Nome é para toda a vida
– Ô de
casa! Dona Menina! Óia que tem visita adentrando sua porta!
– Pois
vamos acabar de chegar, pessoal, é toda a minha satisfação acolher vocês aqui
em nosso chão, assim um tanto desprevenida que num esperava ninguém, mas, por obséquio,
vamos chegando que a casa é toda sua.
– A senhora adesculpa que a gente chega assim sem alarde nenhum, mas é que tamo num desassossego de levantar pó em soalho de talba.
– Então
vamos pegar um assento para dar desafogo a esses pés nervosos. Senta aqui juntinho
de mim, Naterça, e o senhor, Seu Quinzinho, se abanque nesse sofazinho. E, aí,
minha gente, o que é que tanto está a intranquilizar?
– A Senhora Dona Menina tá avisada que lá em casa desbrotou de nós mais uma guriazinha, né?
– Estou
sim, Naterça, e como ainda não tive conveniência pra uma visitinha, aproveito
para lhes dar as minhas congratulações.
– Fico muito da agradecida, Dona Menina.
– E por que não veio a pequenina para que eu pudesse conhecer?
– Achamo que inda num era devido pra ela pegar um sereno. Deixamo a Açucena a fazer vigia dela, outro dia nós traz.
– Assim espero, Naterça, sabe como é, né? essas juntas duras não deixam que eu possa sair assim a bel prazer, é penoso uma caminhada até a sua casa.
– Sei, sim, Dona Menina, é pro modo disso que viemo cá pra ver se nos dá alento pra resolver o embrolho que tamo encalacrado, que é de acertar um nome pra miúda.
– Ahn!?
Quer dizer que esse barulho todo é só por causa do nome da menina?
– Sabe como é, Dona Menina, o Quinzinho, que agora tá ali amochado e mudo, empacou igual mula véia em um nome. Fala homem, diz aí pra Dona Menina o nome que tu qué dá pra ela!
– Sabe o que é, Dona Menina, num é só a Naterça que está assim braba, não. Em depois que arranjei o nome da guria, ela me mandou uns três pratos na testa...
– Mandei, Dona Menina, mandei deveras.
– Aí, foi ela palrear com o Padre Joaquim, a preguntar se cabia batizar assim e assado a menina.
– E que disse o estonteado, Naterça?
– Ele foi logo me preguntando se o Coisaruim tomou assento lá na casa nossa, e que bem de preferência seria deixar a menina pagãzinha, sem nome.
– Bem, nem fico muito alarmada porque daquele desatinado uma estupidice é mais que esperada, mas até agora inda não sei que palavrão de nome é esse, que vocês ainda não disseram.
– Óia, Dona Menina, que eu nem apreceio de falar o tal. Diz, aí, Quinzinho, o nome que ocê tá tanto prezando.
– Pois digo, Dona Menina, sem avexo, pois gostei ademais dele, que eu quero mesmo chamar a pequena de Bucetilde.
– !?
– Viu, Dona Menina, pela sua cara pasmada a senhora dá razão a mim e ao Padre, né?
– Mas, mas, que desconveniente!
– Aí, Quinzinho, já conseguiu aperceber o desmesurado do seu papel de carrasco da menina?
– Num me cabe o fato de tanto frege, ocês é que parecem ter embirrado com o nome.
– Se faz tanta questão, seu Quinzinho, Nossa Santa Mãezinha que me perdoe, de persistir com Bu qualquer coisa, podia ao menos minorar um tantinho, talvez quem sabe podia ser Bucicleide, ou Bucinda, ou Bucimara.
– Num tem precisão de minorar nadinha.
– Mas, seu Quinzinho, por que num escolhe um nominho assim mais simples, mais carinhoso; que tal Clara, ou Teresinha, ou um bem nobre assim como Ádila?
– Sabe o que é, Dona Menina, num apreceio um nominho simples desses que não dá uma saliência própria, tem que ser um sem outro igual.
– Mas é
muito feio, seu Quinzinho, nem galinha ia caber nesse nome, parece ser de uma
coisa feia, cabeluda, mais propício pra, sei lá, uma aranha.
– Eu que já me cansei de brigar, Dona Menina, só ponho fé, agora, é que o Joca do Cartório não ponha o tacho no fogo.
– Não, Naterça, com aquele outro destrambelho num é bom contar. Seu Quinzinho, me diga cá judiciosamente, o que achou de atrativo nesse nome?
– Óia, Dona Menina, é que no certeiro momento que vi aquela coisinha toda embruiada e amarrotada, despreguiçando os bracinhos, com uma facinha doce toda enrugadinha, fui tomado de carinho, e, atinei cá nos meu miolo, que seria tudo de bom poder chamar ela acarinhadamente de minha Bucezinha, ou de minha Cetinha. Óia que gustusura!
– !?
– Tá vendo, Dona Menina, a minha sofrência? Num parece que esse homem tá mangando de nós?
– É, num parece sério, já é tempo, seu Quinzinho, de ajustar o siso, já imaginou o que sua filhinha vai amargar por carregar um tal nome por este mundo de gente tão perversa.
– O que
eu mesmo acho, Dona Menina, é que ninguém deve de se avexar do nome que ganha.
– Mas, Seu Quinzinho, criança é sempre muito aproveitadora de coisas estranhas para fazer maldades, fico imaginando na sala de aula, na hora da chamada, vai ser um coro de envergonhar e corar até o quadro-negro.
– Ela acostuma, a gente acostuma com tudo no mundo.
– E o senhor num teme que ela vá ter-lhe ódio por toda a vida?
– Se é só por carinho, pro modo de quê?
– Naterça, vou procurar o Joca do Cartório e assegurar que ele não aceite o registro.
– Encarecidamente peço o favor, Dona Menina, pra poder encher essa cabeça abestada de algum siso, que eu já tô no desgosto de ter esfacelado os meus pratos, pois devia de ter jogado nele uma marreta de uns cinco quilo.
– Se tou endoidado, cês acha que tô assim, por quê? Deve de ser de tanta bordoada sofrida na cabeça pro modo dessa muié destemperada.
– Deixa eu fazer mais uma tentativa, Naterça. Seu Quinzinho, se trocar o nome da menina, prometo que, se me aceitarem como comadre, vou batizá-la e ajudar com muito carinho a cuidar dela.
– Oh, que satisfação que nos dá, Dona Menina! Aí, Quinzinho, que podia nós querer de mió? Vai, homem, aceita.
– Até que é muito do meu agrado esse oferecimento, me sabe bem a mim.
– Então, homem, aceita e troca o nome.
– Hum,
deixa eu pensar.
– Eu apreciei deveras do Ádila!
– Não, é muito do imperioso.
– Então, qual?
– Ah, já achei.
– Qual?
– Qual?
– Pois taí, Vaginilda!
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