domingo, 3 de novembro de 2019

Trili



Trili






Trili terminou o seu canto. Estivera tão concentrado em fazer as mais perfeitas notas que não percebera a chegada dela. Ela era inebriante. Seu corpo era coberto de penas verdes, do verde tom aconchegante que o atraía a querer passear o seu bico nele. Ao redor do seu pescoço ela tinha peninhas amarelas que lhe davam um brilho do sol primeiro da manhã. Ela lhe sorriu soltando em seu canto as mesmas notas que ele entoara.

Trili também tinha o corpo coberto de penas verdes e suas asas eram manchadas com penas negras, que lhe davam muita força para voar. E ali mesmo, protegidos por aquela enorme massa de folhas daquela imensa árvore, fizeram seu ninho. Cuidaram dos filhotes que cresceram sadios e soltaram suas asas para o mundo. Enquanto ela se preocupava em cuidar do ninho e dos pequeninos, Trili cuidava de deixar a dispensa do ninho sempre abastecida, sem nada faltar, percorrendo grandes distâncias com suas asas fortes para trazer os melhores grãos. Sem a algazarra dos filhotes idos, os dois apaixonados trocavam beijinhos quando Trili voltava para casa trazendo alimento. Ela nunca mais cuidou de buscar comida, desaprendeu onde encontrá-la, deixando a tarefa para Trili.

A primeira vez em que Trili voltou para casa e não a encontrou, nasceu-lhe uma pena azul na asa direita. Logo ela voltou e os carinhos foram renovados.

Em um outro dia, Trili a viu a cuidar das penas amarelas ao redor do seu pescoço, dando-lhes espaço para crescerem, retirando as pequeninas penas verdes que por ali nasciam, e, em seguida, ela alçou voo para um de seus passeios, que se tornaram costumeiros. Outra pena azul apareceu na sua outra asa, mas ele não se desleixava de seu trabalho.

Pouco a pouco a dispensa do ninho se enriquecia, as penas azuis de Trili foram aparecendo sobre as verdes, as penas amarelas dela brilhavam sempre mais como o Sol. As melodias que ele cantava não tinham mais aquelas notas límpidas de amor, que foram enrouquecendo à medida que as penas azuis tomavam o seu corpo. Ela chegava de volta ao ninho, dispensava-lhe um quê de atenção, forrava o papo, e debruçava-se a cuidar das suas penas amarelas.

Um dia Trili percebeu que seu corpo já estava quase totalmente azul. Isto o fez lançar-se com mais força a encher a sua dispensa. Quando ela voltou ao ninho em busca da refeição, ele a viu em toda o seu esplendor amarelo, nada mais havia nela do verde de que ele se enamorara. Outra pena azul nasceu e Trili viu a sua última pena verde esvoaçando a cair lentamente, sem amparo de nenhum vento. Ele deixou-se cair do ninho, usando o resto de força das suas asas para pousar no chão. E ali ficou sem mais voar.

Quando ela voltou para o ninho, foi até a dispensa e avaliou-a satisfeita. Cuidou de ajeitar caprichosamente suas penas amarelas e voou para o seu passeio.

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