Sonetos místicos
– Até que
enfim te encontro novamente, seu Jair, estava sentindo falta de nossas
conversas.
– Se
estou sempre por aqui, não fui eu quem sumiu.
– Na
realidade estava com receio de interromper o teu retiro, dando-te tempo para
cuidar dos teus mergulhos interiores.
–
Agradeço-te os teus cuidados. Estive mesmo um bom tempo mergulhado em
solilóquios e na contemplação de belezas.
– E será
que podemos apreciar algo desses teus devaneios?
– Ah,
sim! Um dos resultados da minha contemplação foi, por exemplo, este soneto que me
saiu baseado em um trecho do Noche Oscura, de San Juan de la Cruz:
União Mística
Madeira rígida, de seiva enferma,
pelas rugas dos anos retorcida,
cai sem amparo na campina erma,
do alento de suas folhas
desprovida;
em prece pede a Deus que a
consuma,
e dos céus desce a força remissora
que de seu âmago retira o sumo
queimando-a em chama abrasadora.
Rubra em brasa se transforma,
aliviada
da substância e da sua essência
enleia-se no fogo, dele amasiada.
Absorve do ígneo sua potência:
ser una, no seu cerne agraciada,
depois de longa e dolorosa
ausência.
– Mas,
seu Jair, para que eu possa melhor acompanhar-te, poderias mostrar-me o trecho
de San Juan?
– É o
trecho inicial do capítulo
X, do livro segundo, onde San Juan explica a união com o divino ser:
“Para maior clareza do que foi
dito e se há de dizer ainda, é preciso
observar aqui como
esta purificadora e amorosa notícia ou luz divina,
quando vai preparando e dispondo a alma para a
união perfeita de
amor, age à maneira do fogo material sobre a madeira
para transformá-la
em si mesmo. Vemos que este fogo material,
ateando-se na madeira,
começa por secá-Ia; tira-lhe a umidade, e lhe faz
expelir toda a seiva.
Logo continua a sua ação, enegrecendo a madeira,
tornando-a escura
e feia, e até com mau odor; assim a vai secando
pouco a pouco, e pondo
à vista, a fim de consumi-Ios, todos os elementos grosseiros e escondidos
que a
madeira encerra, contrários ao mesmo fogo. Finalmente, põe-se a
inflamá-Ia e
aquecê-Ia por fora, até penetrá-Ia toda e transformá-Ia em
fogo, tão formosa como ele próprio. Em chegando a
este fim, já não existe
na madeira
nenhuma propriedade nem atividade própria, salvo o peso e a quantidade, maiores
que os do fogo; pois adquiriu as propriedades e ações
do próprio fogo. Assim, agora está seca, e seca;
está quente, e aquece;
está luminosa, e ilumina; está muito mais leve do
que era antes; e tudo isto
é obra do fogo na madeira, produzindo nela estas
propriedades e efeitos”.
(tradução das irmãs carmelitas descalças)
– Uau! San
Juan teceu uma belíssima forma de esclarecer-nos sobre essa união
espiritual.
– O
trabalho literário de San Juan de la Cruz e de Santa Tereza de Ávila são
pilares do Século de Ouro da Literatura da Língua Espanhola. E é interessante
observar que no México, no longínquo século XVII, surgiu outra freira, Sóror
Juana Inés de la Cruz, esta sem os arroubos espirituais de Santa Tereza, mas de
inteligência excepcional, que nos legou também maravilhas. Embora cultuada pela
corte dos vice-reis, foi perseguida pelo clero que a fez calar-se. A esses
perseguidores, Octavio Paz chamou-os “leitores
terríveis – são uma parte determinante da obra de sor Juana, pela sua presença
invisível, e a leitura deve ser feita frente ao silêncio que rodeia as suas
palavras”.
– E
podemos obter uma amostra desse trabalho?
– Por encantar-me, adaptei este
soneto para o português, preservando a métrica e as rimas, e para isto fazendo
leves interferências no poético:
Perseguir-me,
mundo, por que tais cruezas?
Em
que te ofendo, quando só intento
pôr
belezas em meu entendimento
e
não meu entendimento em belezas?
Não
me agrada tesouros nem riquezas;
e
sempre me dá mais contentamento
pôr
as riquezas em meu pensamento
que
o meu pensamento nas riquezas.
Não
gosto de beleza que, vencida,
é
um resto natural das idades,
nem
riqueza me agrada, se fingida,
tendo
por melhor em minhas verdades,
consumir
as vaidades da vida
que
consumir a vida em vaidades.
Do texto
original de Juana Inés:
En perseguirme, Mundo, ¿Qué
interesas?
¿En qué te ofendo, cuando sólo
intento
poner bellezas en mi
entendimiento
y no mi entendimiento en las
bellezas?
Yo no estimo tesoros ni
riquezas;
y así, siempre me causa más
contento
poner riquezas en mi
pensamiento
que no mi pensamiento en las
riquezas.
Y no estimo hermosura que vencida,
es despojo civil de las
edades,
ni riqueza me agrada
fementida,
teniendo por mejor en mis
verdades,
consumir vanidades de la vida
que consumir la vida en
vanidades.
– Ainda
tens mais pérolas como essa para mostrar-me?
– Ainda
do Século de Ouro, de autoria discutida, há mais um soneto de beleza ímpar, que
adaptei ao português. Alguns o atribuem ao próprio San Juan de la Cruz, devido
ao tema bastante comum nos seus textos, enquanto outros o fazem ao frei agostiniano Miguel de Guevara, e ainda a outros mais.
Não
me move, meu Deus, para querer-te
o
céu de luz que me tens prometido,
nem
me move o inferno tão temido
para
deixar de por isso ofender-te.
Tu
me moves, Senhor, com o teu porte
cravado
em uma cruz e escarnecido,
move-me
ver teu corpo tão ferido,
move-me
tuas dores e tua morte.
Move-me,
enfim, teu amor, de maneira
que
ainda não houvesse céu, te amaria,
não
houvesse inferno, te temeria.
Não
me tens que legar porque te queira,
pois
se não esperasse o que espero,
te
quereria o mesmo que te quero.
Do
texto original:
No me mueve, mi Dios, para quererte
el cielo que me tienes prometido,
ni me mueve el infierno tan temido
para dejar por eso de ofenderte.
el cielo que me tienes prometido,
ni me mueve el infierno tan temido
para dejar por eso de ofenderte.
Tú me mueves, Señor, muéveme el verte
clavado en una cruz y escarnecido,
muéveme ver tu cuerpo tan herido,
muévenme tus afrentas y tu muerte.
clavado en una cruz y escarnecido,
muéveme ver tu cuerpo tan herido,
muévenme tus afrentas y tu muerte.
Muéveme, en fin, tu amor, y en tal
manera,
que aunque no hubiera cielo, yo te amara,
y aunque no hubiera infierno, te temiera.
que aunque no hubiera cielo, yo te amara,
y aunque no hubiera infierno, te temiera.
No me tienes que dar porque te quiera,
pues aunque lo que espero no esperara,
lo mismo que te quiero te quisiera.
pues aunque lo que espero no esperara,
lo mismo que te quiero te quisiera.
–
Obrigado, seu Jair, acho que tenho bastante material para meditação.
– Boa
noite!

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