Inês
é morta
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Túmulos
de D. Inês de Castro e D. Pedro I, Mosteiro de Alcobaça.
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Desculpai-me, Dona Inês, pois sei que irei perturbar o vosso
sono de paz; se peguei da pena para reviver vossa história, foi apenas pelo
irresistível poder que vossa fortuna de amor e desditado fim atraiu-me desde
que, nos bancos escolares, os versos de Camões bradaram-me vossa sorte:
Passada
esta tão próspera vitória,
Tornado Afonso
à Lusitana Terra,
A se
lograr da paz com tanta glória
Quanta
soube ganhar na dura guerra,
O caso
triste e dino da memória,
Que do
sepulcro os homens desenterra,
Aconteceu
da mísera e mesquinha
Que
despois de ser morta foi Rainha.
(Camões - Os Lusíadas, canto
III)
E, hoje, aqui no Mosteiro de Alcobaça, ao lado de vosso
túmulo, revejo vossa desdita gravada nos dois calvários dos moimentos, vosso e
de vosso esposo. Meu olhar se fixa na coroa que em vida não ornou vossa fronte
e que El-rei D. Pedro vos fez vestir para coroar vossa memória resgatando-vos
dos maldizeres da plebe para a honra da história e das lendas.
***
– Ah, Pedro, por onde andarás? Quando desperto do meu sono
pelo grito de um diletante que põe o estro em nossa malfadada história, meu
olhar procura o teu em tua arca real para encontrar apenas tua estátua em sono,
e reitero-me a tristeza de que ainda não é o momento em que poderemos enlaçar
nossas almas para penetrar no paraíso.
Quantas vezes, Pedro, quantas vezes terei que acordar
novamente dos meus sonhos, ouvindo essas vozes que cantam infinitamente nosso
amor desmesurado, e não te encontrar, que andas por não sei que profundos
abismos por penas maiores purgar.
Se percorro o mundo glorificada pelas vozes dos poetas, agora
que o colo de garça não me adorna
mais, sou aqui a mais ínfima alma presa em uma esperança que sempre mais me parece
impossível. Ai, por que não me deixam os trovadores desvanecer-me na ausência
do sonho do eterno esquecimento?
Em cada um destes despertares, quando me ergo do sono neste
moimento frio, procuro ansiosa tua redimida alma na esperança de cumprir tua
intenção, ao colocar nessas caixas lavradas nossos corpos exangues, de nos
reencontrarmos ao primeiro olhar na ressurreição da manhã do último dia. Mas, se
meu olhar primeiro vai à procura do teu, só os teus pés de pedra encontra. E
tu, Pedro, aonde deveria minha angústia soltar asas aos ventos neste mundo de
penitência para encontrar-te?
Presa pelos nossos ilícitos desejos ególatras, encarcerada
no transepto da igreja do mosteiro, arrisco-me a pedir licença aos anjos que me
rodeiam, de pedra e de espírito, para passear os olhos pelas cenas que douram
nossas arcas de angústia. Ao redor dos meus ossos coroados de rainha in memoriam, as cenas da vida e paixão
de Nosso Senhor recordam-me, e aos nossos visitantes, a não valia de nossos
penares.
Arrasto-me angustiada procurando no teu túmulo as imagens
da nossa paixão para assim reviver, despertar após despertar, nossa história
infinitas vezes cantada, distorcida e fabulada.
Vejo-me frágil donzela chegada à corte deste Portugal, que
fazia seu caminho para tornar-se imenso nas linhas traçadas por teus avós,
El-rei D. Diniz e Santa Isabel, na comitiva de Dona Constança, aquela que te
era destinada como esposa e mãe de teus filhos. Acolhida carinhosamente por ela
e por toda a corte, logo fui chamada Colo
de Garça pela graça que me atribuíam, e meu recato enrubescia-me. Cedo os
teus olhares caíram sobre os meus, que fugiam como corças assustadas que eram,
mas os teus, insidiosos e indiscretos, até por Dona Constança, para sua
humilhação e vergonha, foram percebidos. Fez-me ela madrinha de Luiz, seu
infortunado filho morto tão tenro, para ligar-nos mais estreitamente e afastar
seu esposo de minha presença; frustrada intenção.
Poderia eu, frágil menina, nascida de uma ligação espúria
de meu pai, condenada a lugares subalternos no reino, esquivar-me de tais
olhares poderosos e atrevidos? De que tecidos duros seriam tramados os meus
sonhos se houvesse tido a força de repelir tão poderoso e voluntarioso
príncipe? Por fidelidade a D. Constança resisti pudicamente a teus avanços até
que, corça abatida por caçador contumaz, entreguei-me ao fado cruel que me era
pressagiado nas delícias de um amor proibido, sem dar-me conta de como o fazia:
uma presa, em vida e morte, de tuas tenazes caçadas.
Foste louco de paixão, insensível aos prantos de tua esposa
e aos escândalos que detonamos pelo reino. E El-rei D. Afonso, teu prestimoso
pai, inconformado, toma medidas para tua suposta proteção: e de ti sou exilada;
medida inócua, que não conseguiu apagar os nossos desvarios.
Pesava-me no espírito a injusta afronta que fazia a D.
Constança, que assistia impotente a nosso mergulho no pecado, alma tão nobre,
que se entregou ao sono do oblívio deixando-nos espaço para desfrutarmos nossa
egoística paixão. E tu, Pedro, retirou-me do exílio, trazendo-me para tua casa
para vivermos intensamente nosso despudorado amor, desvestido de sua roupagem
de escândalo na Fonte dos Amores, em nossa adorada Coimbra.
Pudera aqueles sonhos de menina idolatrada pelos poetas ousarem
subir tão alto? Rainha de Portugal! A enjeitada bastarda poderia ter sonhado
tanto? Rainha, mas às escondidas, que não pôde ostentar sua coroa senão depois
de triste cadáver! Meus filhos, Infantes de Portugal! Os sonhos nunca ousaram
tanto! Mas a minha glória não teve por testemunha senão teu confessor e seu
criado na igreja fria em que nos casamos secretamente. E El-rei D. Afonso, desconhecendo
nosso estado, e reiterado por tuas negativas de nosso secreto casamento, insta
contigo a que te casasses novamente, indo de encontro unicamente a tuas
negativas.
Eis que toda a corte se revolta, e o povo canta impropérios
devido à política ambiciosa de meus irmãos, castelhanos há pouco inimigos de
Portugal, agora íntimos e perigosa influência sobre teus passos; e clamam por
justiça e moralidade! E ainda acusam-me e a meus irmãos de tramar a morte do
herdeiro D. Fernando para que meus filhos pudessem aspirar ao trono. Como se eu
pudesse sequer pensar em tamanha vilania em causar-te tal dor, pai amável e
terno do Infante.
Pobre D. Afonso, algoz involuntário de sua não proclamada
nora, insuflado pelos seus íntimos conselheiros a pôr término a males profanos
que se presumia ameaçavam o futuro do reino. Pendente do balanço entre as
dúvidas e as medidas saneadoras, sofrendo as dores do infortúnio que causaria a
seu filho, sucumbe a seu dever de soberano e, sem ouvir minhas súplicas de mãe
aflita e inocente vítima, cuja única culpa foi amar demais, permite a execução da
mãe de seus netos, redimindo-me dos pecados de excesso de amor, se redimidos
foram por tamanha violência assassina.
Oh, Pedro, quanta revolta fez teu coração de filho explodir
de vingança! Cego e surdo aos apelos de tua mãe, Dona Brites, sem conseguir
mitigar tua sede no sangue dos meus algozes, pegaste as armas contra teu pai,
reeditando o triste episódio em que ele enfrentou em batalha o seu próprio pai,
El-rei D. Diniz. Oh, Pedro, não quisera jamais ter sido causa dessa traição aos
teus deveres de filho! Mas os rogos de tua mãe se fizeram mais altos que a
lembrança do meu sangue e, tudo apaziguado, breve subiste ao trono.
Os teus juramentos a teu pai, consagrados e assinados, de
que não procurarias represálias sobre aqueles tão vis conselheiros que me levaram
a cabeça, não se fizeram presentes, encobertos pelo de vingança que fizeste ao
meu corpo inerte; e, embora fugidos de Portugal, tua mão se estendeu até
Castela para trazer de volta Pedro Coelho e Álvaro Gonçalves, meus algozes, trocados
com perfídia por outros fidalgos fugidos de lá por igual temor de vindita. Oh,
Pedro, o que fizeste, como ousaste tanto!
Homens sem coração, assim os chamaste, mas onde andava o
teu que não pôde também estar presente a obra de tão grave crueldade? Pediste
cebola e vinagre para o coração do Coelho, que mandaste arrancar pelo peito, e,
ao outro desditoso, quiseste que o fosse feito pelas costas: cadáveres sem
coração. Oh, Pedro, a quanto nos condenaste à separação por atos tão iníquos!
Tais feitos ganharam-lhe a alcunha de Cruel, por alguns; e
por outros, Justiceiro. Quisera jamais ter sabido de tão vergonhosos epítetos
que foram sobejamente merecidos.
Saciada tua vingança, meus restos que jaziam em Coimbra, em
um túmulo singelo, decidiste transladá-los para este monumento a que a
eternidade me condenou. Contam as crônicas que jamais houve tão feéricas
homenagens quanto as que me foram prestadas. Toda a nobreza que antes me
condenara foi posta a servir-me em morte, todo o clero foi-me posto em cortejo
e os cavaleiros trouxeram-me em vistosas andas pelas léguas de estrada. Chamas
tremulantes de milhares de círios iluminavam meus despojos ao longo do caminho.
E todo esse fausto teceu no folclore do povo o beija-mão a que todos foram
obrigados: quiseram-me sentada no trono, em cadáver, oferecendo meus finos
ossos aos horrores da corte que me fez sofrer.
Rainha enfim, rainha em estátua, rainha na memória perene
dos mortais, que em vida reinara apenas na tua alma de príncipe.
O apogeu de nossos filhos e teus herdeiros poderiam
significar que nossos pecados foram perdoados pelas potestades divinas, mas se
isto assim é, por onde andas? Quando vejo nosso sangue espalhar-se pelas casas
mais poderosas dos governantes deste continente, o pecado de orgulho, se aos
mortos ainda é permitido, invade-me a alma de pequena cortesã. E teu filho
João, Mestre de Avis e da Ordem de Cristo, herdeira da Ordem do Templo, que
glória deu a Portugal transformando em realidade o fogo do teu sonho que fez
arder nos mares nunca antes navegados a cruz de Nosso Senhor; tal se tornou a
grande missão de nossa nação, perpetuada pelos feitos do Infante D. Henrique e
por El-rei D. Manuel.
Antes que
eu volte para o meu sono, de espera a que te permitam voltar ao meu lado, ecoam-me
nos ouvidos as palavras de um destes que ousou fazer suas palavras penderem
sobre nossa paixão, que para tornar nosso amor eterno, pôs na boca daquela tua
vítima sem coração, arrancado pelas costas:
“Senhor - digo eu - agradeço-te a
minha morte. E ofereço-te a morte de D. Inês. Isto era preciso, para que teu
amor se salvasse” (do conto Teorema de Herberto Helder).
E ao meu sono retorno,
sou apenas alma à tua espera; mãe e esposa, mas não rainha, de que adianta todo
o hausto se Inês é morta!
-o-
Coimbra
De sonho
e tradição
O lente é
uma canção
E a lua a
faculdade
O livro é
uma mulher
Só passa
quem souber
E
aprende-se a dizer saudade
Coimbra
do choupal
Ainda és
capital
Do amor
em Portugal, ainda
Coimbra onde
uma vez
Com
lágrimas se fez
A
história dessa Inês tão linda
Coimbra
das canções
Coimbra
que nos põe
Os nossos
corações, à luz...
Coimbra
dos doutores
Pra nós
os seus cantores
A Fonte
dos Amores és tu.

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