domingo, 19 de março de 2017

O Basilisco



O Basilisco

O Leão reinava soberano no país de Ator. Seus rugidos eram suficientes para apaziguar seus súditos, que não se atreviam a elevar a voz em sua presença. Sua paz fora conquistada a pernas e dentes, ninguém se atrevia mais a desafiá-lo nas corridas pelas savanas para não se arriscar a ser abatido pelas suas patas poderosas. 

O Príncipe de Ator podia agora relaxar e dedicar-se aos prazeres do ócio e das artes, cuja maior expressão naquele reino era a culinária. Milhares de servidores se revezavam nas práticas e segredos dos alimentos, cuidando para não despertar a ira do senhor. E tão grande foi o desenvolvimento das cozinhas do reino, que a voz do príncipe não se fazia mais ouvir, afundada em preguiçoso deleite.

Os anos passando, as histórias das conquistas e atrocidades do Príncipe eram transmitidas às novas gerações nas rodas de fogueira e nas canções que perambulavam pelo reino, e a paz e a indolência do Príncipe seguiam seus cursos.

A cochichada começou a espalhar-se pela periferia do reino, na fronteira com o país de Supor. Diziam alguns que uma força poderosa havia atravessado a fronteira; outros, que um grande mago resolvera aproveitar-se da lassidão do povo atorano para derrubar o Príncipe. Mas ninguém vira exército algum e mágico nenhum, mas murmurava-se à boca pequena sobre corpos que iam sendo encontrados ao romper das auroras.

E os cochichos tornaram-se falatórios quando se aproximaram da capital do reino e, então, chegaram aos ouvidos do Príncipe. Sua primeira reação foi lançar um rugido poderoso para trazer à consciência dos seus súditos a memória do seu terrível poder, mas ele já não tinha mais forças para o seu rugido.

Os sábios do reino aconselharam ao Príncipe enviar espiões para os sítios em que os últimos corpos surgiram. E assim foi feito, mas nenhum voltou para contar o que estava acontecendo, e seus corpos também foram encontrados já bem perto da capital.

Convocou-se às pressas um exército para assegurar a defesa do reino. Recursos enormes foram utilizados para montar uma fábrica de armas e equipar o exército. E sentinelas foram distribuídas pela capital; e, nas auroras, apareciam mortas. E foi instituído um toque de recolher, medida ineficaz, pois ninguém mais se aventurava nas ruas quando a noite caía.

O Príncipe, já sem paz e conhecendo o medo, chamou um fonoaudiólogo ao palácio para ajudá-lo a recuperar o poder do seu rugido, e os exercícios do soberano faziam tremer o povo e doer os seus tímpanos.

Em uma manhã de inverno, após  aparecerem nas ruas os corpos de apenas dois infelizes apanhados de surpresa pelo cair da noite, bateu às portas do palácio uma coruja pedindo audiência, alegando que havia resolvido o mistério. Levada ao trono real e intimada a contar o que sabia por um rugido aterrador do Príncipe, a coruja falou:

Ontem à noite, regressando um pouco mais tarde para a árvore onde dormia, protegida pela escuridão de uma noite sem lua e pela vasta folhagem, vi passar, no claro de uma lâmpada, uma serpente enorme, que trazia na cabeça uma espécie de coroa como uma crista de galo, e parecia, não me arrisquei muito a observá-la, ter um bico como boca. Foi quando vi aproximando-se uma gazela que caiu no chão logo que percebeu a serpente.
E os murmúrios tomaram o amplo salão real, pois lembraram-se todos que um dos corpos achados naquela manhã era justamente o de uma gazela.

Os conselheiros do rei reuniram-se para discutir o relato da coruja e descobrir que espécie de serpente era aquela com cabeça de ave. Falava-se que tal ser não podia existir e que deveria ser resultado de delírio ou talvez um sonho da coruja. E outros argumentaram sobre o corpo da gazela encontrada, o que dava crédito à coruja. Passaram horas a discutir e a pesquisar os velhos alfarrábios da biblioteca do reino, até que, num antiquíssimo rolo de papiro encontraram um desenho de um bicho assemelhado ao relato da coruja.

Juntaram-se os conselheiros ávidos para conhecer o bicho, e a raposa que encontrara o papiro leu para todos a inscrição que descrevia o animal do desenho:

 Basilisco - uma espécie de serpente com cabeça de galo e olhar mortífero; um olhar do basilisco mata um animal e seca as plantas.

 
imagem obtida em pt.wikipedia.org/wiki/Basilisco


Correram os conselheiros a mostrar para o Príncipe o desenho. Este soltou o rugido mais atroz jamais ouvido na corte, pois o Príncipe já recuperara suas funções vocais; mas muitos relataram que aquele rugido não trazia ameaças, senão pavor. E a balbúrdia instalou-se na corte, ninguém sabendo o que fazer, temendo tornar-se prisioneiro do medo.

E puseram-se os sábios a procurar nos pergaminhos os modos de livrar-se de tão temido flagelo, e, para desânimo de todos, ainda encontraram afirmações que, se um basilisco fosse atingido por uma lança ou uma espada, o seu veneno voltaria pela lâmina e mataria o contendor. 

Estava o reino naquele tumulto quando adentrou no palácio um tatu-bola, que vinha calmo, com seus olhinhos vivos relanceando por toda aquela confusão, e que pediu para falar com o Príncipe. Este foi avisado e soltou seu rugido pedindo silêncio. Depois que a balbúrdia cessou, mandou o Príncipe que o tatu-bola falasse. E ele falou:

– Majestade, eu posso liquidar a ameaça que caiu sobre o reino.

A confusão voltou a instalar-se na corte, pois todos desandaram a gargalhar ouvindo tal pretensão de um bichinho tão pequeno. Mesmo o Príncipe não pôde deixar de soltar a sua poderosa gargalhada. Enquanto todos riam e chacoteavam, o tatuzinho se enrolava e desenrolava esperando que as galhofas acabassem. Quando o Príncipe se cansou de rir, rugiu para o tatu:

– E como você pretende fazer isso?

– Eu tenho minhas armas – respondeu o tatu-bola.

– E há alguma exigência para que nos preste tão inestimável serviço?

– Eu pretendo apenas que minha espécie seja retirada de sua insignificância e elevada como a mais alta estirpe do Reino de Ator.

– Decerto isto lhe será concedido se nos livrar do basilisco - condescendeu o Príncipe com um sorriso desdenhoso.

E o Príncipe soltou seu rugido-gargalhada após aceitar o pedido, pois não podia deixar de rir da pretensão do pequeno tatu-bola.

O tatuzinho tomou seu caminho pelo longo salão com um passinho curto e sem pressa. Chegando à rampa de acesso ao palácio, enrolou-se e desceu a rampa rolando. 

O inverno já se instalara. Naqueles dias frios, os rios do reino achavam-se límpidos e refletiam em suas águas as esparsas nuvens e o belo céu azul quase sem manchas. Para vencer o basilisco, o tatu-bola precisava atacá-lo de dia. Na véspera do dia escolhido para a perigosa missão, o tatu enrodilhou-se perto da árvore da coruja para poder descobrir o buraco onde a malévola serpente se escondia.

Ajudado por uma noite sem ventos, enrodilhado como uma bola de ferro, o tatuzinho deixou apenas seus ouvidos alertas para poder ouvir o arrastar da serpente, já que nenhum outro ser vivo se arriscaria a sair. Caída a noite, a serpente se arrastou para fora de seu buraco e o tatu-bola, com muito cuidado para não expor seus olhos, pôde saber do buraco debaixo de um espesso espinheiro.

Após a serpente se afastar suficientemente, o tatuzinho desenrodilhou-se e correu a tapar o buraco da serpente. 

Quando a aurora principiava a se mostrar, a serpente voltou e não pôde entrar em seu buraco. Encolerizada, vagou pelas ruas procurando onde descarregar sua raiva, e uma sombra a seguia de longe, desenrodilhando-se e enrodilhando-se ao menor sinal de perigo. Quando a serpente aproximou-se da margem do rio, margem alta, o tatu-bola jogou-se rolando velozmente em direção à serpente. Trombaram os dois, a bola e o basilisco, e ambos foram jogados do barranco.

A serpente, caindo, viu-se refletida nas águas do rio; o seu olhar malévolo atingiu-a e instantaneamente ela enrijeceu-se como pedra e desapareceu nas aguas. 

Um coelho, que tinha sua toca ao lado da trombada, arriscou-se a pôr a cabeça de fora e viu a serpente afundar-se, e saiu a correr comemorando a morte da malvada, anunciando a todos do reino o alívio do flagelo.

O tatu-bola, após um banho de rio, foi recebido no palácio real com a ovação de todo o povo e da corte reunida. Foi assim que o tatu-bola passou a ser a mascote em todos os jogos do Reino de Ator.



 
imagem do site http://www.saudeanimal.com.br



sábado, 4 de março de 2017

Sonetos místicos



Sonetos místicos


– Até que enfim te encontro novamente, seu Jair, estava sentindo falta de nossas conversas.

– Se estou sempre por aqui, não fui eu quem sumiu.

– Na realidade estava com receio de interromper o teu retiro, dando-te tempo para cuidar dos teus mergulhos interiores.

– Agradeço-te os teus cuidados. Estive mesmo um bom tempo mergulhado em solilóquios e na contemplação de belezas.

– E será que podemos apreciar algo desses teus devaneios?

– Ah, sim! Um dos resultados da minha contemplação foi, por exemplo, este soneto que me saiu baseado em um trecho do Noche Oscura, de San Juan de la Cruz:
      
                          União Mística

Madeira rígida, de seiva enferma,
pelas rugas dos anos retorcida,
cai sem amparo na campina erma,
do alento de suas folhas desprovida;

em prece pede a Deus que a consuma,
e dos céus desce a força remissora
que de seu âmago retira o sumo
queimando-a em chama abrasadora.

Rubra em brasa se transforma, aliviada
da substância e da sua essência
enleia-se no fogo, dele amasiada.

Absorve do ígneo sua potência:
ser una, no seu cerne agraciada,
depois de longa e dolorosa ausência.


 
– Mas, seu Jair, para que eu possa melhor acompanhar-te, poderias mostrar-me o trecho de San Juan?

– É o trecho inicial do capítulo X, do livro segundo, onde San Juan explica a união com o divino ser:

Para maior clareza do que foi dito e se há de dizer ainda, é preciso
observar aqui como esta purificadora e amorosa notícia ou luz divina,
quando vai preparando e dispondo a alma para a união perfeita de
amor, age à maneira do fogo material sobre a madeira para transformá-la
em si mesmo. Vemos que este fogo material, ateando-se na madeira,
começa por secá-Ia; tira-lhe a umidade, e lhe faz expelir toda a seiva.
Logo continua a sua ação, enegrecendo a madeira, tornando-a escura
e feia, e até com mau odor; assim a vai secando pouco a pouco, e pondo
à vista, a fim de consumi-Ios, todos os elementos grosseiros e escondidos
que a madeira encerra, contrários ao mesmo fogo. Finalmente, põe-se a 
inflamá-Ia e aquecê-Ia por fora, até penetrá-Ia toda e transformá-Ia em
fogo, tão formosa como ele próprio. Em chegando a este fim, já não existe
na madeira nenhuma propriedade nem atividade própria, salvo o peso e a quantidade, maiores que os do fogo; pois adquiriu as propriedades e ações
do próprio fogo. Assim, agora está seca, e seca; está quente, e aquece;
está luminosa, e ilumina; está muito mais leve do que era antes; e tudo isto
é obra do fogo na madeira, produzindo nela estas propriedades e efeitos”.
                                                     (tradução das irmãs carmelitas descalças)

– Uau! San Juan teceu uma belíssima forma de esclarecer-nos sobre essa união espiritual.

– O trabalho literário de San Juan de la Cruz e de Santa Tereza de Ávila são pilares do Século de Ouro da Literatura da Língua Espanhola. E é interessante observar que no México, no longínquo século XVII, surgiu outra freira, Sóror Juana Inés de la Cruz, esta sem os arroubos espirituais de Santa Tereza, mas de inteligência excepcional, que nos legou também maravilhas. Embora cultuada pela corte dos vice-reis, foi perseguida pelo clero que a fez calar-se. A esses perseguidores, Octavio Paz chamou-os “leitores terríveis – são uma parte determinante da obra de sor Juana, pela sua presença invisível, e a leitura deve ser feita frente ao silêncio que rodeia as suas palavras”.

– E podemos obter uma amostra desse trabalho?

– Por encantar-me, adaptei este soneto para o português, preservando a métrica e as rimas, e para isto fazendo leves interferências no poético:

Perseguir-me, mundo, por que tais cruezas?
Em que te ofendo, quando só intento
pôr belezas em meu entendimento
e não meu entendimento em belezas?

Não me agrada tesouros nem riquezas;
e sempre me dá mais contentamento
pôr as riquezas em meu pensamento
que o meu pensamento nas riquezas.

Não gosto de beleza que, vencida,
é um resto natural das idades,
nem riqueza me agrada, se fingida,

tendo por melhor em minhas verdades,
consumir as vaidades da vida
que consumir a vida em vaidades.


Do texto original de Juana Inés:

En perseguirme, Mundo, ¿Qué interesas?
¿En qué te ofendo, cuando sólo intento
poner bellezas en mi entendimiento
y no mi entendimiento en las bellezas?

Yo no estimo tesoros ni riquezas;
y así, siempre me causa más contento
poner riquezas en mi pensamiento
que no mi pensamiento en las riquezas.

Y  no estimo hermosura que vencida,
es despojo civil de las edades,
ni riqueza me agrada fementida,

teniendo por mejor en mis verdades,
consumir vanidades de la vida
que consumir la vida en vanidades.


– Ainda tens mais pérolas como essa para mostrar-me?

– Ainda do Século de Ouro, de autoria discutida, há mais um soneto de beleza ímpar, que adaptei ao português. Alguns o atribuem ao próprio San Juan de la Cruz, devido ao tema bastante comum nos seus textos, enquanto outros o fazem ao frei agostiniano Miguel de Guevara, e ainda a outros mais.

Não me move, meu Deus, para querer-te
o céu de luz que me tens prometido,
nem me move o inferno tão temido
para deixar de por isso ofender-te.

Tu me moves, Senhor, com o teu porte
cravado em uma cruz e escarnecido,
move-me ver teu corpo tão ferido,
move-me tuas dores e tua morte.

Move-me, enfim, teu amor, de maneira
que ainda não houvesse céu, te amaria,
não houvesse inferno, te temeria.

Não me tens que legar porque te queira,
pois se não esperasse o que espero,
te quereria o mesmo que te quero.

Do texto original:

No me mueve, mi Dios, para quererte
el cielo que me tienes prometido,
ni me mueve el infierno tan temido
para dejar por eso de ofenderte.

Tú me mueves, Señor, muéveme el verte
clavado en una cruz y escarnecido,
muéveme ver tu cuerpo tan herido,
muévenme tus afrentas y tu muerte.

Muéveme, en fin, tu amor, y en tal manera,
que aunque no hubiera cielo, yo te amara,
y aunque no hubiera infierno, te temiera.

No me tienes que dar porque te quiera,
pues aunque lo que espero no esperara,
lo mismo que te quiero te quisiera
.


– Obrigado, seu Jair, acho que tenho bastante material para meditação.

– Boa noite!