O judeu errante
– Bom dia, Dona Menina!
– Oh, bom dia, até levei um
susto, Donana! Estava aqui sorumbática, perdida nos meandros do matutar e papeando
com os meus cotovelos, que não nem vi você chegar assim meio sorrateira.
– Que sorrateira nada, Dona
Menina, eu cheguei bem no normal no chique chique dos meus chinelos, a Senhora
Dona Menina é que tá aí perdida, aluada de tudo!
–Num é que tô, Donana. É que
tem umas minhoquinhas escorrendo por dentro dos meus miolos que tão me deixando
assim ensimesmada.
– E a senhora num há de preferir
botar pra fora o que lhe tá aperreando? É aliviante quando a gente pode desembrulhar
nossas dores nos ouvidos de outro vivente, né?
– Não são dores nem aperreios,
Donana, são mesmo meditações que ficam me arrodeando, arrodeando, e não me saem
do entreter.
– Ah, bom, a Senhora Dona
Menina tá mesmo então é a tecer filosofia.
– Mais ou menos, Donana. Sabe?
É que eu fico assim no pensar como é o despropósito do tempo com suas andanças
e como ele maltrata a gente tão sofrida.
–Mas de que é que a senhora tá
falando, Dona Menina? A senhora tá a despender tempo pra pensar no tempo?
–Até parece mesmo perda de
tempo, né Donana? Mas eu fico cá matutando: já imaginou quanto a gente estraga
o olhar que se perde em motivos desimportantes, enquanto o bem bom mesmo tá
ali debaixo do olho bobo que não quer ver?
– A senhora tá bem que uma
charada hoje, tô numa cambulhada que num faço gosto!
– Eu tô falando dos
observantes sem intenção das coisas triviais do tempo deles, que nem se dão
conta do que passa na frente dos seus olhos embrulhados.
– Por obséquio, Dona Menina,
ilumine a minha ignorância!
– Eu fico assim pensando
naquela gente que estava lá, bem de frente, presenciando a passagem de Nosso
Senhor só com um rabo de olho, pois que tinha que cuidar dos quefazeres
próprios. Que pena me dá dos coitados!
– Ó, Dona Menina, num é que a
senhora tá danada de certa, isso dá pano pra manga!
– E então! Quando Ele passou
pelas ruas portando a cruz, aquela gente judiada, que tava tão no costume de
ver aquelas barbarias sucederem, que levantaram um olhar de caridade pra Nosso
Senhor e só fizeram só um tis-tis de desconformismo e voltaram pra sua
faina...
– Coitados! Que dó me dá só de
pensar de tanta perda de ocasião de ver Nosso Senhor Jesus Cristo de presença
viva.
– Pois,
não é? Tem razão a gente que diz que Deus não dá asa a cobra. Em agora mesmo eu
tava lendo umas poesias d’O Judeu Errante, e num gostei nadinha foi do modo
como o Severino Borges falou que Jesus maldisse o sapateiro judeu; bem assim, escuta
só:
"Pedi água e não me deste
nem sombra nem parreirais
e mandaste que andasse
mas tu agora andarás
até o final dos séculos
sem ter sossego nem paz”.
– Mas num
é assim que eles trataram Nosso Senhor Jesus, com despropositada vilania?
– Pois foi, mas num entra na minha cachola que a
imagem do amor que é Nosso Senhor pudesse desejar mal assim a um vivente.
– Mas a
Senhora Dona Menina acha mesmo que viver até o final dos séculos vagando é
deveras uma maldição?
– E num é, Donana? Deus nos livre e guarde de
tamanho despropósito de viver pra sempre.
– Talvez, Dona Menina, num sei não se seria tão ruim
assim.
– Mas veja, Donana, eu fui ler o cordel porque
antes eu fui no cinema pra ver uma fita de mesmo nome.
– Ora, veja só, a Dona Menina
tá mesmo chique e com tempo para entreter esses olhos com essas lendas de fita?
Pois eu tenho ojeriza mesmo da bruteza dessas coisas desses filmes.
– Ora, Donana, essa história
só tinha de bruteza mesmo o que fizeram com Nosso Senhor Cristinho, pois a fita
começou justo na senda do calvário.
– Ah, é, Dona Menina, e qual
era a trela dessa fita?
– Quando Nosso Senhor penava em
portar sua cruz pro Calvário, um judeu caído de dor por sua mulher doente, à intercessão
dela, pediu a Jesus que a curasse. E Jesus disse que se ela fosse de retorno
pro seu marido de legítimo, ela seria curada.
– E o judeu nem quis aceitar,
né?
– O judeu então falou um despautério pra Jesus,
que lhe falou assim: “Eu não vou te
esperar, mas tu esperarás por mim até que eu volte a ti”.
– E a dona morreu, Dona Menina?
– Morreu, Donana, e o judeu em agonia tentou dar
cabo de sua vida, mas a faca que ele tentou usar retalhou-se em pedaços sem mesmo ferir
ele.
– Até que eu gostei dessa
parte, Dona Menina.
– Mas aí ele foi afora pelo
mundo, de primeiro só fruindo seu privilégio. Depois os malefícios da vida vão
fazendo ele girar os olhos pra cima e relembrar as palavras de Jesus.
– E a senhora tem tenção no
que a sentença dizia?
– A fita foi desenrolando os
séculos e o judeu por fim era um médico, bom de amolecer os corações mais
empedrados; ele curou uma meretriz, que nem Jesus fez com a Madalena, e inda
lhe falou do Bom Mestre.
– Pois é, né, doente não tem
ofício, né?
– E os padres, Donana? Aqueles
dominicanos tosquiados lá da inquisição num gostaram um nada das palavras dele
e chamaram ele de herege porque ele era judeu.
– E mataram o bom do doutor,
Dona Menina?
– Eles bem que tentaram, porque
ele disse pros padres que viu o crescer da Igreja em acordo com o diminuir da
bondade, que da cruz rota de madeira os padres fizeram cruzes de ouro
cravejadas de prepotência.
– Chi! De certo isso acendeu o
fogo da fogueira!
– E foi, Donana! Mas ele não
ardeu no fogo, que não o quis queimar. Uma luz do céu apareceu e o venturoso
entendeu que Jesus tinha então regressado pra buscá-lo, e apagou-se com um
sorriso nos lábios.
– E os padres, Dona Menina?
– Bem mais que ligeiro puseram
de novo fogo pra que o milagre não se pusesse na boca do povo.
– É como se diz: o que é bom a
gente fatura, o que é ruim a gente esconde.
– Deveras, Donana; sabe por que
eu quis ver a fita?
– Imagino que a Senhora Dona
Menina queria mesmo entreter-se um pouco num descanso, né?
– Nem tanto, Donana, fui mesmo
por desagravo, pois o Padre Joaquim falou mal da fita: que nenhum cristão de
rigor devia ver tanta maledicência.
– Ara, e a senhora num é uma
cristã de rigor?
– Pois sou, Donana, mas,
quando aquele obtuso fala, eu considero bem o do contra, e queria mesmo provar
por mim mesma o valor da fita.
– A Senhora Dona Menina tem
mesmo uma cabeça chique!
– Sabe como é, né, Donana? É
que não tenho nenhuma canga no pescoço pra seguir um candieirozinho.
-o-
de Rubem Alves:
É que a transformação do milho duro em pipoca
macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que
eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele
deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós:
duros, quebra-dentes, impróprios para comer; pelo poder do fogo podemos,
repentinamente, nos transformar em outra coisa - voltar a ser crianças! Mas a
transformação só acontece pelo poder do fogo.
