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domingo, 5 de abril de 2020

O Olhar de Dona Menina



O Olhar de Dona Menina



(obs.: o texto faz referência à história publicada neste blog: “O Chá de Dona Menina”.)


─ Ei, Mariinha, bom dia! Tá bem disposta hoje, hem? Tão cedo e fugida da quarentena!

─ E a Senhora Dona Menina aí já de namoradeira, dependurada na janela?

─ Ah, tô aqui desfadigando da cama que fica dura quando os olhos se recusam a ficar cerrados. Por corretivo, dou-lhes o belo da manhã a se alargar. Mas o que foi que a fez deixar a reclusão da chácara?

─ Pra aproveitar a fresca, Dona Menina, premida da precisão que me está a fazer roer o pé da minha última galinha, finada já de semana.

─ Imagino, Mariinha, tristeza é o que resta dessa encomenda do tinhoso, mas com fé em nossa Santa Mãezinha isso vai passar.

─ Mas tá custoso, comadre, a pena tá dura de fazer dó até praquele mazelado de ódio. Minhas juntas tão chagadas e rangidas que nem carro de boi gemedor de tanto me dobrar pra pedir piedade pra Nossa Senhora.   

─ Coragem, Mariinha, que ela não desampara!

─ Coragem é que não tem faltança, Dona Menina, já fiz minha novena e promessa de me afastar de carne por um ano.

─ De novo com suas promessas, comadre, já não bastam os males maiores?

─ Ah, mas também... cá pra nós, Dona Menina, tenho até medo de falar, já que a senhora tem chamego bom com a Sua Mãezinha Nossa Senhora e vai que conte pra ela... nem faz muita diferença, pois recurso nem sobra nenhum pra arrumar um tico de carne.

─ Basta a arrelia que você tá passando, Mariinha, num tem precisão dessas artimanhas. Tá faltando muita coisa?

─ Falta é que não falta, Dona Menina, mas de compenso temos nossa hortinha que socorre nossa aflitude.

─ Ainda bem que pode contar com ela, tá bem fornida?

─ Assim assim de folhas bem, tamos até ficando verde. No mais, mandioca e inhame não falta pra agarantir o de manhã.

─ Vou lhe arranjar uma cesta, Mariinha, pra ajudar a cuidar dos meninos.

─ Eu muito agradeço, Dona Menina, mas sabe, eu cá vim com intenção mesmo foi de...

─ De quê? Mariinha, diga logo, não se avexe.

─ Daquela nossa velha conversa...

─ Que conversa, comadre? Foram tantas.

─ A senhora sabe... Quiçá, devido a essa mazela danada, a senhora muda de ideia...

─ Mas de que ideia você está falando?

─ Do chá...

─ Ah, Mariinha, outra vez! Eu já lhe disse e bem informei que não pode ser, que mais mal faria do que bem.

─ Num seria o fato de tentar, assim como se fosse o caso de uma vacina pra prevenir os meninos?

─ É por ter muita afeição por eles e por você que não posso, Mariinha.

─ Ah, que tristura! E a senhora fica aí de privilégio sem medo desses bichinhos.

─ Que lhe parece, Mariinha, sem medo? Isolada dos meus netinhos, sem os seus afagos? Não há chá de lenho que arrefeça esta solitude.

─ Estamos sem chão, Dona Menina, sem ciência de que lado pode vir a cacetada, temos suspeição de tudo: de gente, de coisas e de bichos.

─ É. Tudo passou a ser estrangeiro, baixado por ordem do não se achegue.

─ Pois num é? Eu que tenho meus meninos em casa não me aventuro a um abraço, só chinelo em mão para afastar os pobrezinhos.

─ Nesses meus devaneios venho assuntando uns tempos que agora o olho é nossa mais premente ferramenta, com um tanto de ajuda da boca.

─ Que diz, Dona Menina?

─ Se a mão está assoberbada com o sabão e atrapalhada em tocar, o toque de um doce olhar é que resta para a nossa alegria...

─ E secundado de um sorriso...

─ Pois é, Mariinha, a gente se sente aconchegada se vê a ternura em um olhar assim como o da minha Santinha, um olhar espelho dos olhos dela.

─ É o que eu vejo no seu, Dona Menina, que está sempre arrumada pra nos confortar, mesmo que negue o chá...

─ Miseravelmente, Mariinha, não posso compartilhar o chá.

─ Só me cabe me acontentar com o seu bom olhar, Dona Menina, e com a sua dádiva possível. Vou guardá-lo no meu para não enxergar aquele outro desvairado.

─ Desvairado?

─ É, Dona Menina, aquele olhar alucinado a balbuciar sob o barulho das panelas.

─ Ah, deveras, Mariinha, um olhar de louco a pregar jejuns e rezas sem misericórdia, que nada sabe do que seja compaixão...

─ E a abrir igrejas para garantir o dízimo dos mercadores...

─ A nossa igreja está cá, bem funda, imersa no meu olhar de aflição, mas com compaixão.

─ Assim seja, Dona Menina.

─ Assim seja, Mariinha.

-o-






domingo, 6 de outubro de 2019

Fazenda Santa Cruz



Fazenda Santa Cruz





– Dona Menina, precisamos que nos faça um grande favor!

– Ara, minha gente, que tanta afoiteza é essa, o que está a acontecer?

– A Senhora tem ciência dos feitos daquele ser estulto que herdou a Fazenda Santa Cruz, não?

– Pois sim, que já ouvi uns contos das suas desconveniências.

– Encarecidamente pedimos à Senhora, que é muito cordata, que vá gastar umas palavras com o dito para tentar incutir um pouco de siso no destemperado.

– E por acaso será que há modo de fazer café em bule esburacado?

– O que não podemos é mais aturar tanta insensatez.

E lá foi a Dona Menina para a Fazenda Santa Cruz, em uma charrete conduzida pelo Firmino, para aquelas terras tão isoladas do resto do mundo. No trajeto, ela contava das suas diversas experiências e, lá chegando, ela estremeceu ao ler, sobre a porteira da fazenda, moldada em ferro cuidadosamente trabalhado, a frase: ARBEIT MACHT FREI. Debaixo, já encontrou o herdeiro proprietário.

– Bom dia, seu Menó

– Dia. A Senhora deve de ser aquela tal de Dona Menina, que já muito tenho ouvido de falar.

– Falar bem, espero.

– Pros conceitos de quem fala, bem. Mas num tô certo de aturar umas ideias que ouvi, tá sabendo?

– Pois num há nada de inconveniências, eu cá vim pra conhecer essas terras e, se me permite a abelhudice, saber um tanto dos intuitos que o senhor tem para os seus usos e desusos.

– Disso de intuitos eu sou bem grávido. Pudera aquele povo lá de fora pudesse também desfrutar das melhoras que aqui plantei.

– Quem sabe o Senhor alardeando as qualidades delas.

– Pois é por isso, tá sabendo? que agora mesmo firmei propósito de mandar o Menozinho, um meu filho, pra representante meu naquelas terras lá de fora, pra mostrar o modo de fazer a ordem e o progresso precisos pra vida seguir mais conforme.

– E esse filho tem os predicados pra cumprir com tais importantes comissões?

– Senhora Dona Menina, olha que tenho muito desfastio de dizer, e já tô dizendo, que o menino é tinhoso, tá sabendo? Já sabe desenhar o nome com uma boniteza de invejar Deus, pois faz bem retinho. Assim, está gabaritado para rabiscar em meu nome todos os papéis de necessidade.

– O que deve significar que o menino é mestre na leitura e na escrita, com muitos dotes de saber.

– Leitura e escrita? Baboseiras. A Senhora Dona Menina está a me desfeitar? Acha que por aqui gastamos tempo com essas frescuras, com tanto a pelejar?

– Ahn? Num me avexa, seu Menó, então não tem precisão de estudo para saber discernir o bom? E como o Senhor pode confiar que ele terá tino pra ser seu preposto?

– Ha! A dura vida é a melhor mestra, tá sabendo? Aqui o trabalho principia desde que um guri começa a andar. Com dois anos ponho ele já a candiar a carrocinha do bode pra levar leite do curral pra queijaria. No que completa quatro, ganha a primeira enxada da vida dele. A primeira enxada ninguém esquece. Aqui todos trabalham, trabalham muito, do sol nascer ao pôr.

– Mas, seu Menó, é muito dura a meninice assim! Criança tem precisão de brincar pra aprender a jogar na vida.

– Já dizia meu avô Cristóvão, que o Senhor o tenha e guarde: mente vazia, oficina do diabo, tá sabendo?. Por aqui num tem lerdice de tempo à toa pra escarafunchar ideia malsã nem para saber o peso da vida, se boa ou se doída. É trabalho só. Por isso a terra vai assim tão bem, produzindo o tudo necessário.

– Tem muitos colonos também nessa labuta, né?

– Muitos. E tudo satisfeito com os pratos de angu com feijão que têm com fartura, além da casinha, bem pobrezinha, mas bem naquele refrão: meu amor e minha cabana.

– E recebem um estipêndio também?

– Recebem, mas sabe como é, né? Recebem e pagam o angu com feijão e o aluguel.

– E o Senhor acha que isso está dentro dos conformes?

– Pergunte a eles se têm alguma protestação.

– Posso então trocar umas palavrinhas com algum?

– Pode sim, chamo aqui o Chico Carvão, e a Senhora poderá dar uma proseada com ele.

– E posso levar a prosa com ele a sós?

– A sós, claro! Só nós três.

– Tá, sendo assim, deixa pra lá.

– Mas antes de mais palavrório, Dona Menina, deixa eu chamar algum pra dar um trato nessa égua que arrastou a senhora pra cá. Brasil, ô Brasil!

– Às ordem, patrão.

– Conduz esse Firmino e a égua da Dona Menina e dê um bom trato nela.

– O rapaz chama Brasil, os pais devem ser muito patriotas.

– Patriota é só o que temos aqui, tá sabendo? mas num é dos pais que herdou o nome, pra modo dizer a verdade, fui eu que lhe dei.

– Ah, é só um apelido?

– Não, é o nome mesmo do cujo, de batizado e registro próprios, por aqui minha vontade é lei, quando nasce qualquer coisa, eu dou nome, pois sou certeiro em olhar pra coisa e saber nomear. Esse aí, quando nasceu, era a cara escarrada do Brasil: grande, cabeça chata enorme e uns pés minúsculos, era o mesmo que ver o mapa do Brasil. E era ladino, prometia muito.

– Mas ele é meio mirrado, não?

– Pois num é? Ficou só na promessa, num vingou quase nada esse danado, encroou e deu esse anão.

– Coisas da vida, coalhada de surpresas. Mas essa viagem até cá foi dura debaixo desse sol de rachar, fiquei seca. O Senhor poderia me arrumar um copo d’água?

– É pra já, da mais pura água de cisterna boa. Jorgete, Jorgete!

– Que foi patrãozinho meu?

– Traga uma moringa de água aqui pra Dona Menina.

– Estou surpresa, seu Menó, não poderia fazer suposição que aqui houvesse como agregado um tal qual ele.

– Arre! que num é coisa minha! Isso é arrumação da minha mulher, tá sabendo? Ela deu pra querer proteger essa tralha e trouxe ela pra dentro de casa, pra ser nossa cozinheira, e até que ele dá pra coisa, a comida dele é muito das boas.

– E de onde ele veio?

– É filho de um colono, nasceu por aqui mesmo, pra espanto nosso! Mas tamo dando um jeito de curar ele!

– Curar, e como é que se pode fazer isso?

– Diz que é difícil, né? Mas nós tamo persistindo.

– E que fizeram pra tentar?

– Bom, é que, tá sabendo? O negócio é que o pai dele contou que tudo começou por causa de um desafeto dele, por causa de uma briga de cachaça, no que o dito cujo levou uns bons safanões. Diz que pra modo de fazer sua vingança, o judiado entrou de sorrateiro na casa dele, enquanto ele estava a mourejar, e marcou o lombo do guri, deixando três letras formando um triângulo: dois X e um Y.

– Me parece mais uma lorota para explicar o que não se quer aceitar.

– Lorota ou não, o caso é que o menino cresceu assim enviesado. Uma velha aí do terreiro, tida como curandeira das boas, disse que era preciso suprimir um dos X para tirar o lado mulher dele.

– Sei, ouviu algo de médicos e num entendeu nada, daí...

– Pois foi aí que arresolvemos limpar o X.

– Já estou arrepiada de tanta estupidice, e o que fizeram pra limpar o X?

– Pegamos aquela escova de ferro de raspar couro de cavalo e raspamos, raspamos, até num deixar nenhum traço do X de cima do triângulo.

– Barbaridade!

– Mas era pro bem do moleque, tá sabendo? Mas num tivemos sucesso. Daí uns dias, deu uma casca grossa de machucado, e, quando ela caiu, lá estava o X inda mais marcado; e ele melhorou um nadinha, continuou moleca.

– Melhor deixar o vento soprar pra seguir onde pode ir, Seu Menó.

– Mas acha que nós firmamos desistência? Desistimos um nada, tá sabendo? inda vamos dar um jeito nele! Agora ele tá um tanto arisco, num chega muito perto de nós, mas qualquer dia desses havemos de lhe aplicar um outro remédio.

– E dessa vez, presumo, uma outra malvadeza será.

– Malvadeza nada, Dona Menina, é pro bem dele. O pastor da igreja da minha mulher usou um latinório pra receitar a cura, até fiz questão de gravar: similia similibus curantur; ele diz que quer dizer, mais ou menos, que a cura deve ser feita por algo parecido ao mal, e já que a marca era coisa do diabo...

– Fogo?!!!

– Pois antão, vamos ter que queimar o X.

– Fico imaginando se a Maria da Penha se aplica a tais casos...

– O que disse a Senhora?

– Ah, deixa pra lá, cada qual no seu curral.

– O curral? Fica ali perto daquela figueira, vamos até lá pra Senhora se maravilhar com a beleza da fazenda.

– Realmente muito bela, o Senhor poderia me contar das origens da propriedade, como chegou na família?

– Olha que é uma história muito das boas, Senhora Dona Menina. Meu avô me contou que foi o avô dele que conquistou as terras. Pois então, esse meu tataravô um dia se pôs decidido a seguir o Sol até onde ele morre, lá pras bandas além daquela serra, que é onde acaba a Terra. Ele sabia, pela tradição da família, que o Sol era uma bola toda feita de ouro em fervura e, quando o calor é muito, ele tem que pôr abaixo o excesso de ouro, tá sabendo? Assim, quando ele cai lá no fim do mundo no final da tarde, ele deixa cair um tanto naquela montanha que a Senhora vê lá ao longe, que é a última. O avô foi até lá no alto, levou dias e dias para lá chegar, esperou o Sol. Aí, chegou aquela bola enorme de ouro, transbordando pelas beiradas o gás de ouro. Estava bem no dia maior do verão, quente como o inferno, e o Sol despejou um tanto de ouro bem perto dos seus pés. Foi com aquele ouro que ele adquiriu as terras.

– Ah, sei, e de vez em quando o Senhor sobe lá para pegar um pouco?

– Pra quê? Já tenho as terras que preciso. Mas dê uma olhada, Dona Menina, olha que beleza de gado.

– Realmente, tudo bem tratado, melhor que os colonos, parece!

– Isso é o meu orgulho. O Mané ali está a cangar as juntas pro carro. Olha que beleza: duas bem parelhas e uma nem tanto, esta é a guia, um boi preto manchado de branco, o Esquerdo, e um branco manchado de preto, o Direito. Eles têm uma inclinação de ir pros lados diversos, mas, cangados, é uma verdadeira maravilha, vão direitinho pra onde a gente quer.

– E o que não falta é canga e vontade de cangar, né?

– Mas vamos até a sede, Dona Menina, minha mulher vai nos preparar um cafezinho no jeito.

– Vamos, talvez assim eu possa sair deste meu atordoamento.

-o-








domingo, 30 de junho de 2019

Nome é para toda a vida


Nome é para toda a vida



– Ô de casa! Dona Menina! Óia que tem visita adentrando sua porta!

– Pois vamos acabar de chegar, pessoal, é toda a minha satisfação acolher vocês aqui em nosso chão, assim um tanto desprevenida que num esperava ninguém, mas, por obséquio, vamos chegando que a casa é toda sua.

– A senhora adesculpa que a gente chega assim sem alarde nenhum, mas é que tamo num desassossego de levantar pó em soalho de talba.

– Então vamos pegar um assento para dar desafogo a esses pés nervosos. Senta aqui juntinho de mim, Naterça, e o senhor, Seu Quinzinho, se abanque nesse sofazinho. E, aí, minha gente, o que é que tanto está a intranquilizar?

– A Senhora Dona Menina tá avisada que lá em casa desbrotou de nós mais uma guriazinha, né?

– Estou sim, Naterça, e como ainda não tive conveniência pra uma visitinha, aproveito para lhes dar as minhas congratulações.

– Fico muito da agradecida, Dona Menina.

– E por que não veio a pequenina para que eu pudesse conhecer?

– Achamo que inda num era devido pra ela pegar um sereno. Deixamo a Açucena a fazer vigia dela, outro dia nós traz.

– Assim espero, Naterça, sabe como é, né? essas juntas duras não deixam que eu possa sair assim a bel prazer, é penoso uma caminhada até a sua casa.

– Sei, sim, Dona Menina, é pro modo disso que viemo cá pra ver se nos dá alento pra resolver o embrolho que tamo encalacrado, que é de acertar  um nome pra miúda.

– Ahn!? Quer dizer que esse barulho todo é só por causa do nome da menina?

– Sabe como é, Dona Menina, o Quinzinho, que agora tá ali amochado e mudo, empacou igual mula véia em um nome. Fala homem, diz aí pra Dona Menina o nome que tu qué dá pra ela!

– Sabe o que é, Dona Menina, num é só a Naterça que está assim braba, não. Em depois que arranjei o nome da guria, ela me mandou uns três pratos na testa...

– Mandei, Dona Menina, mandei deveras.

– Aí, foi ela palrear com o Padre Joaquim, a preguntar se cabia batizar assim e assado a menina.

– E que disse o estonteado, Naterça?

– Ele foi logo me preguntando se o Coisaruim tomou assento lá na casa nossa, e que bem de preferência seria deixar a menina pagãzinha, sem nome.

– Bem, nem fico muito alarmada porque daquele desatinado uma estupidice é mais que esperada, mas até agora inda não sei que palavrão de nome é esse, que vocês ainda não disseram.

– Óia, Dona Menina, que eu nem apreceio de falar o tal. Diz, aí, Quinzinho, o nome que ocê tá tanto prezando.

– Pois digo, Dona Menina, sem avexo, pois gostei ademais dele, que eu quero mesmo chamar a pequena de Bucetilde.

– !?

– Viu, Dona Menina, pela sua cara pasmada a senhora dá razão a mim e ao Padre, né?

– Mas, mas, que desconveniente!

– Aí, Quinzinho, já conseguiu aperceber o desmesurado do seu papel de carrasco da menina?

– Num me cabe o fato de tanto frege, ocês é que parecem ter embirrado com o nome.

– Se faz tanta questão, seu Quinzinho, Nossa Santa Mãezinha que me perdoe, de persistir com Bu qualquer coisa, podia ao menos minorar um tantinho, talvez quem sabe podia ser Bucicleide, ou Bucinda, ou Bucimara.

– Num tem precisão de minorar nadinha.

– Mas, seu Quinzinho, por que num escolhe um nominho assim mais simples, mais carinhoso; que tal Clara, ou Teresinha, ou um bem nobre assim como Ádila?

– Sabe o que é, Dona Menina, num apreceio um nominho simples desses que não dá uma saliência própria, tem que ser um sem outro igual.

– Mas é muito feio, seu Quinzinho, nem galinha ia caber nesse nome, parece ser de uma coisa feia, cabeluda, mais propício pra, sei lá, uma aranha.

– Eu que já me cansei de brigar, Dona Menina, só ponho fé, agora, é que o Joca do Cartório não ponha o tacho no fogo.

– Não, Naterça, com aquele outro destrambelho num é bom contar. Seu Quinzinho, me diga cá judiciosamente, o que achou de atrativo nesse nome?

  Óia, Dona Menina, é que no certeiro momento que vi aquela coisinha toda embruiada e  amarrotada, despreguiçando os bracinhos, com uma facinha doce toda enrugadinha, fui tomado de carinho, e, atinei cá nos meu miolo, que seria tudo de bom poder chamar ela acarinhadamente de minha Bucezinha, ou de minha Cetinha. Óia que gustusura!

– !?

– Tá vendo, Dona Menina, a minha sofrência? Num parece que esse homem tá mangando de nós?

– É, num parece sério, já é tempo, seu Quinzinho, de ajustar o siso, já imaginou o que sua filhinha vai amargar por carregar um tal nome por este mundo de gente tão perversa.

– O que eu mesmo acho, Dona Menina, é que ninguém deve de se avexar do nome que ganha.

– Mas, Seu Quinzinho, criança é sempre muito aproveitadora de coisas estranhas para fazer maldades, fico imaginando na sala de aula, na hora da chamada, vai ser um coro de envergonhar e corar até o quadro-negro.

– Ela acostuma, a gente acostuma com tudo no mundo.

– E o senhor num teme que ela vá ter-lhe ódio por toda a vida?

– Se é só por carinho, pro modo de quê?

– Naterça, vou procurar o Joca do Cartório e assegurar que ele não aceite o registro.

– Encarecidamente peço o favor, Dona Menina, pra poder encher essa cabeça abestada de algum siso, que eu já tô no desgosto de ter esfacelado os meus pratos, pois devia de ter jogado nele uma marreta de uns cinco quilo.

– Se tou endoidado, cês acha que tô assim, por quê? Deve de ser de tanta bordoada sofrida na cabeça pro modo dessa muié destemperada.

– Deixa eu fazer mais uma tentativa, Naterça. Seu Quinzinho, se trocar o nome da menina, prometo que, se me aceitarem como comadre, vou batizá-la e ajudar com muito carinho a cuidar dela.

– Oh, que satisfação que nos dá, Dona Menina! Aí, Quinzinho, que podia nós querer de mió? Vai, homem, aceita.

– Até que é muito do meu agrado esse oferecimento, me sabe bem a mim.

– Então, homem, aceita e troca o nome.

– Hum, deixa eu pensar.

– Eu apreciei deveras do Ádila!

– Não, é muito do imperioso.

– Então, qual?

– Ah, já achei.

– Qual?

– Qual?

– Pois taí, Vaginilda!

-o-

domingo, 26 de maio de 2019

O Noivo Enfeitiçado



O Noivo Enfeitiçado






– SENHORA DONA MENINA!

A casa estava silenciosa, ninguém à vista.

– DONA MENINA!

– Que foi? Que desespero será esse? Ah, é você, Coralina.

– Sou eu mesma, Dona Menina. Sou eu, sim, com todos os meus dentes sobrantes e os poucos cabelos que me restam!

– E que escarcéu é esse, dona? Pareceu-me até um cão danado a ameaçar minha porta.

– É, deveras, é demais raiva que tenho aqui varada no gogó.

– Nem parece a Coralina que conheço, tão devota de Nossa Senhora.

– Pois é, é que nem a coitada aqui está se sustendo mais.

– Calma, Coralina, toma um arzinho para desanuviar que isso faz mal, respira fundo e ponha-se a contar o sucedido.

Coralina continuava a falar de maneira atabalhoada:

– Pois a senhora num me agarantiu que isso de mandingas e malefícios são inventos de gente desajustada a querer tripudiar sobre os incautos?

– Garanti e garanto, Coralina, nada num há a se arrecear de simuladas bruxarias.

– Pois então, o que sucedeu é que pegou, Dona Menina, pegou mesmo e nada dá jeito de suprimir a embruxação.

– Do quê você tá falando, Coralina? que embruxação?

– Da Mariinha, Dona Menina, num lhe contei do casório dela? E pois que a filha daquela macumbeira lá das Palmeiras queria o noivo dela?

– Já me alembro, Coralina, você falou que a mãe dela fez uma mandinga braba pra não deixar o moço funcionar.

– Braba, do mais pior que ela engendrou! Me contaram, Dona Menina, que o bruxedo foi mesmo feito com pena de urubu ungida para o coisa-ruim em missa negra, e nos depois encovada em buraco de cemitério regado com pinga, e, assim, só pode ser desfeito pela jararaca que o oficiou.

– Engenhosa essa gente para difundir crendices!

– Pois é isso, Dona Menina, o moço não funciona!

– Ara, Cora, isso é só mesmo entupimento de cabeça fraca contaminada por esse vozerio a alardear poderes de bruxa. Diz pra mim, Cora, em antes do bruxedo, no namoro, o moço era atrevido?

– Senhora Dona Menina, acha que a Mariinha se prestava a essas sem-vergonhices?

– Não, Coralina, só queria saber como o moço era.

– Num sabemos bem das intimidades dos dois, mas a Mariinha agarante que inda é hoje virgíssima! como é de costume nessa família nossa de inocentes e tementes a Deus.

– Por suposto o moço deve ser mesmo cabeça fraca, manobrável.

– E olha, depois que a senhora tentou me fazer descrer do real dos malefícios, mas que ele continuou na sua falta de macheza, fui tomar o reparo do Padre Joaquim se tal podia ser deveras operante.

– E o que disse o velho parvo?

– Ele arengou de muito em me falando de como as bruxas podem agir com o auxílio do diabo para atanazar as gentes, e ficou parolando que alguns anjos maus foram expulsos do Céu e se tornaram os demônios, e que Deus às vezes permite que um desses satanize a vida alheia. Citou tantos santos que apregoaram a existência do maldito e de seus asseclas, São Tomás, Santo Agostinho, Santo Antão e nem num me alembro mais qual, e que todos pregaram que o cristão precisa de proteção de muita oração para afastar o mal que as servas de satanás podem causar.

– E é esse coisa que nós temos para tirar o povo da ignorância!

– E, ainda, lembrou daquele santo homem justo, o Jó, que sofreu na carne e nas posses as feridas do diabo só para reafirmar a sua fé.

– São tudo histórias velhas, Coralina, surgidas em tempos desusados onde não se entendia os modos da natureza, tinham que procurar uma causa para o mal.

– Pois a senhora persiste na sua descredulidade?

– Das coisas desse tinhoso, persisto, mas no caso do moço frouxo, há que se buscar uma causa natural, já que uma deve existir.

– Até que já procuramos, Dona Menina, o moço foi consultar os médicos, fez tudo quanto exame pedido e tá tudo nos conformes, nadinha de impedimentos.

– Sério? Parece então ser caso de razão impedida, quando a cabeça tem uma leve intenção de funcionar, mas o corpo não permite por medo, costume, inação ou por assim ser mais prazenteiro.

– Razão impedida? Já te digo, Dona Menina, que deve ser é mais a minha desrazão desimpedida, que nem sei mais onde buscar alento.

– Diga, Coralina, como que tá a vida lá dos dois?

– Nem te conto, mas com muita pena é que digo: a Mariinha só se arrasta pela casa, e a gente que todo sacrifício fez para dar pra eles uma casinha tão meiga.

– Cê tá a me dizer que vocês deram uma casa de presente pra eles?

– E num foi? Arrumamos tudo com tanto desvelo, e olha que a Mariinha, para dar mais alegria pro moço dela, até arrumou um quarto para o amigo dele, que os dois são muito inseparáveis.

– Deveras?

– E por mal dos azares, o amigo é irmão da lambisgoia que encomendou o feitiço.

– Mas que rendoso, e nem com tamanha comodidade o moço não se anima?

– Infelizmente!

– E a Mariinha faz umas artimanhas pra pôr um fogo nele?

– Hum! ela de tudo usou e já atentou, mas quando ela vai assim lampeira para o lado dele, assim mais atrevida e desvestida para ferroar o moço, ele vira a cara e diz que tem nojo da... da coisa dela.

– Nojo da coisa dela?!

– É que o feitiço faz isso assim, que ele fica enojado e foge dela!

– Que minha Virgem Mãe Santíssima me perdoe pela maledicência, mas...

– Mas o quê, Dona Menina?

– Eu tô começando a achar que você tá com toda a razão, Coralina!

– Então, acha que o moço tá mesmo enfeitiçado?

– Muito, Coralina.

– Ai, Minha Nossa Senhora nos ajude a livrar-nos do mal.

– Só que eu acho que o feitiço é muito, mas muito mais antigo.

– Ah é? em desde quando, Dona Menina?

– Provavelmente desde que o moço foi concebido.


-o-