domingo, 5 de janeiro de 2020

Retrovisor


Retrovisor




Se é que fosse possível naquele mundo, ele estava sentindo o cansaço de uma vida interminável, sem começo, sem fim, sem que o tempo se mexesse. Abrir e fechar portas, viver as aventuras de cada estação a que as portas o conduziam enchia-o da resignação de uma lua que atravessa os dias sem mudar a face que apresenta ao mundo. Deixou-se cair ao chão, olhou para o Velho Guardião como se estivesse vindo das dezenas de bilhões de anos do universo.

O Velho deixou-o ficar à vontade, que importa quando o tempo inexiste, quando Cronos não pode devorar seus filhos.

Ao se levantar, carregava nos ombros o peso de todas aquelas portas que se abriram para ele. Arrastou-se pela rampa central que subia em lances de escada que cruzavam toda a extensão do salão. Subiu por muitos lances e deparou-se com uma porta aberta no vigésimo primeiro lance que o convidava novamente para um novo sonho. Olhou o Velho parado lá embaixo no salão que sorria de maneira irônica ao ver seus gestos de cansaço e tédio. Entrou:

Ele se levantou como de costume para ir ao trabalho. Nada especial a esperar de um dia como qualquer outro. Gestos robóticos da tarefa diária de aprontar-se para sair: lavar-se, barbear-se, comer, limpar os dentes, pegar o carro, chegar ao prédio do trabalho. Entrou no corredor que o levava a sua sala. Uma porta fechada barrava a entrada para o setor onde ele tinha sua mesa. Abriu-a, sua sala estava em frente à porta; a sua direita, uma outra era ocupada por duas outras funcionárias. Antes de entrar na sua sala, Clélia o chamou, sem mesmo dar a atenção de um bom dia. Era-lhe agradável atendê-la, a relação carinhosa que se estabelecera entre os dois tornava-os cúmplices em delicada amizade. Foi até ela no fundo da sala. Sentada atrás de sua mesa de trabalho, ela tinha em sua frente outra funcionária.

Clélia estendeu-lhe duas revistas, dizendo-lhe apenas:

– Toma.

– O que é isso?

– Eu quero que você leia. Leia as duas.

– Dois pesos, duas medidas – completou a outra que lá estava.

– E por quê?

– Eu quero que você leia.

Na voz havia mais que uma sugestão, era uma ordem. Ele olhou-a interrogativo, mas ela se voltara para os papéis que tinha a sua frente. Sem nada entender, pegou as duas revistas e foi para seu lugar. Intrigado, folheou as revistas. Uma delas era sobre turismo, com artigos sobre lugares que valiam a pena serem visitados; a outra era uma revista que continha matérias variadas como as revistas de salas de espera. Deixou-as de lado para iniciar seus trabalhos e guardou-as para levar para casa, onde poderia procurar o que pudesse chamar-lhe a atenção.

O Velho observava o desenrolar do cenário trazendo no rosto a gravidade que o momento exigia. Observava a ação da menina com um gesto de aprovação, verificando que ela desempenhava com eficiência a tarefa que era de sua incumbência, embora inconsciente do seu papel.

O carinho que Clélia dedicava-lhe era algo indefinido entre uma atração e o amor de uma filha, acrescido de uma admiração por sua distinta capacidade e comportamento. Ela brincava muito com ele, fazendo-o rir com piadas carinhosas, provocando-o para ouvir suas opiniões e conselhos, sentando-se ao seu lado para entreter longas conversas. Ele se entregava a tudo com alegria, gostando de passar aqueles momentos com ela. Mas aquele gesto de impor-lhe as revistas era inusitado, jamais acontecera antes algo semelhante, por isto a cisma.

A manhã continuou em seu ritual costumeiro, até que ele foi ao banheiro. De repente o comum se revestiu de uma camada de surpresas. Em frente à pia, um espelho grande cobria a parede. Enquanto lavava as mãos, olhou com espanto para sua imagem, não se vendo, mas vendo as feições de seu pai estampadas em sua face. O Velho levantou as sobrancelhas com um certo ar de diversão.

Talvez fosse normal achar a face do pai sobre a sua, devido a semelhanças genéticas, mas isto não acontecia. Os dois não tinham as feições assim tão reconhecíveis, tendo sido o pai muito magro, com faces encovadas curtidas pelo trabalho pesado; o filho apresentava feições mais cheias sem semelhanças óbvias. Surpreso, parou a admirar o pai olhando-o fixamente, e pouco a pouco sua própria imagem aflorou novamente no espelho. O Velho sorriu, o roteiro havia sido executado como previsto.

Voltando a sua sala, comentou com a sua colega de trabalho:

– Acabei de ver, agora mesmo, a imagem de meu pai no espelho.

Ela já estava acostumada com as estranhezas que ele normalmente lhe relatava e recebeu com naturalidade a observação. Ele seguiu para sua mesa, pegou uma caneta para escrever alguma coisa do serviço que estava realizando, e mais uma surpresa o apanhou ao escrever algumas palavras:

– Mas essa letra não é minha, – ele falou – é a letra do meu pai!

E tudo ficaria parado nesse cenário, nada havendo a acrescentar naqueles acontecimentos não usuais, não fossem aquelas revistas que recebera de manhã. Levando-as para casa, suspeito do que aquela ordem de Clélia pudesse ter algo mais a revelar, à noite pegou a revista de turismo para folhear, nada achando que não fosse comum sobre aqueles assuntos: belos lugares, belas reportagens, nada a chamar a atenção. Passou para a outra revista onde encontrou matéria interessante sobre o bruxo do Cosme Velho, passeou pelos outros artigos, cansou-se da leitura.

Somente no dia seguinte, depois de mais um dia de trabalho rotineiro, voltou a pegar a revista para completar o vasculhar dos artigos restantes. O último artigo da revista era um conto. Leu-o. Se pudesse vê-lo, veria que o Velho sorria.

A história falava de um menino que tinha um jogo de futebol na escola, para onde foi acompanhado do pai. Sendo ele o melhor jogador do seu time, o menino ansiava fazer uma partida que encantasse o pai, que pudesse enchê-lo de orgulho. O jogo se desenvolveu sem grandes lances a estimular o pai, permanecendo empatado, aumentando a tensão do menino e o esforço para uma jogada que resolvesse a partida. Surgiu então a oportunidade que ele tanto esperara, pois fora marcado um pênalti a seu favor. A expectativa foi grande, do pai e do menino, o nervosismo intenso: o menino chuta e perde o gol...

Ele levanta os olhos da revista e começa a pensar em seu próprio pai, no relacionamento entre eles que se havia deteriorado por causa de seu divórcio. E ressentia-se da falta de diálogo com o pai que não pôde admitir que um filho seu pudesse realizar, em seus critérios, tal ato falho de caráter. Os princípios rígidos do pai, baseados nos alicerces da Igreja Católica, não podiam aceitar a dissolução do casamento. No princípio o pai nem o aceitara em sua casa, mas aos poucos o mal estar foi abrandado pela interferência de pessoas que conheciam ambos, que não entendiam aquele radicalismo e que tinham apreço pelos dois; mas a alegria que antes tivera pelo filho, esta não pôde ser mais vista no semblante do pai, e quando a morte levou-o, ainda havia algumas arestas não consertadas. Como o menino do conto, ele ressentia-se de ter decepcionado o pai.

Voltou à leitura. No retorno para casa o menino afundara-se no banco do carro, abatido, desviando os olhos do pai, não querendo nele ver a frustração. E tudo acontecia em silêncio. Quando ousou levantar os olhos, viu o pai olhando-o pelo espelho retrovisor. Tinha um sorriso consolador nos lábios e lhe fazia um aceno para olhar para a frente, que nada daquilo importava mais.

Ele parou surpreso. O Velho novamente entreabriu os lábios em algo que bem parecia um sorriso.

Ele parou a imaginar a sucessão de estranhos efeitos que teriam que ser postos em prática para que aquela coincidência pudesse acontecer: a elaboração e impressão do conto; as revistas que lhe chegaram pelas mãos da Clélia daquela maneira imprevista e não provável; a imagem do seu pai na sua face no espelho refletindo a cena do menino olhando o retrovisor para ver o aceno reconfortante do pai.

Ele entendeu.

A sala se desfez e ele se encontrava novamente no salão das portas. O Guardião olhava-o enxugar as lágrimas que atravessaram os dois mundos.

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