Menina-flor
– Acho
que hoje eu vou conseguir voar; pelo menos eu quero tentar. Se eu não conseguir,
e cair lá embaixo, o que vai acontecer? Será que consigo voltar aqui para minha
caminha gostosa? Acho que não, pois teria que voar de volta aqui para cima. Se
não conseguir, minha mamãe vai me encontrar? Se ela não me encontrar, vou
conseguir sozinho minha comida? Sinto tanta vontade de soltar minhas asas e
conhecer o que existe além desta árvore. Já treinei tanto com pulinhos de galho
em galho, minhas asas já estão fortes, vou conseguir! Vou voar para aquela
outra árvore lá.
E
assim ele se lançou além da árvore onde nasceu, atendendo ao chamado silencioso
de seu espírito de beija-flor. Agora estava sozinho, e a vida escancarava sua
boca para permitir-lhe gozar daquele belo jardim onde nascera. Suas asas se
fortificaram na exploração daquele parque em busca das flores que lhe davam o
alimento.
– Ufa!
Como é divertido provar de tantas flores! Tantos sabores diferentes, mas é tão
cansativo ficar parado batendo as asas para beber o néctar, preciso de um pouco
de descanso. Gosto mais das flores vermelhas, são mais saborosas e mais
bonitas. Mas o que será que existe além deste jardim? O verde das árvores acaba,
e depois? Quero ver!
E o
pequeno beija-flor aventurou-se entre um corredor de casas que se estendia além
do jardim. Voou muito e se aventurou dentro de uma das casas. Lá dentro encontrou uma enorme flor vermelha
que lhe prometia muito néctar. Voou ao redor dela, procurando onde sugar o seu
mel.
– Estranha
essa flor!
E
voando parou no ar bem em frente ao rosto da menina, que o olhava divertida com
o adejar ao redor dela da pequenina ave. Provou na flor o sabor entre duas
pétalas:
– Não tem
o doce que conheço, mas é tão doce, tão gostoso.
Cansado,
pousou sobre o murinho e ficou olhando-a. A menina estava agitada e alegre com
aquela visita inesperada que lhe beijara os lábios. A avezinha partiu em sua
corrida frenética, e ela também, animada, entusiasmou-se a arrumar um frasco
para manter água com açúcar para atrair o bichinho. No mercado conseguiu um
adequado e protegido. Pendurou o bebedouro na varanda e ficou na ansiedade do
desejo de retorno da sua nova paixão. E o beija-flor não a decepcionou.
– A
flor estranha hoje mudou de cor, está amarela, mas é bonita assim mesmo. E esta
florzinha nova aqui, hum! Deliciosa e refrescante.
E como
para agradecer à menina e provar novamente o seu néctar, voou ao redor de seu
rosto e beijou-lhe os lábios.
E
assim, todos os dias a menina limpava o frasco, adicionava água pura de fonte
com açúcar cristalizado, e o pendurava na beira da varanda. A avezinha, atraída
pelo néctar daquela estranha flor, fazia o trajeto do jardim onde morava para a
casa da menina, traçando a sua rota alimentar naquele corredor de casas. Na
varanda, pulava do bebedouro para os lábios da menina-flor, e ali voltava
várias vezes ao dia.
Em seu
voo pela rua, deixava os pólens das flores caírem no chão de terra, e o sol e a
chuva cuidavam de fazer nascer as plantas que botavam fora suas belas flores,
embelezando aquela rota de amor. E assim, a história de amor entre a menina e o
beija-flor caiu nos ouvidos de toda gente, e a rota da pequenina ave passou a
ser conhecida como Rua das Flores.
-o-

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