Transubstanciação
– Professor Flosser, suas pesquisas na genética têm
revolucionado os conhecimentos sobre esta ciência, poderia explicar-nos por que
o manuscrito sobre os essênios, recentemente revelado ao público, teve tanto
impacto entre os seus pares?
– Os estudos mais recentes sobre o DNA vêm quebrando muitas
das concepções que tínhamos sobre a herança genética. A parte do DNA, que antes
chamávamos de lixo, tem-nos revelado muitas funções novas que julgávamos impossíveis
existirem. Descobrimos também que o DNA não tem um padrão estático durante a
vida de um ser, modificando-se no desenrolar da sua existência, e estes novos
códigos adquiridos podem ser transmitidos aos descendentes. Especula-se, ainda
meras teorias, que nossas emoções podem nele interferir, criando novos padrões
e novas características.
– Mas, Professor, o
que estas novas pesquisas têm a ver com o manuscrito? Por que o tão grande interesse?
– Pela surpresa de nele encontrarmos, naqueles tempos
remotos, noções de conhecimento sobre a genética, em contraste com, por exemplo,
a Bíblia, onde temos o curioso episódio do enriquecimento de Jacó com as crias
do rebanho do sogro: ele dispôs varas listradas na frente dos bebedouros do
rebanho para que os animais sempre as vissem e, assim, favoreceu o nascimento
das crias listradas e malhadas, que seriam suas pelo acordo que fizera com o
sogro. Este conto bíblico era o que havia de mais próximo sobre os então
mistérios da descendência das características.
– E no caso do manuscrito, o processo é mais palatável?
– Digamos que é surpreendente. No manuscrito é relatado um
procedimento que os essênios fizeram para interferir na qualidade das sementes.
Embora eles nada soubessem a respeito do DNA, eles sabiam que algo havia nas
sementes que era transmitido aos descendentes, e o relato do experimento causou
o nosso alvoroço.
– Obrigado pela entrevista, Professor, e aos nossos
leitores interessados recomendo a leitura do manuscrito:
*
Quando sobre os montes que lhe estavam em frente, o negro
que fora a noite começou a se deixar invadir pela aurora, ele já estava a
esperá-la, travando batalha com os pensamentos que o colocaram naquela viagem
em busca do ungido do espírito. Toda uma vida de dedicação aos preceitos da
irmandade teria enfim sua recompensa atendida? Seu esforço para lançar-se
naquela viagem, quase sem as energias necessárias para empreendê-la, não seria
demasiado para a sua saúde tão desgastada, levando-o a perecer sem ver suas
esperanças realizadas?
As trevas começavam a dissipar-se, os raios do sol refaziam
aos seus olhos o verde que cobria os montes de vida, e no seu íntimo reacendiam
a trilha do Caminho de Luz que o astro simbolizava.
Ainda ficou a contemplar a claridade tomando conta do céu
sem nuvens, pintando-o pouco a pouco de azul. Quando o primeiro facho de luz
surgiu detrás do monte, levantou-se e viu ao seu lado os dois irmãos também se
apressarem a recolher as parcas cobertas que os ajudaram a passar a noite
debaixo da fria laje de pedra onde se abrigaram.
Com o sol acima dos montes, o silêncio que lhes era
prescrito durante a noite deixava de ser uma obrigação; tratando de limpar a
mente de pensamentos impuros de temor, sintonizando-se com a luz que lançava os
seus primeiros raios e elevando os braços para o representante dos poderes
divinos, entoou em alta voz:
– Senhor, o espírito da verdade que tenho cultivado vem na
luz de Tua bondade espalhar-se novamente por esta terra desolada pelas
injustiças dos filhos das trevas. Ponho-me humildemente sob a Luz da Verdade do
Espírito Santo para alcançar a meta desta penosa jornada com o coração em
júbilo na graça para todos os Teus filhos. Fora de Ti, os caminhos são escuros
e tortos, sem a Tua vontade nada se pode atingir. Ilumina, Senhor, a nossa
missão.
Seus dois irmãos acompanharam com fervor as suas preces.
Após uma parca refeição de tâmaras, pão e água, puseram-se novamente no caminho de terra
ressequida coberto por uma pobre vegetação, rasteira e rala.
– Mestre, se quisermos chegar a Nazaré ao cair do sol, não
poderemos nos entreter pelo caminho, embora os teus passos cansados, teremos
que seguir firmes.
– Com a força do Espírito Santo seremos abençoados para
hoje mesmo estarmos no destino de nossas maiores esperanças.
– Achas realmente que João está certo em afirmar que ele é
o Esperado?
– Pelos relatos que nos fez da sua infância, podemos ter
muitas esperanças. A sua aspiração ao mundo celestial foi
grandemente enaltecida por João, e devemos amparar o seu caminho na busca da
perfeição, isolando-o dos perigos das trevas.
– E como poderás ter a certeza que não é apenas outra
frustração?
– Tenho a confiança que a Luz que tem brilhado em minha
vida, iluminando o caminho, saberá esclarecer-me.
– E a família do menino, consentirá que o levemos para
nossa irmandade?
– Quem poderá se opor à vontade do Senhor? João já alertou
a mãe para a necessidade de preservá-lo dos perigos da vida mundana até que ele
esteja preparado para revelar-se; não deveremos encontrar objeções, e para
evitá-las é que faço este esforço em vir pessoalmente mostrar-lhe a importância
de deixá-lo sob nossa tutela.
– Que o Senhor nos guie!
Buscando forças na promessa, o Mestre seguiu penosamente a
jornada sob o sol, que naqueles dias de fim de inverno não era tão inclemente,
parando apenas para respiros junto a um poço de água e um pouco de pão.
*
– Mestre, aquela coluna de fumaça além da colina indica que
estamos próximos do fim de nossa jornada.
– Graças ao Senhor que nos deu forças!
O sol ainda iluminava as poucas construções de Nazaré
quando, no topo de uma pequena colina, os viajantes aliviados puderam
contemplar as primeiras habitações do lugarejo que corriam sobre outra elevação,
após uma descida na estrada que os conduzia. A paisagem monótona de terra foi
invadida de cores e odores por um rebanho de cabras, surgido de uma trilha
lateral e conduzido por um pastor que voltava ao seu capril. Pediram-lhe
indicação de um lugar onde pudessem pernoitar. O pastor, sabendo pelas suas
vestes brancas que eram pessoas religiosas e merecedoras de veneração,
pediu-lhes a bênção e ofereceu-lhes um quartinho que havia ao lado do seu
curral.
*
A casa
era pequena e muito simples, de paredes como o chão da terra que a circundava.
Ao lado uma coberta abrigava uma oficina onde os trabalhos do dia já estavam
iniciados pelos filhos da casa. Já avistados ao se aproximarem, a mãe os
esperava na porta.
– A paz
seja a luz desta casa!
– Que a
vossa bênção se derrame sobre nós!
No
interior da casa, iluminada por aberturas gradeadas nas suas paredes, esteiras
estavam dispostas para receber os visitantes. Sentaram-se os recém-chegados
acomodados em frente à mãe. Ao lado esquerdo, na abertura que dava acesso à
oficina, três jovens se apertavam curiosos a seguir a conversa. O Mestre olhou-os
atentamente, descobrindo no mais velho dos rapazes aquele por quem fizera a
penosa viagem. Não pôde suster um suspiro de alívio ao reconhecer, nas suas
feições bem delineadas, as promessas que os filhos da Luz esperavam encontrar
no Prometido, onde só lhe pareceu enxergar uma mínima presença das trevas devido ao seu natural nascimento como filho do homem.
Não foram
necessárias muitas palavras para explicar os motivos que os levaram ali, pois
João já havia instruído à família tudo o que deveria ser feito para enriquecer
o caminho do jovem. Alguns temores da mãe, normais apreensões de uma mãe
carinhosa, que sofria pela futura ausência do filho, foram prontamente
dirimidos pelo Mestre. Este repetiu as palavras de João sobre todo o projeto planejado
para o jovem, reiterando sobre os estudos da Torá, sobre a qual ele deveria
debruçar-se para enriquecer sua vida no caminho da Luz e prática da Verdade,
abrigado pelos companheiros de uma disciplina rigorosa na virtude.
Com pesar
no coração pela despedida do filho querido, a mãe não se opôs ao caminho que
lhe era aberto. Os visitantes despediram-se, deixando à família o dia restante
para os preparativos da viagem e as despedidas. Na manhã seguinte, puseram-se
na viagem de volta ao mosteiro.
*
Dos
montes ao redor da santa comunidade desciam as águas das chuvas que enchiam as
cisternas: água de vida, necessária à purificação dos corpos e ao florescimento
das plantas e culturas de autossuficiência. Naquele ambiente hostil, era
necessária muita perseverança nos trabalhos de cada membro para amenizar a
dureza da vida no deserto, onde por séculos se refugiaram para afastarem-se dos
filhos da iniquidade, seguindo as palavras do profeta Isaías:
"Uma
voz clama: no deserto, abri um caminho para YHWH;
na
estepe, aplanai uma vereda para o nosso Deus”.
O
trabalho, como fruto da vida, coloria de verde as colinas, despertando a riqueza
verde da vegetação nos cuidados dos canteiros e dos pomares. Ele se entregou ao
trabalho com as plantas com o prazer do descanso dos estudos a que tinha que se
dedicar. As flores competiam pelos seus cuidados mostrando-se em perfeição e
vigor, condensando a luz de cada dia em cores que enfeitavam os banquetes de
comunhão. Os irmãos vinham em seus canteiros em busca de sementes e mudas, a
alegria colorida se espalhou pela comunidade.
Estando
imerso em conversa com suas plantas, o Mestre chegou sem que ele o notasse, e
ficou a contemplar a sua diversão abstraída do resto do mundo; após algum tempo
de admiração:
– A tua
juventude trouxe um halo da Luz para todos, – ele
assustou-se com a voz que o trazia de volta à realidade – teu tempo de
noviciado será encurtado, isentando-te dos dois anos normalmente necessários, para
que possas levar tua serenidade às reuniões da comunidade, partilhando do
alimento comum e da mais pura água benta. Troca esses farrapos que estás usando
por uma veste nova, branca como a paz que irradias.
– Se é a tua
vontade, Mestre, e pela benevolência de nosso Senhor, recebo esta graça como
uma ordem a que devo me entregar com humildade, esperando fazer jus ao que de
mim esperas.
– Por
todos esses anos que nossa comunidade aqui se instalou, temos trabalhado com o
trigo e a uva para desenvolver variedades que nos possam fornecer o pão e o
vinho mais propício à comunhão da irmandade, os progressos foram escassos, mas,
agora, temos esperança que possas propiciar-nos o que tanto almejamos.
– E como
poderia eu ajudar nesse propósito?
– Pelo que temos observado no teu trabalho, as plantas parecem entregar-se com amor aos teus cuidados e desenvolvem-se mais belas e vigorosas, incorporando em suas sementes o amor que lhes dedicas. Queremos que trabalhes com o trigo e a uva, transmitindo-lhes essa tua energia de vida e amor e, assim, incorporando no pão e no vinho, do sacro repasto de nossa santa comunidade, o manancial da Luz que trazes em ti.
– Mestre, tuas palavras parecem querer-me uma graça muita acima das minhas parcas habilidades.
– Tenho ouvido de todos os irmãos filhos da justiça que és a resposta às nossas orações, e que se aproxima o tempo da verdade para os eleitos de Deus. Dedica-te com amor aos trabalhos, pois em ti depositamos todas as nossas esperanças de vencer os agentes das Trevas.
– Que assim seja, Mestre. Amém. Amém.
*
Tendo o sol se posto, os preparativos para o banquete da Pesach estavam sendo realizados sob uma nuvem de apreensão. O início do sábado, no calendário da comunidade, que preserva a perfeita sintonia com o dia em que o Senhor descansou após a Criação, trazia, no coração dos irmãos, sentimentos conflitantes de júbilo e tristeza. Deitado enfraquecido sobre o seu catre, o Mestre exigira estar presente à festividade para exercer, como a tradição e seus deveres exigiam, a sua última celebração daquele momento de agradecimento pela liberdade dos filhos de Israel.
Com voz débil, que somente os mais próximos podiam ouvir, transmitida em corrente destes aos demais, o Mestre recitou as orações de graças e falou de sua alegria por ter coincidido aquela celebração com o Dia do Senhor. Todos estavam temerosos que não conseguisse terminar as bênçãos do pão e do vinho, que aguardavam para realizar a santa comunhão. Agradecendo por ter podido ver o trabalho do seu protegido frutificado, que espalhava o amor mais puro entre os irmãos, advertiu-os sobre os perigos trazidos pelas asas da águia que ameaçavam a comunidade, instados pelos sacerdotes iníquos do Templo que incitavam os saduceus contra eles.
Convidou seu discípulo querido para fazer a leitura da palavra do dia, o qual leu do Testamento de José:
“Quando ele jazia no seu leito de morte,
convocou seus filhos e seus
irmãos. E falou-lhes: “Meus irmãos, meus
filhos! Ouvi José, o bem
amado de Israel! Escutai, filhos, o vosso
pai! Em minha vida, eu vi a
inveja e a morte; nunca porém me afastei
da Verdade do Senhor.
Estes meus irmãos me odiaram; em
contrapartida o Senhor me amava.
Eles tencionaram matar-me; mas o Deus do
meu pai protegeu-me.
Atiraram-me numa cisterna; mas o
Altíssimo tirou-me de lá. Fui vendido
como escravo; o Senhor porém deu-me a
liberdade. Fui preso; mas
amparou-me a sua mão forte. Fui castigado
pela fome; mas o próprio
Senhor me alimentou.
Estive só e Deus ofereceu-me consolo;
estive doente e o Altíssimo
visitou-me. Estive no cárcere e Deus
demonstrou-me sua benevolência;
fui algemado e Ele libertou-me. Fui
caluniado e Ele esteve do meu lado;
fui invejado pelos meus companheiros de
prisão e Ele fortaleceu-me.”
Terminada
a leitura, o Mestre agradeceu todo o fervor que o jovem dedicara a transbordar
para as suas colheitas a Luz que iluminava o seu espírito. Fez as bênçãos e
disse que ainda naquele dia esperava-o um banquete no Paraíso. Tomou o Pão
Sagrado, molhou-o no Vinho da regeneração, deu graças e comeu-o, convidando os
irmãos para o acompanharem na sagrada comunhão.
*
No templo, em Jerusalém, a notícia da morte do Mestre
acendeu os desejos de extirpar definitivamente aquele antro de miseráveis que
tanto mal fazia aos negócios da casta. Os sacerdotes estavam ainda mais temerosos
pelos rumores que chegavam de um novo espírito que iluminava aquela comunidade de
deserdados, atraindo sempre mais prosélitos e diminuindo os sacrifícios no
templo. Murmurava-se sobre os efeitos da embriaguez de um vinho novo e de um
pão que alimentava os corações de amor e espiritualidade. Temendo que estas
notícias se espalhassem causando mais danos, arregimentaram um pequeno exército
de sequazes para atacar o mosteiro ao nascer do dia.
A lua já ia alta na noite quando uma boa alma chegou com a
notícia do feroz ataque que os sacerdotes estavam preparando. Os irmãos
coletaram seus livros sagrados apressadamente e tomaram o rumo das montanhas
para se abrigarem nas cavernas. Ao amanhecer, puderam contemplar o fogo que se
espalhava por toda a área onde viveram com tanta paz, destruindo as suas
lavouras, suas vinhas e suas esperanças.
Permaneceram nas cavernas enquanto duraram as poucas provisões
que conseguiram carregar. Deixando os livros protegidos nos jarros em que
haviam sido carregados, dispersaram-se os irmãos dirigindo-se para suas terras
de origem, esperando um dia reunirem-se novamente, depois que a turba deixada a
guardar o mosteiro se retirasse.
Sentindo
a dor da destruição de todo o trabalho pacientemente conduzido pelo Mestre, ele
repassou os estudos feitos por tantos anos procurando encontrar alento nas muitas
vezes em que a escravidão e a dor caíram sobre Israel. Caminhando para Nazaré,
contemplando o sol a brilhar sobre os montes, que tanta alegria lhe trazia nos
seus trabalhos, luz de cada dia na vida do mundo, refletia
sobre os insondáveis caminhos do Senhor nas palavras do profeta Oséias:
“Quem é
sábio, para que entenda estas coisas? Quem é prudente, para que as
saiba? Porque os caminhos do Senhor são retos, e os justos andarão neles,
mas os transgressores neles cairão”.
saiba? Porque os caminhos do Senhor são retos, e os justos andarão neles,
mas os transgressores neles cairão”.
E aconteceu que, chegando ao Jordão, João
ali se encontrava, e dele recebeu o batismo de regeneração e renovação no Espírito
Santo.
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