Trili
Trili terminou o seu canto. Estivera tão concentrado em
fazer as mais perfeitas notas que não percebera a chegada dela. Ela era
inebriante. Seu corpo era coberto de penas verdes, do verde tom aconchegante
que o atraía a querer passear o seu bico nele. Ao redor do seu pescoço ela
tinha peninhas amarelas que lhe davam um brilho do sol primeiro da manhã. Ela
lhe sorriu soltando em seu canto as mesmas notas que ele entoara.
Trili também tinha o corpo coberto de penas verdes e suas
asas eram manchadas com penas negras, que lhe davam muita força para voar. E
ali mesmo, protegidos por aquela enorme massa de folhas daquela imensa árvore,
fizeram seu ninho. Cuidaram dos filhotes que cresceram sadios e soltaram suas
asas para o mundo. Enquanto ela se preocupava em cuidar do ninho e dos
pequeninos, Trili cuidava de deixar a dispensa do ninho sempre abastecida, sem
nada faltar, percorrendo grandes distâncias com suas asas fortes para trazer os
melhores grãos. Sem a algazarra dos filhotes idos, os dois apaixonados trocavam
beijinhos quando Trili voltava para casa trazendo alimento. Ela nunca mais
cuidou de buscar comida, desaprendeu onde encontrá-la, deixando a tarefa para
Trili.
A primeira vez em que Trili voltou para casa e não a
encontrou, nasceu-lhe uma pena azul na asa direita. Logo ela voltou e os
carinhos foram renovados.
Em um outro dia, Trili a viu a cuidar das penas amarelas ao
redor do seu pescoço, dando-lhes espaço para crescerem, retirando as pequeninas
penas verdes que por ali nasciam, e, em seguida, ela alçou voo para um de seus
passeios, que se tornaram costumeiros. Outra pena azul apareceu na sua outra
asa, mas ele não se desleixava de seu trabalho.
Pouco a pouco a dispensa do ninho se enriquecia, as penas
azuis de Trili foram aparecendo sobre as verdes, as penas amarelas dela
brilhavam sempre mais como o Sol. As melodias que ele cantava não tinham mais
aquelas notas límpidas de amor, que foram enrouquecendo à medida que as penas
azuis tomavam o seu corpo. Ela chegava de volta ao ninho, dispensava-lhe um quê
de atenção, forrava o papo, e debruçava-se a cuidar das suas penas amarelas.
Um dia Trili percebeu que seu corpo já estava quase
totalmente azul. Isto o fez lançar-se com mais força a encher a sua dispensa.
Quando ela voltou ao ninho em busca da refeição, ele a viu em toda o seu
esplendor amarelo, nada mais havia nela do verde de que ele se enamorara. Outra
pena azul nasceu e Trili viu a sua última pena verde esvoaçando a cair
lentamente, sem amparo de nenhum vento. Ele deixou-se cair do ninho, usando o
resto de força das suas asas para pousar no chão. E ali ficou sem mais voar.
Quando ela voltou para o ninho, foi até a dispensa e
avaliou-a satisfeita. Cuidou de ajeitar caprichosamente suas penas amarelas e
voou para o seu passeio.
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