Retrovisor
Se é que fosse possível naquele mundo, ele estava sentindo
o cansaço de uma vida interminável, sem começo, sem fim, sem que o tempo se
mexesse. Abrir e fechar portas, viver as aventuras de cada estação a que as
portas o conduziam enchia-o da resignação de uma lua que atravessa os dias sem
mudar a face que apresenta ao mundo. Deixou-se cair ao chão, olhou para o Velho
Guardião como se estivesse vindo das dezenas de bilhões de anos do universo.
O Velho deixou-o ficar à vontade, que importa quando o
tempo inexiste, quando Cronos não pode devorar seus filhos.
Ao se levantar, carregava nos ombros o peso de todas
aquelas portas que se abriram para ele. Arrastou-se pela rampa central que
subia em lances de escada que cruzavam toda a extensão do salão. Subiu por
muitos lances e deparou-se com uma porta aberta no vigésimo primeiro lance que
o convidava novamente para um novo sonho. Olhou o Velho parado lá embaixo no
salão que sorria de maneira irônica ao ver seus gestos de cansaço e tédio. Entrou:
Ele se levantou como de costume para ir ao trabalho. Nada
especial a esperar de um dia como qualquer outro. Gestos robóticos da tarefa
diária de aprontar-se para sair: lavar-se, barbear-se, comer, limpar os dentes,
pegar o carro, chegar ao prédio do trabalho. Entrou no corredor que o levava a
sua sala. Uma porta fechada barrava a entrada para o setor onde ele tinha sua
mesa. Abriu-a, sua sala estava em frente à porta; a sua direita, uma outra era
ocupada por duas outras funcionárias. Antes de entrar na sua sala, Clélia o
chamou, sem mesmo dar a atenção de um bom dia. Era-lhe agradável atendê-la,
a relação carinhosa que se estabelecera entre os dois tornava-os cúmplices em
delicada amizade. Foi até ela no fundo da sala. Sentada atrás de sua mesa de
trabalho, ela tinha em sua frente outra funcionária.
Clélia estendeu-lhe duas revistas, dizendo-lhe apenas:
– Toma.
– O que é isso?
– Eu quero que você leia. Leia as duas.
– Dois pesos, duas medidas – completou a outra que lá
estava.
– E por quê?
– Eu quero que você leia.
Na voz havia mais que uma sugestão, era uma ordem. Ele
olhou-a interrogativo, mas ela se voltara para os papéis que tinha a sua
frente. Sem nada entender, pegou as duas revistas e foi para seu lugar.
Intrigado, folheou as revistas. Uma delas era sobre turismo, com artigos sobre
lugares que valiam a pena serem visitados; a outra era uma revista que continha
matérias variadas como as revistas de salas de espera. Deixou-as de lado para
iniciar seus trabalhos e guardou-as para levar para casa, onde poderia procurar
o que pudesse chamar-lhe a atenção.
O Velho observava o desenrolar do cenário trazendo no rosto
a gravidade que o momento exigia. Observava a ação da menina com um gesto de
aprovação, verificando que ela desempenhava com eficiência a tarefa que era de
sua incumbência, embora inconsciente do seu papel.
O carinho que Clélia dedicava-lhe era algo indefinido entre
uma atração e o amor de uma filha, acrescido de uma admiração por sua distinta
capacidade e comportamento. Ela brincava muito com ele, fazendo-o rir com
piadas carinhosas, provocando-o para ouvir suas opiniões e conselhos,
sentando-se ao seu lado para entreter longas conversas. Ele se entregava a tudo
com alegria, gostando de passar aqueles momentos com ela. Mas aquele gesto de impor-lhe
as revistas era inusitado, jamais acontecera antes algo semelhante, por isto a
cisma.
A manhã continuou em seu ritual costumeiro, até que ele foi
ao banheiro. De repente o comum se revestiu de uma camada de surpresas. Em
frente à pia, um espelho grande cobria a parede. Enquanto lavava as mãos, olhou
com espanto para sua imagem, não se vendo, mas vendo as feições de seu pai
estampadas em sua face. O Velho levantou as sobrancelhas com um certo ar de
diversão.
Talvez fosse normal achar a face do pai sobre a sua, devido
a semelhanças genéticas, mas isto não acontecia. Os dois não tinham as feições
assim tão reconhecíveis, tendo sido o pai muito magro, com faces encovadas curtidas
pelo trabalho pesado; o filho apresentava feições mais cheias sem semelhanças óbvias. Surpreso, parou
a admirar o pai olhando-o fixamente, e pouco a pouco sua própria imagem aflorou
novamente no espelho. O Velho sorriu, o roteiro havia sido executado como previsto.
Voltando a sua sala, comentou com a sua colega de trabalho:
– Acabei de ver, agora mesmo, a imagem de meu pai no
espelho.
Ela já estava acostumada com as estranhezas que ele
normalmente lhe relatava e recebeu com naturalidade a observação. Ele seguiu
para sua mesa, pegou uma caneta para escrever alguma coisa do serviço que
estava realizando, e mais uma surpresa o apanhou ao escrever algumas palavras:
– Mas essa letra não é minha, – ele falou – é a letra do
meu pai!
E tudo ficaria parado nesse cenário, nada havendo a
acrescentar naqueles acontecimentos não usuais, não fossem aquelas revistas que
recebera de manhã. Levando-as para casa, suspeito do que aquela ordem de Clélia
pudesse ter algo mais a revelar, à noite pegou a revista de turismo para folhear,
nada achando que não fosse comum sobre aqueles assuntos: belos lugares, belas reportagens,
nada a chamar a atenção. Passou para a outra revista onde encontrou matéria
interessante sobre o bruxo do Cosme Velho, passeou pelos outros artigos,
cansou-se da leitura.
Somente no dia seguinte, depois de mais um dia de trabalho
rotineiro, voltou a pegar a revista para completar o vasculhar dos artigos
restantes. O último artigo da revista era um conto. Leu-o. Se pudesse vê-lo,
veria que o Velho sorria.
A história falava de um menino que tinha um jogo de futebol
na escola, para onde foi acompanhado do pai. Sendo ele o melhor jogador do seu
time, o menino ansiava fazer uma partida que encantasse o pai, que pudesse enchê-lo
de orgulho. O jogo se desenvolveu sem grandes lances a estimular o pai,
permanecendo empatado, aumentando a tensão do menino e o esforço para uma
jogada que resolvesse a partida. Surgiu então a oportunidade que ele tanto
esperara, pois fora marcado um pênalti a seu favor. A expectativa foi grande,
do pai e do menino, o nervosismo intenso: o menino chuta e perde o gol...
Ele levanta os olhos da revista e começa a pensar em seu
próprio pai, no relacionamento entre eles que se havia deteriorado por causa de
seu divórcio. E ressentia-se da falta de diálogo com o pai que não pôde admitir
que um filho seu pudesse realizar, em seus critérios, tal ato falho de caráter.
Os princípios rígidos do pai, baseados nos alicerces da Igreja Católica, não
podiam aceitar a dissolução do casamento. No princípio o pai nem o aceitara em
sua casa, mas aos poucos o mal estar foi abrandado pela interferência de
pessoas que conheciam ambos, que não entendiam aquele radicalismo e que tinham
apreço pelos dois; mas a alegria que antes tivera pelo filho, esta não pôde ser
mais vista no semblante do pai, e quando a morte levou-o, ainda havia algumas
arestas não consertadas. Como o menino do conto, ele ressentia-se de ter
decepcionado o pai.
Voltou à leitura. No retorno para casa o menino afundara-se
no banco do carro, abatido, desviando os olhos do pai, não querendo nele ver a
frustração. E tudo acontecia em silêncio. Quando ousou levantar os olhos, viu o
pai olhando-o pelo espelho retrovisor. Tinha um sorriso consolador nos lábios e
lhe fazia um aceno para olhar para a frente, que nada daquilo importava mais.
Ele parou surpreso. O Velho novamente entreabriu os lábios
em algo que bem parecia um sorriso.
Ele parou a imaginar a sucessão de estranhos efeitos que teriam
que ser postos em prática para que aquela coincidência pudesse acontecer: a
elaboração e impressão do conto; as revistas que lhe chegaram pelas mãos da
Clélia daquela maneira imprevista e não provável; a imagem do seu pai na sua
face no espelho refletindo a cena do menino olhando o retrovisor para ver o
aceno reconfortante do pai.
Ele entendeu.
A sala se desfez e ele se encontrava novamente no salão das
portas. O Guardião olhava-o enxugar as lágrimas que atravessaram os dois
mundos.
-o-
