Terra:
por onde andas?
– Dona Menina, quanto tempo!
– Sô Nato, perdido cá por esta terrinha? Puxou este aguaceiro
pra nós lá de riba deste Brasilzão?
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– E num é, Dona Menina? ô terrinha danada pra chover, e
fica assim nesse chove não molha que é de um nunca acabar.
– Estamos na precisão, sô Nato, a seca tava braba.
– Mas é muito chata essa chuvinha gotejando dia e noite; lá
pelas nossas bandas ela cai de uma vez, varre toda a poeira e se dá por
satisfeita.
– Pois veja que inda agorinha mesmo eu tava no padecimento vendo
a mulher do tempo augurar que vem mais choro por aí, mostrando naquele globo
que tem muito pé de água pra cair por cá ainda.
– No globo, Dona Menina? É por isso que essas previsões dão
erradas de tudo.
– Pro modo de quê, sô Nato? que tem o globo?
– E então, Dona Menina acredita que a terra é um globo?
– E por que havera eu de não acreditar?
– Ora, Dona Menina, então a senhora, que é tida como de
muita sabedoria, num sabe das fraudes todas que essa gente que se diz cientista
quer nos empurrar?
– Fraudes, sô Nato? cê tá na intenção de dizer que a nossa Terra
não é redonda?
– Admira-me muito que a senhora não saiba.
– Sô Nato! tá a querer me dizer que crê nessa parvoíce de Terra
plana?
– Parvoíce, Dona Menina? parvoíce das grandes é acreditar
nessa propaganda de ser a Terra uma bola vagando no espaço, com uma velocidade
estonteante.
– Mas... tô deveras no perplexo a pôr dúvida no que estou a
escutar... se tá mais que de comprovado que é mesmo assim que é.
– Comprovado? por exemplo?
– Os retratos dos satélites, que fazem lá da cimeira do céu:
tão linda nossa Terra, de um azul formoso!
– Mas é tudo uma baita de uma fraude, tudo truque feito em
Holywood!
– Truque? Que abuso mais abusado é esse, sô Nato? Vindo de
um homem pundonoroso, assim me deixa inté avexada. São tantas fotos, tiradas de
tantos satélites.
– Que isso, Dona Menina? num existe satélite nenhum, é tudo
falso, invenção da NASA.
– Sô Nato! Num tô pondo fé nos meus ouvidos... Tá querendo
me asseverar que há um nada de satélite a viajar lá no espaço?
– Mas é claro que não há, Dona Menina. A senhora acha que
com tanto satélite como eles dizem que jogaram lá pro alto, o céu não estaria
congestionado?
– Pera lá, sô Nato... O tamanho deles é mirradinho pra
isso, e inda tem mais que eles não emparelham na mesma altura.
– E então, a altura! O calor do Sol é tão grande por lá que
derreteria tudo.
– Disso eu não entendo um cisco, mas por certo que os moços
engenheiros resolvem o imbróglio.
– E a Lua, Dona Menina, a Lua não ia atrapalhar os
satélites?
– Pelo que me vai na cachola, por demorosa que sou, de
certo que não, sô Nato, a Lua tá pra lá, muito pra lá em riba.
– Ah, que barbaridade! Pois ela está muito mais perto do
que eles dizem, e nem é tão grande assim como mentem. Ela é mesmo mais ou menos
do tamanho do Sol, são discos de luz no firmamento e estão muito mais perto do
que nos querem fazer crer;
– Mas sô Nato, a lonjura é bem conhecida, o homem já foi
até a Lua.
– Senhora Dona Menina! Fico admirado por ver que a senhora
acredita naqueles truques que fizeram para enganar a gente.
– E pra que eles iam praticar tanto estorvo com a tenção só
de enganar?
– Porque existe uma conspiração para eliminar Deus e a
religião de nossas vidas, e para dizer que nada se passou como está escrito na
Bíblia, e que para existir tudo isto nem é preciso Deus, que basta a força de
gravidade, como disse aquele cientista doente.
– Pois... tá aí, pelo que é dito na ciência, é essa tal força
da gravidade que tá por trás dessa barafunda toda.
– Esse é apenas o maior dos absurdos que inventaram para
poder justificar que a gente possa estar de cabeça pra baixo em cima da Terra,
o que é uma tremenda besteira que qualquer um pode entender que é impossível.
– Impossível?
– Evidente, Dona Menina! A senhora já parou para avaliar que
não tem jeito da água do mar não entornar se a Terra for redonda?
– Ah, é? Mas... e se plana fosse, num haveria de escapar
pelas beiradas?
– Evidente que não, porque existe o continente Antártico,
que é uma barreira enorme de gelo que circunda todo o círculo da Terra, e assim
a água não vaza.
– Bom... que baita barreira! Deve de ser tão desmesurada
como a que cê tem na cuca, né?
– Dona Menina, deixa eu dizer: nós, os terraplanistas, não
somos bobos de cair nessa conversa fiada da NASA, nessas fotos trabalhadas com
Photoshop, e nesses filmes fajutos feitos por computador.
– Ah! Tô a perceber, um bando de finórios de mais sagacidade
que todo o resto do povo jacu!
– Num é uma questão de esperteza, mas de ceticismo com essa
ciência de mentiras, nós procuramos a ciência de verdade, com cientistas sérios
que não se deixam enganar por hipóteses absurdas.
– Antão, tá a me falar que Einstein, Newton e todos mais que
fizeram a ciência são tudo só uma cambada de uns embrulhões?
– E não? querendo serem mais espertos que Deus!
– Ahn?
– Pois é. Ele já num escreveu há muito tempo lá na Bíblia
os ditames da verdadeira ciência? E que somos seres especiais vivendo em um
lugar especial!
– Ah é? Tenho cá comigo, no meu parvo entender, que a
Bíblia dita preceitos de fé, mas tô atenta agorinha ainda pra modo de escutar a
lição da ciência que ela faz.
– Com muito gosto que discorro disso: o episódio quando
Josué parou o Sol, para poder ter tempo para derrotar os amorreus, prova que é o Sol que gira ao redor da Terra.
– Sô Nato, tô mais e mais abestalhada, cê disse inda pouco
que era cético e é bem audaz em vir me apregoar uma sandice dessa? Tem
quinhentos anos que se sabe que é a Terra que gira ao redor do Sol.
– E se eu não acreditar em Deus, em quem mais vou
acreditar?
– Antão, sô Nato, por modo de quê o Papa João Paulo II fez
contrição e confessou que a Igreja tava em erro por condenar Galileu?
– Ora, ele errou em pedir desculpas...
– Ahn? E não é asseverado que o Papa é infalível?
– Não, Dona Menina, não é assim, a infalibilidade é só em
matéria de fé e moral.
– E esse quiproquó num é fé?
– Isso tem a ver com ciência, e nesse assunto o Papa também
pode se enganar.
– Inda vai me dizer que Adão e Eva é tal qual tá escrito lá!
– Como a mais santa verdade.
– Eu tenho cá comigo um busílis que vive me arrodiando, sô
Nato: se a parelha teve dois filhos, aonde foi o Caim arranjar mulher?
– A mulher dele foi um anjo caído.
– Tá bom, sô Nato, cê tem sempre uma replicação inesperta
pra defesa dessas sandices todas, tudo tirado do nada; antão me diga, como é
que prova que a Terra é plana?
– Fácil, fácil. É só usar a água.
– E de que modo?
– Coloque um nível num avião: quando ele sobe, o nível vai
inclinar-se, num é? Quando o avião se estabiliza e fica reto, o nível fica
alinhado. Se a Terra fosse redonda isso nunca poderia ser verdade.
– Mas, sô Nato, o avião, o nível, tudo é muito mirrado
frente ao tamanzão da Terra, num dá pra distinguir o desviamento.
– Ah ha! Conversa pra boi dormir, conversa de quem não quer
aceitar a evidência. E assim vão criando as mentiras dessa ciência fajuta,
repetindo-as tantas vezes que se afirmam verdades absolutas.
– Já tudo se fez luz pra mim, cê só quer saber do que
afirmam as suas crendices, o demais, renega.
– A verdadeira ciência e as palavras do Messias se
harmonizam.
– Cansei, sô Nato, mais cômodo é ser uma ovelhinha no seu
rebanho.
– Meu não, Dona
Menina, do Senhor!
– E que Ele tenha piedade de nós!
-o-
A oração do ateu
(de Miguel de Unamuno, tradução
do poema apresentado mais abaixo)
Ouve
minha prece, Tu, Deus que não existes,
e em Teu nada recolhe estas minhas queixas,
Tu que aos miseráveis homens nunca deixas
sem a consolação de engano. Não resistes
a nossa
súplica, e o nosso anseio vistes.
Quando Tu de minha mente mais te afastas,
mais recordo os conselhos doces e vastos
com que minha ama adoçou minhas noites tristes.
Como tu és grande, meu Deus! Tu és tão grande,
que não és mais que Ideia; é muito estreita
a realidade por muito mais que se expanda
para
abarcar-Te. Por Ti minha dor é feita,
Deus inexistente, se fosses realidade
certamente eu existiria de verdade.
La oración del ateo
(poema original)
Oye mi
ruego Tú, Dios que no existes,
y en tu nada recoge estas mis quejas,
Tú que a los pobres hombres nunca dejas
sin consuelo de engaño. No resistes
a nuestro ruego y nuestro anhelo vistes.
Cuando Tú de mi mente más te alejas,
más recuerdo las plácidas consejas
con que mi ama endulzóme noches tristes.
¡Qué grande eres, mi Dios! Eres tan grande
que no eres sino Idea; es muy angosta
la realidad por mucho que se expande
para abarcarte. Sufro yo a tu costa,
Dios no existente, pues si Tú existieras
existiría yo también de veras.