mundos.

-o-







sábado, 19 de maio de 2018

Post Mortes



Post Mortes




Prolegômenos

A primeira vez que eu morri foi a única que me causou espanto. É, assim foi, pois na vida, e na morte, a gente se acostuma com tudo; nas outras vezes eu simplesmente morri, sem nenhuma comoção, até que me encontrei aqui, em um outro lado destes imensos universos, onde não posso ser alcançado pelos seus olhos. Lego-lhes este depoimento como um presente para que possam compreender um pouquinho os grandes mistérios desta dádiva divina. Espero que este lhes encontre em momento que possam já ter atingido uma idade da razão em que não o tornem uma bíblia, pois o tempo em que lhes  vai chegar às mãos não posso determinar, mas sei que pelo menos a escrita já terá sido inventada, e que a minha maltratada língua já terá sido separada do Lácio, pois só então ele poderá ser apreciado devidamente.

Não vejam nestas esperanças nenhuma incoerência, pois como está por mim mais que entendido em tantas vezes morrido, o tempo é um vai-e-vem concreto, não tendo um único sentido, sendo um mero produto do convencimento de nossas percepções e costumes pela luz em nossas consciências.

O maior temor que guardo comigo é que o momento, em que à luz vier esta obra de tanto esclarecimento, torne-o um inutensílio. Por que tenho este temor? Porque, quando ocorreu a minha primeira morte, a palavra escrita já estava tornando-se algo ultrapassada, substituída pela imagem em movimento, e os livros estavam tornando-se objeto de culto para alguns poucos. Longe, bem longe, estavam perdidas as palavras de Galileu Galilei: Ó irresistível sedução do livro, essa mercadoria sagrada! Corre água na boca, e as maldições se afogam (em Vida de Galileu de Bertolt Brecht).

Como uma espécie de artimanha para conseguir angariar um pouco daqueles leitores preguiçosos, vou procurar deixar minhas impressões em pequenos capítulos, que os possam não fatigar, esperando assim que, do modo como dizem sobre os grãos para as galinhas e outras aves mais, de capítulo em capítulo possam encher a mente das valiosas informações que lhes deixo.

Infelizmente este não é um tratado científico, e deixo avisado que não serão dadas informações que interessem a qualquer ciência, pois não se pode trazer, nem do futuro nem do passado, qualquer interferência no desenvolvimento do seu mundo.

E por que não escolhi um meio menos penoso e mais atraente para lhes deixar estas verdades? Problema tecnológico: os recursos que aqui tenho não lhes seria possível utilizarem, e a efemeridade dos seus meios de registro abre uma janela no tempo de pouca duração. O registro escrito ainda é o meio mais seguro para poder deixar-lhes esta obra de esclarecimento.

Estou um pouco atrapalhado em escolher um princípio, pois, depois de tantas vidas e mortes, tenho muitos cenários a correr-me pela memória. Para não os deixar muito curiosos, devo primeiro relatar-lhes como foi a minha primeira morte.



1.

Era um dia comum de um princípio de outono que nada prometia de especial. Ao levantar-me, o céu empedrado não prometia um sol muito eficiente, o que tornaria o meu dia mais acolhedor. Dormira pouco e mal, às voltas com os preparativos para um exame que exigia meus intestinos completamente vazios, os quais não vou relatar-lhes, pois é muita matéria pouco digna de menção.

Tudo correra na mais perfeita sincronia no consultório do médico afável e eficiente; a espera, que temia enfastiar-me, foi quase nenhuma. Logo fui levado para um quartinho, onde uma bela morena solicitou-me que trocasse a roupa por um avental, que deveria vestir deixando a abertura para trás. Feita a troca, que decerto me deixara na mais ridícula aparência, ela levou-me para a sala do exame.

Perguntas, que já respondera por escrito no exame que o médico me fizera, foram repetidas pela morena bonita, e, também depois, pela anestesista, fazendo-me nas ideias aquela coceira que já relatei sobre a obsolescência da palavra escrita.

Fui espetado para ser pendurado em soro, e a enfermeira pediu-me que virasse de lado e mantivesse as pernas dobradas, deixando-me nova sensação de ridículo com o traseiro bem disponível. Após virar-me, deparei-me com um relógio digital bem em frente dos meus olhos, talvez para lembrar-me da eficiente máquina que é a medicina, marcando naquele instante 09h:15. O mostrador do relógio se transformou em seguida em um vídeo, que mostrava o pulsar do meu coração com uns tracinhos saltitantes registrando o meu ritmo de vida.

Em cada tique, que me hipnotizava os ouvidos e os olhos, percorria uma vasta parte da minha vida, prova da impossível cadeia do tempo. Alguns instantes fiquei ali a registrar e a ouvir os sinais repetitivos do meu coração, enquanto a anestesista repetia-me as perguntas já respondidas, passando em seguida a arengar molemente que estava a injetar-me um algo que me deixaria sonolento, e um traço contínuo no vídeo substituiu as ondas, e o som do pulsar transformou-se em um estrilo constante.

Acabara de perceber que aquele traço era o sinal da minha morte, o que me causou o espanto.


2.

Achei-me flutuando sobre a cama onde meu corpo restava incomodando a enfermeira e a anestesista, que levaram um susto bem maior que o meu. Nenhum sentimento de inquietude me foi deixado pela perda daquele monte de carnes, que se tornou o objeto de cuidados daquelas duas. Passou-me pela? cabeça? Não, impossível, pois esta estava lá bem abaixo de mim sem nenhum sinal de pensamento; passou-me pelo nada do onde era minha cabeça um sentimento de pena pelas duas, mas tratei de afastar-me dali temendo que elas tivessem sucesso nos procedimentos de ressurreição, embora eu não fosse Lázaro, e nenhuma delas, Jesus, mas vai que conhecessem o bálsamo de Ferrabrás que o Quixote buscava.

Atravessei o que me pareceram as paredes do quarto e me vi, de repente, na sala de espera do consultório, onde a única discordância no calmo ambiente foi o sobressalto da recepcionista, que se levantara para verificar um barulho não comum de vozes indistintas, mais altas, proveniente das salas de exame. Minha esposa estava sentada, absorta na tela do seu celular, alheia a tudo que me acontecera. Acheguei-me bem em frente aos seus olhos, beijei-lhe a face e não quis ver os efeitos que sobreviriam.

Passei a sentir-me como um ator que tivesse um roteiro bem estudado, embora não soubesse em que momento o teria lido.

Entrei no túnel. Não sei onde estava o túnel, mas na verdade, como sempre vi relatado pelos que experimentaram a quase morte, ali estava eu caminhando em direção ao final do túnel, onde uma luz me atraía. Eu sei, eu sei, eu não tinha olhos para perceber a luz, mas o certo é que ela me atraía. Lembrei-me do meu aprendizado da Física: pareceu-me estar vivendo uma aventura através de um buraco de minhoca, que me levava a uma distante parte do universo, mas muito mais me lembrei do super-homem, o maravilhoso homem de aço, atravessando um vórtice que o levava a outro tempo, por isto aquela aventura deixou-me uma sensação de ter atingido os ideais de Nietzsche; não sei se estava confundindo o carro de Apolo com a barca de Caronte, mas não tinha mais onde conter a minha vontade de poder. Estava livre do meu antigo Eu?


3.

Quando saí do túnel achei-me num imenso salão que tinha a forma de um funil, pois eram inúmeros os portões de entrada por onde chegavam outros que como eu tiveram a felicidade de atravessar um túnel. Pareceu-me uma sala de embarque de um aeroporto invertida, pois o funil terminava em apenas duas portas de saída. Antes de passar por uma daquelas portas, seguimos por uma fila, que andava no ritmo de nossos passos, até que penetramos por um equipamento, não sei de que outro modo poderia me referir àquilo, pois minha linguagem limitava-se ainda ao que aprendera na Terra, onde um ser - seria um anjo? -, operava um visor. Uma espécie de outdoor exortava-nos - estava em português, ali deveria ser uma seção para a nossa gente ou haveria um eficiente tradutor automático que produzia aquela frase com uma espécie de laser, pois ela não se apoiava em nada - enfim, exortava-nos: “Faça sua contrição, você merece o Paraíso?”

Não me pareceu uma pergunta difícil de ser respondida, pois todos que pude observar seguiam em direção à porta de suas esperanças. Fui surpreendido por um alarido incomum naquele ambiente de paz quando, à minha frente, um outro pretendente foi empurrado, literalmente, por forças ocultas para a segunda porta. Gente! fiquei mais atônito quando reconheci quem causou aquela balbúrdia.

O que acontecia dentro daquele equipamento era que o anjo, decidi chamá-lo assim por força de minha formação judaico-cristã, tinha acesso ao registro cármico dos que por ali passavam. Os critérios para que ele aceitasse os nossos atos de contrição não eram tanto drásticos como por aí na Terra são proclamados, pois eu só pude perceber um ou outro ser empurrado para onde não queria ir.

Dizia eu, então, que fiquei surpreendido quando reconheci o infeliz que gritava provocando o alarido. Foi-me proibido declarar o seu nome, mas ouvi nitidamente os seus gritos de desespero:

– Não, eu não sabia de nada! É tudo armação da imprensa vendida! Foi a oposição que inventou tudo!

Por um momento fiquei curioso para saber o que havia atrás daquela porta por onde ele desapareceu, mas não tive muito tempo para elucubrações, pois cheguei no portal que devia atravessar. Ainda pude ouvir um outro penitente que também gritou ao ser empurrado:

– Eu nunca tive conta nenhuma na Suiça!


4.

O que havia atrás daquela porta?

Agora estava pensando na porta que me foi franqueada; da outra, fiquei a imaginar o que aconteceria com os que por lá saíram.

Entrei novamente em um equipamento que me pareceu uma costureira automática, que não sabendo de agulhas e linhas, cosia com átomos uma veste para abrigar o meu espírito desamparado. Enquanto meu corpo etéreo ia sendo reconstruído, passei a temer que cairia nas garras de seres vampirescos que me esperariam em uma paisagem úmida e escura do outro lado. Estes pensamentos obscuros foram apenas um lampejo, pois minha história de crença no amor divino prevaleceu, e minhas esperanças voltaram-se para encontrar um mundo de branda claridade, onde um sol eterno brilharia na Luz que entoava uma doce melodia.

Em poucos instantes senti o meu corpo completo. Teria eu a mesma aparência que tinha lá na Terra? Estendi minhas mãos e observei-as longamente, a forma era a mesma, nada a surpreender-me ou causar estranheza: os mesmos cinco dedos em cada uma como já estava acostumado, porém a pele não me pareceu semelhante à que tivera, tinha a mesma elasticidade, mas a sentia como se mais sintética; testei os meus movimentos, nada a recriminar; a cor era um marrom como me acostumara a ver nos indianos. Todo o meu corpo era como o conhecia, senti apenas falta das orelhas, pois os lados da minha cabeça eram perfeitamente lisos. Olhei ao redor para ver os outros seres, éramos ainda como os humanos, e todos tínhamos a mesma cor pardacenta.

Ainda ficando a esperar pela Luz dos meus desejos, fui conduzido por meus próprios pensamentos por um longo corredor que terminou entre paredes, que pareciam de vidro, pois a iluminação do ambiente não se via de onde provinha. Muitas cadeiras se espalhavam pela imensa sala, sentei-me. Aos meus olhos apareceu uma tela onde se formou a imagem de alguém; comecei a ouvir, dentro de minha cabeça:


5.

– Bem-vindo, sou o seu preceptor e tenho que prepará-lo para entrar em nosso mundo, dando-lhe informações que você vai precisar para adaptar-se da sua antiga vida terrena para este nosso planeta.

– E que planeta é este? – pensei.

– É o mesmo planeta Terra como o seu, apenas situado em outro universo que designamos como Universo1, pois o seu universo anterior é o universo-ovo, e nós o chamamos de Universo0, onde todos os seres humanos nascem, e, como já está sabendo, nascem para sempre, contrariamente ao que pensam os terrenos de ser a morte.

Aquele zerinho causou-me um princípio de comichão que tratei de apagar, pois logo percebi que bastava eu pensar para comunicar-me com ele. E ele prosseguiu:

– Você já deve ter-se apercebido que está de posse de todos os seus conhecimentos acumulados, de sua memória e de sua experiência, bem como de suas características psicológicas. Nada mudou, sua vida aqui em Terra1 é uma continuidade da anterior.

– E quantos anos eu tenho?

– Nenhum para o seu corpo, mas não faz sentido a pergunta em relação ao seu espírito. O corpo que você recebeu é também composto por células e foi construído conforme o DNA que você recebeu dos seus pais terrenos, que sofreu uma mutação para adaptar-se às características próprias deste mundo.

Estava curioso demais sobre o destino dos que saíram pela outra porta, e a pergunta passou pela minha mente.

– Os que foram levados por aquela outra porta foram os egoístas em excesso, que cometeram atos nefastos que causaram danos a milhares de pessoas. Foram considerados irrecuperáveis para esta vida e as vidas futuras. Como a ciência da Terra está descobrindo, o DNA sofre em seus genes um registro das experiências vividas, e aqueles DNA estavam irremediavelmente apodrecidos, contaminados por atos tão abjetos. E foram descartados.

– Era aquela a porta do Inferno?

– Não pode haver a menor coerência na invenção cruel que os maus predicadores criaram lá em Terra0. Um lugar de tortura eterna só poderia nascer de mentes avariadas, que também foram empurradas por aquela outra porta, que é uma espécie de incinerador, mas como não há matéria a queimar, elas são simplesmente descartadas, desaparecem, e isto não chega a ser uma punição, é uma medida profilática.

Estava já bastante feliz e pacificado com toda a coerência que estava encontrando naquele mundo1, e um leve sorriso passou a fazer parte do meu novo ser1, driblando a minha anterior ironia0.


6.

Minhas ideias sobre o que encontraria naquela vida estavam já bastante abaladas, se não havia punições nem exaltações, como seriam as religiões?

– Nada existe por aqui semelhante às religiões da sua vida terrena0 original.

– E, desculpe-me a ignorância, e Deus?

– O que você chama de Deus?

– O Criador dos Universos.

– Sobre o mistério da criação não saberei nada esclarecer, ainda para nós segue sendo um mistério, pois sequer sabemos se houve um início, mas sabemos que um ser onipotente, que dirige todos os universos, que cuida pessoalmente de nossos atos e necessita ser adorado, é uma invenção muita primitiva0. O Ser Primordial é uma força que nos atrai a viver vidas em direção a nos tornarmos sempre mais perfeitos, para sermos um com ele; e para fazer o caminho contamos com a vigilância oculta de seres altamente evoluídos.

Não entendi se ele assim acreditava ou se tinha certeza.

– Ao entrarmos aqui neste mundo, passamos a saber que a morte realmente não existe, e perdemos as angústias que poderíamos ter em relação ao futuro.

– Então vamos viver para sempre?

– Isto também não é verdade, você não é mais o mesmo0 que se conhecia antes, o seu corpo é ainda composto de células vivas, e a vida não pode ser para sempre.

– Então morrerei outra vez?

– Então morrerás muitas outras vezes, e a vida do seu corpo será renovada para adequar-se, a cada vez, aos seus novos predicados.

– E quanto tempo viverei aqui?

– O acaso é uma propriedade do seu DNA. Como se pode saber o futuro? e o que importa?

– Então este corpo é ainda sujeito a doenças e a velhice?

– O seu corpo é vida. Imagine se aqui todos pudessem viver indefinidamente, logo teríamos uma superpopulação, e as consequências seriam gravíssimas.


7.

Estava começando a perceber a lógica da criação, que sobrepunha tudo o que até então pudera imaginar, mas muitas dúvidas surgiam nos meandros dos meus novos neurônios.

– Se você deixar esta confusão de pensamentos alvoroçados, eu poderei tentar tirá-lo de suas dúvidas.

– Estou curioso em saber o que acontece com os seres, não sei mais como referir-me a eles, que lá na Terra0 morrem com uma vida incompleta: que não pôde realizar-se.

– Quando os registros indicam que não houve vida necessária para que os terrenos, continuamos a chamá-los assim, possam adquirir os dons para neste mundo se adaptarem, eles lá retornam.

– Mas por que acontecem essas mortes precoces, e mesmo de bebês nascituros?

– A vida não é perfeita, o corpo da mãe pode falhar, ou o DNA do bebê pode não funcionar corretamente, mas ele terá a oportunidade de ser corrigido.

– Você diz que o DNA é preservado? onde e como? Ele não é criado no momento da fecundação?

– Por que a sua dúvida? É um mistério que não sabemos responder e talvez nunca saberemos, mas por que duvidar se do nada pôde nascer tudo que conhecemos? Por tudo que nossa ciência pôde inferir, uma parte do DNA, a que é preservada, vem de uma outra dimensão, nascida do nada que não sabemos definir o que é, talvez... possamos denominá-lo... Natura naturans... Deus.

– E eles chegam aqui através daquele túnel que eu também percorri e depois voltam?

– Não, o caminho é diferente, pois requerem mais cuidados. Temos nossos enfermeiros especializados para deles cuidar.

– E eu terei um ofício a exercer?

– Sim, você passará por alguns anos de estudos para adaptar-se. Saindo deste salão, você será recebido por alguém que o levará para a sua família de adoção.

– Alguém que eu conheci?

– É provável, mas não garantido, pois os laços familiares aqui são mais tênues, são como os dos animais terrenos: cuida-se enquanto necessidade existe. Pode ser alguém que lhe foi bem próximo, depende da carga de obrigação dos que aqui já estão e, também, do tempo decorrido de chegada.

Estava ainda bem confuso, mas aliviado.

– Minha tarefa foi apenas dar-lhe algumas informações para ajudar a sua adaptação, espero ter sido feliz. Em nome de toda a nossa gente, seja bem-vindo. Siga por aquela porta para inaugurar a sua nova vida.


8.

Senti-me bastante excitado no que iria encontrar além daquela porta. Apressei-me em percorrer a distância que dela me separava. Atravessei-a.

Um sol ameno coloria com uma luz levemente amarelada os contornos de uma enorme cidade. Do alto de uma escadaria pude contemplar o quadro que me serviria de cenário. Embaixo, uma praça colorida de verde de todos os matizes de árvores e plantas, 
disciplinadamente organizadas, espalhava-se pelos lados de uma aleia larga. Puxei uma longa respiração para acostumar-me àquele ar que me revigorava.

Demorei um pouco a entender a estranheza que me deixou por algum tempo ali parado. Olhei demoradamente para todos os lados a procurar o que me deixava aquela sensação de falta, mas era um estranhamento que me causava um sentimento de alívio, de relaxamento... até que finalmente... a calma!... um mundo feito de silêncio! Levei as mãos às minhas orelhas, que não mais existiam, e vi que isso era bom: o silêncio puro é o paraíso.

Ao pé da escada alguém me acenava, convidando-me a descer. Sorri, e descendo fui dele aproximando-me. Embora toda a diferença de pele e formato do rosto, as feições não me enganaram.

Recebeu-me com um abraço delicado ao qual correspondi com um mais eufórico.

– Pai, como é bom encontrá-lo novamente!

Ele olhou-me ternamente, sorria de maneira afetuosa.

– É muito bom tê-lo aqui aos meus cuidados mais uma vez, pela graça que nos permitiu por muitos acasos nos revermos, mas a relação de consanguinidade que nos uniu na Terra0 não mais existe, seremos, junto com os demais membros e pelo tempo que lhe for necessário, uma família, até que você esteja preparado para assumir os deveres de apadrinhamento.

Poderia parecer que aquela recepção, até mesmo fria, teria um efeito de   causar-me decepção, após os longos anos de ausência e saudade, mas nada disso aflorou-me, eu estava condicionado a recebê-la com naturalidade. Senti que minhas emoções estavam sob controle de uma mente pouco propensa a deixar-se levar pela ansiedade.

– Venha, puxou-me pelo braço suavemente, vamos tomar um transporte para irmos para casa.

Levou-me até uma pequena construção que abrigava um daqueles, para mim, incompreensíveis aparelhos. Tocou em uma tela traçando um itinerário sobre um mapa. Uma espécie de carro parou ao lado alguns segundos depois; subimos e o carro seguiu o caminho traçado. Meu padrinho, assim ele pediu-me para tratá-lo, ao longo do trajeto mostrou-me as diversas construções e suas utilidades. O percurso foi rápido, e chegamos no que seria meu lar por um longo tempo.


9.

Não vou deter-me a descrever um apartamento que nada tinha de diferente ao que me era familiar, o inusitado eram os aparelhos que não deixavam de me causar espanto, nada supérfluo, todos de utilidade prática.

Conheci ao longo do dia os demais membros da minha família: minha madrinha, a companheira atual de meu pai, uma pessoa de simpatia incomum e de uma irradiação de benevolência que me envolveu em uma sensação de um doce amor; meus três irmãos, estudantes como eu, dedicados a aprender as ciências daquele mundo, em estágios diferentes de estudos e de especialidades.

Em meu quarto encontrei tudo o que necessitaria para desenvolver os meus estudos. Quando lá entrei, fui recebido com as boas vindas de uma tela que ocupava toda uma parede, e as informações continuaram a me serem passadas. Foi-me dada a gentileza de escolher o ambiente do meu quarto, ocasional, pois poderia modificá-lo a minha vontade sempre que quisesse, pois ali seria o lugar principal da minha vida de estudante. Poderia estar em uma sala de estudos na presença de professor e outros alunos, poderia entrar em um jardim para relaxamento e exercícios, poderia escolher o clima e paisagem à vontade; apenas um toque naquela parede e o ambiente holográfico era transformado.

As primeiras aulas que tive foi uma continuação das informações que precisava para adaptar-me aos novos padrões. Fiquei sabendo que todas as minhas necessidades pessoais poderiam ser satisfeitas por um crédito anual que eu deveria administrar com parcimônia, suficiente para uma vida cômoda. Era uma cota comum a todos as pessoas, e, para a quase totalidade delas, não causava nenhuma escassez. Eu teria ampla liberdade de usar meus créditos, mas, se cometesse excessos, as consequências teria que sofrer:

– Como você já sabe, os desejos incontrolados levam ao vício, e consequentemente a um distanciamento dos nossos objetivos maiores de nos aproximarmos do Ser Primordial. Não pedimos sacrifícios, pois cada um tem o que necessita, mas aquele de vontade desregrada mostra uma mente ainda despreparada para seguir no caminho da evolução, e aqui neste estágio deverá viver quantas vidas necessitar para aprender, repetindo-as o quanto for necessário.

– E quando eu me tornar capaz de exercer um trabalho, receberei mais créditos?

– Não, o trabalho é um direito, mas também um dever. Devemos executá-lo sempre no objetivo de crescimento individual, visando a nossa vida futura. A indolência leva também à repetição desta etapa da vida.

– E o que acontece com os que cometem crimes?

– Só há crimes possíveis contra outra pessoa: coação, ferimentos e, mesmo, mortes, porém são poucos. Os que os cometem são levados a instituições que lhes fornecerão todos os meios para se recuperarem, ou terão que repetir esta etapa da vida. 


10.

Fiquei longo tempo a vasculhar as opções que me eram oferecidas para estudo, embora já tivesse em mente os meus objetivos de exercer o que não me foi possível na minha vida0.
Passeei ali no quarto pelo novo mundo que me era oferecido e me encantei com tudo. 

Assaltou-me a curiosidade sobre a questão do amor...


A título de esclarecimento:

Este documento foi encontrado em uma antiga biblioteca descoberta sob as ruínas de uma cidade soterrada. Nada mais foi possível recuperar do resto das páginas, totalmente consumidas pelos insetos.


-o-

Adélia Prado:

 “Saberemos viver uma vida melhor que esta, quando mesmo chorando é tão bom estarmos juntos? Depois da morte eu quero o que seu vácuo abrupto fixou na minha alma. Quando eu ressuscitar, o que eu quero é a vida repetida sem o perigo da morte, os riscos todos, a garantia: à noite estaremos juntos...”




quinta-feira, 12 de abril de 2018

A ilha




A ilha














I

A primeira vez quando lá chegou era um pedaço árido de terra
Ficava além do Umbigo do Mundo ilha solitária do frio Pacífico
Um só moai fazia guarita para o vento incessante a soprar
Tomou posse do desolado refúgio proclamando-se rei
Suas posses eram pedras areia um infinito horizonte de mar
Sentou-se ao pé do moai companheiro solitário do entardecer
O sol baixando no horizonte ecoava o cair do seu âmago
A melancolia vermelha do final do dia caía-lhe dos olhos
As ondas que batiam na areia desenhavam em seu rosto
Uma lágrima solitária suspirou-lhe a face em vagareza
Desceu-lhe hesitante até o lábio e parou a ganhar força
Caiu entre suas pernas cansadas sobre a terra embrutecida
Os olhos ergueu para o horizonte e viu a barra da noite a chegar
Baixou-os enegrecidos para o amor que lhe fora negado
A vida que não lhe falava teria tido palavras para ele?
O sorriso que na mente bailava teria acenado para ele?
A noite inclemente desceu sobre o corpo em pedaços

II

Quando voltou para a ilha ela já não era tão estéril
Em frente ao moai uma arvorezinha insistia em viver
Contemplou aquela vida frágil com curiosidade intensa
Soprou a areia fina que cobria suas tenras folhas
Buscou pedras redondas escolhendo-as com cuidado
Desenhou ao redor do frágil caule um círculo mágico
Sentou-se à sombra do moai em seu posto costumeiro
Tinha entre as suas pernas aquele espécime de vida
Na sua só melancolia esqueceu-se do novo amigo
Levantou indeciso os olhos para o longe horizonte
A tarde caindo o sol morria entre raras nuvens brancas
O pincel divino vertia no céu laranja as dores que portava
Sem freio correram-lhe as lágrimas que ainda retinha
Sulcando o canteiro de pedras em fios de fertilidade
Trouxe a noite impiedosa o sopro gélido do vento sul
Tremiam-lhe de febre os pedaços doloridos do corpo

III

Estava ele de volta a sua ilha onde instalara seu reino
Trazia nas mãos sementes colhidas nas noites insones
Filhas das noites gélidas que lhe vergavam seu corpo nu
Aos pés do moai encontrou o canteiro em vida frenética
Pequeninas gotas vermelhas suspensas em cachos anchos
Não ousava pisar as gotas marejadas dos seus infortúnios
Olhou com angústia e desolação o resto de sua gleba real
As sementes na mão contemplou atônito e desiludido
Arremessou-as furioso todas ao mar por sabê-las inúteis
Atrás do ídolo de pedra indiferente procurou um abrigo
Sentou-se sem ferir as gotas no pôr do sol lacrimejante
Trançou os braços inválidos sobre os joelhos encolhidos
Trouxe os olhos do infinito para a quente terra ressequida
Um seixo afiado olhava-o e pulou da terra para a sua mão
Um talho profundo transbordou de vermelho a palma
Correu pelo solo infecundo um largo rastro de sangue
Pegadas vermelhas ficaram na noite dura sem estrelas

IV

A vida vermelha cobrira toda a esterilidade da ilha
Um tapete em vermelho rodeava a massa escura
Era um altar em prece adorando o ídolo de pedra
O vento sul impiedoso corria uma onda nas flores
Saído da espuma do mar ele não tinha chão a pisar
Ouviu uma voz imperiosa que o chamava a entrar
O primeiro passo indeciso foi vestido de cuidados
Pisou as gotas vermelhas que se desfizeram em ais
Mais outro passo e a coragem voltou a sorrir-lhe
Traçou uma trilha sangrenta até o grande moai
Sua árvore lançava-se ereta desafiando o ídolo
Olhou o horizonte que se fazia no ardor do sol
Olhou a sua trilha de sangue fundida aos raios
Olhou a sombra da árvore fazer na trilha uma cruz
Olhou o ídolo de pedra se desfazer em fina areia
Olhou o tapete vermelho fundir-se em amarelo
Olhou o seu reino de dor afundar-se no Pacífico
Olhou o horizonte que se despedia em vermelho
Olhou um sorriso que lhe falava junto ao rosto


sábado, 24 de março de 2018

Nada



Nada




O sol fora submergido por nuvens escuras que pintavam uma quase noite. O quarto estava em lânguida penumbra; da sua cadeira de estudos, olhando com distração, ele viu sua figura formar-se no vidro da janela. Firmou os olhos e saiu de seu devaneio. Como seria possível naquele ângulo ver-se refletido?

Enquanto ainda permanecia naquela discordância da realidade ou do sonho, percebeu que a figura não lhe mostrava o jeito da estranheza, que por acaso veria se pudesse contemplar o seu próprio rosto. Ela parecia sorrir, mostrando um gesto de pura amizade.

Recuperada sua consciência, viu a janela colorir-se de manchas das mais diversas cores, que mudavam constantemente, parecendo um filme projetado no vidro. Era belo. Se pudesse captar as cores pelos ouvidos, na certa lhe pareceria uma melodia tocada por um suave violino acompanhado por delicados toques nas teclas de um piano.

E por trás das manchas de cores sua imagem lhe sorria.

Aproximou-se da janela, a imagem que lhe acudia aos olhos não repetia os seus gestos, autônoma. Agora levantava a mão direita espalmada na altura do rosto em um gesto usual de saudação, a boca imóvel, enquanto os olhos faiscavam e pareciam emitir raios de luz, que se espalhavam pelo vidro, colorindo-o. Com um lento gesto de elevar a mão, não sabendo se devia aceitar tão desajustada visão, repetiu o gesto da imagem, tentando talvez tornar à realidade de um espelho invertido.

Uma onda de um azul espesso invadiu o vidro, atravessou-o e ofuscou os seus olhos. Num breve instante de inconsciência, sentiu-se tomado por aquela luz, que lhe pareceu invadir as partes mais profundas de sua mente e agitar em um movimento efervescente todas as suas células cerebrais. Despertado da breve tontura que lhe tomara, viu, ou mais precisamente, sonhou imagens que se convertiam em palavras sussurradas ao ouvido, sentiu como se houvesse adquirido uma percepção que lhe permitia ouvir a luz que animava aquela janela de vidro.

– Consegue agora me entender?

Parecia-lhe ter ouvido, mas seguramente nenhum som havia sido emitido. Olhou com perplexidade para a figura muda no vidro.

– Percebo que sim.

Foi então que sua estupefação lhe fez compreender que a figura se comunicava com ele através da luz que partia dos seus olhos.

– Essa onda azul que lhe enviei foi para criar nas suas células os recursos necessários para interpretar a minha linguagem de luz.

– Mas, se não estou a sonhar, o que é você?

– Sou uma imagem sua, sou uma sua vida paralela que reside na quinta sombra do seu mundo, mas digo mal, não é uma sombra, senão uma outra realidade superposta.

– Não entendo, você existe dentro do vidro dessa janela?

– O vidro é apenas o meio que encontrei para poder apresentar-me ao seu mundo e a você, que é o que me foi permitido, pois vivo em um universo tão vasto quanto o seu.

– E você e eu somos um mesmo ser?

– Talvez, somos feitos de matéria com entrelaçamento quântico, tudo o que você faz afeta-me instantaneamente, e o que eu faço também o afeta.

– Se simultaneamente causamos efeitos um ao outro, quem determina nossas ações ou mesmo nossos pensamentos?

– Como saber? Mas não somos apenas os dois, outras cópias nossas existem em outras sombras.

– Você quer dizer que meus pensamentos podem ser produto de várias personalidades existentes em diversas outras dimensões?

– Calma lá, a personalidade é uma só, você é o produto, assim como eu.

– E como podem os seus olhos falarem?

– Da mesma forma estranha que sinto que a sua boca fala, para mim a boca é apenas um instrumento para a alimentação.

– Neste seu mundo, se é que estou acreditando em você, a evolução humana aconteceu diferente?

– Em alguns aspectos. A qualidade da luz em nosso mundo levou-nos a desenvolver a linguagem da luz, e em outros universos a linguagem se fez de outros modos.

– Então existe mesmo mais de um universo? Não consigo entender. Se o nosso Universo se estende por todo o sempre, onde existem os outros?

– Qual a incoerência? Se somos feitos de nada, nada precisamos ocupar.

– Mas eu estou aqui, ocupando este espaço que tomo.

– Espaço? não passa de uma ilusão sua o seu espaço.

– Mas outro ser, aqui do meu mundo, não pode estar no meu espaço.

– Ah, sim, pois ele vive a mesma ilusão sua.

– Estou entendendo-o por meio de palavras que ecoam em minha cabeça, sua linguagem de luz é também feita de palavras?

– A Palavra é um ovo que permite que tudo exista.

– Explique-me, como se formam as palavras com a luz?!

– As sete cores existentes na luz branca são as vogais de nosso alfabeto, são fótons breves emitidos em um attosegundo, as consoantes são mais longas e são combinações de duas das cores, e assim temos vinte e uma delas. Nada muito diferente do que você usa para compor as suas palavras de ondas sonoras. Aliás, a estranheza é terem vocês apenas cinco vogais, pois, nas outras sombras que contatei, usa-se quase sempre sete, como base para as linguagens.

– E são todas como a sua, de luz?

– Não, todas as sombras têm elementos diferentes que condicionam a evolução a agir de forma única.

– Mas a sua imagem é como a minha, a evolução do corpo se fez da mesma forma?

– A minha imagem, que você pensa que vê, é uma projeção de sua consciência.

– Não consigo entender, para mim tudo que vivo é muito real.

– Vamos tentar entender: o som e a luz que você ouve e vê são reais?

– Tudo que me vem através dos meus sentidos é a minha realidade.

– O som que você ouve são ondas de pressão exercidas no ar, a sua mente foi condicionada a interpretá-las como barulhos, para mim elas são apenas perturbações na atmosfera.

– Mas você está ouvindo-me, como pode então fazê-lo?

– Através de um aparelho que transforma as ondas sonoras em palavras de luz, muito parecido com os seus rádios.

– Mas a luz, é ela que me permite viver a realidade.

– A luz também é uma onda que se espalha pela atmosfera, e os seus olhos são um instrumento sofisticado para captá-la e transferir ao cérebro a ilusão da claridade ou da falta dela.

– Então, em outro universo posso ter a habilidade de comunicar-me, talvez, com o cheiro?

– É perfeitamente possível, ou melhor, é uma realidade, pois já visitei um universo onde isso acontece.

– E como você consegue viajar entre os universos?

– A ciência do meu mundo está bem desenvolvida e não temos mais barreiras mentais.

– E vocês já entendem o que é, então, a realidade?

– Realidade? O que é a realidade? É o nada.

– Nada, como pode?

– Qual a diferença entre o infinito e o nada, se no nada está contido toda a possibilidade do infinito? Se do nada surgiu o seu mundo, o meu e todos os outros? Todos os universos são feitos de partículas de energia que são apenas flutuações de nada.

– Se nada existe, se o nada é igual ao infinito, viver um yoctosegundo é como viver a eternidade.

– E se você é um nada, feito do nada que é o todo, você também é o todo.

– E este Nada que é o Todo, é o Grande Mistério.


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