domingo, 24 de dezembro de 2017

Jornada para a Luz


Jornada para a Luz

                                                                      Natal 2017, muita Luz para todos!


- Ei, não me empurra!

- Desculpe-me, não foi de propósito. Está tão escuro aqui, não consigo ver nada.

- E você não sente a minha vibração?

- Ah, não sei, sou muito bebê ainda, essa ondinha que sinto fazendo cosquinha é que é a sua vibração?

- É sim, e todos nós aqui vibramos assim.

- Ah, então somos muitos, pois estou sentindo muitas cosquinhas. Ei, pessoal, eu me chamo Chu.

- Oi, Chu, seja bem-vinda a nossa família, precisamos da sua ajuda para podermos subir.

- Subir, para onde?

- Para bem longe do calor que vem lá do fundo da terra. Você não ouviu falar da coisa horrível que será se cairmos naquele fogo?

- Ai, que horror! E como fazemos para subir?

- Nós nos juntamos, e pela nossa união ganhamos força para subir pelos buraquinhos da terra.

- E o que tem lá em cima?

- Dizem que é um paraíso, que lá existe uma claridade bonita chamada Luz.

- E o que é Luz?

- Ainda não sabemos, disseram que aqui embaixo é escuro justo porque não tem Luz.

- Hum, estou ansiosa para sair deste mundo escuro, vamos então juntar nossas forças.

- Iupii, vamos lá!

E lá se foram usando a força da união, que lhes permitia ter apoio nas paredes da terra bruta.

- Uau!

- Puxa vida!

- Tanta coisa linda!

- Tão azul lá em cima!

- Azul? Como você sabe que é azul?

- Ah, não sei, veio na minha boca.

- Então acho que ali do lado é... verde! É isso, verde! E aquelas coisas enormes são árvores!

- E lá no céu, no meio do azul, tantas... nuvens! E são... brancas!

- E agora já somos tantas, e vamos assim deslizando juntas.

- Para onde vamos?

Seguindo a corrente
Vamos deslizando
Um riacho potente
Nós vamos formando


- Que gostoso correr assim entre as margens, deslizar na corrente mais brava, dar um pulo bem alto ao bater em uma pedra e cair de volta no meio de todos.

- Traçando um arco-íris no ar.

- Chu, veja! Vamos entrar num rio enorme!


A boca do rio
Vai nos engolir
No seu braço frio
Nos vamos fundir


- E cada vez somos mais, unidas na mesma vontade.

- Vontade de ir, de ir... para onde?


Me disse a gaivota:
- Direto pro mar
Que bela patota
Vocês vão formar


- E o que é o mar?

- Falou que é azul, mais azul que o céu. Que é grande, tão grande, de não se ver fim.

- Tão grande quanto a Luz?


É o fim da jornada
Da missão de amar
Tornar-se um nada
Ser o Todo, ser Mar




-o-

domingo, 10 de dezembro de 2017

Terra: por onde andas?


Terra: por onde andas?


– Dona Menina, quanto tempo!

– Sô Nato, perdido cá por esta terrinha? Puxou este aguaceiro pra nós lá de riba deste Brasilzão?
]
– E num é, Dona Menina? ô terrinha danada pra chover, e fica assim nesse chove não molha que é de um nunca acabar.

– Estamos na precisão, sô Nato, a seca tava braba.

– Mas é muito chata essa chuvinha gotejando dia e noite; lá pelas nossas bandas ela cai de uma vez, varre toda a poeira e se dá por satisfeita.

– Pois veja que inda agorinha mesmo eu tava no padecimento vendo a mulher do tempo augurar que vem mais choro por aí, mostrando naquele globo que tem muito pé de água pra cair por cá ainda.

– No globo, Dona Menina? É por isso que essas previsões dão erradas de tudo.

– Pro modo de quê, sô Nato? que tem o globo?

– E então, Dona Menina acredita que a terra é um globo?

– E por que havera eu de não acreditar?

– Ora, Dona Menina, então a senhora, que é tida como de muita sabedoria, num sabe das fraudes todas que essa gente que se diz cientista quer nos empurrar?

– Fraudes, sô Nato? cê tá na intenção de dizer que a nossa Terra não é redonda?

– Admira-me muito que a senhora não saiba.


– Sô Nato! tá a querer me dizer que crê nessa parvoíce de Terra plana?


– Parvoíce, Dona Menina? parvoíce das grandes é acreditar nessa propaganda de ser a Terra uma bola vagando no espaço, com uma velocidade estonteante.

– Mas... tô deveras no perplexo a pôr dúvida no que estou a escutar... se tá mais que de comprovado que é mesmo assim que é.

– Comprovado? por exemplo?

– Os retratos dos satélites, que fazem lá da cimeira do céu: tão linda nossa Terra, de um azul formoso!

– Mas é tudo uma baita de uma fraude, tudo truque feito em Holywood!

– Truque? Que abuso mais abusado é esse, sô Nato? Vindo de um homem pundonoroso, assim me deixa inté avexada. São tantas fotos, tiradas de tantos satélites.

– Que isso, Dona Menina? num existe satélite nenhum, é tudo falso, invenção da NASA.

– Sô Nato! Num tô pondo fé nos meus ouvidos... Tá querendo me asseverar que há um nada de satélite a viajar lá no espaço?

– Mas é claro que não há, Dona Menina. A senhora acha que com tanto satélite como eles dizem que jogaram lá pro alto, o céu não estaria congestionado?

– Pera lá, sô Nato... O tamanho deles é mirradinho pra isso, e inda tem mais que eles não emparelham na mesma altura.

– E então, a altura! O calor do Sol é tão grande por lá que derreteria tudo.

– Disso eu não entendo um cisco, mas por certo que os moços engenheiros resolvem o imbróglio.

– E a Lua, Dona Menina, a Lua não ia atrapalhar os satélites?

– Pelo que me vai na cachola, por demorosa que sou, de certo que não, sô Nato, a Lua tá pra lá, muito pra lá em riba.

– Ah, que barbaridade! Pois ela está muito mais perto do que eles dizem, e nem é tão grande assim como mentem. Ela é mesmo mais ou menos do tamanho do Sol, são discos de luz no firmamento e estão muito mais perto do que nos querem fazer crer;

– Mas sô Nato, a lonjura é bem conhecida, o homem já foi até a Lua.

– Senhora Dona Menina! Fico admirado por ver que a senhora acredita naqueles truques que fizeram para enganar a gente.

– E pra que eles iam praticar tanto estorvo com a tenção só de enganar?

– Porque existe uma conspiração para eliminar Deus e a religião de nossas vidas, e para dizer que nada se passou como está escrito na Bíblia, e que para existir tudo isto nem é preciso Deus, que basta a força de gravidade, como disse aquele cientista doente.

– Pois... tá aí, pelo que é dito na ciência, é essa tal força da gravidade que tá por trás dessa barafunda toda.

– Esse é apenas o maior dos absurdos que inventaram para poder justificar que a gente possa estar de cabeça pra baixo em cima da Terra, o que é uma tremenda besteira que qualquer um pode entender que é impossível.

– Impossível?

– Evidente, Dona Menina! A senhora já parou para avaliar que não tem jeito da água do mar não entornar se a Terra for redonda?

– Ah, é? Mas... e se plana fosse, num haveria de escapar pelas beiradas?

– Evidente que não, porque existe o continente Antártico, que é uma barreira enorme de gelo que circunda todo o círculo da Terra, e assim a água não vaza.

– Bom... que baita barreira! Deve de ser tão desmesurada como a que cê tem na cuca, né?

– Dona Menina, deixa eu dizer: nós, os terraplanistas, não somos bobos de cair nessa conversa fiada da NASA, nessas fotos trabalhadas com Photoshop, e nesses filmes fajutos feitos por computador.

– Ah! Tô a perceber, um bando de finórios de mais sagacidade que todo o resto do povo jacu!

– Num é uma questão de esperteza, mas de ceticismo com essa ciência de mentiras, nós procuramos a ciência de verdade, com cientistas sérios que não se deixam enganar por hipóteses absurdas.

– Antão, tá a me falar que Einstein, Newton e todos mais que fizeram a ciência são tudo só uma cambada de uns embrulhões?

– E não? querendo serem mais espertos que Deus!

– Ahn?

– Pois é. Ele já num escreveu há muito tempo lá na Bíblia os ditames da verdadeira ciência? E que somos seres especiais vivendo em um lugar especial!

– Ah é? Tenho cá comigo, no meu parvo entender, que a Bíblia dita preceitos de fé, mas tô atenta agorinha ainda pra modo de escutar a lição da ciência que ela faz.

– Com muito gosto que discorro disso: o episódio quando Josué parou o Sol, para poder ter tempo para derrotar os amorreus, prova que é o Sol que gira ao redor da Terra.

– Sô Nato, tô mais e mais abestalhada, cê disse inda pouco que era cético e é bem audaz em vir me apregoar uma sandice dessa? Tem quinhentos anos que se sabe que é a Terra que gira ao redor do Sol.

– E se eu não acreditar em Deus, em quem mais vou acreditar?

– Antão, sô Nato, por modo de quê o Papa João Paulo II fez contrição e confessou que a Igreja tava em erro por condenar Galileu?

– Ora, ele errou em pedir desculpas...

– Ahn? E não é asseverado que o Papa é infalível?

– Não, Dona Menina, não é assim, a infalibilidade é só em matéria de fé e moral.

– E esse quiproquó num é fé?

– Isso tem a ver com ciência, e nesse assunto o Papa também pode se enganar.

– Inda vai me dizer que Adão e Eva é tal qual tá escrito lá!

– Como a mais santa verdade.

– Eu tenho cá comigo um busílis que vive me arrodiando, sô Nato: se a parelha teve dois filhos, aonde foi o Caim arranjar mulher?

– A mulher dele foi um anjo caído.

– Tá bom, sô Nato, cê tem sempre uma replicação inesperta pra defesa dessas sandices todas, tudo tirado do nada; antão me diga, como é que prova que a Terra é plana?

– Fácil, fácil. É só usar a água.

– E de que modo?

– Coloque um nível num avião: quando ele sobe, o nível vai inclinar-se, num é? Quando o avião se estabiliza e fica reto, o nível fica alinhado. Se a Terra fosse redonda isso nunca poderia ser verdade.

– Mas, sô Nato, o avião, o nível, tudo é muito mirrado frente ao tamanzão da Terra, num dá pra distinguir o desviamento.

– Ah ha! Conversa pra boi dormir, conversa de quem não quer aceitar a evidência. E assim vão criando as mentiras dessa ciência fajuta, repetindo-as tantas vezes que se afirmam verdades absolutas.

– Já tudo se fez luz pra mim, cê só quer saber do que afirmam as suas crendices, o demais, renega.

– A verdadeira ciência e as palavras do Messias se harmonizam.

– Cansei, sô Nato, mais cômodo é ser uma ovelhinha no seu rebanho.

– Meu não, Dona Menina, do Senhor!

– E que Ele tenha piedade de nós!


-o-

                A oração do ateu

                  (de Miguel de Unamuno, tradução
                    do poema apresentado mais abaixo)

Ouve minha prece, Tu, Deus que não existes,
e em Teu nada recolhe estas minhas queixas,
Tu que aos miseráveis homens nunca deixas
sem a consolação de engano. Não resistes

a nossa súplica, e o nosso anseio vistes.
Quando Tu de minha mente mais te afastas,
mais recordo os conselhos doces e vastos
com que minha ama adoçou minhas noites tristes.

Como tu és grande, meu Deus! Tu és tão grande,
que não és mais que Ideia; é muito estreita
a realidade por muito mais que se expanda

para abarcar-Te. Por Ti minha dor é feita,
Deus inexistente, se fosses realidade
certamente eu existiria de verdade.


         La oración del ateo
                                  (poema original)

Oye mi ruego Tú, Dios que no existes,
y en tu nada recoge estas mis quejas,
Tú que a los pobres hombres nunca dejas
sin consuelo de engaño. No resistes

a nuestro ruego y nuestro anhelo vistes.
Cuando Tú de mi mente más te alejas,
más recuerdo las plácidas consejas
con que mi ama endulzóme noches tristes.

¡Qué grande eres, mi Dios! Eres tan grande
que no eres sino Idea; es muy angosta
la realidad por mucho que se expande

para abarcarte. Sufro yo a tu costa,
Dios no existente, pues si Tú existieras
existiría yo también de veras.



domingo, 26 de novembro de 2017

A Casa da Rua do Biongo


A Casa da Rua do Biongo

Infância
Rua do Biongo,
a casa velha dava asas
ao voar trilongo.



– Venha comigo, Miguelim, hoje vou levá-lo para conhecer a parte mais ativa e mais saudosa da minha infância. Vamos subir por aqui, nesta Rua do Biongo. Bem ao longo desta ladeira espalha-se esta casa antiga no lado esquerdo da rua, mas apenas em nossa imaginação, pois há muito suas paredes já não mais existem. À sua frente sobe um barranco por cerca de sete metros; lá no alto uma outra rua corre com casas mais humildes.

– Tem uma escada que sobe até o alto do morro.

– Uma escada cortada na própria terra do barranco, mas vamos deixá-la a querer atingir as nuvens, vamos subir este degrau que nos permite entrar pela porta da casa. As suas perninhas pequeninas vão se sentir mais à vontade se você subir pelo canto direito, mais baixo. Pronto, esta é a sala de visitas da casa. As tábuas velhas que fazem seu assoalho não são precisamente ajustadas, vê? Mas isto fazia graça para as crianças que ali brincavam de enxergar, pelas gretas entre as peças, os fantasmas que no escuro abaixo do assoalho faziam sua morada.

– Fantasmas, Doutor, de verdade?

– Fantasmas de muitas épocas passadas, mas eles eram até simpáticos, percebiam lá do escuro a nossa curiosidade e sorriam de nossos medos. Vê aquela cadeira de balanço? Além do balanço que acalentou vários fantasmas, foi cenário também de muitas disputas dos primos que vinham povoar estas paredes austeras com algazarras.

– Eu também gosto de balançar numa cadeira assim.

– A sala tem mais algumas cadeiras de braços e janelas que se abrem para a vista do barranco. Por aqui eu vinha atrás do jornalzinho Ave Maria para rir um pouco com as tirinhas do Pinduca - criação de Carl Thomas Anderson -, um menino carequinha, sem voz nem balõezinhos, e do Bidu, o primeiro personagem do Maurício de Souza, que ainda não era azul, pois o jornal não sabia de cores.

– Não tinha o Cebolinha, Doutor?

– Não, Miguilim, só o Franjinha que era o dono dele. Venha, quero lhe mostrar aqui neste lado, bem em frente a esta janela era armado todo ano o presépio da tia Dinah. Era uma atração famosa nas vizinhanças, não havia nas redondezas quem não passasse por aqui para admirar o trabalho; pessoas batiam, pediam licença para entrar, algumas tímidas, outras invasivas; paravam a admirar o menino em sua manjedoura e faziam preces devotas  Para nós, crianças, que esperávamos com ansiedade a época de montagem, o divertido era descobrir as novas figuras que o presépio ganhava, sem descuidar das antigas que enchiam nossos olhos de prazer: o laguinho com os patinhos nadando, o pó-de-serra colorido fazendo caminhos e campos, a gruta feita de papel imitando a rocha, e a estrela que os magos seguiam, mas estes só chegavam em janeiro. Um ano houve que casinhas construídas com palitos de fósforo ganharam lugares na paisagem dos campos; eram um retrato da paciência da tia, que colava palito a palito.

- Doutor, eu já fui figura de presépio vivo!

- Sério, Miguilim? Deve ter sido bastante divertido. Agora chega para cá, aqui neste lado da sala; esta porta nos leva a um quarto onde a tia Dinah tinha seu quarto de costura para fazer vestidos para as suas freguesas. Houve uma cama grande aqui neste quarto onde se amontoavam os primos a brincar e, às vezes, a brigar; por conta destas brigas foi que ganhei uma martelada na cabeça. Cruzemos a sala: esta outra porta nos leva à sala de jantar, mas antes de observá-la, viremos um pouco à direita, pois aqui existe um quarto que era sempre nossa primeira passagem quando vínhamos a esta casa.

– Era uma obrigação, Doutor?

– Não, Miguelim, entrávamos ali para pedir a bênção à tia Lenira, irmã da minha avó. Ela sempre estava ali na sua cama, parecendo uma espécie de sereia; só podíamos ver o seu busto, pois suas pernas estavam sempre cobertas. Ela nos recebia com o encanto de um sorriso alegre, como é mister das sereias, e sempre com um pano nas mãos fazendo crivo, seu trabalho de Sísifo, como ela gostava de brincar: desfiar um paninho e preencher os buraquinhos novamente.

– Ela não podia levantar-se da cama?

– Não, não podia. Não a conheci de outra forma, uma doença degenerativa a colocou na cama. Não a víamos lamentar-se, tinha sempre o sorriso e uma brincadeira para receber-nos. Mas voltando à sala de jantar, esta mesa juntava a família nas noites de domingo, quando minha avó se sentava à cabeceira com os filhos ao redor. Os netos pequeninos brincavam sobre a mesa. Um dia fiquei muito ressentido com ela, pois foi ela a dizer-me que já era muito grande para ficar em cima da mesa, e este quadro tenho-o bem presente na minha memória, pois ali tomei consciência da boca do tempo que me comia os anos, embora ainda ansiasse que se fossem depressa; e ali naquela parede de cabeceira da mesa, preguiçosamente ficava um relógio antigo de pêndulo a tiquetaquear os segundos, lembrando a cada meia-hora, com suas batidas, que o tempo não se esquecia de nós.

– E seu avô?

– Só conheci o seu retrato que ficava pendurado ali no meio da sala, ao lado do da minha avó, mas ela também logo se despediu nos meus cinco anos, em um dia em que fui acordado muito cedo pela minha irmã dizendo-me que a vovó morrera. Em minhas lembranças foi o meu primeiro contato com a velha senhora, ainda na minha insensibilidade infantil, que se espantava com o choro desconsolado das tias.

– Que triste, Doutor.

– Mas vem, vamos descer esta escada, ela nos leva ao jardim, onde a planta mais agitada, que nos ficava a espezinhar, era a tia Tal.

– Tia Tal?

– Isso, Miguelim, foi um apelido que nossa prima mais velha lhe deu. Seu nome era Maria do Carmo, assim mesmo, sem sobrenome algum, maluquice de um tabelião distraído, mas os sobrinhos nem pareciam saber deste nome, só era mesmo a tia Tal. Ela até tentava impor-nos algum respeito com gritos e pitos, mas nem ligávamos para os seus chiliques. Bom, este era o jardim, não era nenhum primor, mas sempre havia as flores. Subamos novamente as escadas de volta à sala de jantar, ali em frente, o quarto das tias, lugar mais sagrado da casa.

– Mas quantas eram as suas tias, Doutor?

– Bom, já falamos de três, faltam ainda outras duas: a mais velha das irmãs era a tia Analita, uma professorinha, uma espécie de santa, piedosa Filha de Maria que dedicava muito do seu tempo a cuidar da Igreja Matriz, das flores e toalhas dos altares e, na ocasião do Natal, do grande presépio que se armava no canto direito do braço da cruz formada no interior da igreja, ocupando toda a sua largura. Este belo trabalho, que ajudei algumas vezes a montar, era uma atração invulgar, que causava muita admiração nos fiéis. Após as missas do primeiro domingo em que o tapume que o escondia era retirado, todos acorriam curiosos para ver o presépio.

– Que bonito devia ser!

–  E completando as tias, havia ainda a Cleonice, sem o tia.

– Sem o tia, por quê?

– Ela ficava muito sentida que a tratássemos assim. Mas nem sei direito porquê o fazíamos. Ela foi criada pelos meus avós, não era filha deles, e talvez não nos tenham ensinado, quando pequenos, a tratá-la como tia. Ela dizia que era preconceito nosso, porque ela era negra.

– Talvez ela tivesse um pouco de razão.

– Talvez, Miguilim, talvez porque o reduto dela era a cozinha. E como! Ela era uma doceira, ou melhor, ela era a doceira. Quando chegávamos na casa, o cheiro que vinha da cozinha deixava-nos enfeitiçados, e ficávamos torcendo para haver alguma raspa de panela para nós. Raspa de cocada preta! Nunca provei doce mais gostoso!

– Eu também gosto muito de cocada, Doutor.

– A cocada da Cleonice era diferente de qualquer outra que já provei. Diz-se que quando a gente cresce, e deixa a criança para trás, os sabores da infância nos acompanham, e a gente acha que eles eram muito superiores, mas isto não é verdade, pois mesmo quando pequenos não queríamos saber de outras cocadas, só serviam aquelas. Mas a cocada era que a gente podia mais apreciar por causa da raspa da panela, mas o meu doce preferido era o cajuzinho.

- Era de amendoim com chocolate?

- Isso mesmo, Miguilim, e sempre que me acho na frente de algum, tento reaver aquele gosto que me persegue, só para me decepcionar.

– Puxa, Doutor, estou com água na boca.

– Vem, vamos deixar este cheiro gostoso desta cozinha escura para trás, pois a fumaça que se espalha do fogão à lenha já está me intoxicando. Atravessemos a cozinha, desçamos esta escada, penduricalho mais tardio da casa que dá acesso ao quintal; antes só existia uma passagem pelo jardim.  Este espaço sempre foi a maior alegria que tivemos quando crianças.

– Uau! É grande!

– Vamos descer esta escada. Estamos agora debaixo da casa, onde os velhos fantasmas vistos das gretas da sala tinham sua morada. Observe por estes cantos escuros onde a luz do sol não se reflete, há muito lugar onde eles podiam espreitar-nos e tingir de medo nossas caras.

– E não tem nada aqui, Doutor.

– Era pouco usado este espaço, mas atrás daquela porta ali tem um quarto onde meu pai guardava ferramentas, selas e acessórios para os cavalos, milho e rações, e cacarias que ainda pudessem ter serventia. E tinha também um baú antigo onde se achavam cartas e coisas muito velhas, onde algumas vezes eu vasculhei à procura de um tesouro.

– E o que você achou?

– Só papéis a que então não dava valor. Mas vamos ao terreiro. Aqui ao lado era uma área de serviço onde se cuidava dos cavalos, e tinha sempre uma pilha de lenha. Muitas tardes meu pai passava ali exercitando-se a rachar as toras. E ali, no final do muro, há esse portão grande que dá para a rua. Todos os dias esse portão era aberto às sete horas da manhã, e uma procissão ali acontecia até as onze horas, quando era fechado.

– Uai, Doutor, procissão de quê?

– Os moradores das casas do alto do morro ali em frente não tinham água em suas casas, e as mulheres, e mesmo algumas crianças, desciam o morro com suas latas para pegar água aqui no terreiro.

– E onde tinha água?

– Lá embaixo, já vou lhe mostrar; mas repare na altura da escada que sobe o morro, elas tinham que subir carregando as latas, e também aquela outra escada da cacimba até aqui. Elas carregavam as latas sobre a cabeça e nem usavam as mãos para segurá-las.

– Puxa, Doutor, é muita escada para subir!

– E elas o faziam diversas vezes a cada dia para encher suas caixas-d´água ou barris. Quando chovia, as escadas ficavam escorregadias, e mais difícil ficava ainda a dura tarefa. Vamos por aqui descer as escadas que levam à parte baixa do terreiro. Aqui no meio da escada tem um abacateiro que nos enchia os pratos de massa verde com açúcar, uma delícia! E ali embaixo, veja, a cacimba que fornecia a boa água para toda aquela gente. De manhã cedo a água estava no seu nível máximo; quando o portão se fechava, ela ficava bem baixa, exigindo que se debruçasse sobre a borda para conseguir tirar a água.

– E como era tirada?

– Com um balde normal, e vertia-se a água nas latas. Neste trabalho muitas vezes a água espalhava-se ao lado da cacimba fazendo lama, e a tia Tal, que sempre descia com uma bacia para ali ao lado lavar suas roupas, esbravejava para que não deixassem a água cair no chão. Para nós era um espetáculo divertido, pois sempre vislumbrávamos algumas caretas que lhe eram dirigidas. O portão era fechado às onze horas para que o nível da água pudesse ser recuperado para o dia seguinte.

– Que bom que existia a cacimba, Doutor!

– Realmente, Miguelim, era um bom serviço que as tias prestavam àquela gente sofrida. E veja o terreiro, todo coberto de árvores: goiabas de todos os tipos e, ali naquele canto, essa enorme mangueira. Nos meses de verão, quando estávamos de férias, íamos cedo buscar as mangas que caíam durante a noite, pois, se tardássemos, o pessoal que ia buscar água também pegava as manguinhas, embora fosse acordado que não deveriam fazê-lo.

– Quem pode resistir a uma manga, né?

– Pois é, quando chegávamos mais tarde ficávamos bravos se não achávamos nada. Ali do outro lado tem uma construção com um chiqueiro, mas no canto de cá, um alpendre onde havia uma trempe no chão para tacho. Ali cozinhávamos inhame para os porcos, derretia-se sebo de boi, e fazíamos muita goiabada.

– Com tanto pé de goiaba deviam fazer bastante!

– Quando minha avó era viva, juntava-se toda a família, armava-se uma bancada sobre cavaletes e todos ajudavam a preparar as goiabas: a eliminar os caroços e moer toda a massa que ia para um tacho enorme. Depois, meu pai passou a fazer apenas com nossa ajuda, mas para um tacho bem menor e sem moer a massa, fazendo a goiabada cascão. E, então, sobrou para mim e meu irmão, que fomos encarregados de fazer o doce; fazíamos duas vezes por semana. Uma parte podíamos vender para nós e assim juntávamos dinheiro para brincar o carnaval. E fazíamos todo o serviço: desde subir nos pés para apanhar as goiabas, limpá-las, amassá-las, até o cozimento. E sofríamos ainda os acidentes. Certa vez, em cima de uma goiabeira, uma taturana verde enorme achou uma minha coxa e a ardência me fez despencar lá de cima.

– E machucou muito, Doutor?

– Só mesmo a queimadura e uma pancada forte nas costas. Lembro-me ainda de uma vez em que estávamos com a goiabada quase no ponto, meu irmão foi tirar o ponto sem me advertir e eu, mexendo a massa sem parar para não agarrar no tacho, joguei uma porção em cima da mão dele.

– Coitado, Doutor!

– Como ela estava chegando no ponto, felizmente não agarrou na pele dele e ele se livrou logo da massa quente. Era penoso o nosso serviço, mas também nos divertíamos muito. Nada divertido era quando o pai resolvia plantar arroz na vargem ali detrás desta cerca de bambu. Pior trabalho não podia existir. E quando depois do corte do arroz tínhamos que batê-lo, ufa! Ficávamos com arranhões por todo o corpo, e pinicando.

– Cruz credo, só de pensar já estou arrepiando.

– E no terreiro ainda havia um pé de laranja, carambola e pinha, que você conhece como fruta do conde. Ali na vargem também tinha um pé de jambolão, fruta sem graça, mas que servia para deixar a boca arroxeada.

– Uau, quanta fruta!

– E o terreiro terminava à beira do córrego, que o separava do quintal da serraria do Suquinha. Ali juntava em ocasiões uma turminha para caçar com bodoques as rolinhas que se empoleiravam nos fios.

– E no córrego dava para nadar?

– Não, era raso, além de já ser naquela época escoadouro de esgoto de diversas casas, mas gostávamos de brincar por ali; usar um bambu para pular para o outro lado era bastante divertido, longe dos olhares das tias que não se aventuravam por aqueles fundos.

– Que bom, Doutor, quanta diversão em sua infância!

– Muita mesmo, Miguelim, éramos muito felizes e hoje o sabemos.

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domingo, 19 de novembro de 2017

Menina-flor


Menina-flor


– Acho que hoje eu vou conseguir voar; pelo menos eu quero tentar. Se eu não conseguir, e cair lá embaixo, o que vai acontecer? Será que consigo voltar aqui para minha caminha gostosa? Acho que não, pois teria que voar de volta aqui para cima. Se não conseguir, minha mamãe vai me encontrar? Se ela não me encontrar, vou conseguir sozinho minha comida? Sinto tanta vontade de soltar minhas asas e conhecer o que existe além desta árvore. Já treinei tanto com pulinhos de galho em galho, minhas asas já estão fortes, vou conseguir! Vou voar para aquela outra árvore lá.

E assim ele se lançou além da árvore onde nasceu, atendendo ao chamado silencioso de seu espírito de beija-flor. Agora estava sozinho, e a vida escancarava sua boca para permitir-lhe gozar daquele belo jardim onde nascera. Suas asas se fortificaram na exploração daquele parque em busca das flores que lhe davam o alimento.

– Ufa! Como é divertido provar de tantas flores! Tantos sabores diferentes, mas é tão cansativo ficar parado batendo as asas para beber o néctar, preciso de um pouco de descanso. Gosto mais das flores vermelhas, são mais saborosas e mais bonitas. Mas o que será que existe além deste jardim? O verde das árvores acaba, e depois? Quero ver!

E o pequeno beija-flor aventurou-se entre um corredor de casas que se estendia além do jardim. Voou muito e se aventurou dentro de uma das casas.  Lá dentro encontrou uma enorme flor vermelha que lhe prometia muito néctar. Voou ao redor dela, procurando onde sugar o seu mel.

– Estranha essa flor!

E voando parou no ar bem em frente ao rosto da menina, que o olhava divertida com o adejar ao redor dela da pequenina ave. Provou na flor o sabor entre duas pétalas:

– Não tem o doce que conheço, mas é tão doce, tão gostoso.


Cansado, pousou sobre o murinho e ficou olhando-a. A menina estava agitada e alegre com aquela visita inesperada que lhe beijara os lábios. A avezinha partiu em sua corrida frenética, e ela também, animada, entusiasmou-se a arrumar um frasco para manter água com açúcar para atrair o bichinho. No mercado conseguiu um adequado e protegido. Pendurou o bebedouro na varanda e ficou na ansiedade do desejo de retorno da sua nova paixão. E o beija-flor não a decepcionou.

– A flor estranha hoje mudou de cor, está amarela, mas é bonita assim mesmo. E esta florzinha nova aqui, hum! Deliciosa e refrescante.

E como para agradecer à menina e provar novamente o seu néctar, voou ao redor de seu rosto e beijou-lhe os lábios.

E assim, todos os dias a menina limpava o frasco, adicionava água pura de fonte com açúcar cristalizado, e o pendurava na beira da varanda. A avezinha, atraída pelo néctar daquela estranha flor, fazia o trajeto do jardim onde morava para a casa da menina, traçando a sua rota alimentar naquele corredor de casas. Na varanda, pulava do bebedouro para os lábios da menina-flor, e ali voltava várias vezes ao dia.

Em seu voo pela rua, deixava os pólens das flores caírem no chão de terra, e o sol e a chuva cuidavam de fazer nascer as plantas que botavam fora suas belas flores, embelezando aquela rota de amor. E assim, a história de amor entre a menina e o beija-flor caiu nos ouvidos de toda gente, e a rota da pequenina ave passou a ser conhecida como Rua das Flores.

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