domingo, 3 de novembro de 2019

Trili



Trili






Trili terminou o seu canto. Estivera tão concentrado em fazer as mais perfeitas notas que não percebera a chegada dela. Ela era inebriante. Seu corpo era coberto de penas verdes, do verde tom aconchegante que o atraía a querer passear o seu bico nele. Ao redor do seu pescoço ela tinha peninhas amarelas que lhe davam um brilho do sol primeiro da manhã. Ela lhe sorriu soltando em seu canto as mesmas notas que ele entoara.

Trili também tinha o corpo coberto de penas verdes e suas asas eram manchadas com penas negras, que lhe davam muita força para voar. E ali mesmo, protegidos por aquela enorme massa de folhas daquela imensa árvore, fizeram seu ninho. Cuidaram dos filhotes que cresceram sadios e soltaram suas asas para o mundo. Enquanto ela se preocupava em cuidar do ninho e dos pequeninos, Trili cuidava de deixar a dispensa do ninho sempre abastecida, sem nada faltar, percorrendo grandes distâncias com suas asas fortes para trazer os melhores grãos. Sem a algazarra dos filhotes idos, os dois apaixonados trocavam beijinhos quando Trili voltava para casa trazendo alimento. Ela nunca mais cuidou de buscar comida, desaprendeu onde encontrá-la, deixando a tarefa para Trili.

A primeira vez em que Trili voltou para casa e não a encontrou, nasceu-lhe uma pena azul na asa direita. Logo ela voltou e os carinhos foram renovados.

Em um outro dia, Trili a viu a cuidar das penas amarelas ao redor do seu pescoço, dando-lhes espaço para crescerem, retirando as pequeninas penas verdes que por ali nasciam, e, em seguida, ela alçou voo para um de seus passeios, que se tornaram costumeiros. Outra pena azul apareceu na sua outra asa, mas ele não se desleixava de seu trabalho.

Pouco a pouco a dispensa do ninho se enriquecia, as penas azuis de Trili foram aparecendo sobre as verdes, as penas amarelas dela brilhavam sempre mais como o Sol. As melodias que ele cantava não tinham mais aquelas notas límpidas de amor, que foram enrouquecendo à medida que as penas azuis tomavam o seu corpo. Ela chegava de volta ao ninho, dispensava-lhe um quê de atenção, forrava o papo, e debruçava-se a cuidar das suas penas amarelas.

Um dia Trili percebeu que seu corpo já estava quase totalmente azul. Isto o fez lançar-se com mais força a encher a sua dispensa. Quando ela voltou ao ninho em busca da refeição, ele a viu em toda o seu esplendor amarelo, nada mais havia nela do verde de que ele se enamorara. Outra pena azul nasceu e Trili viu a sua última pena verde esvoaçando a cair lentamente, sem amparo de nenhum vento. Ele deixou-se cair do ninho, usando o resto de força das suas asas para pousar no chão. E ali ficou sem mais voar.

Quando ela voltou para o ninho, foi até a dispensa e avaliou-a satisfeita. Cuidou de ajeitar caprichosamente suas penas amarelas e voou para o seu passeio.

-o-

domingo, 6 de outubro de 2019

Fazenda Santa Cruz



Fazenda Santa Cruz





– Dona Menina, precisamos que nos faça um grande favor!

– Ara, minha gente, que tanta afoiteza é essa, o que está a acontecer?

– A Senhora tem ciência dos feitos daquele ser estulto que herdou a Fazenda Santa Cruz, não?

– Pois sim, que já ouvi uns contos das suas desconveniências.

– Encarecidamente pedimos à Senhora, que é muito cordata, que vá gastar umas palavras com o dito para tentar incutir um pouco de siso no destemperado.

– E por acaso será que há modo de fazer café em bule esburacado?

– O que não podemos é mais aturar tanta insensatez.

E lá foi a Dona Menina para a Fazenda Santa Cruz, em uma charrete conduzida pelo Firmino, para aquelas terras tão isoladas do resto do mundo. No trajeto, ela contava das suas diversas experiências e, lá chegando, ela estremeceu ao ler, sobre a porteira da fazenda, moldada em ferro cuidadosamente trabalhado, a frase: ARBEIT MACHT FREI. Debaixo, já encontrou o herdeiro proprietário.

– Bom dia, seu Menó

– Dia. A Senhora deve de ser aquela tal de Dona Menina, que já muito tenho ouvido de falar.

– Falar bem, espero.

– Pros conceitos de quem fala, bem. Mas num tô certo de aturar umas ideias que ouvi, tá sabendo?

– Pois num há nada de inconveniências, eu cá vim pra conhecer essas terras e, se me permite a abelhudice, saber um tanto dos intuitos que o senhor tem para os seus usos e desusos.

– Disso de intuitos eu sou bem grávido. Pudera aquele povo lá de fora pudesse também desfrutar das melhoras que aqui plantei.

– Quem sabe o Senhor alardeando as qualidades delas.

– Pois é por isso, tá sabendo? que agora mesmo firmei propósito de mandar o Menozinho, um meu filho, pra representante meu naquelas terras lá de fora, pra mostrar o modo de fazer a ordem e o progresso precisos pra vida seguir mais conforme.

– E esse filho tem os predicados pra cumprir com tais importantes comissões?

– Senhora Dona Menina, olha que tenho muito desfastio de dizer, e já tô dizendo, que o menino é tinhoso, tá sabendo? Já sabe desenhar o nome com uma boniteza de invejar Deus, pois faz bem retinho. Assim, está gabaritado para rabiscar em meu nome todos os papéis de necessidade.

– O que deve significar que o menino é mestre na leitura e na escrita, com muitos dotes de saber.

– Leitura e escrita? Baboseiras. A Senhora Dona Menina está a me desfeitar? Acha que por aqui gastamos tempo com essas frescuras, com tanto a pelejar?

– Ahn? Num me avexa, seu Menó, então não tem precisão de estudo para saber discernir o bom? E como o Senhor pode confiar que ele terá tino pra ser seu preposto?

– Ha! A dura vida é a melhor mestra, tá sabendo? Aqui o trabalho principia desde que um guri começa a andar. Com dois anos ponho ele já a candiar a carrocinha do bode pra levar leite do curral pra queijaria. No que completa quatro, ganha a primeira enxada da vida dele. A primeira enxada ninguém esquece. Aqui todos trabalham, trabalham muito, do sol nascer ao pôr.

– Mas, seu Menó, é muito dura a meninice assim! Criança tem precisão de brincar pra aprender a jogar na vida.

– Já dizia meu avô Cristóvão, que o Senhor o tenha e guarde: mente vazia, oficina do diabo, tá sabendo?. Por aqui num tem lerdice de tempo à toa pra escarafunchar ideia malsã nem para saber o peso da vida, se boa ou se doída. É trabalho só. Por isso a terra vai assim tão bem, produzindo o tudo necessário.

– Tem muitos colonos também nessa labuta, né?

– Muitos. E tudo satisfeito com os pratos de angu com feijão que têm com fartura, além da casinha, bem pobrezinha, mas bem naquele refrão: meu amor e minha cabana.

– E recebem um estipêndio também?

– Recebem, mas sabe como é, né? Recebem e pagam o angu com feijão e o aluguel.

– E o Senhor acha que isso está dentro dos conformes?

– Pergunte a eles se têm alguma protestação.

– Posso então trocar umas palavrinhas com algum?

– Pode sim, chamo aqui o Chico Carvão, e a Senhora poderá dar uma proseada com ele.

– E posso levar a prosa com ele a sós?

– A sós, claro! Só nós três.

– Tá, sendo assim, deixa pra lá.

– Mas antes de mais palavrório, Dona Menina, deixa eu chamar algum pra dar um trato nessa égua que arrastou a senhora pra cá. Brasil, ô Brasil!

– Às ordem, patrão.

– Conduz esse Firmino e a égua da Dona Menina e dê um bom trato nela.

– O rapaz chama Brasil, os pais devem ser muito patriotas.

– Patriota é só o que temos aqui, tá sabendo? mas num é dos pais que herdou o nome, pra modo dizer a verdade, fui eu que lhe dei.

– Ah, é só um apelido?

– Não, é o nome mesmo do cujo, de batizado e registro próprios, por aqui minha vontade é lei, quando nasce qualquer coisa, eu dou nome, pois sou certeiro em olhar pra coisa e saber nomear. Esse aí, quando nasceu, era a cara escarrada do Brasil: grande, cabeça chata enorme e uns pés minúsculos, era o mesmo que ver o mapa do Brasil. E era ladino, prometia muito.

– Mas ele é meio mirrado, não?

– Pois num é? Ficou só na promessa, num vingou quase nada esse danado, encroou e deu esse anão.

– Coisas da vida, coalhada de surpresas. Mas essa viagem até cá foi dura debaixo desse sol de rachar, fiquei seca. O Senhor poderia me arrumar um copo d’água?

– É pra já, da mais pura água de cisterna boa. Jorgete, Jorgete!

– Que foi patrãozinho meu?

– Traga uma moringa de água aqui pra Dona Menina.

– Estou surpresa, seu Menó, não poderia fazer suposição que aqui houvesse como agregado um tal qual ele.

– Arre! que num é coisa minha! Isso é arrumação da minha mulher, tá sabendo? Ela deu pra querer proteger essa tralha e trouxe ela pra dentro de casa, pra ser nossa cozinheira, e até que ele dá pra coisa, a comida dele é muito das boas.

– E de onde ele veio?

– É filho de um colono, nasceu por aqui mesmo, pra espanto nosso! Mas tamo dando um jeito de curar ele!

– Curar, e como é que se pode fazer isso?

– Diz que é difícil, né? Mas nós tamo persistindo.

– E que fizeram pra tentar?

– Bom, é que, tá sabendo? O negócio é que o pai dele contou que tudo começou por causa de um desafeto dele, por causa de uma briga de cachaça, no que o dito cujo levou uns bons safanões. Diz que pra modo de fazer sua vingança, o judiado entrou de sorrateiro na casa dele, enquanto ele estava a mourejar, e marcou o lombo do guri, deixando três letras formando um triângulo: dois X e um Y.

– Me parece mais uma lorota para explicar o que não se quer aceitar.

– Lorota ou não, o caso é que o menino cresceu assim enviesado. Uma velha aí do terreiro, tida como curandeira das boas, disse que era preciso suprimir um dos X para tirar o lado mulher dele.

– Sei, ouviu algo de médicos e num entendeu nada, daí...

– Pois foi aí que arresolvemos limpar o X.

– Já estou arrepiada de tanta estupidice, e o que fizeram pra limpar o X?

– Pegamos aquela escova de ferro de raspar couro de cavalo e raspamos, raspamos, até num deixar nenhum traço do X de cima do triângulo.

– Barbaridade!

– Mas era pro bem do moleque, tá sabendo? Mas num tivemos sucesso. Daí uns dias, deu uma casca grossa de machucado, e, quando ela caiu, lá estava o X inda mais marcado; e ele melhorou um nadinha, continuou moleca.

– Melhor deixar o vento soprar pra seguir onde pode ir, Seu Menó.

– Mas acha que nós firmamos desistência? Desistimos um nada, tá sabendo? inda vamos dar um jeito nele! Agora ele tá um tanto arisco, num chega muito perto de nós, mas qualquer dia desses havemos de lhe aplicar um outro remédio.

– E dessa vez, presumo, uma outra malvadeza será.

– Malvadeza nada, Dona Menina, é pro bem dele. O pastor da igreja da minha mulher usou um latinório pra receitar a cura, até fiz questão de gravar: similia similibus curantur; ele diz que quer dizer, mais ou menos, que a cura deve ser feita por algo parecido ao mal, e já que a marca era coisa do diabo...

– Fogo?!!!

– Pois antão, vamos ter que queimar o X.

– Fico imaginando se a Maria da Penha se aplica a tais casos...

– O que disse a Senhora?

– Ah, deixa pra lá, cada qual no seu curral.

– O curral? Fica ali perto daquela figueira, vamos até lá pra Senhora se maravilhar com a beleza da fazenda.

– Realmente muito bela, o Senhor poderia me contar das origens da propriedade, como chegou na família?

– Olha que é uma história muito das boas, Senhora Dona Menina. Meu avô me contou que foi o avô dele que conquistou as terras. Pois então, esse meu tataravô um dia se pôs decidido a seguir o Sol até onde ele morre, lá pras bandas além daquela serra, que é onde acaba a Terra. Ele sabia, pela tradição da família, que o Sol era uma bola toda feita de ouro em fervura e, quando o calor é muito, ele tem que pôr abaixo o excesso de ouro, tá sabendo? Assim, quando ele cai lá no fim do mundo no final da tarde, ele deixa cair um tanto naquela montanha que a Senhora vê lá ao longe, que é a última. O avô foi até lá no alto, levou dias e dias para lá chegar, esperou o Sol. Aí, chegou aquela bola enorme de ouro, transbordando pelas beiradas o gás de ouro. Estava bem no dia maior do verão, quente como o inferno, e o Sol despejou um tanto de ouro bem perto dos seus pés. Foi com aquele ouro que ele adquiriu as terras.

– Ah, sei, e de vez em quando o Senhor sobe lá para pegar um pouco?

– Pra quê? Já tenho as terras que preciso. Mas dê uma olhada, Dona Menina, olha que beleza de gado.

– Realmente, tudo bem tratado, melhor que os colonos, parece!

– Isso é o meu orgulho. O Mané ali está a cangar as juntas pro carro. Olha que beleza: duas bem parelhas e uma nem tanto, esta é a guia, um boi preto manchado de branco, o Esquerdo, e um branco manchado de preto, o Direito. Eles têm uma inclinação de ir pros lados diversos, mas, cangados, é uma verdadeira maravilha, vão direitinho pra onde a gente quer.

– E o que não falta é canga e vontade de cangar, né?

– Mas vamos até a sede, Dona Menina, minha mulher vai nos preparar um cafezinho no jeito.

– Vamos, talvez assim eu possa sair deste meu atordoamento.

-o-








domingo, 21 de julho de 2019

O Jogo do Castelo Interior



O Jogo do Castelo Interior





Introdução

Esta história me foi contada por Philip K. Dick em uma das imersões que habitualmente faço no mundo dos espíritos quando entro em profunda meditação. A placidez que dele emanava contrastava totalmente com o emaranhado de loucura que tinha sido a sua vida em nosso meio. Nada revelava da sua frustração em vida por não ter alcançado o sucesso literário que tanto perseguira, nem da fama póstuma que o elevou, talvez, a ser o maior escritor de ficção científica já conhecido; externava apenas uma pequena preocupação com a evolução do nosso mundo, como a sua própria trajetória de sucesso era um exemplo. Como é sabido, a sua fantástica imaginação criou uma prolífica obra, publicada em revistas especializadas e livros, que, embora lhe tenha permitido dela viver, só foi elevada ao reino dos sucessos após o seu falecimento, quando foi transformada em filmes. Ele não pôde assistir nem mesmo ao primeiro: Blade Runner, baseado em seu livro Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, que levou seu nome para todo o nosso mundo; muito menos aos que o seguiram, como O Vingador do Futuro, baseado em Podemos Recordar para Você, por um Preço Razoável; Minority Report, baseado no conto homônimo; e muitos outros sucessos cinematográficos.

Durante o nosso passeio, rimos muito quando passei a citar os anacronismos que encontrava em sua obra, que relatava mundos de uma tecnologia impensável, mesmo no mundo de hoje, enquanto fichas com ranhuras eram usadas para ligações telefônicas e o telégrafo para mensagens rápidas. Ele se divertiu ao constatar esses pequenos lapsos da imaginação, e, quando mencionei as fitas perfuradas do módulo de controle das formigas elétricas, que faziam o suprimento de realidade, explodimos em uma gargalhada uníssona.

A sua preocupação, que mencionei acima, cresceu ao contemplar no futuro a substituição total das páginas brancas do livro por um sistema de transmissão (streaming) diretamente para uma tela virtual, que se formará diante dos olhos dos poucos leitores que ainda existirão, onde o movimento dos olhos controlará o fluxo das palavras. E, em 2041, com o surgimento dos jogos holográficos, ele viu que as alucinações que vivera através das drogas e do êxtase paranormal serão colocadas ao alcance de todos, com efeitos psicológicos explosivos. E foi em decorrência dessa preocupação que ele me contou esta história, que passo a transcrever.


A Festa de Aniversário Que Não Houve

Naquele ano, o Felipe não teve uma festa de aniversário, pois concordara em trocá-la pelo Jogo do Castelo Interior, embora um tanto contrariado. Na verdade, nem partira dele a ideia do presente, pois nem sequer ainda ouvira falar do jogo, mas ela havia aparecido na mesa de jantar da família, trazida pelo pai, que falou das maravilhas do jogo:

– Felipe, que tal ganhar de presente o Jogo do Castelo Interior?

– Que jogo é esse, pai? Nunca ouvi falar.

– Ei, ei – interrompeu a mãe – isso deve ser muito caro, vamos analisar a possibilidade com mais atenção.

– Não se preocupe – o pai atalhou – eu já sei como resolver isso.

E dirigindo-se novamente ao Felipe:

– Pois é, filho, é um lançamento sensacional. A gente pode vivenciar tudo que quiser.

– Tudo? Eu posso imaginar que sou um rei poderoso e conquistar o mundo?

– Bom, ainda não entendi direito como tudo funciona, mas comenta-se que podemos transformar as nossas disposições interiores em uma realidade.

  Não entendi nada, como funciona isso?

– Pelo que me contaram, joga-se em um quarto fechado e, ao se ligar o aparelho, o quarto é transformado em um mundo novo, totalmente saído da sua mente e dos seus desejos. Nessa nova realidade, formada por imagens criadas por holografia, você vai subindo de nível, penetrando cada vez mais fundo dentro de você mesmo.

– É pai, parece legal – Felipe assentiu, mas não estava muito convencido de que percorrer a sua própria alma, sem interagir com seus amigos, fosse assim tão legal.

– Mas tem um porém, filho, o jogo realmente custa muito caro, e só poderemos comprá-lo se economizarmos cortando a sua festinha de aniversário.

– Ahn? – Felipe quase pulou da cadeira.

– Pois é, filho, é sempre preciso fazermos sacrifícios quando desejamos muito alguma coisa.

– Mas, pai, eu nem sei se quero tanto assim esse jogo. E perder a festa com meus amigos?!

Ora, Felipe, você poderá convidar os seus amigos para jogar.

– Mas, pelo que você falou, cada um tem que jogar sozinho, no seu próprio mundo.

– O divertido é que todos podem criar as fantasias que trazem bem dentro de si, e depois vão poder contar as suas experiências.

– E isso de viver fantasias interiores ou, sei lá, realidades interiores, não pode ser um tanto perigoso? – perguntou a mãe.

– Que perigo pode haver? Sendo uma realidade virtual não deixa traços em nosso mundo real.

– Sei não, liberar sem freio o que está em nossa mente pode levar a consequências não muito agradáveis, eu acho.

– Ora, que besteira, são apenas brincadeiras inconsequentes, nenhum mal pode fazer.

– Espero mesmo que assim seja.

– E então, Felipe, temos um trato? Negócio fechado?

– Mas... sem festa de aniversário, pai?

– Isso mesmo, Felipe. Então estamos definidos, sem festa de aniversário.


As Instruções Para o Jogo

Os dias passaram a se alongarem, arrastando-se preguiçosamente. Não foi possível aguentar a espera. No sábado anterior ao dia do aniversário, que seria na quinta-feira, o pai do Felipe acordou-o com a ansiedade esparramada sobre a caixa do jogo, interrompendo o seu permitido sono mais longo dos fins de semana.

– Oi, filhão, olha o que tenho para você.

– Ah, pai, – o Felipe apenas entreabriu os olhos, viu uma sombra projetando-se sobre ele, virou para o outro lado – deixe-me dormir.

– Acorde, filho, já preparei o seu café, precisamos montar o jogo.

– Ufa, pai, hoje é sábado, você bem que podia me deixar dormir mais um pouco.

– Vai. Passa uma água na cara para liquidar a leseira e vai tomar seu café.

E lá foi o menino arrastando-se. Não é que ele demorou mais, pois normalmente ele não era muito rápido para fazer as suas refeições, mas o pai até achou que ele estava agindo de propósito.

 – Vai, Felipe, acabe logo com isso e vai escovar os seus dentes.

Quando ele, finalmente, chegou ao quarto onde os brinquedos ficavam em completa desorganização, já estava mais ativo. O pai entregou-lhe a enorme caixa embrulhada em papel de presente antevendo a satisfação que o filho teria em desvestir o desejado jogo. Aberta a caixa, as instruções de montagem nela contidas foram lidas rapidamente. Era simples montar o aparelho, bastaria juntar algumas peças que vinham separadas na caixa para diminuir o seu volume. Quando o Felipe pegou a primeira peça:

– Deixe que eu faço, Felipe.

– Mas eu quero fazer, pai, o presente é meu, não é?

– É, filho, mas você quer correr o risco de estragá-lo? É preciso experiência para fazer isso direito.

– Que droga! Não tem nenhum segredo nisso!

– Mas é preciso fazer com cuidado, deixe que eu faço.

E o Felipe, embora contrariado, enquanto o pai fazia a montagem do projetor de imagens, ativou no aparelho o sensor que captava automaticamente a energia solar e apertou o botão de instruções para a utilização do jogo. Uma tela virtual foi projetada a sua frente e ele pôs-se a ler:

O jogo é muito fácil de usar, pois nada é necessário além de apertar o botão que liga o aparelho, e, quando um jogador quiser iniciar a sua jornada, deve acionar a tecla de entrada, dando início à conexão que será feita entre o scanner do aparelho e a frequência de pensamento do jogador; ao apertar a tecla, deve-se mantê-la pressionada por três segundos para que a sintonia seja estabelecida. Feito isto, o aparelho começa a projetar para o jogador o conteúdo mais adequado ao seu perfil do momento. Ele estará dentro do seu Castelo Interior, que possui muitas salas distribuídas em sete níveis. A cada nível conquistado, ele estará penetrando mais profundamente no seu Eu; o que o jogador encontrará no sétimo nível dependerá somente dele.

É realmente muito fácil jogar, no entanto, temos algumas recomendações a fazer:

1. O que encontrarás em tua jornada depende do teu estado emocional e psicológico, portanto, recomendamos uma preparação antes de te aventurares sem um perfeito controle dos teus objetivos.

2. Tudo dependerá do conteúdo do teu Eu mais profundo, terás toda a liberdade de escolher os teus alvos; as diversas galerias conduzem a todos os tipos e meios para a tua travessia, nada te será escondido, porém o teu estado espiritual predetermina a tua escolha.

3. Para te permitir entrar num clima mais adequado, o aparelho emitirá para o teu cérebro uma trilha sonora em resposta ao teu desenvolvimento, estimulando-te ou acalmando-te conforme tuas próprias escolhas.

4. Poderás, como exemplo, enfrentar uma batalha sem trégua contra inimigos terríveis ou um passeio harmonioso conhecendo os espíritos da natureza em uma floresta.

5. Cada jogador tem a sua própria realidade virtual independente, em circunstâncias normais não há interpenetração dos mundos gerados para cada um, mas poderá haver janelas em que se possa estabelecer ligações com o mundo do outro em casos excepcionais de afinidades.

 6. Não é demais recomendar uma preparação de relaxamento: um tanto de meditação ou oração, conforme tuas convicções, nunca será desprezível.

7. Se estiveres a enfrentar perigos, lembra-te que és como um fio de algodão, deves ter por meta te entreteceres em uma trama que te dê a força necessária para superar os desafios, não desprezes a ajuda que possa decorrer da tua generosidade.

8. Por fim, queremos lembrar que penetrarás em um templo que não tem nenhum aviso como aquele de Apolo, em Delfos, por isto o repetimos aqui: CONHECE-TE A TI MESMO E CONHECERÁS OS DEUSES E O UNIVERSO.


Primeiras aventuras

– Está tudo pronto, Felipe, já podemos jogar.

– Pai, aqui tem instruções para o jogo, acho bom você dar uma lida nelas.

– Besteira, Felipe, já sei de tudo que preciso saber, vamos em frente – e apertou o botão de entrada no jogo.

1) O Felipe ainda ficou algum tempo observando o pai que parecia ter imergido em um sono profundo. Lembrando-se das instruções, preparou-se adequadamente para penetrar em um mundo de aventuras que já conhecia nas suas fantasias. Apertou o botão de entrada e, de repente, ele estava em um pátio circundado por altas paredes, onde não havia nenhum sinal de outros seres além de um cavalo arreado, que provavelmente ele teria utilizado para ali chegar. Procurou familiarizar-se com o local, percebeu que estava dentro de um castelo medieval cuja gravura alimentara os seus sonhos de herói. Vasculhou tudo, estava realmente sozinho. Pelo lado oeste do castelo, o sol, escondendo-se atrás de uma montanha, deixava seus últimos raios invadirem o portão do castelo. A ponte levadiça estava baixada, convidando-o a abandonar aqueles muros sombrios e vazios, mas sobre o portão, cinzelada nas pedras do muro, uma inscrição intimidava: Abandona toda a esperança aquele que por aqui sair.

Parou a refletir: onde já vira aquela frase? Lembrou-se da sua professora a falar do Inferno de Dante, onde na entrada uma frase similar alertava os que ali entrassem. Estremeceu dentro da cota de malha que vestia, mas se estava à procura de aventura, nada havia a reclamar. Montou o cavalo e cruzou a ponte. Pegou o caminho que dobrava à direita, dirigindo-se ao norte. A noite instalando-se, a lua enorme iluminava a estrada que o levou a um bosque; no meio das árvores, fiapos do luar contribuíam para criar sombras perturbadoras. No bosque, uma luz vacilante surgiu mais forte a sua frente, um uivo longo agitou as sombras. Avançou para aquela estranha claridade, encontrando uma clareira onde uma fogueira queimava.

2) Um cão enorme, negro como a noite, estava ao lado de uma velha vestida de trapos cozinhando algo em um caldeirão disposto sobre as chamas. Ele permaneceu montado enquanto avaliava o lúgubre cenário; foi a velha quem quebrou o longo silêncio:

– Com que fim tão nobre cavalheiro vem pela estrada da perdição sem as armas necessárias para vencer os perigos da jornada sem fim?

– Venho em busca da aventura do conhecimento.

  Na sua mais pura inocência deixaste o teu corpo físico para aventurar-se pelo reino das sombras, onde a cada encruzilhada os olhos do mal te espreitam?

– Aquele castelo, embora cercado de muros protetores, não mais podia conter o fogo do meu espírito.

– Disseste bem, a tua frente correu este cão de olhos vermelhos de fogo, trazendo esse teu espírito rebelde; eu te fiz o favor de pará-lo para que te esperasse, a impaciência e a avidez não são boas companheiras. Tu deves mantê-lo ao teu lado, dominado apenas pelo teu desejo, siga o caminho da tua vontade até que consigas obter a maçã de ouro, que te permitirá voltar ao teu castelo.

– E aonde devo ir para encontrar esse fruto?

– Apenas sigas o caminho, mas lembra-te que sempre terás o teu castelo ameaçado pelo medo, um teu estremecimento partirá o fio que liberará a avalanche que o destruirá.

– Minha boa senhora, podes me dizer o que tens nesse caldeirão a cozinhar?

– São todos os teus predicados, bons e maus, favoráveis e desfavoráveis, que estou a misturar na temperatura adequada para fazer um poderoso elixir. Guarda contigo este frasco que com ele preparei, ele terá o poder de curar ou aniquilar, de acordo com a tua disposição e o momento, mas nunca poderás utilizá-lo em ti, pois o resultado seria a perda total da tua razão.

– Obrigado, bela senhora, as sombras haviam enegrecido os meus olhos. A quem devo tanta gentileza?

Ela sorriu, e logo ele estava sozinho, restando ao seu lado apenas o cão negro de olhos de fogo.

E Felipe seguiu o caminho penetrando novamente no bosque. Por um breve momento viu entre as árvores uma imagem de seu pai brandindo uma acha de dois gumes e uma espada, assaltando um castelo, excitado e febril.

3) A estrada levou-o à entrada de um túnel, onde a luz pouco penetrava. Seguiu por aquela caverna escura ouvindo barulhos que pareciam vir de alguém a cavar. Quando se aproximou da fonte das batidas, uma sombra dentro de uma cova estava a aprofundá-la. Ele parou a observar o trabalho, que continuava sem que o escavador interrompesse sua atividade, desceu do cavalo e, curioso, indagou:

 – Ó, boa alma, que fazes a cavar em sítio tão sombrio?

– Cavo a minha própria sepultura.

– Como? Estás, por acaso, condenado por alguma doença?

– Simplesmente necessitando de repouso.

– Posso ser-lhe útil de alguma forma?

– Vejo que és um bondoso cavalheiro; sim, poderias ajudar-me a provar se minha cova está confortavelmente espaçosa, mas, antes, ajuda-me a plantar essa cruz, que tens a teus pés, em seu lugar.

Felipe se prestou a fincar a cruz na cabeceira da cova, afundando-a na terra seca com o punho de sua espada. Quando aprumada, não pôde distinguir no escuro o seu nome lavrado na trave.

– Pronto, aí está.

– Muito te agradeço por tão grande ajuda, pois o cansaço já me entorpece, poderias agora deitar-se na cova para ver se o tamanho está adequado? – perguntou a sombra saindo de dentro da cova.

Como se estivesse apanhado pela vontade de um poderoso feitiço, Felipe entrou no buraco e deitou-se, sentindo apenas os primeiros rojões de terra que caíram sobre seu corpo.

Enquanto tudo isso se desenrolava, o cão de olhos de fogo estivera a observar, demonstrando nervosismo com seus grunhidos. Quando Felipe perdeu os sentidos, ele pulou sobre aquela sombra.

Felipe acordou com a língua do cão sobre a sua face. A sombra desaparecera. Ele sentiu-se revigorado, aliviado como se tivesse perdido um grande peso. Continuou ao longo do túnel que terminou abrindo-se para um grande vale onde corria um rio caudaloso.

4) Saiu da escuridão diretamente para um mundo de luz cegante, estava ao pé de uma massa enorme de rochas que subia vertiginosamente, comprimindo um rio que se agitava desesperado na luta das suas águas em busca de repouso. Parado na margem daquelas águas tumultuadas, contemplava o vale coberto de árvores que se abria a sua frente; no meio do verde erguia-se solitário sobre uma elevação um castelo com quatro torres. Distraído pela beleza que contemplava, não percebeu uma sombra que deslizava furtivamente escondido atrás de uma rocha. Não teve tempo para se defender quando aquele ser se arrojou contra ele, empurrando-o para dentro das águas revoltas.

 Como um boneco, foi arrastado pelo ímpeto da corrente que corria em direção leste. Do susto do empurrão passou ao da completa incapacidade de lutar contra aquela força descomunal, a qual sentiu-se incapaz de vencer. Viu correndo para si um sorvedouro formado entre duas grandes pedras, lembrou-se das palavras da velha do caldeirão, por um breve lapso pensou ter chegado ao fim da estrada; ouviu a velha a dizer-lhe para apenas seguir o caminho, acalmou-se no abandono. O turbilhão de água lançou-o para o fundo. Suas mãos o protegeram de um choque com as pedras; rolou sem vontade no leito como uma migalha da areia que sentia chicoteando seus braços. E foi lançado de volta para a claridade da superfície, onde pôde buscar um pouco de ar antes de novamente ser submergido por outro turbilhão. Visitou novamente o fundo do rio, rolou e foi jogado de volta à tona, só para perceber que sua viagem não terminara. Repetiu ainda uma vez aquela sensação de ser um boneco sem vontade comandado pelas águas, e viu, ao recuperar o ar livre, que se achava próximo ao remanso da margem oposta, aonde conseguiu chegar após vigorosas braçadas.

Quando se pôs de pé, arfando e quase sem acreditar que pudesse respirar livremente, viu chegar ao seu lado o cão de olhos de fogo. Alegrou-se que pudesse contar com o seu fiel companheiro enquanto observava que, do outro lado, o seu carrasco montava o seu cavalo e se afastava calmamente acompanhando a margem do rio.

5) Recuperando-se rapidamente, encontrou a sua trilha que o levou por dentro da mata densa, que se elevava seguindo o rio, virando em direção sul. Saindo da mata, deparou-se na borda de um imenso precipício de onde pôde contemplar o vale que cercava o castelo de quatro torres. Seguiu o único caminho que lhe era oferecido sobre aquela plataforma até encontrar uma cascata de águas borbulhantes, que formava uma lagoa convidativa ao repouso.

Quando acordou ao som de gargalhadas, viu alguém que brincava alegremente em um balanço que, suspenso sob o galho de uma enorme árvore, agitava-se sobre o abismo. Quando se aproximou da árvore, pôde distinguir a velha senhora do caldeirão.

 – Portaste-te muito bem até agora, metade da tua jornada está cumprida, conquistaste o direito e o dever da alcunha de Senhor da Chama. A tua grande batalha para consolidar tua conquista está prestes a acontecer.

 – Tenho o direito de saber por que Senhor da Chama?

– Vê com os teus olhos, debruça-te sobre as águas e contempla a tua imagem.

Ele seguiu o que a senhora lhe disse e viu seu reflexo na água. Ao seu lado, o cão de olhos de fogo estava refletido e ele pôde ver que de seus olhos incandescentes crescia uma labareda, que não parecia brotar da água. Virou-se para o cão já empunhando sua espada. A cabeça da besta expandiu-se em uma enorme chama que se precipitou sobre ele. Ainda deitado, sustentou o impacto do choque dirigindo a espada para onde deveriam estar os olhos da besta de fogo, girando o corpo para o lado. A espada ardeu no calor da chama, chamuscando o seu braço. Puxou-a e soltou-a enquanto a besta se consumia no fogo.

Quando se levantou sentia a mão ardente, e ouviu a senhora:

– Agora estás fortalecido pelo fogo, mas tua jornada continuará em total solidão. Teu caminho segue pela estrada que o Sol traça no trajeto do dia. Ao pé desta árvore encontrarás um aparelho que te permitirá vencer o abismo.

E a velha senhora jogou-se no ar desaparecendo no abismo.

6) O Senhor da Chama olhou perdidamente para o imenso vazio que não lhe oferecia possibilidade de atravessar. Respirou fundo perguntando-se o que teria sua mestra lhe ofertado para realizar o seu destino. Caminhou devagar para a árvore recuperando forças.
Encostada no tronco da árvore encontrou uma estrutura em forma triangular que lhe trouxe à memória as pipas como as que brincava ao vento, mas esta era bem maior. Sob uma cobertura de seda havia correias que serviriam para amarrá-lo à estrutura que sustinha a vela e apoio para as mãos e pés.

Vestido com a armadura de pássaro voltou à beira do abismo e um tremor percorreu seu corpo. Sentiu a fragilidade dos seus ossos que poderiam se destruírem no fundo daquele imenso vazio. Recompôs-se. Seu caminho estava traçado. Lançou-se ao ar.

Caindo em mergulho, uma corrente de ar tomou-o como uma pluma. Deslizou no rastro do sol em direção ao castelo de quatro torres. Ao longe, pôde observar seu pai, extenuado, que lutava freneticamente à porta de um castelo edificado sobre uma enorme rocha, mas, sem poder afastar-se da sua trilha de luz, seguiu seu destino. Aproximando-se do seu castelo descreveu sobre ele três círculos, descendo gradualmente. Chegou ao solo em frente à porta por onde saíra no começo de sua jornada.

7) Sua protetora recebeu-o ante o portão do castelo. Ele ajoelhou-se agradecendo por toda a sua assistência. Ela entregou-lhe como recompensa a desejada maçã de ouro, abençoou-o e disse:

– Ainda tens uma missão a cumprir. Toma a tua asa, volta a entrar no teu castelo e suba na muralha por aquele acesso bem em frente ao portão, e vá cuidar de teu desventurado pai, que foi ferido por uma lança. Cumpriste a tua jornada de renascimento e nada mais precisas de meu auxílio. Bom regresso, adeus.

Ele subiu a escadaria e na borda da muralha olhou por onde ela indicara e avistou o pai caído à porta do castelo que tentara conquistar. Lançou-se novamente no ar e voou em sua direção. Descendo onde o pai se encontrava, despojou-o de sua armadura, do machado de guerra, da pesada espada, e de todos os apetrechos que o pai acumulara em sua desvairada aventura. Usou o líquido que a velha senhora lhe dera, no início de sua jornada, para curar as feridas do pai.

Quando o pai voltou a si, surpreendeu-se por encontrar o filho ao seu lado a esperar o seu despertar. Nada disse. O filho tomou-o pela mão e encaminharam-se para a porta daquele castelo que o pai tentara conquistar. Sobre o portão, o pai pôde ler esta inscrição:

 “E UMA CRIANÇA PEQUENA OS GUIARÁ” (Isaías 11.6).

A porta abriu-se e os dois entraram. Estavam de volta ao quarto do jogo.

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domingo, 30 de junho de 2019

Nome é para toda a vida


Nome é para toda a vida



– Ô de casa! Dona Menina! Óia que tem visita adentrando sua porta!

– Pois vamos acabar de chegar, pessoal, é toda a minha satisfação acolher vocês aqui em nosso chão, assim um tanto desprevenida que num esperava ninguém, mas, por obséquio, vamos chegando que a casa é toda sua.

– A senhora adesculpa que a gente chega assim sem alarde nenhum, mas é que tamo num desassossego de levantar pó em soalho de talba.

– Então vamos pegar um assento para dar desafogo a esses pés nervosos. Senta aqui juntinho de mim, Naterça, e o senhor, Seu Quinzinho, se abanque nesse sofazinho. E, aí, minha gente, o que é que tanto está a intranquilizar?

– A Senhora Dona Menina tá avisada que lá em casa desbrotou de nós mais uma guriazinha, né?

– Estou sim, Naterça, e como ainda não tive conveniência pra uma visitinha, aproveito para lhes dar as minhas congratulações.

– Fico muito da agradecida, Dona Menina.

– E por que não veio a pequenina para que eu pudesse conhecer?

– Achamo que inda num era devido pra ela pegar um sereno. Deixamo a Açucena a fazer vigia dela, outro dia nós traz.

– Assim espero, Naterça, sabe como é, né? essas juntas duras não deixam que eu possa sair assim a bel prazer, é penoso uma caminhada até a sua casa.

– Sei, sim, Dona Menina, é pro modo disso que viemo cá pra ver se nos dá alento pra resolver o embrolho que tamo encalacrado, que é de acertar  um nome pra miúda.

– Ahn!? Quer dizer que esse barulho todo é só por causa do nome da menina?

– Sabe como é, Dona Menina, o Quinzinho, que agora tá ali amochado e mudo, empacou igual mula véia em um nome. Fala homem, diz aí pra Dona Menina o nome que tu qué dá pra ela!

– Sabe o que é, Dona Menina, num é só a Naterça que está assim braba, não. Em depois que arranjei o nome da guria, ela me mandou uns três pratos na testa...

– Mandei, Dona Menina, mandei deveras.

– Aí, foi ela palrear com o Padre Joaquim, a preguntar se cabia batizar assim e assado a menina.

– E que disse o estonteado, Naterça?

– Ele foi logo me preguntando se o Coisaruim tomou assento lá na casa nossa, e que bem de preferência seria deixar a menina pagãzinha, sem nome.

– Bem, nem fico muito alarmada porque daquele desatinado uma estupidice é mais que esperada, mas até agora inda não sei que palavrão de nome é esse, que vocês ainda não disseram.

– Óia, Dona Menina, que eu nem apreceio de falar o tal. Diz, aí, Quinzinho, o nome que ocê tá tanto prezando.

– Pois digo, Dona Menina, sem avexo, pois gostei ademais dele, que eu quero mesmo chamar a pequena de Bucetilde.

– !?

– Viu, Dona Menina, pela sua cara pasmada a senhora dá razão a mim e ao Padre, né?

– Mas, mas, que desconveniente!

– Aí, Quinzinho, já conseguiu aperceber o desmesurado do seu papel de carrasco da menina?

– Num me cabe o fato de tanto frege, ocês é que parecem ter embirrado com o nome.

– Se faz tanta questão, seu Quinzinho, Nossa Santa Mãezinha que me perdoe, de persistir com Bu qualquer coisa, podia ao menos minorar um tantinho, talvez quem sabe podia ser Bucicleide, ou Bucinda, ou Bucimara.

– Num tem precisão de minorar nadinha.

– Mas, seu Quinzinho, por que num escolhe um nominho assim mais simples, mais carinhoso; que tal Clara, ou Teresinha, ou um bem nobre assim como Ádila?

– Sabe o que é, Dona Menina, num apreceio um nominho simples desses que não dá uma saliência própria, tem que ser um sem outro igual.

– Mas é muito feio, seu Quinzinho, nem galinha ia caber nesse nome, parece ser de uma coisa feia, cabeluda, mais propício pra, sei lá, uma aranha.

– Eu que já me cansei de brigar, Dona Menina, só ponho fé, agora, é que o Joca do Cartório não ponha o tacho no fogo.

– Não, Naterça, com aquele outro destrambelho num é bom contar. Seu Quinzinho, me diga cá judiciosamente, o que achou de atrativo nesse nome?

  Óia, Dona Menina, é que no certeiro momento que vi aquela coisinha toda embruiada e  amarrotada, despreguiçando os bracinhos, com uma facinha doce toda enrugadinha, fui tomado de carinho, e, atinei cá nos meu miolo, que seria tudo de bom poder chamar ela acarinhadamente de minha Bucezinha, ou de minha Cetinha. Óia que gustusura!

– !?

– Tá vendo, Dona Menina, a minha sofrência? Num parece que esse homem tá mangando de nós?

– É, num parece sério, já é tempo, seu Quinzinho, de ajustar o siso, já imaginou o que sua filhinha vai amargar por carregar um tal nome por este mundo de gente tão perversa.

– O que eu mesmo acho, Dona Menina, é que ninguém deve de se avexar do nome que ganha.

– Mas, Seu Quinzinho, criança é sempre muito aproveitadora de coisas estranhas para fazer maldades, fico imaginando na sala de aula, na hora da chamada, vai ser um coro de envergonhar e corar até o quadro-negro.

– Ela acostuma, a gente acostuma com tudo no mundo.

– E o senhor num teme que ela vá ter-lhe ódio por toda a vida?

– Se é só por carinho, pro modo de quê?

– Naterça, vou procurar o Joca do Cartório e assegurar que ele não aceite o registro.

– Encarecidamente peço o favor, Dona Menina, pra poder encher essa cabeça abestada de algum siso, que eu já tô no desgosto de ter esfacelado os meus pratos, pois devia de ter jogado nele uma marreta de uns cinco quilo.

– Se tou endoidado, cês acha que tô assim, por quê? Deve de ser de tanta bordoada sofrida na cabeça pro modo dessa muié destemperada.

– Deixa eu fazer mais uma tentativa, Naterça. Seu Quinzinho, se trocar o nome da menina, prometo que, se me aceitarem como comadre, vou batizá-la e ajudar com muito carinho a cuidar dela.

– Oh, que satisfação que nos dá, Dona Menina! Aí, Quinzinho, que podia nós querer de mió? Vai, homem, aceita.

– Até que é muito do meu agrado esse oferecimento, me sabe bem a mim.

– Então, homem, aceita e troca o nome.

– Hum, deixa eu pensar.

– Eu apreciei deveras do Ádila!

– Não, é muito do imperioso.

– Então, qual?

– Ah, já achei.

– Qual?

– Qual?

– Pois taí, Vaginilda!

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