sábado, 4 de março de 2017

Sonetos místicos



Sonetos místicos


– Até que enfim te encontro novamente, seu Jair, estava sentindo falta de nossas conversas.

– Se estou sempre por aqui, não fui eu quem sumiu.

– Na realidade estava com receio de interromper o teu retiro, dando-te tempo para cuidar dos teus mergulhos interiores.

– Agradeço-te os teus cuidados. Estive mesmo um bom tempo mergulhado em solilóquios e na contemplação de belezas.

– E será que podemos apreciar algo desses teus devaneios?

– Ah, sim! Um dos resultados da minha contemplação foi, por exemplo, este soneto que me saiu baseado em um trecho do Noche Oscura, de San Juan de la Cruz:
      
                          União Mística

Madeira rígida, de seiva enferma,
pelas rugas dos anos retorcida,
cai sem amparo na campina erma,
do alento de suas folhas desprovida;

em prece pede a Deus que a consuma,
e dos céus desce a força remissora
que de seu âmago retira o sumo
queimando-a em chama abrasadora.

Rubra em brasa se transforma, aliviada
da substância e da sua essência
enleia-se no fogo, dele amasiada.

Absorve do ígneo sua potência:
ser una, no seu cerne agraciada,
depois de longa e dolorosa ausência.


 
– Mas, seu Jair, para que eu possa melhor acompanhar-te, poderias mostrar-me o trecho de San Juan?

– É o trecho inicial do capítulo X, do livro segundo, onde San Juan explica a união com o divino ser:

Para maior clareza do que foi dito e se há de dizer ainda, é preciso
observar aqui como esta purificadora e amorosa notícia ou luz divina,
quando vai preparando e dispondo a alma para a união perfeita de
amor, age à maneira do fogo material sobre a madeira para transformá-la
em si mesmo. Vemos que este fogo material, ateando-se na madeira,
começa por secá-Ia; tira-lhe a umidade, e lhe faz expelir toda a seiva.
Logo continua a sua ação, enegrecendo a madeira, tornando-a escura
e feia, e até com mau odor; assim a vai secando pouco a pouco, e pondo
à vista, a fim de consumi-Ios, todos os elementos grosseiros e escondidos
que a madeira encerra, contrários ao mesmo fogo. Finalmente, põe-se a 
inflamá-Ia e aquecê-Ia por fora, até penetrá-Ia toda e transformá-Ia em
fogo, tão formosa como ele próprio. Em chegando a este fim, já não existe
na madeira nenhuma propriedade nem atividade própria, salvo o peso e a quantidade, maiores que os do fogo; pois adquiriu as propriedades e ações
do próprio fogo. Assim, agora está seca, e seca; está quente, e aquece;
está luminosa, e ilumina; está muito mais leve do que era antes; e tudo isto
é obra do fogo na madeira, produzindo nela estas propriedades e efeitos”.
                                                     (tradução das irmãs carmelitas descalças)

– Uau! San Juan teceu uma belíssima forma de esclarecer-nos sobre essa união espiritual.

– O trabalho literário de San Juan de la Cruz e de Santa Tereza de Ávila são pilares do Século de Ouro da Literatura da Língua Espanhola. E é interessante observar que no México, no longínquo século XVII, surgiu outra freira, Sóror Juana Inés de la Cruz, esta sem os arroubos espirituais de Santa Tereza, mas de inteligência excepcional, que nos legou também maravilhas. Embora cultuada pela corte dos vice-reis, foi perseguida pelo clero que a fez calar-se. A esses perseguidores, Octavio Paz chamou-os “leitores terríveis – são uma parte determinante da obra de sor Juana, pela sua presença invisível, e a leitura deve ser feita frente ao silêncio que rodeia as suas palavras”.

– E podemos obter uma amostra desse trabalho?

– Por encantar-me, adaptei este soneto para o português, preservando a métrica e as rimas, e para isto fazendo leves interferências no poético:

Perseguir-me, mundo, por que tais cruezas?
Em que te ofendo, quando só intento
pôr belezas em meu entendimento
e não meu entendimento em belezas?

Não me agrada tesouros nem riquezas;
e sempre me dá mais contentamento
pôr as riquezas em meu pensamento
que o meu pensamento nas riquezas.

Não gosto de beleza que, vencida,
é um resto natural das idades,
nem riqueza me agrada, se fingida,

tendo por melhor em minhas verdades,
consumir as vaidades da vida
que consumir a vida em vaidades.


Do texto original de Juana Inés:

En perseguirme, Mundo, ¿Qué interesas?
¿En qué te ofendo, cuando sólo intento
poner bellezas en mi entendimiento
y no mi entendimiento en las bellezas?

Yo no estimo tesoros ni riquezas;
y así, siempre me causa más contento
poner riquezas en mi pensamiento
que no mi pensamiento en las riquezas.

Y  no estimo hermosura que vencida,
es despojo civil de las edades,
ni riqueza me agrada fementida,

teniendo por mejor en mis verdades,
consumir vanidades de la vida
que consumir la vida en vanidades.


– Ainda tens mais pérolas como essa para mostrar-me?

– Ainda do Século de Ouro, de autoria discutida, há mais um soneto de beleza ímpar, que adaptei ao português. Alguns o atribuem ao próprio San Juan de la Cruz, devido ao tema bastante comum nos seus textos, enquanto outros o fazem ao frei agostiniano Miguel de Guevara, e ainda a outros mais.

Não me move, meu Deus, para querer-te
o céu de luz que me tens prometido,
nem me move o inferno tão temido
para deixar de por isso ofender-te.

Tu me moves, Senhor, com o teu porte
cravado em uma cruz e escarnecido,
move-me ver teu corpo tão ferido,
move-me tuas dores e tua morte.

Move-me, enfim, teu amor, de maneira
que ainda não houvesse céu, te amaria,
não houvesse inferno, te temeria.

Não me tens que legar porque te queira,
pois se não esperasse o que espero,
te quereria o mesmo que te quero.

Do texto original:

No me mueve, mi Dios, para quererte
el cielo que me tienes prometido,
ni me mueve el infierno tan temido
para dejar por eso de ofenderte.

Tú me mueves, Señor, muéveme el verte
clavado en una cruz y escarnecido,
muéveme ver tu cuerpo tan herido,
muévenme tus afrentas y tu muerte.

Muéveme, en fin, tu amor, y en tal manera,
que aunque no hubiera cielo, yo te amara,
y aunque no hubiera infierno, te temiera.

No me tienes que dar porque te quiera,
pues aunque lo que espero no esperara,
lo mismo que te quiero te quisiera
.


– Obrigado, seu Jair, acho que tenho bastante material para meditação.

– Boa noite!








Nenhum comentário:

Postar um comentário