O Meu Amigo Tubarão
Foi minha mãe que me contou o princípio da minha história:
éramos milhares de irmãos vivendo alegremente em um pequeno mundo onde corais criavam
as condições para nos protegermos; e, assim, podíamos crescer felizes,
brincando alegremente nas proximidades. Ao menor sinal de perigo, corríamos
para abrigar-nos entre os corais e as algas.
Naquele pequeno paraíso convivíamos com muitas outras
espécies arriscando-nos em pequenas aventuras, até que um dia nossas
brincadeiras foram bruscamente interrompidas por uma boca enorme que levou
muitos dos meus irmãozinhos. Eu fui empurrado por um turbilhão que me ajudou a
escapar da boca do monstro, e mais tarde percebi que aquilo devia ter sido uma
baleia. Não sei se outros irmãos escaparam, pode ser que se tenham perdido por
este mar imenso, mas certamente fiquei sozinho e voltei aos corais para o
encontro de minha mãe. Ela estava cansada após tantos esforços para criar-nos e,
logo, deixou-me.
Apenas na companhia dos peixes que ali viviam, sentia-me sozinho.
Aproximei-me de um pequeno peixe convidando-o a brincar comigo, e nasceu entre
nós uma grande amizade. Brincávamos de esconder entre os corais, apostávamos
corridas e íamos crescendo. Éramos inseparáveis. Em um momento que
descansávamos sob uma colorida formação de corais, meu companheiro falou:
– É muito bom ter um grande amigo. A nossa amizade deve ser
preservada a qualquer custo.
– Também acho – respondi – e espero podermos viver para
sempre a nossa amizade.
– Para que ela seja duradoura, é necessário que façamos
sacrifício para o bem do amigo, não acha?
– Com certeza!
– Então, seria bom que você pudesse mostrar-me ser esse
grande amigo que você diz, oferecendo-me um braço seu. Como você tem tantos, não
lhe faria falta.
– ?!
Achei muito estranho aquele pedido, mas pela causa de nossa
amizade fiquei a pensar: é bem certo que jamais me passaria pela cabeça
pedir-lhe qualquer coisa do gênero, mas como eu tenho a capacidade de poder descartar
um dos meus braços, que depois renasce, não seria muito sacrifício fazer-lhe a
vontade. Concordei. Soltei um dos meus braços que ele devorou com satisfação e
jurou-me amizade eterna.
Passados alguns dias de muitas brincadeiras, voltou a
fazer-me o mesmo pedido. Meu braço já estava recomposto, mas não gostei do
período sem ele, pois fiquei com dificuldade para agarrar bem minha comida.
Para não perder a amizade dele, pensei num estratagema.
– Está bem, vou ceder-lhe novamente um braço, mas desta vez
vou temperá-lo com ervas para que você possa apreciá-lo mais.
Eu já sabia que a sua visão não era das melhores; além
disso, ele não sabia contar além do três; portanto, ele não conseguiria saber
se me faltaria um dos meus dez braços. Peguei um talo de alga e lhe passei. Ele
comeu reclamando que não gostou muito do tempero de ervas, e que ficou um pouco
aguado.
Eu já estava desconfiando que meu amigo deveria ser um
tubarão, mas continuei a curtir a sua amizade. Não foi sem custo, pois ele
voltou novamente a pedir-me uma prova, é claro, mais um simples bracinho. E eu:
– Como você não gostou das ervas, vou preparar desta vez com
pólipos de corais.
Passei-lhe um pedaço de coral que ele devorou com a gulodice
de sempre, dizendo que aquele estava bem melhor, mais crocante, e, que no
futuro, ele gostaria que eu preparasse sempre daquela forma.
Agora eu tinha certeza que meu amigo era um tubarão e passei
a esquivar-me dele, e ele foi aventurar-se por outras águas.
Muito tempo se passou e eu me tornei uma lula adulta. Tinha-me
afeiçoado àquele lugar de minha infância e continuava a morar ali. Eu me
acostumara a ficar na sombra dos corais a descansar, e foi assim que certo dia percebi
que o meu velho amigo voltara. Ele só podia ver as pontas dos meus dois tentáculos
maiores, mas ele logo reconheceu o seu velho amigo, talvez devido a seu apurado
olfato.
– Olá, meu velho amigo, como estás? – ele se aproximou
dizendo.
– Bem, muito bem – respondi sem mostrar-me.
– Senti muitas saudades, por isso resolvi dar uma passadinha
por aqui para renovar nossa amizade.
– E com certeza vai querer que eu lhe demonstre a minha com
um dos meus braços.
– Bom, como não vai fazer-lhe muita falta, eu apreciaria.
– Está bem, com muito prazer.
E fui saindo do meu esconderijo devagar, estendo-lhe os meus
tentáculos. Dei-lhe um abraço envolvendo-os ao redor de seu corpo perto das barbatanas.
Eu o prendi sem deixar-lhe nenhuma possibilidade para escapar. Ele jamais se
recobrou do susto de perceber que seu velho amigo era na verdade uma lula
gigante.
Eu saboreei o gosto da amizade do meu querido tubarão, e era
um pouco amargo.
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