Lussol
Na cinzenta cidade de Lussol, houve um tempo em que a
alegria crescia por todas as suas vias. Os seus habitantes refletiam nos
sorrisos a arte que nascia das mãos do Jardineiro-Mor, o grande artista
responsável pelo embelezamento e colorido de seus outrora mudos horizontes. Não
havia pela cidade lugar onde o seu dedo não cuidasse de transformar,
transferindo, para tudo e para todos, as cores que trazia dentro de si. Pelas
praças, as flores contrastavam com os arbustos, ladeando os caminhos por onde
as crianças espalhavam a alegria dos seus gritos; pelas ruas, não existiam
paredes sisudas onde o pincel do artista não transformasse em obras coloridas de
vitalidade, que brincavam com os raios do Sol.
Quando o Jardineiro-Mor iniciava uma nova obra, não havia
quem não guardasse algum momento para ficar diante do quadro que se formava a
contemplar as cores a se juntarem, levando dentro de si, quando se retiravam, o
crescimento da beleza que viam brotar dos olhos do artista. E os lossulenses contribuíam
espontaneamente para os fundos de embelezamento da cidade sabendo que seriam
retribuídos com o vigor das cores que se espalhavam sobre eles.
Nas rodas ao redor do Café Central, antiga tradição nos
finais das tardes, era assunto costumeiro as lembranças do dia em que ele
aparecera na cidade, sujo e maltrapilho, a pedir um trabalho qualquer por um
prato de comida. Alguém se lembrava, achando graça, que pudera ter-lhe recusado
atenção, tomando-o por um vagabundo qualquer; outro, ria do seu gesto de
impaciência quando teve de suportar a inhaca que ele então exalava; não fosse
Dona Filhinha, lembrava outro, que dele se compadecera e lhe deixara pintar a
parede dos fundos de sua casa,
talvez ele tivesse partido deixando a cidade sem as suas cores.
No interior do café, o primeiro mural que ele fizera cobria
toda a sua parede lateral direita: de um grande lago negro de café, circundado
escassamente por um pequeno pedaço de uma xícara que se via no canto superior
esquerdo, subia uma voluta de fumaça que se adensava criando três graciosas
bailarinas diáfanas cobertas de véus suavemente coloridos. Tornara-se um evento
necessário tomar uma xícara de café a admirar o balé das dançarinas e comentar
com o velho dono do lugar:
– Que café primoroso, Sr. Vicente, você hoje atingiu a
excelência!
Enquanto o velho apenas repetia, em um resmungo:
– A máquina é a mesma, a fórmula é a mesma, há trinta anos
faço do mesmo jeito, vocês é que aprenderam a sentir o saber.
Os jovens da cidade disputavam a oportunidade de ajudar o
artista a realizar os seus trabalhos, poupando-lhe as tarefas mais simples, e a
filha do pastor da Igreja da Salvação Eterna, a que mais adeptos tinha na
cidade, era a mais costumeira a ser vista a esvoaçar ao seu redor, chegando
mesmo a ser indelicada com os demais para estar sempre ao seu lado para
servi-lo com um aberto sorriso na face, mas ele não dava sinal de percepção da
tanta devoção da senhorita, tratava a todos com carinho e atenção iguais. A cidade
ia se transformando em uma exposição do grande talento de seu artista, atraindo
turistas maravilhados pela alegria que não encontravam nas ruas em que moravam.
A prosperidade era um bem comum, a cidade crescia e se
expandia, e as construções também ficaram maiores. Surgiu bem no seu centro, em
frente da Igreja da Salvação, um edifício de cinco andares com uma parede
lateral toda livre para o jardineiro depositar os seus dons. Acabada a
construção, a parede foi preparada para receber a grande obra que toda a cidade
esperava ver com ansiedade. Subiram andaimes e o trabalho começou a progredir
sob os olhos maravilhados que tentavam adivinhar o que a arte do mestre criaria,
pois todos apostavam que seria a sua apoteose, bem como da cidade. Daquela vez,
o mestre tinha uma ajudante especial a quem instruía a usar as tintas para ajudá-lo
a preencher os esboços que fazia. Sentindo a presença intrusa como uma grande
ameaça a suas pretensões, a filha do pastor mostrava para com a jovem uma
indelicadeza ostensiva, dissimulada na presença do artista. A obra
desenvolvendo-se à curiosidade de todos não mostrava claramente o que seria.
Manchas de cores se sobrepunham em formas às vezes geométricas, às vezes
difusas, atraindo os habitantes todos os dias a gastarem alguns momentos a
admirar a evolução do trabalho.
Finalmente, o grande dia da retirada final dos andaimes
aconteceu no Domingo de Páscoa. A cerimônia oficial de inauguração da grande
obra seria após o culto da Ressurreição do Senhor. Bem cedo a praça já estava
tomada pelos mais ansiosos em contemplar a obra em sua totalidade: alguns olhos
se perdiam penetrando num túnel de cores sem fim; alguns, viam um caleidoscópio
imenso; outros, absorviam a beleza pura das cores misturando-se em perfeita
comunhão; ninguém partilhava as mesmas imagens que inundavam as suas retinas
vindas dos diversos ângulos dos raios de luz refletidos. Quando o culto
começou, toda a cidade estava presente. Como a igreja não comportava a todos, a
praça em frente estava tomada pelos que seguiam a prédica apenas ouvindo pelo
alto-falante. Momento houve em que o pastor chamou a sua filha para tomar a
palavra.
– Irmãos, a alegria que trazemos nos corações pela grande
festa da Ressurreição de Nosso Amado Senhor está ameaçada por essa outra festa
que todos aguardam com tanta ansiedade. Eu trago em meu coração uma enorme
tristeza de ser aquela que deve apagar a chama de felicidade que todos
acenderam em si pela inauguração dessa obra que seria o ápice de elevação de
nossa comunidade.
Um murmúrio de perplexidade se espalhou na igreja e fora
dela, os entreolhares se perguntavam o que viria?
– Irmãos, um tanto triste por ser eu a porta-voz de tamanha
infelicidade, alerto-os para o fato ignóbil de estarmos sendo vilipendiados, veladamente,
por um ser ímpio, um inimigo de nossa fé e de Nosso Salvador, que tripudia de
nossa ingenuidade para rir de nossas crenças sagradas. Algum de vocês já viu
este ser abjeto do Jardineiro-Mor presente em nossos cultos? Não, jamais o
viram. Sabem por quê? É porque ele traz em si o maior desprezo pelo nosso querido
Senhor. Sim, meus irmãos, um portentoso ateu penetrou em nosso meio atraindo a
todos nós para o abismo de suas cores que nos escancara as portas do inferno.
Houve uma agitação inusual. Um coro de protesto irrompeu. O
pastor tomou a palavra exortando calma, pedindo que ouvissem as explicações
para acusações tão ferinas. Quando o silêncio voltou:
– Já disse da minha tristeza por trazer-lhes esta decepção,
mas peço-lhes que tirem a trava dos seus olhos para dirigir um olhar mais
arguto sobre a odiosa obra e poderão ver a abjeta representação de Nosso Senhor
totalmente nu, debaixo daquelas cores esvoaçantes. Observem as formas estilizadas
de sua cabeça, do arredondado de seus ombros sob ela; observem a cruz que sobre
ela está representada, como uma caricatura das grandes homenagens que lhe foram
feitas pelos mestres pintores de outrora. E não bastasse a nudez, irmãos,
observem a masculinidade dissimuladamente representada por uma forma fálica
ereta... – reforçando as suas palavras, lágrimas escorriam por sua face – não
consigo mais descrever as iniquidades, vão, vejam por vocês mesmos.
A praça fervilhava. Todos procuravam ver. Foi uma produção
coletiva. Alguém achou uma perna, outro um braço. Por fim, braços, pernas,
cabeça, falo, era uma visão de muitos. Alguns poucos choravam vendo aquela
alucinação coletiva. Enquanto a formação da imagem se produzia, o pastor
clamava pela indignação, pedindo que destruíssem aquela obra do demônio. Logo
surgiram ferramentas que atacaram a parede rasgando as cores tão apuradamente
criadas, até onde podiam alcançar.
O prefeito da cidade retirou do artista a casa que lhe fora
cedida, bem como os estipêndios que lhe eram concedidos. Decretou que todas as
obras fossem cobertas por tinta cinza. Os jardins, a partir de então
malcuidados, deterioraram. O artista desaparecera.
No Café Central, o Sr. Vicente defendera o seu mural com
arma na mão, impedindo a que dele se aproximassem. Quando os ânimos serenaram e
a cinzenta normalidade voltou a reinar, os fregueses voltaram, e de vez em
quando ouvia-se:
– Como é, Sr. Vicente, desaprendeu a fazer o café?
Enquanto o velho apenas repetia, em um resmungo:
– A máquina é a mesma, a fórmula é a mesma, há mais de trinta
anos faço do mesmo jeito, vocês é que desaprenderam a sentir o saber.
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