sábado, 26 de janeiro de 2019

O Meu Amigo Tubarão



O Meu Amigo Tubarão


Foi minha mãe que me contou o princípio da minha história: éramos milhares de irmãos vivendo alegremente em um pequeno mundo onde corais criavam as condições para nos protegermos; e, assim, podíamos crescer felizes, brincando alegremente nas proximidades. Ao menor sinal de perigo, corríamos para abrigar-nos entre os corais e as algas.  


Naquele pequeno paraíso convivíamos com muitas outras espécies arriscando-nos em pequenas aventuras, até que um dia nossas brincadeiras foram bruscamente interrompidas por uma boca enorme que levou muitos dos meus irmãozinhos. Eu fui empurrado por um turbilhão que me ajudou a escapar da boca do monstro, e mais tarde percebi que aquilo devia ter sido uma baleia. Não sei se outros irmãos escaparam, pode ser que se tenham perdido por este mar imenso, mas certamente fiquei sozinho e voltei aos corais para o encontro de minha mãe. Ela estava cansada após tantos esforços para criar-nos e, logo, deixou-me.

Apenas na companhia dos peixes que ali viviam, sentia-me sozinho. Aproximei-me de um pequeno peixe convidando-o a brincar comigo, e nasceu entre nós uma grande amizade. Brincávamos de esconder entre os corais, apostávamos corridas e íamos crescendo. Éramos inseparáveis. Em um momento que descansávamos sob uma colorida formação de corais, meu companheiro falou:

– É muito bom ter um grande amigo. A nossa amizade deve ser preservada a qualquer custo.

– Também acho – respondi – e espero podermos viver para sempre a nossa amizade.

– Para que ela seja duradoura, é necessário que façamos sacrifício para o bem do amigo, não acha?

– Com certeza!

– Então, seria bom que você pudesse mostrar-me ser esse grande amigo que você diz, oferecendo-me um braço seu. Como você tem tantos, não lhe faria falta.

– ?!

Achei muito estranho aquele pedido, mas pela causa de nossa amizade fiquei a pensar: é bem certo que jamais me passaria pela cabeça pedir-lhe qualquer coisa do gênero, mas como eu tenho a capacidade de poder descartar um dos meus braços, que depois renasce, não seria muito sacrifício fazer-lhe a vontade. Concordei. Soltei um dos meus braços que ele devorou com satisfação e jurou-me amizade eterna.

Passados alguns dias de muitas brincadeiras, voltou a fazer-me o mesmo pedido. Meu braço já estava recomposto, mas não gostei do período sem ele, pois fiquei com dificuldade para agarrar bem minha comida. Para não perder a amizade dele, pensei num estratagema.

– Está bem, vou ceder-lhe novamente um braço, mas desta vez vou temperá-lo com ervas para que você possa apreciá-lo mais.

Eu já sabia que a sua visão não era das melhores; além disso, ele não sabia contar além do três; portanto, ele não conseguiria saber se me faltaria um dos meus dez braços. Peguei um talo de alga e lhe passei. Ele comeu reclamando que não gostou muito do tempero de ervas, e que ficou um pouco aguado.

Eu já estava desconfiando que meu amigo deveria ser um tubarão, mas continuei a curtir a sua amizade. Não foi sem custo, pois ele voltou novamente a pedir-me uma prova, é claro, mais um simples bracinho. E eu:

– Como você não gostou das ervas, vou preparar desta vez com pólipos de corais.

Passei-lhe um pedaço de coral que ele devorou com a gulodice de sempre, dizendo que aquele estava bem melhor, mais crocante, e, que no futuro, ele gostaria que eu preparasse sempre daquela forma.
Agora eu tinha certeza que meu amigo era um tubarão e passei a esquivar-me dele, e ele foi aventurar-se por outras águas.

Muito tempo se passou e eu me tornei uma lula adulta. Tinha-me afeiçoado àquele lugar de minha infância e continuava a morar ali. Eu me acostumara a ficar na sombra dos corais a descansar, e foi assim que certo dia percebi que o meu velho amigo voltara. Ele só podia ver as pontas dos meus dois tentáculos maiores, mas ele logo reconheceu o seu velho amigo, talvez devido a seu apurado olfato.

– Olá, meu velho amigo, como estás? – ele se aproximou dizendo.

– Bem, muito bem – respondi sem mostrar-me.

– Senti muitas saudades, por isso resolvi dar uma passadinha por aqui para renovar nossa amizade.

– E com certeza vai querer que eu lhe demonstre a minha com um dos meus braços.

–  Bom, como não vai fazer-lhe muita falta, eu apreciaria.

– Está bem, com muito prazer.

E fui saindo do meu esconderijo devagar, estendo-lhe os meus tentáculos. Dei-lhe um abraço envolvendo-os ao redor de seu corpo perto das barbatanas. Eu o prendi sem deixar-lhe nenhuma possibilidade para escapar. Ele jamais se recobrou do susto de perceber que seu velho amigo era na verdade uma lula gigante.

Eu saboreei o gosto da amizade do meu querido tubarão, e era um pouco amargo.

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