domingo, 19 de agosto de 2018

Transubstanciação



Transubstanciação





– Professor Flosser, suas pesquisas na genética têm revolucionado os conhecimentos sobre esta ciência, poderia explicar-nos por que o manuscrito sobre os essênios, recentemente revelado ao público, teve tanto impacto entre os seus pares?

– Os estudos mais recentes sobre o DNA vêm quebrando muitas das concepções que tínhamos sobre a herança genética. A parte do DNA, que antes chamávamos de lixo, tem-nos revelado muitas funções novas que julgávamos impossíveis existirem. Descobrimos também que o DNA não tem um padrão estático durante a vida de um ser, modificando-se no desenrolar da sua existência, e estes novos códigos adquiridos podem ser transmitidos aos descendentes. Especula-se, ainda meras teorias, que nossas emoções podem nele interferir, criando novos padrões e novas características.

 – Mas, Professor, o que estas novas pesquisas têm a ver com o manuscrito? Por que o tão grande interesse?

– Pela surpresa de nele encontrarmos, naqueles tempos remotos, noções de conhecimento sobre a genética, em contraste com, por exemplo, a Bíblia, onde temos o curioso episódio do enriquecimento de Jacó com as crias do rebanho do sogro: ele dispôs varas listradas na frente dos bebedouros do rebanho para que os animais sempre as vissem e, assim, favoreceu o nascimento das crias listradas e malhadas, que seriam suas pelo acordo que fizera com o sogro. Este conto bíblico era o que havia de mais próximo sobre os então mistérios da descendência das características.

– E no caso do manuscrito, o processo é mais palatável?

– Digamos que é surpreendente. No manuscrito é relatado um procedimento que os essênios fizeram para interferir na qualidade das sementes. Embora eles nada soubessem a respeito do DNA, eles sabiam que algo havia nas sementes que era transmitido aos descendentes, e o relato do experimento causou o nosso alvoroço.

– Obrigado pela entrevista, Professor, e aos nossos leitores interessados recomendo a leitura do manuscrito:

*

Quando sobre os montes que lhe estavam em frente, o negro que fora a noite começou a se deixar invadir pela aurora, ele já estava a esperá-la, travando batalha com os pensamentos que o colocaram naquela viagem em busca do ungido do espírito. Toda uma vida de dedicação aos preceitos da irmandade teria enfim sua recompensa atendida? Seu esforço para lançar-se naquela viagem, quase sem as energias necessárias para empreendê-la, não seria demasiado para a sua saúde tão desgastada, levando-o a perecer sem ver suas esperanças realizadas?

As trevas começavam a dissipar-se, os raios do sol refaziam aos seus olhos o verde que cobria os montes de vida, e no seu íntimo reacendiam a trilha do Caminho de Luz que o astro simbolizava.

Ainda ficou a contemplar a claridade tomando conta do céu sem nuvens, pintando-o pouco a pouco de azul. Quando o primeiro facho de luz surgiu detrás do monte, levantou-se e viu ao seu lado os dois irmãos também se apressarem a recolher as parcas cobertas que os ajudaram a passar a noite debaixo da fria laje de pedra onde se abrigaram.

Com o sol acima dos montes, o silêncio que lhes era prescrito durante a noite deixava de ser uma obrigação; tratando de limpar a mente de pensamentos impuros de temor, sintonizando-se com a luz que lançava os seus primeiros raios e elevando os braços para o representante dos poderes divinos, entoou em alta voz:

– Senhor, o espírito da verdade que tenho cultivado vem na luz de Tua bondade espalhar-se novamente por esta terra desolada pelas injustiças dos filhos das trevas. Ponho-me humildemente sob a Luz da Verdade do Espírito Santo para alcançar a meta desta penosa jornada com o coração em júbilo na graça para todos os Teus filhos. Fora de Ti, os caminhos são escuros e tortos, sem a Tua vontade nada se pode atingir. Ilumina, Senhor, a nossa missão.

Seus dois irmãos acompanharam com fervor as suas preces. Após uma parca refeição de tâmaras, pão e água, puseram-se novamente no caminho de terra ressequida coberto por uma pobre vegetação, rasteira e rala.

– Mestre, se quisermos chegar a Nazaré ao cair do sol, não poderemos nos entreter pelo caminho, embora os teus passos cansados, teremos que seguir firmes.

– Com a força do Espírito Santo seremos abençoados para hoje mesmo estarmos no destino de nossas maiores esperanças.

– Achas realmente que João está certo em afirmar que ele é o Esperado?

– Pelos relatos que nos fez da sua infância, podemos ter muitas esperanças. A sua aspiração ao mundo celestial foi grandemente enaltecida por João, e devemos amparar o seu caminho na busca da perfeição, isolando-o dos perigos das trevas.

– E como poderás ter a certeza que não é apenas outra frustração?

– Tenho a confiança que a Luz que tem brilhado em minha vida, iluminando o caminho, saberá esclarecer-me.

– E a família do menino, consentirá que o levemos para nossa irmandade?

– Quem poderá se opor à vontade do Senhor? João já alertou a mãe para a necessidade de preservá-lo dos perigos da vida mundana até que ele esteja preparado para revelar-se; não deveremos encontrar objeções, e para evitá-las é que faço este esforço em vir pessoalmente mostrar-lhe a importância de deixá-lo sob nossa tutela.

– Que o Senhor nos guie!

Buscando forças na promessa, o Mestre seguiu penosamente a jornada sob o sol, que naqueles dias de fim de inverno não era tão inclemente, parando apenas para respiros junto a um poço de água e um pouco de pão.

*

– Mestre, aquela coluna de fumaça além da colina indica que estamos próximos do fim de nossa jornada.

– Graças ao Senhor que nos deu forças!

O sol ainda iluminava as poucas construções de Nazaré quando, no topo de uma pequena colina, os viajantes aliviados puderam contemplar as primeiras habitações do lugarejo que corriam sobre outra elevação, após uma descida na estrada que os conduzia. A paisagem monótona de terra foi invadida de cores e odores por um rebanho de cabras, surgido de uma trilha lateral e conduzido por um pastor que voltava ao seu capril. Pediram-lhe indicação de um lugar onde pudessem pernoitar. O pastor, sabendo pelas suas vestes brancas que eram pessoas religiosas e merecedoras de veneração, pediu-lhes a bênção e ofereceu-lhes um quartinho que havia ao lado do seu curral.

*

A casa era pequena e muito simples, de paredes como o chão da terra que a circundava. Ao lado uma coberta abrigava uma oficina onde os trabalhos do dia já estavam iniciados pelos filhos da casa. Já avistados ao se aproximarem, a mãe os esperava na porta.

– A paz seja a luz desta casa!

– Que a vossa bênção se derrame sobre nós!

No interior da casa, iluminada por aberturas gradeadas nas suas paredes, esteiras estavam dispostas para receber os visitantes. Sentaram-se os recém-chegados acomodados em frente à mãe. Ao lado esquerdo, na abertura que dava acesso à oficina, três jovens se apertavam curiosos a seguir a conversa. O Mestre olhou-os atentamente, descobrindo no mais velho dos rapazes aquele por quem fizera a penosa viagem. Não pôde suster um suspiro de alívio ao reconhecer, nas suas feições bem delineadas, as promessas que os filhos da Luz esperavam encontrar no Prometido, onde só lhe pareceu enxergar uma mínima presença das trevas devido ao seu natural nascimento como filho do homem.

Não foram necessárias muitas palavras para explicar os motivos que os levaram ali, pois João já havia instruído à família tudo o que deveria ser feito para enriquecer o caminho do jovem. Alguns temores da mãe, normais apreensões de uma mãe carinhosa, que sofria pela futura ausência do filho, foram prontamente dirimidos pelo Mestre. Este repetiu as palavras de João sobre todo o projeto planejado para o jovem, reiterando sobre os estudos da Torá, sobre a qual ele deveria debruçar-se para enriquecer sua vida no caminho da Luz e prática da Verdade, abrigado pelos companheiros de uma disciplina rigorosa na virtude.

Com pesar no coração pela despedida do filho querido, a mãe não se opôs ao caminho que lhe era aberto. Os visitantes despediram-se, deixando à família o dia restante para os preparativos da viagem e as despedidas. Na manhã seguinte, puseram-se na viagem de volta ao mosteiro.

*

Dos montes ao redor da santa comunidade desciam as águas das chuvas que enchiam as cisternas: água de vida, necessária à purificação dos corpos e ao florescimento das plantas e culturas de autossuficiência. Naquele ambiente hostil, era necessária muita perseverança nos trabalhos de cada membro para amenizar a dureza da vida no deserto, onde por séculos se refugiaram para afastarem-se dos filhos da iniquidade, seguindo as palavras do profeta Isaías:

            "Uma voz clama: no deserto, abri um caminho para YHWH;
            na estepe, aplanai uma vereda para o nosso Deus”.

O trabalho, como fruto da vida, coloria de verde as colinas, despertando a riqueza verde da vegetação nos cuidados dos canteiros e dos pomares. Ele se entregou ao trabalho com as plantas com o prazer do descanso dos estudos a que tinha que se dedicar. As flores competiam pelos seus cuidados mostrando-se em perfeição e vigor, condensando a luz de cada dia em cores que enfeitavam os banquetes de comunhão. Os irmãos vinham em seus canteiros em busca de sementes e mudas, a alegria colorida se espalhou pela comunidade.

Estando imerso em conversa com suas plantas, o Mestre chegou sem que ele o notasse, e ficou a contemplar a sua diversão abstraída do resto do mundo; após algum tempo de admiração:

– A tua juventude trouxe um halo da Luz para todos, ele assustou-se com a voz que o trazia de volta à realidade – teu tempo de noviciado será encurtado, isentando-te dos dois anos normalmente necessários, para que possas levar tua serenidade às reuniões da comunidade, partilhando do alimento comum e da mais pura água benta. Troca esses farrapos que estás usando por uma veste nova, branca como a paz que irradias.

– Se é a tua vontade, Mestre, e pela benevolência de nosso Senhor, recebo esta graça como uma ordem a que devo me entregar com humildade, esperando fazer jus ao que de mim esperas.

– Por todos esses anos que nossa comunidade aqui se instalou, temos trabalhado com o trigo e a uva para desenvolver variedades que nos possam fornecer o pão e o vinho mais propício à comunhão da irmandade, os progressos foram escassos, mas, agora, temos esperança que possas propiciar-nos o que tanto almejamos.

– E como poderia eu ajudar nesse propósito?

– Pelo que temos observado no teu trabalho, as plantas parecem entregar-se com amor aos teus cuidados e desenvolvem-se mais belas e vigorosas, incorporando em suas sementes o amor que lhes dedicas. Queremos que trabalhes com o trigo e a uva, transmitindo-lhes essa tua energia de vida e amor e, assim, incorporando no pão e no vinho, do sacro repasto de nossa santa comunidade, o manancial da Luz que trazes em ti.

– Mestre, tuas palavras parecem querer-me uma graça muita acima das minhas parcas habilidades.

– Tenho ouvido de todos os irmãos filhos da justiça que és a resposta às nossas orações, e que se aproxima o tempo da verdade para os eleitos de Deus. Dedica-te com amor aos trabalhos, pois em ti depositamos todas as nossas esperanças de vencer os agentes das Trevas.

– Que assim seja, Mestre. Amém. Amém.

*

Tendo o sol se posto, os preparativos para o banquete da Pesach estavam sendo realizados sob uma nuvem de apreensão. O início do sábado, no calendário da comunidade, que preserva a perfeita sintonia com o dia em que o Senhor descansou após a Criação, trazia, no coração dos irmãos, sentimentos conflitantes de júbilo e tristeza. Deitado enfraquecido sobre o seu catre, o Mestre exigira estar presente à festividade para exercer, como a tradição e seus deveres exigiam, a sua última celebração daquele momento de agradecimento pela liberdade dos filhos de Israel.

Com voz débil, que somente os mais próximos podiam ouvir, transmitida em corrente destes aos demais, o Mestre recitou as orações de graças e falou de sua alegria por ter coincidido aquela celebração com o Dia do Senhor. Todos estavam temerosos que não conseguisse terminar as bênçãos do pão e do vinho, que aguardavam para realizar a santa comunhão. Agradecendo por ter podido ver o trabalho do seu protegido frutificado, que espalhava o amor mais puro entre os irmãos, advertiu-os sobre os perigos trazidos pelas asas da águia que ameaçavam a comunidade, instados pelos sacerdotes iníquos do Templo que incitavam os saduceus contra eles.

Convidou seu discípulo querido para fazer a leitura da palavra do dia, o qual leu do Testamento de José:

      “Quando ele jazia no seu leito de morte, convocou seus filhos e seus
      irmãos. E falou-lhes: “Meus irmãos, meus filhos! Ouvi José, o bem
      amado de Israel! Escutai, filhos, o vosso pai! Em minha vida, eu vi a
      inveja e a morte; nunca porém me afastei da Verdade do Senhor.
      
      Estes meus irmãos me odiaram; em contrapartida o Senhor me amava.
      Eles tencionaram matar-me; mas o Deus do meu pai protegeu-me.
      Atiraram-me numa cisterna; mas o Altíssimo tirou-me de lá. Fui vendido
      como escravo; o Senhor porém deu-me a liberdade. Fui preso; mas
      amparou-me a sua mão forte. Fui castigado pela fome; mas o próprio
      Senhor me alimentou.
      
      Estive só e Deus ofereceu-me consolo; estive doente e o Altíssimo
      visitou-me. Estive no cárcere e Deus demonstrou-me sua benevolência;
      fui algemado e Ele libertou-me. Fui caluniado e Ele esteve do meu lado;
      fui invejado pelos meus companheiros de prisão e Ele fortaleceu-me.” 

Terminada a leitura, o Mestre agradeceu todo o fervor que o jovem dedicara a transbordar para as suas colheitas a Luz que iluminava o seu espírito. Fez as bênçãos e disse que ainda naquele dia esperava-o um banquete no Paraíso. Tomou o Pão Sagrado, molhou-o no Vinho da regeneração, deu graças e comeu-o, convidando os irmãos para o acompanharem na sagrada comunhão.

*

No templo, em Jerusalém, a notícia da morte do Mestre acendeu os desejos de extirpar definitivamente aquele antro de miseráveis que tanto mal fazia aos negócios da casta. Os sacerdotes estavam ainda mais temerosos pelos rumores que chegavam de um novo espírito que iluminava aquela comunidade de deserdados, atraindo sempre mais prosélitos e diminuindo os sacrifícios no templo. Murmurava-se sobre os efeitos da embriaguez de um vinho novo e de um pão que alimentava os corações de amor e espiritualidade. Temendo que estas notícias se espalhassem causando mais danos, arregimentaram um pequeno exército de sequazes para atacar o mosteiro ao nascer do dia.

A lua já ia alta na noite quando uma boa alma chegou com a notícia do feroz ataque que os sacerdotes estavam preparando. Os irmãos coletaram seus livros sagrados apressadamente e tomaram o rumo das montanhas para se abrigarem nas cavernas. Ao amanhecer, puderam contemplar o fogo que se espalhava por toda a área onde viveram com tanta paz, destruindo as suas lavouras, suas vinhas e suas esperanças.

Permaneceram nas cavernas enquanto duraram as poucas provisões que conseguiram carregar. Deixando os livros protegidos nos jarros em que haviam sido carregados, dispersaram-se os irmãos dirigindo-se para suas terras de origem, esperando um dia reunirem-se novamente, depois que a turba deixada a guardar o mosteiro se retirasse.

Sentindo a dor da destruição de todo o trabalho pacientemente conduzido pelo Mestre, ele repassou os estudos feitos por tantos anos procurando encontrar alento nas muitas vezes em que a escravidão e a dor caíram sobre Israel. Caminhando para Nazaré, contemplando o sol a brilhar sobre os montes, que tanta alegria lhe trazia nos seus trabalhos, luz de cada dia na vida do mundo, refletia sobre os insondáveis caminhos do Senhor nas palavras do profeta Oséias:

       Quem é sábio, para que entenda estas coisas? Quem é prudente, para que as 
       saiba? Porque os caminhos do Senhor são retos, e os justos andarão neles, 
       mas os transgressores neles cairão”.

E aconteceu que, chegando ao Jordão, João ali se encontrava, e dele recebeu o batismo de regeneração e renovação no Espírito Santo.

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