Fazenda
Santa Cruz
– Dona Menina, precisamos que nos faça um grande favor!
– Ara, minha gente, que tanta afoiteza é essa, o que está a
acontecer?
– A Senhora tem ciência dos feitos daquele ser estulto que
herdou a Fazenda Santa Cruz, não?
– Pois sim, que já ouvi uns contos das suas desconveniências.
– Encarecidamente pedimos à Senhora, que é muito cordata, que
vá gastar umas palavras com o dito para tentar incutir um pouco de siso no
destemperado.
– E por acaso será que há modo de fazer café em bule
esburacado?
– O que não podemos é mais aturar tanta insensatez.
E lá foi a Dona Menina para a Fazenda Santa Cruz, em uma
charrete conduzida pelo Firmino, para aquelas terras tão isoladas do resto do
mundo. No trajeto, ela contava das suas diversas experiências e, lá chegando, ela
estremeceu ao ler, sobre a porteira da fazenda, moldada em ferro cuidadosamente
trabalhado, a frase: ARBEIT MACHT FREI. Debaixo, já encontrou o herdeiro proprietário.
– Bom dia, seu Menó
– Dia. A Senhora deve de ser aquela tal de Dona Menina, que
já muito tenho ouvido de falar.
– Falar bem, espero.
– Pros conceitos de quem fala, bem. Mas num tô certo de
aturar umas ideias que ouvi, tá sabendo?
– Pois num há nada de inconveniências, eu cá vim pra
conhecer essas terras e, se me permite a abelhudice, saber um tanto dos intuitos
que o senhor tem para os seus usos e desusos.
– Disso de intuitos eu sou bem grávido. Pudera aquele povo
lá de fora pudesse também desfrutar das melhoras que aqui plantei.
– Quem sabe o Senhor alardeando as qualidades delas.
– Pois é por isso, tá sabendo? que agora mesmo firmei
propósito de mandar o Menozinho, um meu filho, pra representante meu naquelas
terras lá de fora, pra mostrar o modo de fazer a ordem e o progresso precisos
pra vida seguir mais conforme.
– E esse filho tem os predicados pra cumprir com tais
importantes comissões?
– Senhora Dona Menina, olha que tenho muito desfastio de
dizer, e já tô dizendo, que o menino é tinhoso, tá sabendo? Já sabe desenhar o
nome com uma boniteza de invejar Deus, pois faz bem retinho. Assim, está
gabaritado para rabiscar em meu nome todos os papéis de necessidade.
– O que deve significar que o menino é mestre na leitura e
na escrita, com muitos dotes de saber.
– Leitura e escrita? Baboseiras. A Senhora Dona Menina está
a me desfeitar? Acha que por aqui gastamos tempo com essas frescuras, com tanto
a pelejar?
– Ahn? Num me avexa, seu Menó, então não tem precisão de
estudo para saber discernir o bom? E como o Senhor pode confiar que ele terá tino
pra ser seu preposto?
– Ha! A dura vida é a melhor mestra, tá sabendo? Aqui o trabalho
principia desde que um guri começa a andar. Com dois anos ponho ele já a
candiar a carrocinha do bode pra levar leite do curral pra queijaria. No que
completa quatro, ganha a primeira enxada da vida dele. A primeira enxada
ninguém esquece. Aqui todos trabalham, trabalham muito, do sol nascer ao pôr.
– Mas, seu Menó, é muito dura a meninice assim! Criança tem
precisão de brincar pra aprender a jogar na vida.
– Já dizia meu avô Cristóvão, que o Senhor o tenha e
guarde: mente vazia, oficina do diabo, tá sabendo?. Por aqui num tem lerdice de
tempo à toa pra escarafunchar ideia malsã nem para saber o peso da vida, se boa
ou se doída. É trabalho só. Por isso a terra vai assim tão bem, produzindo o tudo
necessário.
– Tem muitos colonos também nessa labuta, né?
– Muitos. E tudo satisfeito com os pratos de angu com
feijão que têm com fartura, além da casinha, bem pobrezinha, mas bem naquele
refrão: meu amor e minha cabana.
– E recebem um estipêndio também?
– Recebem, mas sabe como é, né? Recebem e pagam o angu com
feijão e o aluguel.
– E o Senhor acha que isso está dentro dos conformes?
– Pergunte a eles se têm alguma protestação.
– Posso então trocar umas palavrinhas com algum?
– Pode sim, chamo aqui o Chico Carvão, e a Senhora poderá dar
uma proseada com ele.
– E posso levar a prosa com ele a sós?
– A sós, claro! Só nós três.
– Tá, sendo assim, deixa pra lá.
– Mas antes de mais palavrório, Dona Menina, deixa eu
chamar algum pra dar um trato nessa égua que arrastou a senhora pra cá. Brasil,
ô Brasil!
– Às ordem, patrão.
– Conduz esse Firmino e a égua da Dona Menina e dê um bom
trato nela.
– O rapaz chama Brasil, os pais devem ser muito patriotas.
– Patriota é só o que temos aqui, tá sabendo? mas num é dos
pais que herdou o nome, pra modo dizer a verdade, fui eu que lhe dei.
– Ah, é só um apelido?
– Não, é o nome mesmo do cujo, de batizado e registro próprios,
por aqui minha vontade é lei, quando nasce qualquer coisa, eu dou nome, pois
sou certeiro em olhar pra coisa e saber nomear. Esse aí, quando nasceu, era a
cara escarrada do Brasil: grande, cabeça chata enorme e uns pés minúsculos, era
o mesmo que ver o mapa do Brasil. E era ladino, prometia muito.
– Mas ele é meio mirrado, não?
– Pois num é? Ficou só na promessa, num vingou quase nada
esse danado, encroou e deu esse anão.
– Coisas da vida, coalhada de surpresas. Mas essa viagem até
cá foi dura debaixo desse sol de rachar, fiquei seca. O Senhor poderia me
arrumar um copo d’água?
– É pra já, da mais pura água de cisterna boa. Jorgete,
Jorgete!
– Que foi patrãozinho meu?
– Traga uma moringa de água aqui pra Dona Menina.
– Estou surpresa, seu Menó, não poderia fazer suposição que
aqui houvesse como agregado um tal qual ele.
– Arre! que num é coisa minha! Isso é arrumação da minha
mulher, tá sabendo? Ela deu pra querer proteger essa tralha e trouxe ela pra
dentro de casa, pra ser nossa cozinheira, e até que ele dá pra coisa, a comida
dele é muito das boas.
– E de onde ele veio?
– É filho de um colono, nasceu por aqui mesmo, pra espanto
nosso! Mas tamo dando um jeito de curar ele!
– Curar, e como é que se pode fazer isso?
– Diz que é difícil, né? Mas nós tamo persistindo.
– E que fizeram pra tentar?
– Bom, é que, tá sabendo? O negócio é que o pai dele contou
que tudo começou por causa de um desafeto dele, por causa de uma briga de cachaça,
no que o dito cujo levou uns bons safanões. Diz que pra modo de fazer sua vingança,
o judiado entrou de sorrateiro na casa dele, enquanto ele estava a mourejar, e
marcou o lombo do guri, deixando três letras formando um triângulo: dois X e um
Y.
– Me parece mais uma lorota para explicar o que não se quer
aceitar.
– Lorota ou não, o caso é que o menino cresceu assim
enviesado. Uma velha aí do terreiro, tida como curandeira das boas, disse que
era preciso suprimir um dos X para tirar o lado mulher dele.
– Sei, ouviu algo de médicos e num entendeu nada, daí...
– Pois foi aí que arresolvemos limpar o X.
– Já estou arrepiada de tanta estupidice, e o que fizeram
pra limpar o X?
– Pegamos aquela escova de ferro de raspar couro de cavalo
e raspamos, raspamos, até num deixar nenhum traço do X de cima do triângulo.
– Barbaridade!
– Mas era pro bem do moleque, tá sabendo? Mas num tivemos
sucesso. Daí uns dias, deu uma casca grossa de machucado, e, quando ela caiu,
lá estava o X inda mais marcado; e ele melhorou um nadinha, continuou moleca.
– Melhor deixar o vento soprar pra seguir onde pode ir, Seu
Menó.
– Mas acha que nós firmamos desistência? Desistimos um nada,
tá sabendo? inda vamos dar um jeito nele! Agora ele tá um tanto arisco, num
chega muito perto de nós, mas qualquer dia desses havemos de lhe aplicar um
outro remédio.
– E dessa vez, presumo, uma outra malvadeza será.
– Malvadeza nada, Dona Menina, é pro bem dele. O pastor da
igreja da minha mulher usou um latinório pra receitar a cura, até fiz questão
de gravar: similia similibus curantur; ele diz que quer dizer, mais ou
menos, que a cura deve ser feita por algo parecido ao mal, e já que a marca era
coisa do diabo...
– Fogo?!!!
– Pois antão, vamos ter que queimar o X.
– Fico imaginando se a Maria da Penha se aplica a tais
casos...
– O que disse a Senhora?
– Ah, deixa pra lá, cada qual no seu curral.
– O curral? Fica ali perto daquela figueira, vamos até lá
pra Senhora se maravilhar com a beleza da fazenda.
– Realmente muito bela, o Senhor poderia me contar das
origens da propriedade, como chegou na família?
– Olha que é uma história muito das boas, Senhora Dona Menina.
Meu avô me contou que foi o avô dele que conquistou as terras. Pois então, esse
meu tataravô um dia se pôs decidido a seguir o Sol até onde ele morre, lá pras
bandas além daquela serra, que é onde acaba a Terra. Ele sabia, pela tradição
da família, que o Sol era uma bola toda feita de ouro em fervura e, quando o
calor é muito, ele tem que pôr abaixo o excesso de ouro, tá sabendo? Assim, quando
ele cai lá no fim do mundo no final da tarde, ele deixa cair um tanto naquela
montanha que a Senhora vê lá ao longe, que é a última. O avô foi até lá no
alto, levou dias e dias para lá chegar, esperou o Sol. Aí, chegou aquela bola
enorme de ouro, transbordando pelas beiradas o gás de ouro. Estava bem no dia
maior do verão, quente como o inferno, e o Sol despejou um tanto de ouro bem
perto dos seus pés. Foi com aquele ouro que ele adquiriu as terras.
– Ah, sei, e de vez em quando o Senhor sobe lá para pegar
um pouco?
– Pra quê? Já tenho as terras que preciso. Mas dê uma
olhada, Dona Menina, olha que beleza de gado.
– Realmente, tudo bem tratado, melhor que os colonos,
parece!
– Isso é o meu orgulho. O Mané ali está a cangar as juntas pro
carro. Olha que beleza: duas bem parelhas e uma nem tanto, esta é a guia, um boi
preto manchado de branco, o Esquerdo, e um branco manchado de preto, o Direito.
Eles têm uma inclinação de ir pros lados diversos, mas, cangados, é uma
verdadeira maravilha, vão direitinho pra onde a gente quer.
– E o que não falta é canga e vontade de cangar, né?
– Mas vamos até a sede, Dona Menina, minha mulher vai nos
preparar um cafezinho no jeito.
– Vamos, talvez assim eu possa sair deste meu atordoamento.
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