O
Basilisco
O Leão reinava soberano no país de Ator. Seus rugidos eram
suficientes para apaziguar seus súditos, que não se atreviam a elevar a voz em
sua presença. Sua paz fora conquistada a pernas e dentes, ninguém se atrevia
mais a desafiá-lo nas corridas pelas savanas para não se arriscar a ser abatido
pelas suas patas poderosas.
O Príncipe de Ator podia agora relaxar e dedicar-se aos
prazeres do ócio e das artes, cuja maior expressão naquele reino era a
culinária. Milhares de servidores se revezavam nas práticas e segredos dos
alimentos, cuidando para não despertar a ira do senhor. E tão grande foi o
desenvolvimento das cozinhas do reino, que a voz do príncipe não se fazia mais
ouvir, afundada em preguiçoso deleite.
Os anos passando, as histórias das conquistas e atrocidades
do Príncipe eram transmitidas às novas gerações nas rodas de fogueira e nas
canções que perambulavam pelo reino, e a paz e a indolência do Príncipe seguiam
seus cursos.
A cochichada começou a espalhar-se pela periferia do reino,
na fronteira com o país de Supor. Diziam alguns que uma força poderosa havia
atravessado a fronteira; outros, que um grande mago resolvera aproveitar-se da
lassidão do povo atorano para derrubar o Príncipe. Mas ninguém vira exército
algum e mágico nenhum, mas murmurava-se à boca pequena sobre corpos que iam
sendo encontrados ao romper das auroras.
E os cochichos tornaram-se falatórios quando se aproximaram
da capital do reino e, então, chegaram aos ouvidos do Príncipe. Sua primeira
reação foi lançar um rugido poderoso para trazer à consciência dos seus súditos
a memória do seu terrível poder, mas ele já não tinha mais forças para o seu
rugido.
Os sábios do reino aconselharam ao Príncipe enviar espiões
para os sítios em que os últimos corpos surgiram. E assim foi feito, mas nenhum
voltou para contar o que estava acontecendo, e seus corpos também foram
encontrados já bem perto da capital.
Convocou-se às pressas um exército para assegurar a defesa
do reino. Recursos enormes foram utilizados para montar uma fábrica de armas e
equipar o exército. E sentinelas foram distribuídas pela capital; e, nas
auroras, apareciam mortas. E foi instituído um toque de recolher, medida
ineficaz, pois ninguém mais se aventurava nas ruas quando a noite caía.
O Príncipe, já sem paz e conhecendo o medo, chamou um
fonoaudiólogo ao palácio para ajudá-lo a recuperar o poder do seu rugido, e os
exercícios do soberano faziam tremer o povo e doer os seus tímpanos.
Em uma manhã de inverno, após aparecerem nas ruas os corpos
de apenas dois infelizes apanhados de surpresa pelo cair da noite, bateu às
portas do palácio uma coruja pedindo audiência, alegando que havia resolvido o
mistério. Levada ao trono real e intimada a contar o que sabia por um rugido
aterrador do Príncipe, a coruja falou:
– Ontem
à noite, regressando um pouco mais tarde para a árvore onde dormia, protegida
pela escuridão de uma noite sem lua e pela vasta folhagem, vi passar, no claro
de uma lâmpada, uma serpente enorme, que trazia na cabeça uma espécie de coroa
como uma crista de galo, e parecia, não me arrisquei muito a observá-la, ter um
bico como boca. Foi quando vi aproximando-se uma gazela que caiu no chão logo
que percebeu a serpente.
E os murmúrios tomaram o amplo salão real, pois
lembraram-se todos que um dos corpos achados naquela manhã era justamente o de
uma gazela.
Os conselheiros do rei reuniram-se para discutir o relato
da coruja e descobrir que espécie de serpente era aquela com cabeça de ave.
Falava-se que tal ser não podia existir e que deveria ser resultado de delírio ou
talvez um sonho da coruja. E outros argumentaram sobre o corpo da gazela
encontrada, o que dava crédito à coruja. Passaram horas a discutir e a pesquisar
os velhos alfarrábios da biblioteca do reino, até que, num antiquíssimo rolo de
papiro encontraram um desenho de um bicho assemelhado ao relato da coruja.
Juntaram-se os conselheiros ávidos para conhecer o bicho, e
a raposa que encontrara o papiro leu para todos a inscrição que descrevia o
animal do desenho:
– Basilisco - uma espécie de
serpente com cabeça de galo e olhar mortífero; um olhar do basilisco mata um
animal e seca as plantas.
Correram os conselheiros a mostrar para o Príncipe o
desenho. Este soltou o rugido mais atroz jamais ouvido na corte, pois o
Príncipe já recuperara suas funções vocais; mas muitos relataram que aquele
rugido não trazia ameaças, senão pavor. E a balbúrdia instalou-se na corte,
ninguém sabendo o que fazer, temendo tornar-se prisioneiro do medo.
E puseram-se os sábios a procurar nos pergaminhos os modos
de livrar-se de tão temido flagelo, e, para desânimo de todos, ainda encontraram
afirmações que, se um basilisco fosse atingido por uma lança ou uma espada, o
seu veneno voltaria pela lâmina e mataria o contendor.
Estava o reino naquele tumulto quando adentrou no palácio
um tatu-bola, que vinha calmo, com seus olhinhos vivos relanceando por toda
aquela confusão, e que pediu para falar com o Príncipe. Este foi avisado e
soltou seu rugido pedindo silêncio. Depois que a balbúrdia cessou, mandou o
Príncipe que o tatu-bola falasse. E ele falou:
– Majestade, eu posso liquidar a ameaça que caiu sobre o
reino.
A confusão voltou a instalar-se na corte, pois todos
desandaram a gargalhar ouvindo tal pretensão de um bichinho tão pequeno. Mesmo
o Príncipe não pôde deixar de soltar a sua poderosa gargalhada. Enquanto todos
riam e chacoteavam, o tatuzinho se enrolava e desenrolava esperando que as
galhofas acabassem. Quando o Príncipe se cansou de rir, rugiu para o tatu:
– E como você pretende fazer isso?
– Eu tenho minhas armas – respondeu o tatu-bola.
– E há alguma exigência para que nos preste tão inestimável
serviço?
– Eu pretendo apenas que minha espécie seja retirada de sua
insignificância e elevada como a mais alta estirpe do Reino de Ator.
– Decerto isto lhe será concedido se nos livrar do
basilisco - condescendeu o Príncipe com um sorriso desdenhoso.
E o Príncipe soltou seu rugido-gargalhada após aceitar o
pedido, pois não podia deixar de rir da pretensão do pequeno tatu-bola.
O tatuzinho tomou seu caminho pelo longo salão com um
passinho curto e sem pressa. Chegando à rampa de acesso ao palácio, enrolou-se
e desceu a rampa rolando.
O inverno já se instalara. Naqueles dias frios, os rios do
reino achavam-se límpidos e refletiam em suas águas as esparsas nuvens e o belo
céu azul quase sem manchas. Para vencer o basilisco, o tatu-bola precisava
atacá-lo de dia. Na véspera do dia escolhido para a perigosa missão, o tatu
enrodilhou-se perto da árvore da coruja para poder descobrir o buraco onde a
malévola serpente se escondia.
Ajudado por uma noite sem ventos, enrodilhado como uma bola
de ferro, o tatuzinho deixou apenas seus ouvidos alertas para poder ouvir o
arrastar da serpente, já que nenhum outro ser vivo se arriscaria a sair. Caída
a noite, a serpente se arrastou para fora de seu buraco e o tatu-bola, com
muito cuidado para não expor seus olhos, pôde saber do buraco debaixo de um
espesso espinheiro.
Após a serpente se afastar suficientemente, o tatuzinho
desenrodilhou-se e correu a tapar o buraco da serpente.
Quando a aurora principiava a se mostrar, a serpente voltou
e não pôde entrar em seu buraco. Encolerizada, vagou pelas ruas procurando onde
descarregar sua raiva, e uma sombra a seguia de longe, desenrodilhando-se e enrodilhando-se
ao menor sinal de perigo. Quando a serpente aproximou-se da margem do rio, margem
alta, o tatu-bola jogou-se rolando velozmente em direção à serpente. Trombaram
os dois, a bola e o basilisco, e ambos foram jogados do barranco.
A serpente, caindo, viu-se refletida nas águas do rio; o
seu olhar malévolo atingiu-a e instantaneamente ela enrijeceu-se como pedra e
desapareceu nas aguas.
Um coelho, que tinha sua toca ao lado da trombada,
arriscou-se a pôr a cabeça de fora e viu a serpente afundar-se, e saiu a correr
comemorando a morte da malvada, anunciando a todos do reino o alívio do
flagelo.
O tatu-bola, após um banho de rio, foi recebido no palácio
real com a ovação de todo o povo e da corte reunida. Foi assim que o tatu-bola
passou a ser a mascote em todos os jogos do Reino de Ator.


