domingo, 19 de novembro de 2017

Menina-flor


Menina-flor


– Acho que hoje eu vou conseguir voar; pelo menos eu quero tentar. Se eu não conseguir, e cair lá embaixo, o que vai acontecer? Será que consigo voltar aqui para minha caminha gostosa? Acho que não, pois teria que voar de volta aqui para cima. Se não conseguir, minha mamãe vai me encontrar? Se ela não me encontrar, vou conseguir sozinho minha comida? Sinto tanta vontade de soltar minhas asas e conhecer o que existe além desta árvore. Já treinei tanto com pulinhos de galho em galho, minhas asas já estão fortes, vou conseguir! Vou voar para aquela outra árvore lá.

E assim ele se lançou além da árvore onde nasceu, atendendo ao chamado silencioso de seu espírito de beija-flor. Agora estava sozinho, e a vida escancarava sua boca para permitir-lhe gozar daquele belo jardim onde nascera. Suas asas se fortificaram na exploração daquele parque em busca das flores que lhe davam o alimento.

– Ufa! Como é divertido provar de tantas flores! Tantos sabores diferentes, mas é tão cansativo ficar parado batendo as asas para beber o néctar, preciso de um pouco de descanso. Gosto mais das flores vermelhas, são mais saborosas e mais bonitas. Mas o que será que existe além deste jardim? O verde das árvores acaba, e depois? Quero ver!

E o pequeno beija-flor aventurou-se entre um corredor de casas que se estendia além do jardim. Voou muito e se aventurou dentro de uma das casas.  Lá dentro encontrou uma enorme flor vermelha que lhe prometia muito néctar. Voou ao redor dela, procurando onde sugar o seu mel.

– Estranha essa flor!

E voando parou no ar bem em frente ao rosto da menina, que o olhava divertida com o adejar ao redor dela da pequenina ave. Provou na flor o sabor entre duas pétalas:

– Não tem o doce que conheço, mas é tão doce, tão gostoso.


Cansado, pousou sobre o murinho e ficou olhando-a. A menina estava agitada e alegre com aquela visita inesperada que lhe beijara os lábios. A avezinha partiu em sua corrida frenética, e ela também, animada, entusiasmou-se a arrumar um frasco para manter água com açúcar para atrair o bichinho. No mercado conseguiu um adequado e protegido. Pendurou o bebedouro na varanda e ficou na ansiedade do desejo de retorno da sua nova paixão. E o beija-flor não a decepcionou.

– A flor estranha hoje mudou de cor, está amarela, mas é bonita assim mesmo. E esta florzinha nova aqui, hum! Deliciosa e refrescante.

E como para agradecer à menina e provar novamente o seu néctar, voou ao redor de seu rosto e beijou-lhe os lábios.

E assim, todos os dias a menina limpava o frasco, adicionava água pura de fonte com açúcar cristalizado, e o pendurava na beira da varanda. A avezinha, atraída pelo néctar daquela estranha flor, fazia o trajeto do jardim onde morava para a casa da menina, traçando a sua rota alimentar naquele corredor de casas. Na varanda, pulava do bebedouro para os lábios da menina-flor, e ali voltava várias vezes ao dia.

Em seu voo pela rua, deixava os pólens das flores caírem no chão de terra, e o sol e a chuva cuidavam de fazer nascer as plantas que botavam fora suas belas flores, embelezando aquela rota de amor. E assim, a história de amor entre a menina e o beija-flor caiu nos ouvidos de toda gente, e a rota da pequenina ave passou a ser conhecida como Rua das Flores.

-o-




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