O
Jogo do Castelo Interior
Introdução
Esta história me foi contada por Philip K. Dick em uma das
imersões que habitualmente faço no mundo dos espíritos quando entro em
profunda meditação. A placidez que dele emanava contrastava totalmente com o
emaranhado de loucura que tinha sido a sua vida em nosso meio. Nada revelava da
sua frustração em vida por não ter alcançado o sucesso literário que tanto
perseguira, nem da fama póstuma que o elevou, talvez, a ser o maior escritor de
ficção científica já conhecido; externava apenas uma pequena preocupação com a
evolução do nosso mundo, como a sua própria trajetória de sucesso era um
exemplo. Como é sabido, a sua fantástica imaginação criou uma prolífica obra,
publicada em revistas especializadas e livros, que, embora lhe tenha permitido
dela viver, só foi elevada ao reino dos sucessos após o seu falecimento, quando
foi transformada em filmes. Ele não pôde assistir nem mesmo ao primeiro: Blade Runner, baseado em seu livro Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, que levou seu nome para todo o
nosso mundo; muito menos aos que o seguiram, como O Vingador do Futuro, baseado em Podemos Recordar para
Você, por um Preço Razoável; Minority
Report, baseado no conto homônimo; e muitos outros sucessos
cinematográficos.
Durante o nosso passeio, rimos muito quando passei a citar
os anacronismos que encontrava em sua obra, que relatava mundos de uma
tecnologia impensável, mesmo no mundo de hoje, enquanto fichas com ranhuras
eram usadas para ligações telefônicas e o telégrafo para mensagens rápidas. Ele
se divertiu ao constatar esses pequenos lapsos da imaginação, e, quando
mencionei as fitas perfuradas do módulo de controle das formigas elétricas, que
faziam o suprimento de realidade, explodimos em uma gargalhada uníssona.
A sua preocupação, que mencionei acima, cresceu ao
contemplar no futuro a substituição total das páginas brancas do livro por um
sistema de transmissão (streaming)
diretamente para uma tela virtual, que se formará diante dos olhos dos poucos
leitores que ainda existirão, onde o movimento dos olhos controlará o fluxo das
palavras. E, em 2041, com o surgimento dos jogos holográficos, ele viu que as alucinações que vivera através das drogas e do êxtase paranormal serão colocadas ao alcance de todos, com efeitos psicológicos explosivos. E foi em
decorrência dessa preocupação que ele me contou esta história, que passo a
transcrever.
A
Festa de Aniversário Que Não Houve
Naquele ano, o Felipe não teve uma festa de aniversário,
pois concordara em trocá-la pelo Jogo do Castelo Interior, embora um tanto contrariado. Na verdade, nem
partira dele a ideia do presente, pois nem sequer ainda ouvira falar do jogo, mas
ela havia aparecido na mesa de jantar da família, trazida pelo pai, que falou
das maravilhas do jogo:
– Felipe, que tal ganhar de
presente o Jogo do Castelo Interior?
– Que jogo é esse, pai? Nunca ouvi falar.
– Ei, ei – interrompeu a mãe – isso deve ser muito caro,
vamos analisar a possibilidade com mais atenção.
– Não se preocupe – o pai atalhou – eu já sei como resolver
isso.
E dirigindo-se novamente ao Felipe:
– Pois é, filho, é um lançamento sensacional. A gente pode
vivenciar tudo que quiser.
– Tudo? Eu posso imaginar que sou um rei poderoso e
conquistar o mundo?
– Bom, ainda não entendi direito como tudo funciona, mas comenta-se
que podemos transformar as nossas disposições interiores em uma realidade.
– Não entendi nada,
como funciona isso?
– Pelo que me contaram, joga-se em um quarto fechado e, ao
se ligar o aparelho, o quarto é transformado em um mundo novo, totalmente saído
da sua mente e dos seus desejos. Nessa nova realidade, formada por imagens
criadas por holografia, você vai subindo de nível, penetrando cada vez mais
fundo dentro de você mesmo.
– É pai, parece legal – Felipe assentiu, mas não estava
muito convencido de que percorrer a sua própria alma, sem interagir com seus
amigos, fosse assim tão legal.
– Mas tem um porém, filho, o jogo realmente custa muito
caro, e só poderemos comprá-lo se economizarmos cortando a sua festinha de
aniversário.
– Ahn? – Felipe quase pulou da cadeira.
– Pois é, filho, é sempre preciso fazermos sacrifícios
quando desejamos muito alguma coisa.
– Mas, pai, eu nem sei se quero tanto assim esse jogo. E
perder a festa com meus amigos?!
– Ora, Felipe, você poderá
convidar os seus amigos para jogar.
– Mas, pelo que você falou, cada um tem que jogar sozinho,
no seu próprio mundo.
– O divertido é que todos podem criar as fantasias que
trazem bem dentro de si, e depois vão poder contar as suas experiências.
– E isso de viver fantasias interiores ou, sei lá,
realidades interiores, não pode ser um tanto perigoso? – perguntou a mãe.
– Que perigo pode haver? Sendo uma realidade virtual não
deixa traços em nosso mundo real.
– Sei não, liberar sem freio o que está em nossa mente pode
levar a consequências não muito agradáveis, eu acho.
– Ora, que besteira, são apenas brincadeiras
inconsequentes, nenhum mal pode fazer.
– Espero mesmo que assim seja.
– E então, Felipe, temos um trato? Negócio fechado?
– Mas... sem festa de aniversário, pai?
– Isso mesmo, Felipe. Então estamos definidos, sem festa de
aniversário.
As Instruções Para o Jogo
Os dias passaram a se alongarem, arrastando-se
preguiçosamente. Não foi possível aguentar a espera. No sábado anterior ao dia
do aniversário, que seria na quinta-feira, o pai do Felipe acordou-o com a
ansiedade esparramada sobre a caixa do jogo, interrompendo o seu permitido sono
mais longo dos fins de semana.
– Oi, filhão, olha o que tenho para você.
– Ah, pai, – o Felipe apenas entreabriu os olhos, viu uma
sombra projetando-se sobre ele, virou para o outro lado – deixe-me dormir.
– Acorde, filho, já preparei o seu café, precisamos montar
o jogo.
– Ufa, pai, hoje é sábado, você bem que podia me deixar
dormir mais um pouco.
– Vai. Passa uma água na cara para liquidar a leseira e vai
tomar seu café.
E lá foi o menino arrastando-se. Não é que ele demorou mais,
pois normalmente ele não era muito rápido para fazer as suas refeições, mas o pai
até achou que ele estava agindo de propósito.
– Vai, Felipe, acabe
logo com isso e vai escovar os seus dentes.
Quando ele, finalmente, chegou ao quarto onde os brinquedos
ficavam em completa desorganização, já estava mais ativo. O pai entregou-lhe a
enorme caixa embrulhada em papel de presente antevendo a satisfação que o filho
teria em desvestir o desejado jogo. Aberta a caixa, as instruções de montagem nela
contidas foram lidas rapidamente. Era simples montar o aparelho, bastaria
juntar algumas peças que vinham separadas na caixa para diminuir o seu volume.
Quando o Felipe pegou a primeira peça:
– Deixe que eu faço, Felipe.
– Mas eu quero fazer, pai, o presente é meu, não é?
– É, filho, mas você quer correr o risco de estragá-lo? É
preciso experiência para fazer isso direito.
– Que droga! Não tem nenhum segredo nisso!
– Mas é preciso fazer com cuidado, deixe que eu faço.
E o Felipe, embora contrariado, enquanto o pai fazia a
montagem do projetor de imagens, ativou no aparelho o sensor que captava
automaticamente a energia solar e apertou o botão de instruções para a
utilização do jogo. Uma tela virtual foi projetada a sua frente e ele pôs-se a
ler:
O jogo é muito fácil de usar, pois nada é necessário além
de apertar o botão que liga o aparelho, e, quando um jogador quiser iniciar a
sua jornada, deve acionar a tecla de entrada, dando início à conexão que será
feita entre o scanner do aparelho e a
frequência de pensamento do jogador; ao apertar a tecla, deve-se mantê-la
pressionada por três segundos para que a sintonia seja estabelecida. Feito
isto, o aparelho começa a projetar para o jogador o conteúdo mais adequado ao
seu perfil do momento. Ele estará dentro do seu Castelo Interior, que possui
muitas salas distribuídas em sete níveis. A cada nível conquistado, ele estará
penetrando mais profundamente no seu Eu; o que o jogador encontrará no sétimo
nível dependerá somente dele.
É realmente muito fácil jogar, no entanto, temos algumas
recomendações a fazer:
1. O que encontrarás em tua jornada depende do teu estado
emocional e psicológico, portanto, recomendamos uma preparação antes de te
aventurares sem um perfeito controle dos teus objetivos.
2. Tudo dependerá do conteúdo do teu Eu mais profundo, terás
toda a liberdade de escolher os teus alvos; as diversas galerias conduzem a
todos os tipos e meios para a tua travessia, nada te será escondido, porém o teu
estado espiritual predetermina a tua escolha.
3. Para te permitir entrar num clima mais adequado, o
aparelho emitirá para o teu cérebro uma trilha sonora em resposta ao teu
desenvolvimento, estimulando-te ou acalmando-te conforme tuas próprias
escolhas.
4. Poderás, como exemplo, enfrentar uma batalha sem trégua
contra inimigos terríveis ou um passeio harmonioso conhecendo os espíritos da
natureza em uma floresta.
5. Cada jogador tem a sua própria realidade virtual
independente, em circunstâncias normais não há interpenetração dos mundos gerados
para cada um, mas poderá haver janelas em que se possa estabelecer ligações com
o mundo do outro em casos excepcionais de afinidades.
6. Não é demais
recomendar uma preparação de relaxamento: um tanto de meditação ou oração,
conforme tuas convicções, nunca será desprezível.
7. Se estiveres a enfrentar perigos, lembra-te que és como
um fio de algodão, deves ter por meta te entreteceres em uma trama que te dê a
força necessária para superar os desafios, não desprezes a ajuda que possa
decorrer da tua generosidade.
8. Por fim, queremos lembrar que penetrarás em um templo
que não tem nenhum aviso como aquele de Apolo, em Delfos, por isto o repetimos
aqui: CONHECE-TE A TI MESMO E CONHECERÁS OS DEUSES E O UNIVERSO.
Primeiras
aventuras
– Está tudo pronto, Felipe, já podemos jogar.
– Pai, aqui tem instruções para o jogo, acho bom você dar
uma lida nelas.
– Besteira, Felipe, já sei de tudo que preciso saber, vamos
em frente – e apertou o botão de entrada no jogo.
1) O Felipe ainda ficou algum tempo observando o pai que
parecia ter imergido em um sono profundo. Lembrando-se das instruções,
preparou-se adequadamente para penetrar em um mundo de aventuras que já
conhecia nas suas fantasias. Apertou o botão de entrada e, de repente, ele
estava em um pátio circundado por altas paredes, onde não havia nenhum sinal de
outros seres além de um cavalo arreado, que provavelmente ele teria utilizado
para ali chegar. Procurou familiarizar-se com o local, percebeu que estava
dentro de um castelo medieval cuja gravura alimentara os seus sonhos de herói.
Vasculhou tudo, estava realmente sozinho. Pelo lado oeste do castelo, o sol,
escondendo-se atrás de uma montanha, deixava seus últimos raios invadirem o
portão do castelo. A ponte levadiça estava baixada, convidando-o a abandonar
aqueles muros sombrios e vazios, mas sobre o portão, cinzelada nas pedras do
muro, uma inscrição intimidava: Abandona toda a esperança aquele que por
aqui sair.
Parou a refletir: onde já vira aquela frase? Lembrou-se da
sua professora a falar do Inferno de Dante, onde na entrada uma frase similar alertava
os que ali entrassem. Estremeceu dentro da cota de malha que vestia, mas se
estava à procura de aventura, nada havia a reclamar. Montou o cavalo e cruzou a
ponte. Pegou o caminho que dobrava à direita, dirigindo-se ao norte. A noite
instalando-se, a lua enorme iluminava a estrada que o levou a um bosque; no
meio das árvores, fiapos do luar contribuíam para criar sombras perturbadoras.
No bosque, uma luz vacilante surgiu mais forte a sua frente, um uivo longo agitou
as sombras. Avançou para aquela estranha claridade, encontrando uma clareira
onde uma fogueira queimava.
2) Um cão enorme, negro como a noite, estava ao lado de uma
velha vestida de trapos cozinhando algo em um caldeirão disposto sobre as
chamas. Ele permaneceu montado enquanto avaliava o lúgubre cenário; foi a velha
quem quebrou o longo silêncio:
– Com que fim tão nobre cavalheiro vem pela estrada da
perdição sem as armas necessárias para vencer os perigos da jornada sem fim?
– Venho em busca da aventura do conhecimento.
– Na sua mais pura
inocência deixaste o teu corpo físico para aventurar-se pelo reino das sombras,
onde a cada encruzilhada os olhos do mal te espreitam?
– Aquele castelo, embora cercado de muros protetores, não
mais podia conter o fogo do meu espírito.
– Disseste bem, a tua frente correu este cão de olhos
vermelhos de fogo, trazendo esse teu espírito rebelde; eu te fiz o favor de
pará-lo para que te esperasse, a impaciência e a avidez não são boas
companheiras. Tu deves mantê-lo ao teu lado, dominado apenas pelo teu desejo, siga
o caminho da tua vontade até que consigas obter a maçã de ouro, que te
permitirá voltar ao teu castelo.
– E aonde devo ir para encontrar esse fruto?
– Apenas sigas o caminho, mas lembra-te que sempre terás o
teu castelo ameaçado pelo medo, um teu estremecimento partirá o fio que
liberará a avalanche que o destruirá.
– Minha boa senhora, podes me dizer o que tens nesse caldeirão
a cozinhar?
– São todos os teus predicados, bons e maus, favoráveis e
desfavoráveis, que estou a misturar na temperatura adequada para fazer um
poderoso elixir. Guarda contigo este frasco que com ele preparei, ele terá o
poder de curar ou aniquilar, de acordo com a tua disposição e o momento, mas
nunca poderás utilizá-lo em ti, pois o resultado seria a perda total da tua razão.
– Obrigado, bela senhora, as sombras haviam enegrecido os
meus olhos. A quem devo tanta gentileza?
Ela sorriu, e logo ele estava sozinho, restando ao seu lado
apenas o cão negro de olhos de fogo.
E Felipe seguiu o caminho penetrando novamente no bosque.
Por um breve momento viu entre as árvores uma imagem de seu pai brandindo uma
acha de dois gumes e uma espada, assaltando um castelo, excitado e febril.
3) A estrada levou-o à entrada de um túnel, onde a luz
pouco penetrava. Seguiu por aquela caverna escura ouvindo barulhos que pareciam
vir de alguém a cavar. Quando se aproximou da fonte das batidas, uma sombra
dentro de uma cova estava a aprofundá-la. Ele parou a observar o trabalho, que
continuava sem que o escavador interrompesse sua atividade, desceu do cavalo e,
curioso, indagou:
– Ó, boa alma, que
fazes a cavar em sítio tão sombrio?
– Cavo a minha própria sepultura.
– Como? Estás, por acaso, condenado por alguma doença?
– Simplesmente necessitando de repouso.
– Posso ser-lhe útil de alguma forma?
– Vejo que és um bondoso cavalheiro; sim, poderias
ajudar-me a provar se minha cova está confortavelmente espaçosa, mas, antes, ajuda-me
a plantar essa cruz, que tens a teus pés, em seu lugar.
Felipe se prestou a fincar a cruz na cabeceira da cova,
afundando-a na terra seca com o punho de sua espada. Quando aprumada, não pôde
distinguir no escuro o seu nome lavrado na trave.
– Pronto, aí está.
– Muito te agradeço por tão grande ajuda, pois o cansaço já
me entorpece, poderias agora deitar-se na cova para ver se o tamanho está
adequado? – perguntou a sombra saindo de dentro da cova.
Como se estivesse apanhado pela vontade de um poderoso
feitiço, Felipe entrou no buraco e deitou-se, sentindo apenas os primeiros
rojões de terra que caíram sobre seu corpo.
Enquanto tudo isso se desenrolava, o cão de olhos de fogo
estivera a observar, demonstrando nervosismo com seus grunhidos. Quando Felipe perdeu
os sentidos, ele pulou sobre aquela sombra.
Felipe acordou com a língua do cão sobre a sua face. A
sombra desaparecera. Ele sentiu-se revigorado, aliviado como se tivesse perdido
um grande peso. Continuou ao longo do túnel que terminou abrindo-se para um
grande vale onde corria um rio caudaloso.
4) Saiu da escuridão diretamente para um mundo de luz
cegante, estava ao pé de uma massa enorme de rochas que subia vertiginosamente,
comprimindo um rio que se agitava desesperado na luta das suas águas em busca
de repouso. Parado na margem daquelas águas tumultuadas, contemplava o vale coberto
de árvores que se abria a sua frente; no meio do verde erguia-se solitário
sobre uma elevação um castelo com quatro torres. Distraído pela beleza que
contemplava, não percebeu uma sombra que deslizava furtivamente escondido atrás
de uma rocha. Não teve tempo para se defender quando aquele ser se arrojou
contra ele, empurrando-o para dentro das águas revoltas.
Como um boneco, foi
arrastado pelo ímpeto da corrente que corria em direção leste. Do susto do
empurrão passou ao da completa incapacidade de lutar contra aquela força
descomunal, a qual sentiu-se incapaz de vencer. Viu correndo para si um
sorvedouro formado entre duas grandes pedras, lembrou-se das palavras da velha do
caldeirão, por um breve lapso pensou ter chegado ao fim da estrada; ouviu a
velha a dizer-lhe para apenas seguir o caminho, acalmou-se no abandono. O
turbilhão de água lançou-o para o fundo. Suas mãos o protegeram de um choque
com as pedras; rolou sem vontade no leito como uma migalha da areia que sentia
chicoteando seus braços. E foi lançado de volta para a claridade da superfície,
onde pôde buscar um pouco de ar antes de novamente ser submergido por outro
turbilhão. Visitou novamente o fundo do rio, rolou e foi jogado de volta à tona,
só para perceber que sua viagem não terminara. Repetiu ainda uma vez aquela
sensação de ser um boneco sem vontade comandado pelas águas, e viu, ao recuperar
o ar livre, que se achava próximo ao remanso da margem oposta, aonde conseguiu
chegar após vigorosas braçadas.
Quando se pôs de pé, arfando e quase sem acreditar que
pudesse respirar livremente, viu chegar ao seu lado o cão de olhos de fogo.
Alegrou-se que pudesse contar com o seu fiel companheiro enquanto observava que,
do outro lado, o seu carrasco montava o seu cavalo e se afastava calmamente
acompanhando a margem do rio.
5) Recuperando-se rapidamente, encontrou a sua trilha que o
levou por dentro da mata densa, que se elevava seguindo o rio, virando em
direção sul. Saindo da mata, deparou-se na borda de um imenso precipício de
onde pôde contemplar o vale que cercava o castelo de quatro torres. Seguiu o
único caminho que lhe era oferecido sobre aquela plataforma até encontrar uma
cascata de águas borbulhantes, que formava uma lagoa convidativa ao repouso.
Quando acordou ao som de gargalhadas, viu alguém que
brincava alegremente em um balanço que, suspenso sob o galho de uma enorme
árvore, agitava-se sobre o abismo. Quando se aproximou da árvore, pôde
distinguir a velha senhora do caldeirão.
– Portaste-te muito
bem até agora, metade da tua jornada está cumprida, conquistaste o direito e o
dever da alcunha de Senhor da Chama. A tua grande batalha para consolidar tua
conquista está prestes a acontecer.
– Tenho o direito de
saber por que Senhor da Chama?
– Vê com os teus olhos, debruça-te sobre as águas e
contempla a tua imagem.
Ele seguiu o que a senhora lhe disse e viu seu reflexo na
água. Ao seu lado, o cão de olhos de fogo estava refletido e ele pôde ver que
de seus olhos incandescentes crescia uma labareda, que não parecia brotar da
água. Virou-se para o cão já empunhando sua espada. A cabeça da besta
expandiu-se em uma enorme chama que se precipitou sobre ele. Ainda deitado,
sustentou o impacto do choque dirigindo a espada para onde deveriam estar os
olhos da besta de fogo, girando o corpo para o lado. A espada ardeu no calor da
chama, chamuscando o seu braço. Puxou-a e soltou-a enquanto a besta se consumia
no fogo.
Quando se levantou sentia a mão ardente, e ouviu a senhora:
– Agora estás fortalecido pelo fogo, mas tua jornada
continuará em total solidão. Teu caminho segue pela estrada que o Sol traça no
trajeto do dia. Ao pé desta árvore encontrarás um aparelho que te permitirá
vencer o abismo.
E a velha senhora jogou-se no ar desaparecendo no abismo.
6) O Senhor da Chama olhou perdidamente para o imenso vazio
que não lhe oferecia possibilidade de atravessar. Respirou fundo perguntando-se
o que teria sua mestra lhe ofertado para realizar o seu destino. Caminhou
devagar para a árvore recuperando forças.
Encostada no tronco da árvore encontrou uma estrutura em
forma triangular que lhe trouxe à memória as pipas como as que brincava ao
vento, mas esta era bem maior. Sob uma cobertura de seda havia correias que
serviriam para amarrá-lo à estrutura que sustinha a vela e apoio para as mãos e
pés.
Vestido com a armadura de pássaro voltou à beira do abismo
e um tremor percorreu seu corpo. Sentiu a fragilidade dos seus ossos que
poderiam se destruírem no fundo daquele imenso vazio. Recompôs-se. Seu caminho
estava traçado. Lançou-se ao ar.
Caindo em mergulho, uma corrente de ar tomou-o como uma
pluma. Deslizou no rastro do sol em direção ao castelo de quatro torres. Ao
longe, pôde observar seu pai, extenuado, que lutava freneticamente à porta de
um castelo edificado sobre uma enorme rocha, mas, sem poder afastar-se da sua
trilha de luz, seguiu seu destino. Aproximando-se do seu castelo descreveu
sobre ele três círculos, descendo gradualmente. Chegou ao solo em frente à
porta por onde saíra no começo de sua jornada.
7) Sua protetora recebeu-o ante o portão do castelo. Ele
ajoelhou-se agradecendo por toda a sua assistência. Ela entregou-lhe como
recompensa a desejada maçã de ouro, abençoou-o e disse:
– Ainda tens uma missão a cumprir. Toma a tua asa, volta a entrar
no teu castelo e suba na muralha por aquele acesso bem em frente ao portão, e
vá cuidar de teu desventurado pai, que foi ferido por uma lança. Cumpriste a
tua jornada de renascimento e nada mais precisas de meu auxílio. Bom regresso,
adeus.
Ele subiu a escadaria e na borda da muralha olhou por onde ela indicara e avistou o pai caído à
porta do castelo que tentara conquistar. Lançou-se novamente no ar e voou em
sua direção. Descendo onde o pai se encontrava, despojou-o de sua armadura, do
machado de guerra, da pesada espada, e de todos os apetrechos que o pai
acumulara em sua desvairada aventura. Usou o líquido que a velha senhora lhe
dera, no início de sua jornada, para curar as feridas do pai.
Quando o pai voltou a si, surpreendeu-se por encontrar o
filho ao seu lado a esperar o seu despertar. Nada disse. O filho tomou-o pela
mão e encaminharam-se para a porta daquele castelo que o pai tentara
conquistar. Sobre o portão, o pai pôde ler esta inscrição:
“E UMA CRIANÇA PEQUENA OS GUIARÁ” (Isaías 11.6).
A porta abriu-se e os dois entraram. Estavam de volta ao quarto do jogo.
-o-