domingo, 24 de dezembro de 2017

Jornada para a Luz


Jornada para a Luz

                                                                      Natal 2017, muita Luz para todos!


- Ei, não me empurra!

- Desculpe-me, não foi de propósito. Está tão escuro aqui, não consigo ver nada.

- E você não sente a minha vibração?

- Ah, não sei, sou muito bebê ainda, essa ondinha que sinto fazendo cosquinha é que é a sua vibração?

- É sim, e todos nós aqui vibramos assim.

- Ah, então somos muitos, pois estou sentindo muitas cosquinhas. Ei, pessoal, eu me chamo Chu.

- Oi, Chu, seja bem-vinda a nossa família, precisamos da sua ajuda para podermos subir.

- Subir, para onde?

- Para bem longe do calor que vem lá do fundo da terra. Você não ouviu falar da coisa horrível que será se cairmos naquele fogo?

- Ai, que horror! E como fazemos para subir?

- Nós nos juntamos, e pela nossa união ganhamos força para subir pelos buraquinhos da terra.

- E o que tem lá em cima?

- Dizem que é um paraíso, que lá existe uma claridade bonita chamada Luz.

- E o que é Luz?

- Ainda não sabemos, disseram que aqui embaixo é escuro justo porque não tem Luz.

- Hum, estou ansiosa para sair deste mundo escuro, vamos então juntar nossas forças.

- Iupii, vamos lá!

E lá se foram usando a força da união, que lhes permitia ter apoio nas paredes da terra bruta.

- Uau!

- Puxa vida!

- Tanta coisa linda!

- Tão azul lá em cima!

- Azul? Como você sabe que é azul?

- Ah, não sei, veio na minha boca.

- Então acho que ali do lado é... verde! É isso, verde! E aquelas coisas enormes são árvores!

- E lá no céu, no meio do azul, tantas... nuvens! E são... brancas!

- E agora já somos tantas, e vamos assim deslizando juntas.

- Para onde vamos?

Seguindo a corrente
Vamos deslizando
Um riacho potente
Nós vamos formando


- Que gostoso correr assim entre as margens, deslizar na corrente mais brava, dar um pulo bem alto ao bater em uma pedra e cair de volta no meio de todos.

- Traçando um arco-íris no ar.

- Chu, veja! Vamos entrar num rio enorme!


A boca do rio
Vai nos engolir
No seu braço frio
Nos vamos fundir


- E cada vez somos mais, unidas na mesma vontade.

- Vontade de ir, de ir... para onde?


Me disse a gaivota:
- Direto pro mar
Que bela patota
Vocês vão formar


- E o que é o mar?

- Falou que é azul, mais azul que o céu. Que é grande, tão grande, de não se ver fim.

- Tão grande quanto a Luz?


É o fim da jornada
Da missão de amar
Tornar-se um nada
Ser o Todo, ser Mar




-o-

domingo, 10 de dezembro de 2017

Terra: por onde andas?


Terra: por onde andas?


– Dona Menina, quanto tempo!

– Sô Nato, perdido cá por esta terrinha? Puxou este aguaceiro pra nós lá de riba deste Brasilzão?
]
– E num é, Dona Menina? ô terrinha danada pra chover, e fica assim nesse chove não molha que é de um nunca acabar.

– Estamos na precisão, sô Nato, a seca tava braba.

– Mas é muito chata essa chuvinha gotejando dia e noite; lá pelas nossas bandas ela cai de uma vez, varre toda a poeira e se dá por satisfeita.

– Pois veja que inda agorinha mesmo eu tava no padecimento vendo a mulher do tempo augurar que vem mais choro por aí, mostrando naquele globo que tem muito pé de água pra cair por cá ainda.

– No globo, Dona Menina? É por isso que essas previsões dão erradas de tudo.

– Pro modo de quê, sô Nato? que tem o globo?

– E então, Dona Menina acredita que a terra é um globo?

– E por que havera eu de não acreditar?

– Ora, Dona Menina, então a senhora, que é tida como de muita sabedoria, num sabe das fraudes todas que essa gente que se diz cientista quer nos empurrar?

– Fraudes, sô Nato? cê tá na intenção de dizer que a nossa Terra não é redonda?

– Admira-me muito que a senhora não saiba.


– Sô Nato! tá a querer me dizer que crê nessa parvoíce de Terra plana?


– Parvoíce, Dona Menina? parvoíce das grandes é acreditar nessa propaganda de ser a Terra uma bola vagando no espaço, com uma velocidade estonteante.

– Mas... tô deveras no perplexo a pôr dúvida no que estou a escutar... se tá mais que de comprovado que é mesmo assim que é.

– Comprovado? por exemplo?

– Os retratos dos satélites, que fazem lá da cimeira do céu: tão linda nossa Terra, de um azul formoso!

– Mas é tudo uma baita de uma fraude, tudo truque feito em Holywood!

– Truque? Que abuso mais abusado é esse, sô Nato? Vindo de um homem pundonoroso, assim me deixa inté avexada. São tantas fotos, tiradas de tantos satélites.

– Que isso, Dona Menina? num existe satélite nenhum, é tudo falso, invenção da NASA.

– Sô Nato! Num tô pondo fé nos meus ouvidos... Tá querendo me asseverar que há um nada de satélite a viajar lá no espaço?

– Mas é claro que não há, Dona Menina. A senhora acha que com tanto satélite como eles dizem que jogaram lá pro alto, o céu não estaria congestionado?

– Pera lá, sô Nato... O tamanho deles é mirradinho pra isso, e inda tem mais que eles não emparelham na mesma altura.

– E então, a altura! O calor do Sol é tão grande por lá que derreteria tudo.

– Disso eu não entendo um cisco, mas por certo que os moços engenheiros resolvem o imbróglio.

– E a Lua, Dona Menina, a Lua não ia atrapalhar os satélites?

– Pelo que me vai na cachola, por demorosa que sou, de certo que não, sô Nato, a Lua tá pra lá, muito pra lá em riba.

– Ah, que barbaridade! Pois ela está muito mais perto do que eles dizem, e nem é tão grande assim como mentem. Ela é mesmo mais ou menos do tamanho do Sol, são discos de luz no firmamento e estão muito mais perto do que nos querem fazer crer;

– Mas sô Nato, a lonjura é bem conhecida, o homem já foi até a Lua.

– Senhora Dona Menina! Fico admirado por ver que a senhora acredita naqueles truques que fizeram para enganar a gente.

– E pra que eles iam praticar tanto estorvo com a tenção só de enganar?

– Porque existe uma conspiração para eliminar Deus e a religião de nossas vidas, e para dizer que nada se passou como está escrito na Bíblia, e que para existir tudo isto nem é preciso Deus, que basta a força de gravidade, como disse aquele cientista doente.

– Pois... tá aí, pelo que é dito na ciência, é essa tal força da gravidade que tá por trás dessa barafunda toda.

– Esse é apenas o maior dos absurdos que inventaram para poder justificar que a gente possa estar de cabeça pra baixo em cima da Terra, o que é uma tremenda besteira que qualquer um pode entender que é impossível.

– Impossível?

– Evidente, Dona Menina! A senhora já parou para avaliar que não tem jeito da água do mar não entornar se a Terra for redonda?

– Ah, é? Mas... e se plana fosse, num haveria de escapar pelas beiradas?

– Evidente que não, porque existe o continente Antártico, que é uma barreira enorme de gelo que circunda todo o círculo da Terra, e assim a água não vaza.

– Bom... que baita barreira! Deve de ser tão desmesurada como a que cê tem na cuca, né?

– Dona Menina, deixa eu dizer: nós, os terraplanistas, não somos bobos de cair nessa conversa fiada da NASA, nessas fotos trabalhadas com Photoshop, e nesses filmes fajutos feitos por computador.

– Ah! Tô a perceber, um bando de finórios de mais sagacidade que todo o resto do povo jacu!

– Num é uma questão de esperteza, mas de ceticismo com essa ciência de mentiras, nós procuramos a ciência de verdade, com cientistas sérios que não se deixam enganar por hipóteses absurdas.

– Antão, tá a me falar que Einstein, Newton e todos mais que fizeram a ciência são tudo só uma cambada de uns embrulhões?

– E não? querendo serem mais espertos que Deus!

– Ahn?

– Pois é. Ele já num escreveu há muito tempo lá na Bíblia os ditames da verdadeira ciência? E que somos seres especiais vivendo em um lugar especial!

– Ah é? Tenho cá comigo, no meu parvo entender, que a Bíblia dita preceitos de fé, mas tô atenta agorinha ainda pra modo de escutar a lição da ciência que ela faz.

– Com muito gosto que discorro disso: o episódio quando Josué parou o Sol, para poder ter tempo para derrotar os amorreus, prova que é o Sol que gira ao redor da Terra.

– Sô Nato, tô mais e mais abestalhada, cê disse inda pouco que era cético e é bem audaz em vir me apregoar uma sandice dessa? Tem quinhentos anos que se sabe que é a Terra que gira ao redor do Sol.

– E se eu não acreditar em Deus, em quem mais vou acreditar?

– Antão, sô Nato, por modo de quê o Papa João Paulo II fez contrição e confessou que a Igreja tava em erro por condenar Galileu?

– Ora, ele errou em pedir desculpas...

– Ahn? E não é asseverado que o Papa é infalível?

– Não, Dona Menina, não é assim, a infalibilidade é só em matéria de fé e moral.

– E esse quiproquó num é fé?

– Isso tem a ver com ciência, e nesse assunto o Papa também pode se enganar.

– Inda vai me dizer que Adão e Eva é tal qual tá escrito lá!

– Como a mais santa verdade.

– Eu tenho cá comigo um busílis que vive me arrodiando, sô Nato: se a parelha teve dois filhos, aonde foi o Caim arranjar mulher?

– A mulher dele foi um anjo caído.

– Tá bom, sô Nato, cê tem sempre uma replicação inesperta pra defesa dessas sandices todas, tudo tirado do nada; antão me diga, como é que prova que a Terra é plana?

– Fácil, fácil. É só usar a água.

– E de que modo?

– Coloque um nível num avião: quando ele sobe, o nível vai inclinar-se, num é? Quando o avião se estabiliza e fica reto, o nível fica alinhado. Se a Terra fosse redonda isso nunca poderia ser verdade.

– Mas, sô Nato, o avião, o nível, tudo é muito mirrado frente ao tamanzão da Terra, num dá pra distinguir o desviamento.

– Ah ha! Conversa pra boi dormir, conversa de quem não quer aceitar a evidência. E assim vão criando as mentiras dessa ciência fajuta, repetindo-as tantas vezes que se afirmam verdades absolutas.

– Já tudo se fez luz pra mim, cê só quer saber do que afirmam as suas crendices, o demais, renega.

– A verdadeira ciência e as palavras do Messias se harmonizam.

– Cansei, sô Nato, mais cômodo é ser uma ovelhinha no seu rebanho.

– Meu não, Dona Menina, do Senhor!

– E que Ele tenha piedade de nós!


-o-

                A oração do ateu

                  (de Miguel de Unamuno, tradução
                    do poema apresentado mais abaixo)

Ouve minha prece, Tu, Deus que não existes,
e em Teu nada recolhe estas minhas queixas,
Tu que aos miseráveis homens nunca deixas
sem a consolação de engano. Não resistes

a nossa súplica, e o nosso anseio vistes.
Quando Tu de minha mente mais te afastas,
mais recordo os conselhos doces e vastos
com que minha ama adoçou minhas noites tristes.

Como tu és grande, meu Deus! Tu és tão grande,
que não és mais que Ideia; é muito estreita
a realidade por muito mais que se expanda

para abarcar-Te. Por Ti minha dor é feita,
Deus inexistente, se fosses realidade
certamente eu existiria de verdade.


         La oración del ateo
                                  (poema original)

Oye mi ruego Tú, Dios que no existes,
y en tu nada recoge estas mis quejas,
Tú que a los pobres hombres nunca dejas
sin consuelo de engaño. No resistes

a nuestro ruego y nuestro anhelo vistes.
Cuando Tú de mi mente más te alejas,
más recuerdo las plácidas consejas
con que mi ama endulzóme noches tristes.

¡Qué grande eres, mi Dios! Eres tan grande
que no eres sino Idea; es muy angosta
la realidad por mucho que se expande

para abarcarte. Sufro yo a tu costa,
Dios no existente, pues si Tú existieras
existiría yo también de veras.