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domingo, 3 de maio de 2020

A Deusa



A Deusa




Ai, ai, estou sem rumo. Saí da minha trilha por um golpe de vento soprado não sei de onde, que me fez voar! Estava distraída e não consegui me agarrar em nada. E ainda mais essa: aquela coisa que está ali a me vigiar com aqueles dois olhos enormes. Será que foi ela que soprou em cima de mim? Por que ela teria feito isso? Tenho medo das intenções dela. Além de tudo, parece que perdi meu olfato, não consigo sentir cheiro das minhas irmãs, nada e nada, não sei aonde ir. Corro para a direita e encontro uma barreira, volto agitada e vou para o outro lado, nada, nada, para a frente e para trás, girando feito uma doida. Acho que estou louca mesmo, e cansada.

E ela fica ali com aquele sorriso na cara de lua vigiando o meu desespero, arregalando aqueles dois faróis enormes a observar os meus passinhos sem rumo, parece até que estou sob a luz de dois sóis que controlam tudo o que minhas patinhas confusas podem fazer. E o sorriso dela? Será que ela sente alegria por me ver atrapalhada e alucinada?

E mais essa agora: água! Um lago enorme! Será que a trilha está do outro lado, além da outra margem? Será que consigo rodeá-lo? Acho que vou tentar. Isso mesmo, vamos lá. Mas só vejo água, água, água. Ai, que cansaço! E ela fica ali com as duas mãos segurando a cabeça, olhando-me a tentar vencer esta barreira de água. Eu grito para ela: bruxa malvada! vê se me deixa em paz! Ela nem se dá conta, acho que minha vozinha é pouca para fazer com que ela me escute.

Quando as anciãs nos ensinavam sobre os deuses, avisavam que devíamos afastar-nos deles, pois era impossível entender as suas ações e os seus motivos. Eles são tão grandes e poderosos. E perigosos! Por isto era preciso que ficássemos unidas, bem juntinhas, como proteção de suas maldades. Mas agora estou aqui sozinha, acompanhada só pelo meu medo, sujeita aos caprichos dessa monstra horrível, que não tem nenhuma pena de mim.
Ai! Ela tirou uma das mãos de apoio do rosto, para que será? Uma folha! Ela pôs uma folha sobre a água. O que será que ela quer? Acho que devo me arriscar para tentar atravessar o lago. Tenho muito medo, mas não tenho outra opção. Lá vou eu, que a Senhora Mãe das formigas me ajude.

Está soprando um vento, estou atravessando o lago. É ela que está soprando, como se fosse a deusa dos ares, será que quer me derrubar na água? O vento empurra a folha e me leva sobre o lago. Estou com medo! Não sei para onde sou levada. É ela que dirige a folha, para onde? Meu destino está selado pela vontade dela. Nada posso fazer senão deixar-me levar.

Ai, ai, cuidado! Oh, ela me levou para a margem do lago, vou deixar a folha. Ela pôs uma barreira deste lado, quer que eu vá para lá? Tenho medo, para onde? Tento voltar, ela não deixa, tenho que seguir para onde ela quer. Ai, espero que com a benção de minha mãezinha eu saia desta enrascada.

Oh, que alegria! Finalmente de volta a minha trilha. Devo reconhecer, estava confusa, e errada!

Obrigada, deusa!

- Júlia! Júlia! Onde você está?

- Aqui, mamãe, ajudando a formiguinha.

-o-

domingo, 3 de novembro de 2019

Trili



Trili






Trili terminou o seu canto. Estivera tão concentrado em fazer as mais perfeitas notas que não percebera a chegada dela. Ela era inebriante. Seu corpo era coberto de penas verdes, do verde tom aconchegante que o atraía a querer passear o seu bico nele. Ao redor do seu pescoço ela tinha peninhas amarelas que lhe davam um brilho do sol primeiro da manhã. Ela lhe sorriu soltando em seu canto as mesmas notas que ele entoara.

Trili também tinha o corpo coberto de penas verdes e suas asas eram manchadas com penas negras, que lhe davam muita força para voar. E ali mesmo, protegidos por aquela enorme massa de folhas daquela imensa árvore, fizeram seu ninho. Cuidaram dos filhotes que cresceram sadios e soltaram suas asas para o mundo. Enquanto ela se preocupava em cuidar do ninho e dos pequeninos, Trili cuidava de deixar a dispensa do ninho sempre abastecida, sem nada faltar, percorrendo grandes distâncias com suas asas fortes para trazer os melhores grãos. Sem a algazarra dos filhotes idos, os dois apaixonados trocavam beijinhos quando Trili voltava para casa trazendo alimento. Ela nunca mais cuidou de buscar comida, desaprendeu onde encontrá-la, deixando a tarefa para Trili.

A primeira vez em que Trili voltou para casa e não a encontrou, nasceu-lhe uma pena azul na asa direita. Logo ela voltou e os carinhos foram renovados.

Em um outro dia, Trili a viu a cuidar das penas amarelas ao redor do seu pescoço, dando-lhes espaço para crescerem, retirando as pequeninas penas verdes que por ali nasciam, e, em seguida, ela alçou voo para um de seus passeios, que se tornaram costumeiros. Outra pena azul apareceu na sua outra asa, mas ele não se desleixava de seu trabalho.

Pouco a pouco a dispensa do ninho se enriquecia, as penas azuis de Trili foram aparecendo sobre as verdes, as penas amarelas dela brilhavam sempre mais como o Sol. As melodias que ele cantava não tinham mais aquelas notas límpidas de amor, que foram enrouquecendo à medida que as penas azuis tomavam o seu corpo. Ela chegava de volta ao ninho, dispensava-lhe um quê de atenção, forrava o papo, e debruçava-se a cuidar das suas penas amarelas.

Um dia Trili percebeu que seu corpo já estava quase totalmente azul. Isto o fez lançar-se com mais força a encher a sua dispensa. Quando ela voltou ao ninho em busca da refeição, ele a viu em toda o seu esplendor amarelo, nada mais havia nela do verde de que ele se enamorara. Outra pena azul nasceu e Trili viu a sua última pena verde esvoaçando a cair lentamente, sem amparo de nenhum vento. Ele deixou-se cair do ninho, usando o resto de força das suas asas para pousar no chão. E ali ficou sem mais voar.

Quando ela voltou para o ninho, foi até a dispensa e avaliou-a satisfeita. Cuidou de ajeitar caprichosamente suas penas amarelas e voou para o seu passeio.

-o-

domingo, 16 de junho de 2019

Voar é com os Besouros?



Voar é com os Besouros?




Esta história foi encontrada no livro Coleoptera Scarabaeidae Historia do erudito professor, biólogo e historiador J. B. Contrus, da qual fizemos esta tradução diretamente da língua coleopteriana. Pedimos desculpas se inapropriadas soluções de transcrição foram dadas, mas os poucos estudos existentes dessa linguagem podem nos ter induzido a tais interpretações.

I

Nos anais das obras do Criador, os seres por Ele mais apreciados, sem dúvida, são os coleópteros, esses pequeninos popularmente conhecidos como besouros. Se a classe Insecta é a que mais domina o planeta, sendo a de maior quantidade de espécies e formas, nesta, a ordem Coleoptera reina absoluta, perfazendo quase a metade de toda a classe.

Na história antiga da família Scarabaeidae, objeto de nosso estudo, encontramos nos anais do Egito a elevação dos escaravelhos aos céus, na figura do deus Khepri, responsável pelo movimento do Sol na abóbada celeste, prenunciando a cada dia a ressureição da vida. Imagens de escaravelhos foram encontradas em diversas tumbas para garantir o renascimento dos que nelas foram depositados. A associação do escaravelho ao movimento solar foi feita devido ao seu peculiar processo de rolar uma bola de excremento para o seu ninho, para fornecer, após a eclosão, a alimentação das larvas, refazendo o ciclo da vida; devido a esse peculiar hábito, alguns animais, jocosamente, apelidaram-no de rola-bosta.

A caracterização dos coleópteros é feita pela existência das asas duras, os élitros, que foram utilizados para batizar o nome da ordem: de acordo com o grego, foi grafado pela junção das palavras koleos, significando estojo, e pteron, asa; traduzindo assim o nome como um estojo de asas. Dentro do estojo, as asas reais, que são utilizadas para o voo, ficam protegidas quando em repouso.

Durante o seu ciclo de vida, os besouros passam por quatro fases: ovo, larva, pupa e adulta, mudando suas formas. Na fase adulta, possuem um exoesqueleto, que se divide em protórax, parte anterior; mesotórax, parte do meio; e o metatórax, parte posterior. Em algumas famílias, no protórax existe uma espécie de chifre, que caracteriza os besouros-de-chifre ou besouros-rinocerontes.

II

Nas escolas eruditas dos coleópteros, discutiu-se por muitas eras se a anatomia dos besouros seria ou não apropriada ao voo, pois eles seriam pesados demais para serem sustentados por asas aparentemente frágeis, que proporcionam um voo desajeitado. Nos bancos escolares primários, aulas de decolagem eram exaustivamente ensinadas como uma tentativa para aliviar as constantes dores de cabeça, que os desajeitados sofriam ao partirem erraticamente para voos inábeis de encontro a obstáculos.

Certos autores alegavam que as barreiras, que surgiam inopinadamente à frente dos besouros a voar, seriam emanações projetadas pelo deus Rá-Stero, que não queria que os besouros se lançassem aos ares, pois esse diletantismo tornava-os descuidados do seu culto. Outros alegavam que se o deus não queria que os besouros voassem, não deveria ter-lhes dado asas, e que os choques seriam consequência do desajuste das antenas pela luz, mas isto poderia ser resolvido através das aulas de instrução.

No meio dessas discussões entre a ciência e a religião, os besouros-rinocerontes, muito sensíveis aos choques nos seus chifres, aferraram-se aos preceitos religiosos que tentavam impor a todo o reino coleóptero, a princípio, pregando suas ideias pelas igrejas e praças; posteriormente, tomando o poder político através da força, instituindo um governo ditatorial.

Como primeira medida, as aulas de voo foram banidas das escolas, deixando grassar a desorientação entre os infantes, pretendendo, assim, desestimular os voos com o aumento das dores de cabeça, e dos chifres. Como o processo não foi bem recebido, pois preferia-se uma dor de cabeça à perda da liberdade de um voo aprazível, novas medidas foram baixadas, proibindo completamente as viagens aéreas.

Para inibir em definitivo a prática dos voos, baixou-se uma lei obrigando os pais a colar os élitros dos besourinhos ao metatórax com uma substância que, presumivelmente, duraria por toda a vida. Assim, as asas proporcionadoras da capacidade de voar ficariam encerradas definitivamente dentro do estojo, cuja tampa ficava vedada. Com a ocultação, as asas em desuso seriam esquecidas, e, em pouquíssimas gerações, nenhum besouro mais saberia que um dia seus congêneres puderam voar. E o culto ao deus Rá-Stero cresceu em todo o reino, enriquecendo os templos e seus sacerdotes.

E os besouros-rinocerontes se impuseram no reino terrestre dos coleópteros apagando todos os registros históricos que falavam de voo e dos apêndices utilizados para voar. Proibiu-se também aos artistas, sob pena de morte, a alusão aos besouros no céu, pois este era domínio de Rá-Stero. Os élitros ficaram completamente fechados por várias gerações.

III

Desde muito jovem eu sentia uma espécie de calafrio que me nascia nas laterais do protórax, causando uma sensação de querer expandir o meu corpo para além do meu esqueleto externo. Quando relatei aos meus pais aquela pressão, que me deixava inquieto, disseram-me que era muito normal nos jovens aquelas sensações, e que logo eu me acostumaria e não mais as perceberia. Na escola me foi dito que eram reflexos de perdidas habilidades que a evolução dos meus órgãos não eliminara completamente. Não recebi naturalmente as explicações, e os calafrios me acompanharam por muito tempo; não me acostumei, a curiosidade só cresceu.

Por uma daquelas coincidências que nem parecem tais, ajudei um mendigo, velhinho, que encontrei arrastando-se estropiado por um atalho pouco conhecido que eu usava regularmente para economizar tempo e energia. A parte superior de seu exoesqueleto estava destruída, em pedaços, pois ele tinha sido atropelado por um pedregulho. Com os meus cuidados, após retirados os pedaços dilacerados, asas brancas distenderam-se. Ele as agitava freneticamente. Perguntei-lhe o que era aquilo, e ele:

– Então era verdade?

– O que era verdade?

– As histórias que ouvi de meu avô, que dentro de nossos esqueletos existiam asas escondidas, que os antigos escaravelhos podiam usar para voar.

– Voar?!

– Sim, voar. Meu avô me falou disso, mas eu achei que era apenas uma lenda. Mas, eu posso, eu sinto que posso...

Ele agitou ainda mais aquelas asas membranosas e elevou-se bruscamente iniciando um voo, infelizmente curto, pois chocou-se contra uma árvore. Acudi-o novamente, porém o esforço ou o choque lhe foi fatal, mas ainda o ouvi murmurar debilmente:

– Que bom que era verdade!

IV

Embora não se ouvisse mais falar de escaravelhos voadores, compreendi que aquele era um assunto proibido e, enquanto fazia exercícios para liberar minhas asas, mantive em segredo o que tive a alegria de descobrir. Isolava-me em lugares ermos e usava o poder de minha vontade para aumentar aqueles calafrios que eu sentia. Fui recompensado pelos meus esforços quando os meus élitros subiram e distenderam-se, causando-me uma sensação de poder e leveza que me deixaram em um estado de embriaguez pelo excesso de felicidade.

Voar não foi simplesmente um ato de pura vontade, ainda tive que fazer muitos esforços para aprender a manipular as minhas asas; tombos e muitas dores não minaram a minha vontade, jogava-me de lugares mais altos e, pouco a pouco, fui atingindo maiores distâncias. Khepri ressuscitara, eu era como um deus.

Revelei meu segredo, inicialmente, para os meus companheiros de escola. Criei um grupo para ensinar os exercícios, e o sucesso logo espalhou a novidade para sempre mais adeptos, foi contagiante. As autoridades repressoras não tiveram tempo para reagir, talvez por ignorância, pois não se podia mais imaginar que escaravelhos pudessem voar. Quando perceberam, éramos uma multidão de besouros voadores. Os sacerdotes de Rá-Stero temeram aquela revoada e pediram aos governantes que a reprimisse, mas as ameaças que fizeram às famílias vieram tarde, a nossa rápida reação sufocou-as. Organizamos uma esquadrilha de jovens besouros-rinocerontes que levantou voo carregando, espetadas em seus chifres, as bolinhas de excremento, que foram despejadas sobre os quartéis, templos e ninhos dos opressores.

Éramos, sim, pesados e desajeitados, sem os predicados aerodinâmicos para voar, mas talvez por um milagre de Khepri, Rá-Stero foi destituído, podíamos dominar os céus.

E, sim, voar é com os besouros!

-o-





terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Na Figueira



Na Figueira




Caraco estendeu as suas antenas espreguiçando-se:  – Ah, que preguiça, que sono bom. Pôs a cabeça para fora, a lua brilholhava no céu alto. – Ah, que preguiça, já serão horas de mastigar? Procurou o relógio no bolso para saber do adiantado da hora, só então se lembrou que não tinha bolso nem relógio. Mas devia ser hora, pois sentia como se na sua casinha pudesse caber outro ele, de tão esmagriçado, a concha larga; de tanta fome seria capaz de comer uma árvore inteira! Inclinou a cabeça, encaracolou-se todo, depois se esticou e lá foi ao léu a procurar as folhas que mais gostava para empaturrar-se, sem destino, no caminho traçado pelo seu leeento rastro brilhante.

– Ah, bom seria parar debaixo de uma goiabeira, estou a morrer de saudade de um jantar de uma goiabada de folhas.

Caraco era um andatrilho. Onde pudesse e quisesse estacionar sua concha, deixava-se tombar, de preferência onde o cheirinho de folhas tenras agitasse as suas antenas. Morava em todo lugar e não morava em deslugar nenhum.

– Cansei, andei tanto, devo ter cruzado uma lonjuritude de dez metros, vou abarracar-me aqui debaixo desta figueira.

Em cima, sobre uma folha da figueira, Lagata interrompeu a sua comilança para observar o caracol que abocanhava as folhas decaídas no chão. Esqueceu-se da sua gulodice atraída por um não sei o quê que bisbilhotava nos seus meandros dos miolos. Sentiu-se infeliz presa naquele ramo de figueira, sem novos horizontes a conhecer.

– Que belo ele é desfilando com sua casa por todo o jardim, que bom seria fazer morada onde se quisesse - no meio de tanta tristeza, caiu no sono.

Quando acordou, escarafunchou o chão em busca do belo caracol e não o encontrou mais. Suspirou. O bichinho do amor havia penetrado em sua pele novinha e lá fizera morada. Contou as suas saudades para uma formiga, sua velha conhecida, e pediu-lhe que escrevesse em uma folha uma carta de amor. A formiga, compadecida e prestimosa, usou os seus ferrões para picotar uma folha com as letras mais bonitas.

– CEP? - pediu a formiga.

– Oh, como fazer? se ele não tinha morada fixa?

Vendo a aflição de Lagata, Dona Joaninha se ofereceu, como boa mensageira que era, para procurar o andatrilho. Mesmo com suas asas ligeiras, demorou alguns dias para encontrar o lento nômade a dorminhocar debaixo de uma goiabeira. A carta lhe foi entregue, e, para dizer a verdade, causou-lhe comoção. Pôs-se a caminho para voltar à figueira, sem pressa, que não a sabia cultivar. Bom, vamos ser mais justos, não a podia cultivar.

Muitos dias depois, Caraco chegou à figueira onde morava sua esperançosa apaixonada. Esperou pacientemente que ela se revelasse. E nada aconteceu. A formiga que picotara a carta viu o caracol perdido a olhar para o alto e lhe contou:

– Ela esperou tanto, e a tristeza a fez recolher-se em um casulo. Vê, ali em cima? mas agora ele está vazio, pois ela está voando ali – ela apontou para uma borboleta – e em sua nova forma ela nem mais se lembra que um dia sentiu tristeza por viver presa em um galho de figueira, acho que ela não tem recordações de sua vida passada, nem de seu antigo amor.

E aquele bichinho que um dia picou a lagarta, fez ponto nas antenas do caracol:

– Que belo seria voar ao seu lado!

-o-

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Xiquinho



Xiquinho




– Renato, você conhece um tal Xiquinho?

– Xiquinho? Que Xiquinho?

– Esse que vai fazer aniversário.

– De que você está falando, Celinha?

– Deste convite que recebemos para uma festa na casa do Marco, é aniversário de um tal Xiquinho.

– Deixe-me ver.




– Xiquinho, o que será isso?

– O quê não, Renato, quem?

– Sei não, não parece que o tal Xiquinho seja realmente uma criança.

– Vou ligar para a Rosinha e perguntar se ela sabe de alguma coisa.

E faz a ligação:

– Rosinha, tudo bem?

– Tudo bem, e aí?

– Hum, pois é, recebi um convite estranho...

– Ah, você também?

– Você sabe quem é esse Xiquinho?

– Sei nada. Fiquei muito curiosa e tentei falar com o Marco...

– E aí?

– Não consegui. O telefone tocou, tocou até desligar.

– Hum, estou morrendo de curiosidade, mas o jeito mesmo será aguentar até amanhã. Tchau.

No dia seguinte, a curiosidade aguçou a pontualidade. Chegando na casa do Marco, já o encontraram à porta.

– Olá, gente.

– Olá. Que estranho, não esperava encontrá-los por aqui.

– Estranho? Acha que deixaríamos de atender ao seu convite?

– Convite? Ah, então vocês também receberam um?

– Recebemos, ora! E estamos doidos para conhecer o Xiquinho.

– Nós todos também estamos...

– Como assim, se nos mandou este convite para a festa do tal?

– Não temos nenhuma ideia de onde veio isso, estávamos na casa do vovô e também o recebemos. Acabamos de chegar para tentar entender que tipo de brincadeira poderia ser.

– Quer dizer...

– Que sabemos tanto quanto vocês. Bom, vamos entrar para podermos entender o mistério, se é que algum existe.

A sala estava primorosamente preparada para uma festa com os mesmos motivos do convite. Gravuras com os personagens folclóricos espalhadas pelas paredes. Uma mesa ricamente coberta por doces e um bolo de aniversário que parecia proibir qualquer regime. Os pais do Marquinho ficaram petrificados, com expressões de assombro estampadas nos rostos. Em seguida, irromperam pela casa à procura de quem estava a lhes preparar tantas surpresas:

Meu Deus, quem invadiu nossa casa?

Vasculharam e conferiram todos os cômodos, mas nada havia sumido e não havia ninguém. Assustados, mas um pouco mais calmos por nada de mais grave terem percebido, além da suspeita invasão, sentaram-se para respirar. E, logo, os demais convidados foram chegando, e entre abraços e surpresas o clima de festa foi instalando-se.

Um vento irrompeu pela casa e logo era um redemoinho, não permitindo a visão de nada; em um instante desapareceu, tão rápido quanto surgira, e ninguém percebeu que os adultos haviam desaparecido. Um bando de borboletas irrompeu pela sala maravilhando as crianças. Uma voz de soprano foi ouvida cantando uma melodia que entorpeceu a todos; quando abriram novamente os olhos, lá estavam todos os personagens do convite entre as crianças: rindo, fazendo caretas, dançando, brincando. As crianças, sem nenhum receio, estavam entregues às brincadeiras e à curiosidade de reconhecer os diversos tipos que conheciam apenas de ouvir as histórias.

O curupira deixava a todos admirados com seu jeito de andar: como se para ir a algum lugar estivesse na realidade voltando – disse o Pedrinho. O Renato ficou tontinho quando ficou olhando para os seus pés enquanto ele corria.

O caipora oferecia, a quem quisesse arriscar-se, um passeio na garupa do seu caititu, do qual ele nunca desmontava.

O boitatá a princípio causou medo, mas quando explicou que seu fogo só queimava a quem causava danos às árvores e aos animais da floresta, pôs-se a brincar de enrolar os seus dois metros no pescoço dos mais corajosos.

A mula-sem-cabeça deixou o seu fogo apagado para não assustar as crianças e levava a passeio quem quisesse experimentar o seu trote.

A cuca só cuidava de encher a sua boca de jacaré com os salgadinhos que devia servir, mas comia tudo. Era ela mesma quem os fazia, com ingredientes retirados dos armários que existiam em sua imaginação.

No meio das brincadeiras, de repente ouviu-se um assovio longo, toda a algazarra parou, e todos se voltaram para a mesa, e lá estava o Xiquinho, com sua carapuça vermelha, fumando um cachimbo sem fumo e sem fogo. Quando tudo era silêncio, ele falou:

Meus amiguinhos, estou muito feliz que tenham vindo comemorar comigo os meus cinco anos. Bom, na verdade, não sou tão novinho assim, mas eu só conto os meus anos quando posso fazer uma festa bem bacana como esta. Estamos felizes em comemorar a morte dos estilingues, essa arma que de brincadeira nada tem para os passarinhos e os pequenos animais, que voltaram para o convívio com vocês nas cidades, onde a comida é farta. Nós, os protetores, estamos um tanto inativos nas florestas e nos campos, e resolvemos assumir novas funções: a alegria das crianças, não mais apenas nas histórias, mas com festas e diversão. Viva a vida de alegria!

E o Xiquinho se misturou com as crianças fazendo das suas brincadeiras: amarrando as tranças da Glorinha e os cadarços dos tênis do Marquinho, que caiu sem consequências além dos risos das crianças.

O Marquinho quis devolver a gozação, e enquanto o Xiquinho estava distraído a ensinar o Pedrinho a andar com uma perna só, arrancou a carapuça vermelha do Xiquinho, e o saci saiu a pular atrás dele. A criançada toda entrou na brincadeira a jogar a carapuça de um para o outro, deixando o Xiquinho a tentar pegá-la, pois sem sua carapuça um saci não pode usar seus poderes de mágica.

Acho que o Xiquinho ficou exausto, pois quando finalmente agarrou sua carapuça, todos os personagens sumiram, restando apenas as crianças. Os adultos reapareceram e nem perceberam que haviam perdido o melhor da festa, que seguiu noite adentro.


-o-


sábado, 26 de janeiro de 2019

O Meu Amigo Tubarão



O Meu Amigo Tubarão


Foi minha mãe que me contou o princípio da minha história: éramos milhares de irmãos vivendo alegremente em um pequeno mundo onde corais criavam as condições para nos protegermos; e, assim, podíamos crescer felizes, brincando alegremente nas proximidades. Ao menor sinal de perigo, corríamos para abrigar-nos entre os corais e as algas.  


Naquele pequeno paraíso convivíamos com muitas outras espécies arriscando-nos em pequenas aventuras, até que um dia nossas brincadeiras foram bruscamente interrompidas por uma boca enorme que levou muitos dos meus irmãozinhos. Eu fui empurrado por um turbilhão que me ajudou a escapar da boca do monstro, e mais tarde percebi que aquilo devia ter sido uma baleia. Não sei se outros irmãos escaparam, pode ser que se tenham perdido por este mar imenso, mas certamente fiquei sozinho e voltei aos corais para o encontro de minha mãe. Ela estava cansada após tantos esforços para criar-nos e, logo, deixou-me.

Apenas na companhia dos peixes que ali viviam, sentia-me sozinho. Aproximei-me de um pequeno peixe convidando-o a brincar comigo, e nasceu entre nós uma grande amizade. Brincávamos de esconder entre os corais, apostávamos corridas e íamos crescendo. Éramos inseparáveis. Em um momento que descansávamos sob uma colorida formação de corais, meu companheiro falou:

– É muito bom ter um grande amigo. A nossa amizade deve ser preservada a qualquer custo.

– Também acho – respondi – e espero podermos viver para sempre a nossa amizade.

– Para que ela seja duradoura, é necessário que façamos sacrifício para o bem do amigo, não acha?

– Com certeza!

– Então, seria bom que você pudesse mostrar-me ser esse grande amigo que você diz, oferecendo-me um braço seu. Como você tem tantos, não lhe faria falta.

– ?!

Achei muito estranho aquele pedido, mas pela causa de nossa amizade fiquei a pensar: é bem certo que jamais me passaria pela cabeça pedir-lhe qualquer coisa do gênero, mas como eu tenho a capacidade de poder descartar um dos meus braços, que depois renasce, não seria muito sacrifício fazer-lhe a vontade. Concordei. Soltei um dos meus braços que ele devorou com satisfação e jurou-me amizade eterna.

Passados alguns dias de muitas brincadeiras, voltou a fazer-me o mesmo pedido. Meu braço já estava recomposto, mas não gostei do período sem ele, pois fiquei com dificuldade para agarrar bem minha comida. Para não perder a amizade dele, pensei num estratagema.

– Está bem, vou ceder-lhe novamente um braço, mas desta vez vou temperá-lo com ervas para que você possa apreciá-lo mais.

Eu já sabia que a sua visão não era das melhores; além disso, ele não sabia contar além do três; portanto, ele não conseguiria saber se me faltaria um dos meus dez braços. Peguei um talo de alga e lhe passei. Ele comeu reclamando que não gostou muito do tempero de ervas, e que ficou um pouco aguado.

Eu já estava desconfiando que meu amigo deveria ser um tubarão, mas continuei a curtir a sua amizade. Não foi sem custo, pois ele voltou novamente a pedir-me uma prova, é claro, mais um simples bracinho. E eu:

– Como você não gostou das ervas, vou preparar desta vez com pólipos de corais.

Passei-lhe um pedaço de coral que ele devorou com a gulodice de sempre, dizendo que aquele estava bem melhor, mais crocante, e, que no futuro, ele gostaria que eu preparasse sempre daquela forma.
Agora eu tinha certeza que meu amigo era um tubarão e passei a esquivar-me dele, e ele foi aventurar-se por outras águas.

Muito tempo se passou e eu me tornei uma lula adulta. Tinha-me afeiçoado àquele lugar de minha infância e continuava a morar ali. Eu me acostumara a ficar na sombra dos corais a descansar, e foi assim que certo dia percebi que o meu velho amigo voltara. Ele só podia ver as pontas dos meus dois tentáculos maiores, mas ele logo reconheceu o seu velho amigo, talvez devido a seu apurado olfato.

– Olá, meu velho amigo, como estás? – ele se aproximou dizendo.

– Bem, muito bem – respondi sem mostrar-me.

– Senti muitas saudades, por isso resolvi dar uma passadinha por aqui para renovar nossa amizade.

– E com certeza vai querer que eu lhe demonstre a minha com um dos meus braços.

–  Bom, como não vai fazer-lhe muita falta, eu apreciaria.

– Está bem, com muito prazer.

E fui saindo do meu esconderijo devagar, estendo-lhe os meus tentáculos. Dei-lhe um abraço envolvendo-os ao redor de seu corpo perto das barbatanas. Eu o prendi sem deixar-lhe nenhuma possibilidade para escapar. Ele jamais se recobrou do susto de perceber que seu velho amigo era na verdade uma lula gigante.

Eu saboreei o gosto da amizade do meu querido tubarão, e era um pouco amargo.

-o-

sábado, 29 de setembro de 2018

Agkhar, o mantenedor do fogo


Agkhar, o mantenedor do fogo




                                                                                                          Ninguém é livre senão Zeus.
                                                                                                                  (Ésquilo, Prometeu Acorrentado)

As crianças sentadas à sombra fresca de uma grande árvore ouviam atentamente as histórias contadas pelo grande ancião da tribo. O velho sábio falava da luta terrível que acontecera no céu entre os deuses, quando tempestades retumbaram trovões e raios caíram na terra dizimando florestas, explodindo as montanhas que despejavam lava quente sobre os vales e enlouquecendo os rios que ferviam e assolavam as terras baixas. Depois de muita destruição, Zeus se levantou como o deus supremo da justiça, e todos os rios, vales e montes tomaram seus lugares.

Prometeu e seu irmão Epimeteu, dois Titãs, dois dos gigantes que faziam parte da corte dos deuses, foram por eles encarregados de fazer do barro as criaturas para povoar o paraíso que foi dado como dádiva aos homens.

O pequeno Agkhar continha a respiração seguindo os gestos agitados do velho que socava o ar para simular os raios dos deuses, e quando a paz se estabeleceu, a noite já estava anunciando-se; embora olhasse furtivamente medindo os últimos clarões do dia, desejoso já de correr para a segurança da caverna, levantou o dedo pedindo a palavra. O ancião, embora um tanto contrariado pela interrupção tardia, concedeu-a:  

– Se vivemos em um paraíso, por que temos que tremer de medo das feras que nos forçam a viver na escuridão da caverna como as formigas?

– Hum! Somos felizes por termos recebido a proteção da caverna, os deuses nos deram a graça da vida e o domínio sobre toda a beleza deste mundo maravilhoso, tudo foi posto em seu devido lugar para o nosso maior bem.

– Mas seria muito melhor se não vivêssemos com tanto medo, tendo que deixar guardas na entrada da caverna para proteger-nos.

– Agora, chega! todos para a caverna!

Com o cair da noite, nada restava a fazer senão entregar-se à escuridão esperando que os deuses não estivessem zangados e que as feras não ficassem agitadas pelo fome.

Atento àquela conversa, Prometeu compadeceu-se do medo do menino, e, resolvido a ajudar os homens, pediu uma audiência ao deus supremo:

– Senhor dos Raios, posso estar sendo ingênuo, mas por que mantendes os homens na escuridão, sofrendo os horrores do medo e da ignorância?

– E por que te metes nos meus assuntos? Que te importam os homens?

– Humildemente, Senhor, tenho por eles enorme carinho devido ao cuidado que eu e meu irmão tivemos na sua criação, por isto peço que desvieis um olhar para a Terra para que possais perceber a angústia dos homens.

– E ainda insistes? O que chamas de ignorância é apenas inocência, e isto é o que lhes permite serem felizes, sem conhecerem as doenças das preocupações. E nada quero mais 
ouvir deste assunto!

Prometeu não se contentou e ficou a pensar no medo daquele menino no interior de uma caverna úmida e escura. Tanto e tanto o pensamento o atormentou que decidiu não se submeter à proibição de não se meter no assunto. Subiu ao cimo do monte Olimpo, no seu lado oriental, para chegar mais próximo ao carro de Apolo, quando este preparava os cavalos para cruzar o céu levando os raios dourados a inundar de vida o dia, e acendeu uma tocha no fogo sagrado do sol.

***

Apolo já estava a chegar no extremo ocidental do céu. Agkhar estava com os seus amigos na frente da caverna a brincar no jogo que todos mais gostavam: a caça ao tigre, uma inconsciente preparação para suas futuras obrigações para a sobrevivência. No meio da perseguição à perigosa presa, viu um gigante descer a montanha trazendo nas mãos um vento da cor do sol amarrado na ponta de um bastão. Com o grito de espanto que emitiu, todos correram para a escuridão da caverna.

Os meninos gritaram de pavor quando o gigante parou na porta da caverna elevando a tocha sobre a sua cabeça. A luz invadiu a escuridão que reinava na caverna e Aghkar pôde ver ao seu lado o velho sábio, cujo rosto era uma máscara de terror, apoiado na parede de pedra; nos olhos dele ele pôde perceber a imagem da chama, na parede a sua sombra projetada fez em sua mente clarear a imagem que o sol deixava, e ele compreendeu. Juntando a coragem que não lhe faltava com a curiosidade, desvencilhou-se do velho que agarrara os seus braços e acercou-se do gigante, que se apresentou:

– Não tenham medo, sou Prometeu, desci do monte Olimpo para trazer-lhes este presente – dizendo isto, estendeu a tocha.

Embora ainda muito temeroso, a curiosidade fez a mão de Agkhar aproximar-se da tocha, retirando-a rapidamente.

– É quente.

– Sim, é quente, é preciso ter cuidado para não tocar a chama, mas trará muita comodidade a vocês.

– Além de iluminar a caverna, para que mais serve?

O gigante pediu que os meninos juntassem galhos e ateou-lhes o fogo, fazendo uma grande fogueira. Usando uma vara, espetou pedaços de carne de uma corça que os caçadores haviam acabado de trazer, suspendeu-a sobre o fogo, e quando o cheiro da carne assada já incentivava a fome, chamou Agkhar e lhe disse que provasse.

– Uau! Que gosto bom! – o grito de satisfação do menino ecoou por toda a caverna.

Todos se precipitaram a disputar um pedaço e muitas línguas ansiosas ficaram chamuscadas pela gulodice. E os homens, pela primeira vez, comeram como os deuses.

Prometeu ensinou Agkhar a cuidar do fogo para que não se apagasse, criando a primeira profissão social da humanidade, o mantenedor do fogo, que deveria cuidar permanentemente de mantê-lo aceso, alimentando-o quando necessário e não permitindo que escapasse do recinto da fogueira e, assim, causasse um acidental incêndio, e para que ele pudesse exercer sua função, os demais deviam suprir as suas necessidades.

Certa vez, quando tinha um cacho de bananas nas mãos, uma delas caiu na fogueira. Aghkar retirou-a do meio das brasas, descascou-a, e provando-a descobriu uma surpreendente delícia. Um balãozinho com uma tocha surgiu em sua mente, e ele teve a feliz ideia de inventar a sobremesa. Tendo ensinado a todos a receita, teve o seu nome gravado nos marcos de pedra para toda a posteridade como benfeitor da humanidade.

O fogo foi um grande propulsor da inteligência humana, e Agkhar continuou a descobrir muitas outras utilidades para o presente de Prometeu.

***

Passados muitos anos, visto que para os deuses o tempo anda mais rápido que na escala humana, um dia, distraído, Zeus deixou o olhar descer até a terra e assustou-se com o que viu, pois seu olhar se perdeu pelo futuro e ele viu tudo se transformando: o homem saiu das cavernas construindo suas próprias casas, o fogo estava sendo utilizado para fabricar espadas, arados e muitas outras novidades. Ele se enfureceu ao ver o homem usurpando os privilégios dos deuses e pensou em mandar um dilúvio para acabar com a vida humana, mas a raiva passou, pois ele pensou que poderia divertir-se a assistir a vida na terra transformar-se em um inferno em meio às guerras, disputas e invejas, mas não perdoou a insubordinação de Prometeu, chamou outros Titãs e mandou prendê-lo, amarrando-o com fortes cadeias ao pico de uma montanha, onde ele teria que permanecer de pé, sem dobrar os joelhos e sem dormir. Achando pouco o castigo, determinou que uma águia enorme voasse até ele todos os dias e comesse o seu fígado, que, por ser ele imortal, à noite regenerava.

Prometeu suportou o castigo sem degradar-se perante seu opressor, embora suas dores fossem tão intensas que seus gritos ecoavam por toda a Terra, apavorando os homens, e as suas lágrimas caíam em forma de chuva.

Agkhar ouvia os gritos angustiado e propôs-se a ajudar o seu benfeitor. Embora uma lenda antiga afirme que foi o grande guerreiro Hércules que livrou Prometeu das correntes, a história que o ancião contava nas rodas noturnas ao redor da fogueira era outra:

Desde que forjara os grilhões que prendiam Prometeu, Hefesto, deus das profundezas, sentia-se mal com o terrível trabalho que lhe fora imposto por Zeus, remoendo remorsos pela crueldade que ajudara a realizar. Para distrair-se de seus tormentos, acostumou-se a subir do seu reino para longos passeios sobre a superfície, admirando o trabalho dos homens. A perícia com que Agkhar usava o fogo para moldar o ferro levou-o a ensinar-lhe novas técnicas, e, astuciosamente, ajudá-lo a forjar as ferramentas que lhe permitiriam liberar o infeliz gigante.

Quando obteve os utensílios necessários, Agkhar subiu a montanha com um grupo de amigos. Atingido o cume onde Prometeu sofria e iniciados os trabalhos para quebrar as grossas correntes, foram atacados pela águia que não queria perder sua presa. Na dura batalha contra as garras e o bico da ave feroz, mais de um infeliz foi atirado montanha abaixo, mas as flechas com pontas de ferro conseguiram abatê-la e o trabalho pôde, enfim, ser terminado: Prometeu foi libertado de seu injusto castigo.

***

Zeus não ficou satisfeito com o novo ato de desobediência a sua vontade, e para vingar-se dos homens concebeu um fogo mais forte que o mais poderoso de seus raios. Convocou todos os deuses a contribuírem para forjar uma criatura para mandar de presente a Prometeu e a seu irmão Epimeteu, que apenas tinha com a história o fato de ter participado da criação da humanidade.

Os deuses dotaram a criatura com muitos encantos: Afrodite deu-lhe a beleza; Apolo, as artes; Hermes, a malícia, e tornando-a assim irresistível, deram-lhe o nome de Pandora. O próprio Zeus ficou desejoso de guardá-la para si, o que teria feito não fossem os olhares terríveis de sua esposa, Hera, uma deusa ciumenta e vingativa.

Como Prometeu não aceitaria um presente do vingativo Zeus, este entregou à mulher uma caixa pedindo-lhe que a levasse como presente a Epimeteu. Pandora ficou confusa, pois pensava que ela era o presente:

– Afinal, quem é o presente, eu ou a caixa?

– Não pense, – Zeus replicou maliciosamente – apenas leve a caixa e entregue-a, mas não queira abri-la em hipótese alguma, pois muitas desgraças acontecerão, ouviu? De maneira alguma ouse abrir a caixa, você está proibida de fazê-lo.

E Pandora cumpriu a ordem de Zeus indo apresentar-se a Epimeteu, que, embora advertido por Prometeu dos perigos que as armadilhas do astucioso deus poderiam representar, recebeu-a, e, deslumbrado com seus encantos, alojou-a em sua morada em uma dependência adornada com todo o requinte que podia proporcionar-lhe. Mal se viu sozinha em seu quarto, a curiosidade de Pandora, que a estava deixando sem fôlego, levou-a a abrir a caixa.

Imediatamente, espalhou-se pela Terra o conteúdo da caixa, todos os bens e os males irromperam da caixa: as Artes, as Guerras, a Fome, a Doença, a Pobreza, a Riqueza e tudo mais, incluindo a Morte. Assustada, Pandora fechou a caixa rapidamente, restando presa dentro da caixa apenas a Esperança, último recurso dos homens, o que permanece mesmo que males terríveis os ameacem, mesmo a morte.

***

Após a perda do seu paraíso, muitos anos foram vividos por Agkhar cheios de trabalhos, fadigas, alegrias e tristezas. A doença, herança de sua própria generosidade ao seu benfeitor Prometeu, encontrou-o em sua última noite debaixo da grande árvore, onde fizera questão de repousar, tomando-lhe as forças. Agradeceu por lhe ser permitido o descanso do seu corpo cansado, e, olhando para a lua opulenta, que brilhava ladeada por sua corte de estrelas, aqueceu-se na pequena chama que restara na caixa do seu peito, que nenhum deus lhe poderia tirar: a esperança de um novo mundo.

***

Ah! Bem lembrado! O castigo de Zeus demorou, mas aconteceu. Ele foi completamente banido dos céus pelo nascimento de uma criança pobre em uma manjedoura.

-o-


terça-feira, 25 de setembro de 2018

Quintal


Quintal

Pã e sua flauta


                                                                                       “Digo: o real não está na saída nem na chegada:
                                                                                       ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”.

                                                                                                                                     (Guimarães Rosa)

Alô, galera, ao vivo e em cores hoje quero mostrar para vocês o mundo de alegrias do quintal aqui da minha casa; antes de pôr os pés no primeiro degrau desta escada, que dele me separa, faço todo um trabalho de higiene para não contaminar os raios de sol que o acalentam: peço às ninfas que me permitam uma metamorfose, deixando para trás esta casa que me envolve como uma casca velha, dela emergindo uma cigarra que possa voar e soprar na flauta do velho Pã a trilha sonora, que não me canso de entoar, e, que assim espero, vocês não se cansem de ouvir.

O objetivo final deste vídeo será mostrar-lhes a vida que pulsa em um ninho que ontem descobri com dois filhotinhos. Em surpresa eu passei um tempão observando os bichinhos, depois fiquei de tocaia para ver a mamãe das avezinhas a dar comida aos bicos escancarados de gulodice. Eu rodava nos meus olhos um filme de espantos e só via a alegria e a beleza da vida a se fazerem notar. Estou muito entusiasmado de ir filmando todo dia o crescimento deles, acho que vai ser muito legal e espero poder transmitir-lhes todo o meu encantamento.

Mas como o ninho se encontra lá no fundo, no meio das folhas de uma goiabeira, bem pertinho do ribeirão onde termina o quintal, enquanto caminhamos até lá vou mostrar a vida que pulsa por aqui.

Descendo a escada, este cacarejar que vocês estão ouvindo é a sinfonia das galinhas, que correm afoitas para o pé da escada tão logo alguém pisa no degrau superior. Parece que a pouca visão delas vê os pés como se fossem os do próprio Pã, cuja missão única é trazer-lhes os requintes dos restos dos banquetes divinos que acontecem sem interrupção na casa, uma espécie de Olimpo para as galinhas. Vamos frustrar as suas esperanças, deixando-as bem loucas a correrem e a brigarem por um lugar bem pertinho de mim. Coitadas, o prazer que elas esperam não se realizará em alegria, e assim posso aproveitar melhor para mostrar-lhes a estupidez desses bichos que só sabem pensar com o papo, ou seria sapiência em buscar uma migalha de sabor imaginando: para mim saberia bem um grão de milho ou de arroz, quem sabe um feijão novinho.

Mas deixemos essas tagarelas que já se frustraram ao saber que minha câmera não é nada comestível ou que, pelo menos, eu não estou disposto a jogá-la para elas. Vejam ali na frente: uma procissão de formigas vem lá do fundo do quintal em direção ao muro do lado direito. No pé do muro elas desaparecem por um buraco enorme. Quando o meu pai souber, ele vai atacá-las e destruir o formigueiro; acho que não vou contar para ele, é melhor deixar os bichinhos livres, fazendo o trabalho cansativo nesse vai e vem frenético que mais parece uma autoestrada com os carros seguindo uma rota determinada.

Eu gosto de ficar admirando a correria delas, as que saem do buraco vão encontrando as que chegam transportando as suas cargas enormes, conversam entre elas, devem perguntar sobre as coisas gostosas que as outras encontraram, perguntam onde tem isso, onde não podem ir pelos perigos que lá existem, e seguem já na certeza de aonde ir. Aqui elas são o trabalho e eu sou a vadiagem, fazendo o papel da cigarra que só quer diversão, que deixei minha casca dura lá em cima da escada para cansar-me de ver o trabalho delas só para minha alegria. Mas quê? Que mentiras aquela fábula conta, pois a cigarra não precisa de provisões de inverno, ela surge e vive apenas um verão.

No entanto, é de se admirar a inteligência das formigas, não? Sabem tudo que precisam fazer; será que lá no formigueiro tem umas professoras chatas para ensinar como se deve andar sem uma atropelar a outra? Ou qual o peso máximo que elas podem suportar? Ou como se prevenirem de serem atropeladas por esse calango que passou ligeiro cortando a fila delas, deixando algumas de pernas para cima? Embora eu cá esteja fazendo o papel da cigarra, eu gosto de vê-las em frenética atividade, fortes, ligeiras e companheiras.

Mas nem só de correria está cheio o quintal, veja ali no canto do muro aquela arte quieta da teia de uma pequena aranha, dissimulada, à espera de um mosquitinho incauto que grude suas asas em seus fios. Ferinas essas aranhas, quanta ciência em seu modo de vida calmo, mas de muita excitação. Por que será que uma mosquinha precisa lutar tanto contra uma aranha e tudo o mais? E essa bela borboleta, que passa alternando cores sob os raios do sol, por que será precisa de tanto fugir dos bicos dos pássaros?

Continuemos seguindo a fila de formigas. Ela está indo direto para o nosso objetivo, lá onde a goiabeira abriga o ninho, estão vendo? lá no fundo do quintal? Hum!? não gostei, ainda bem que o ninho se esconde entre os galhos e as folhas, e os filhotinhos estão protegidos.

Bem, aqui está a goiabeira, nesta época só tem goiabinhas verdes, no verão haverá deliciosas goiabas brancas, as minhas preferidas. Fico encabulado de pensar: como sabe a goiabeira fazer as goiabas? Mistérios do meu quintal. Oh! besteira, mais estranho seria se ela fizesse jabuticabas. Deixem-me chegar no meio das folhas para mostrar o ninho, enquanto sigo as formigas subindo pela goiabeira!

Ah, não! Posso até ouvir os passos destas malditas subindo pelos galhos. O ninho está enxameado com essas horríveis formigas! Os filhotinhos! Elas estão arrancando seus pedaços para levarem ao formigueiro! Por que será que o velho chifrudo está a punir-me transformando o meu maior prazer nessa terrível desgraça? deixando-me desvairado de ódio, frustrado em pâ-nico?

Malditas! Vou liquidar com todas vocês. Vou esmigalhar vocês. Vou chamar meu pai para liquidar com o seu formigueiro.

– Pai, pai, há uma multidão de formigas no quintal!

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