domingo, 30 de junho de 2019

Nome é para toda a vida


Nome é para toda a vida



– Ô de casa! Dona Menina! Óia que tem visita adentrando sua porta!

– Pois vamos acabar de chegar, pessoal, é toda a minha satisfação acolher vocês aqui em nosso chão, assim um tanto desprevenida que num esperava ninguém, mas, por obséquio, vamos chegando que a casa é toda sua.

– A senhora adesculpa que a gente chega assim sem alarde nenhum, mas é que tamo num desassossego de levantar pó em soalho de talba.

– Então vamos pegar um assento para dar desafogo a esses pés nervosos. Senta aqui juntinho de mim, Naterça, e o senhor, Seu Quinzinho, se abanque nesse sofazinho. E, aí, minha gente, o que é que tanto está a intranquilizar?

– A Senhora Dona Menina tá avisada que lá em casa desbrotou de nós mais uma guriazinha, né?

– Estou sim, Naterça, e como ainda não tive conveniência pra uma visitinha, aproveito para lhes dar as minhas congratulações.

– Fico muito da agradecida, Dona Menina.

– E por que não veio a pequenina para que eu pudesse conhecer?

– Achamo que inda num era devido pra ela pegar um sereno. Deixamo a Açucena a fazer vigia dela, outro dia nós traz.

– Assim espero, Naterça, sabe como é, né? essas juntas duras não deixam que eu possa sair assim a bel prazer, é penoso uma caminhada até a sua casa.

– Sei, sim, Dona Menina, é pro modo disso que viemo cá pra ver se nos dá alento pra resolver o embrolho que tamo encalacrado, que é de acertar  um nome pra miúda.

– Ahn!? Quer dizer que esse barulho todo é só por causa do nome da menina?

– Sabe como é, Dona Menina, o Quinzinho, que agora tá ali amochado e mudo, empacou igual mula véia em um nome. Fala homem, diz aí pra Dona Menina o nome que tu qué dá pra ela!

– Sabe o que é, Dona Menina, num é só a Naterça que está assim braba, não. Em depois que arranjei o nome da guria, ela me mandou uns três pratos na testa...

– Mandei, Dona Menina, mandei deveras.

– Aí, foi ela palrear com o Padre Joaquim, a preguntar se cabia batizar assim e assado a menina.

– E que disse o estonteado, Naterça?

– Ele foi logo me preguntando se o Coisaruim tomou assento lá na casa nossa, e que bem de preferência seria deixar a menina pagãzinha, sem nome.

– Bem, nem fico muito alarmada porque daquele desatinado uma estupidice é mais que esperada, mas até agora inda não sei que palavrão de nome é esse, que vocês ainda não disseram.

– Óia, Dona Menina, que eu nem apreceio de falar o tal. Diz, aí, Quinzinho, o nome que ocê tá tanto prezando.

– Pois digo, Dona Menina, sem avexo, pois gostei ademais dele, que eu quero mesmo chamar a pequena de Bucetilde.

– !?

– Viu, Dona Menina, pela sua cara pasmada a senhora dá razão a mim e ao Padre, né?

– Mas, mas, que desconveniente!

– Aí, Quinzinho, já conseguiu aperceber o desmesurado do seu papel de carrasco da menina?

– Num me cabe o fato de tanto frege, ocês é que parecem ter embirrado com o nome.

– Se faz tanta questão, seu Quinzinho, Nossa Santa Mãezinha que me perdoe, de persistir com Bu qualquer coisa, podia ao menos minorar um tantinho, talvez quem sabe podia ser Bucicleide, ou Bucinda, ou Bucimara.

– Num tem precisão de minorar nadinha.

– Mas, seu Quinzinho, por que num escolhe um nominho assim mais simples, mais carinhoso; que tal Clara, ou Teresinha, ou um bem nobre assim como Ádila?

– Sabe o que é, Dona Menina, num apreceio um nominho simples desses que não dá uma saliência própria, tem que ser um sem outro igual.

– Mas é muito feio, seu Quinzinho, nem galinha ia caber nesse nome, parece ser de uma coisa feia, cabeluda, mais propício pra, sei lá, uma aranha.

– Eu que já me cansei de brigar, Dona Menina, só ponho fé, agora, é que o Joca do Cartório não ponha o tacho no fogo.

– Não, Naterça, com aquele outro destrambelho num é bom contar. Seu Quinzinho, me diga cá judiciosamente, o que achou de atrativo nesse nome?

  Óia, Dona Menina, é que no certeiro momento que vi aquela coisinha toda embruiada e  amarrotada, despreguiçando os bracinhos, com uma facinha doce toda enrugadinha, fui tomado de carinho, e, atinei cá nos meu miolo, que seria tudo de bom poder chamar ela acarinhadamente de minha Bucezinha, ou de minha Cetinha. Óia que gustusura!

– !?

– Tá vendo, Dona Menina, a minha sofrência? Num parece que esse homem tá mangando de nós?

– É, num parece sério, já é tempo, seu Quinzinho, de ajustar o siso, já imaginou o que sua filhinha vai amargar por carregar um tal nome por este mundo de gente tão perversa.

– O que eu mesmo acho, Dona Menina, é que ninguém deve de se avexar do nome que ganha.

– Mas, Seu Quinzinho, criança é sempre muito aproveitadora de coisas estranhas para fazer maldades, fico imaginando na sala de aula, na hora da chamada, vai ser um coro de envergonhar e corar até o quadro-negro.

– Ela acostuma, a gente acostuma com tudo no mundo.

– E o senhor num teme que ela vá ter-lhe ódio por toda a vida?

– Se é só por carinho, pro modo de quê?

– Naterça, vou procurar o Joca do Cartório e assegurar que ele não aceite o registro.

– Encarecidamente peço o favor, Dona Menina, pra poder encher essa cabeça abestada de algum siso, que eu já tô no desgosto de ter esfacelado os meus pratos, pois devia de ter jogado nele uma marreta de uns cinco quilo.

– Se tou endoidado, cês acha que tô assim, por quê? Deve de ser de tanta bordoada sofrida na cabeça pro modo dessa muié destemperada.

– Deixa eu fazer mais uma tentativa, Naterça. Seu Quinzinho, se trocar o nome da menina, prometo que, se me aceitarem como comadre, vou batizá-la e ajudar com muito carinho a cuidar dela.

– Oh, que satisfação que nos dá, Dona Menina! Aí, Quinzinho, que podia nós querer de mió? Vai, homem, aceita.

– Até que é muito do meu agrado esse oferecimento, me sabe bem a mim.

– Então, homem, aceita e troca o nome.

– Hum, deixa eu pensar.

– Eu apreciei deveras do Ádila!

– Não, é muito do imperioso.

– Então, qual?

– Ah, já achei.

– Qual?

– Qual?

– Pois taí, Vaginilda!

-o-

domingo, 16 de junho de 2019

Voar é com os Besouros?



Voar é com os Besouros?




Esta história foi encontrada no livro Coleoptera Scarabaeidae Historia do erudito professor, biólogo e historiador J. B. Contrus, da qual fizemos esta tradução diretamente da língua coleopteriana. Pedimos desculpas se inapropriadas soluções de transcrição foram dadas, mas os poucos estudos existentes dessa linguagem podem nos ter induzido a tais interpretações.

I

Nos anais das obras do Criador, os seres por Ele mais apreciados, sem dúvida, são os coleópteros, esses pequeninos popularmente conhecidos como besouros. Se a classe Insecta é a que mais domina o planeta, sendo a de maior quantidade de espécies e formas, nesta, a ordem Coleoptera reina absoluta, perfazendo quase a metade de toda a classe.

Na história antiga da família Scarabaeidae, objeto de nosso estudo, encontramos nos anais do Egito a elevação dos escaravelhos aos céus, na figura do deus Khepri, responsável pelo movimento do Sol na abóbada celeste, prenunciando a cada dia a ressureição da vida. Imagens de escaravelhos foram encontradas em diversas tumbas para garantir o renascimento dos que nelas foram depositados. A associação do escaravelho ao movimento solar foi feita devido ao seu peculiar processo de rolar uma bola de excremento para o seu ninho, para fornecer, após a eclosão, a alimentação das larvas, refazendo o ciclo da vida; devido a esse peculiar hábito, alguns animais, jocosamente, apelidaram-no de rola-bosta.

A caracterização dos coleópteros é feita pela existência das asas duras, os élitros, que foram utilizados para batizar o nome da ordem: de acordo com o grego, foi grafado pela junção das palavras koleos, significando estojo, e pteron, asa; traduzindo assim o nome como um estojo de asas. Dentro do estojo, as asas reais, que são utilizadas para o voo, ficam protegidas quando em repouso.

Durante o seu ciclo de vida, os besouros passam por quatro fases: ovo, larva, pupa e adulta, mudando suas formas. Na fase adulta, possuem um exoesqueleto, que se divide em protórax, parte anterior; mesotórax, parte do meio; e o metatórax, parte posterior. Em algumas famílias, no protórax existe uma espécie de chifre, que caracteriza os besouros-de-chifre ou besouros-rinocerontes.

II

Nas escolas eruditas dos coleópteros, discutiu-se por muitas eras se a anatomia dos besouros seria ou não apropriada ao voo, pois eles seriam pesados demais para serem sustentados por asas aparentemente frágeis, que proporcionam um voo desajeitado. Nos bancos escolares primários, aulas de decolagem eram exaustivamente ensinadas como uma tentativa para aliviar as constantes dores de cabeça, que os desajeitados sofriam ao partirem erraticamente para voos inábeis de encontro a obstáculos.

Certos autores alegavam que as barreiras, que surgiam inopinadamente à frente dos besouros a voar, seriam emanações projetadas pelo deus Rá-Stero, que não queria que os besouros se lançassem aos ares, pois esse diletantismo tornava-os descuidados do seu culto. Outros alegavam que se o deus não queria que os besouros voassem, não deveria ter-lhes dado asas, e que os choques seriam consequência do desajuste das antenas pela luz, mas isto poderia ser resolvido através das aulas de instrução.

No meio dessas discussões entre a ciência e a religião, os besouros-rinocerontes, muito sensíveis aos choques nos seus chifres, aferraram-se aos preceitos religiosos que tentavam impor a todo o reino coleóptero, a princípio, pregando suas ideias pelas igrejas e praças; posteriormente, tomando o poder político através da força, instituindo um governo ditatorial.

Como primeira medida, as aulas de voo foram banidas das escolas, deixando grassar a desorientação entre os infantes, pretendendo, assim, desestimular os voos com o aumento das dores de cabeça, e dos chifres. Como o processo não foi bem recebido, pois preferia-se uma dor de cabeça à perda da liberdade de um voo aprazível, novas medidas foram baixadas, proibindo completamente as viagens aéreas.

Para inibir em definitivo a prática dos voos, baixou-se uma lei obrigando os pais a colar os élitros dos besourinhos ao metatórax com uma substância que, presumivelmente, duraria por toda a vida. Assim, as asas proporcionadoras da capacidade de voar ficariam encerradas definitivamente dentro do estojo, cuja tampa ficava vedada. Com a ocultação, as asas em desuso seriam esquecidas, e, em pouquíssimas gerações, nenhum besouro mais saberia que um dia seus congêneres puderam voar. E o culto ao deus Rá-Stero cresceu em todo o reino, enriquecendo os templos e seus sacerdotes.

E os besouros-rinocerontes se impuseram no reino terrestre dos coleópteros apagando todos os registros históricos que falavam de voo e dos apêndices utilizados para voar. Proibiu-se também aos artistas, sob pena de morte, a alusão aos besouros no céu, pois este era domínio de Rá-Stero. Os élitros ficaram completamente fechados por várias gerações.

III

Desde muito jovem eu sentia uma espécie de calafrio que me nascia nas laterais do protórax, causando uma sensação de querer expandir o meu corpo para além do meu esqueleto externo. Quando relatei aos meus pais aquela pressão, que me deixava inquieto, disseram-me que era muito normal nos jovens aquelas sensações, e que logo eu me acostumaria e não mais as perceberia. Na escola me foi dito que eram reflexos de perdidas habilidades que a evolução dos meus órgãos não eliminara completamente. Não recebi naturalmente as explicações, e os calafrios me acompanharam por muito tempo; não me acostumei, a curiosidade só cresceu.

Por uma daquelas coincidências que nem parecem tais, ajudei um mendigo, velhinho, que encontrei arrastando-se estropiado por um atalho pouco conhecido que eu usava regularmente para economizar tempo e energia. A parte superior de seu exoesqueleto estava destruída, em pedaços, pois ele tinha sido atropelado por um pedregulho. Com os meus cuidados, após retirados os pedaços dilacerados, asas brancas distenderam-se. Ele as agitava freneticamente. Perguntei-lhe o que era aquilo, e ele:

– Então era verdade?

– O que era verdade?

– As histórias que ouvi de meu avô, que dentro de nossos esqueletos existiam asas escondidas, que os antigos escaravelhos podiam usar para voar.

– Voar?!

– Sim, voar. Meu avô me falou disso, mas eu achei que era apenas uma lenda. Mas, eu posso, eu sinto que posso...

Ele agitou ainda mais aquelas asas membranosas e elevou-se bruscamente iniciando um voo, infelizmente curto, pois chocou-se contra uma árvore. Acudi-o novamente, porém o esforço ou o choque lhe foi fatal, mas ainda o ouvi murmurar debilmente:

– Que bom que era verdade!

IV

Embora não se ouvisse mais falar de escaravelhos voadores, compreendi que aquele era um assunto proibido e, enquanto fazia exercícios para liberar minhas asas, mantive em segredo o que tive a alegria de descobrir. Isolava-me em lugares ermos e usava o poder de minha vontade para aumentar aqueles calafrios que eu sentia. Fui recompensado pelos meus esforços quando os meus élitros subiram e distenderam-se, causando-me uma sensação de poder e leveza que me deixaram em um estado de embriaguez pelo excesso de felicidade.

Voar não foi simplesmente um ato de pura vontade, ainda tive que fazer muitos esforços para aprender a manipular as minhas asas; tombos e muitas dores não minaram a minha vontade, jogava-me de lugares mais altos e, pouco a pouco, fui atingindo maiores distâncias. Khepri ressuscitara, eu era como um deus.

Revelei meu segredo, inicialmente, para os meus companheiros de escola. Criei um grupo para ensinar os exercícios, e o sucesso logo espalhou a novidade para sempre mais adeptos, foi contagiante. As autoridades repressoras não tiveram tempo para reagir, talvez por ignorância, pois não se podia mais imaginar que escaravelhos pudessem voar. Quando perceberam, éramos uma multidão de besouros voadores. Os sacerdotes de Rá-Stero temeram aquela revoada e pediram aos governantes que a reprimisse, mas as ameaças que fizeram às famílias vieram tarde, a nossa rápida reação sufocou-as. Organizamos uma esquadrilha de jovens besouros-rinocerontes que levantou voo carregando, espetadas em seus chifres, as bolinhas de excremento, que foram despejadas sobre os quartéis, templos e ninhos dos opressores.

Éramos, sim, pesados e desajeitados, sem os predicados aerodinâmicos para voar, mas talvez por um milagre de Khepri, Rá-Stero foi destituído, podíamos dominar os céus.

E, sim, voar é com os besouros!

-o-