segunda-feira, 10 de julho de 2017

O retrato



O retrato


Na parede central, com os olhos pretos e brilhantes dirigidos para a porta, com a mão levantada acolhedoramente, Alice, fazendo de dona de casa, parecia receber a sucessora como a uma hóspede passageira, e dizer ao marido: “Amo-te e quero-te feliz. Não receio a comparação. (do romance A Sucessora, de Carolina Nabuco)



Naquela noite Marina teve um sonho, muito nítido, e terrível. Apareceu-lhe Alice, com a atitude e o vestido do quadro de Verron. A expressão, porém, era outra... Ria... Mas um ameaça secreta e esmagadora enfrentava Marina debaixo desse riso, Falou:
– Eu morta? Morta, achas? Que pilhéria? (do romance A Sucessora, de Carolina Nabuco)


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Como nasce uma história?

Não há uma resposta muita precisa para esta questão. Às vezes, há uma determinada intenção de escrever sobre um assunto ou uma ideia, mas a forma de abordagem insiste em não se deixar domar, e a ideia fica perambulando na mente, rabiscando frases aleatórias que não se juntam para formar uma coerência; nestes casos, o melhor é deixá-la como simples anotação que talvez um dia possa ser retomada.

Outras vezes tem-se um fiapo de ideia, senta-se para escrevê-la e se surpreende com um streaming que parece vir do nada, e o fiapo se desenvolve tão fluidicamente que você tem a impressão que nem participou da elaboração; nestas, a frase de Nietzsche algo pensa em mim parece explicar o fluxo dos pensamentos, não a sua origem, pois o autor parece tornar-se uma marionete a escrever, um receptáculo para o algo sem mãos expressar suas ideias.

E ainda outras vezes, a ideia inicial começa a ser trabalhada, e parágrafo a parágrafo vai sendo composta em uma luta constante, pois ela parece não querer evoluir; nestes casos, ao terminar, pode-se efetivamente reconhecer a sua paternidade.

Seria possível que a ideia que captamos exista por si e que possa simultaneamente ser canalizada por diferentes pessoas? Há casos de relatos nas descobertas científicas de simultaneidades assim, e mesmo na literatura.

Carolina Nabuco escreveu um romance, a Sucessora, que, talvez pela pouca expressão na época da língua portuguesa, não alcançou repercussão no resto do mundo, e bem pouca mesmo aqui no Brasil. Daphne du Maurier, já então uma escritora de sucesso, publicou quatro anos depois Rebecca, um romance girando em torno do mesmo tema central de Carolina, que era a história de um retrato de uma falecida esposa que assombrava a sucessora, a segunda esposa de um certo senhor. Esta história, pelas mãos de Alfred Hitchcock, foi levada ao cinema em um grande filme também chamado Rebecca.

Discutiu-se muito a questão de plágio, mas Carolina jamais processou a inglesa; teriam as duas recebido a história de forma independente?

Há muitos anos, ainda nos tempos de colégio, li Rebecca e, quando soube da discussão do plágio de Daphne, também li o romance de Carolina Nabuco, portanto, já conhecia a história e jamais poderia imaginar que a ouviria ser contada por pessoas que a viram irromper em suas próprias vidas, por isso não posso duvidar da hipótese de sincronicidade no caso das duas autoras. Essas pessoas viveram a mesma história, e sentiram-se confusas, sem saber se seriam personagens de romance ou se realmente a vida é uma ilusão como diz a filosofia oriental. 

E ainda recordando Nietzsche:

E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasse assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?                                             (Friedrich Nietzsche, em A Gaia Ciência).



O caso que vou narrar contrasta com a ideia de Nietzsche, do eterno retorno, por este caso acontecer com pessoas diferentes ao longo do tempo, isto é, o retorno seria do enredo; ou, em outra hipótese, os personagens seriam sempre os mesmos indivíduos em épocas diferentes; caso este que nos parece uma ideia meio assustadora. Vejamos então a história.

Eles estavam casados havia dois anos, a esposa lidava bem com o fato de não ser sua primeira mulher, pelo menos sempre assim lhe pareceu; ele tinha com a ex-esposa uma ligação de amizade que nunca deixou espaço para mágoas e ressentimentos, e as duas se relacionavam bem nas situações mais críticas. Nesta altura, a ex sofreu um acidente vascular cerebral devido a um aneurisma; ela estava sozinha quando isto aconteceu, pois as filhas estavam viajando com o pai. Quando sentiu-se mal, ela ligou para um vizinho médico que lhe prestou os primeiros socorros. Eram mais de onze horas da noite quando receberam a notícia pelo telefone da casa dos seus pais, onde passaram no retorno da casa de praia e haviam chegado naquela mesma tarde. As meninas já dormiam, e assim foram deixadas por mais um par de horas, quando foram acordadas com uma notícia abrandada do incidente da mãe. Saíram de volta para Belo Horizonte em uma viagem angustiosa onde tentava-se atenuar para as meninas a gravidade do problema, mas sem dourar com excesso de falta de gravidade. Chegaram bem cedo ao hospital onde ela estava; após o abraço do reencontro, ele teve que lidar com a sua angústia e medo de se submeter a uma operação no cérebro; fez o seu melhor para mostrar-lhe que estavam todos juntos e confiantes no médico que lhes foi assegurado ser o melhor da cidade para tal caso e que ela estava em mãos muito eficientes.

Naqueles dias no hospital dedicou-se a cuidar dela em tudo que podia fazer, sem nenhuma reclamação da sua esposa, que estava sempre que possível ao seu lado. Passou muito tempo naquele quarto de hospital, e depois da operação, que os médicos relataram como um sucesso, depois que ela voltou a sorrir para os que estavam ao seu lado, houve um momento em que ele relaxou e onde se perguntou: e agora? pois se sentia meio desorientado ao olhar os dias futuros. 

Foi então, quando tudo parecia ter-se resolvido, ao lado dela na cama, e conversando normalmente, pouco a pouco foi percebendo que algo havia de errado com um sorriso estático que se fixou nos seus lábios; chamou-a pelo nome e não houve mais reação, e a viu apagando-se lentamente com aquele sorriso, que era uma despedida triste para quem assistia, mas sereno e transmitindo a paz de seu espírito.

Ela entrou em coma e logo o coração parou. Iniciou-se então a dolorosa espera de dois dias para que a morte cerebral fosse confirmada. Foram terríveis aqueles momentos finais, quando conflitos adiados com a família dela vieram à tona.

E quando tudo acabou, acordados do pesadelo em seu apartamento, os quatro estavam bastante desorientados. Sentados atônitos sem nenhuma atividade, como se esperassem alguma coisa que ainda não se fizera anunciar; a filha mais velha, parecendo voltar de muito longe, comentou:

– Estamos com um problema, onde vamos morar?

Ela estava preocupada porque o apartamento onde estavam era pequeno, e realmente era um problema. Naquele resto do dia ficaram por ali mesmo, sem muita vontade de fazer qualquer coisa; à noite resolveram ir para o apartamento delas, assim ele pensava que poderia atenuar maiores danos para as filhas, e deixaram a resolução do impasse para depois.

O problema maior, na verdade, era todo dele, pois as filhas adoravam o lugar onde moravam, cheio de amigos, e curtiam muito a estrutura do prédio, e obviamente queriam preservar tudo aquilo; por outro lado, sua esposa estava apreensiva, não querendo ficar onde ela não podia sentir-se à vontade, em um espaço que não era dela, que tinha a marca e as preferências da ausente. Naquela noite ajeitaram-se pelo chão da sala para fazer uma cama, onde tentaram dormir.

No dia seguinte, em conversa com o síndico do prédio, que viera dar-lhe condolências, conhecido de longa data, falou-lhe do seu problema, e ele respondeu pragmaticamente que aquilo não era um problema, que era só ficar por ali mesmo. A sugestão era razoável, pois lidar com a venda dos apartamentos e adquirir outro levaria muito tempo, e o que fariam até ter tudo resolvido?

Assim, continuaram a acampar na sala do apartamento; tal decisão não foi sem consequências para o fuxico nas famílias, mas quem estava em apuros era ele, e tudo dependia de sua habilidade para lidar com todos os conflitos, inclusive com o sentimento de perda da esposa que sentia falta do seu lugar, que ela abandonara em favor das meninas. Mas havia um outro problema: na sala havia um quadro enorme, um retrato muito bonito da mãe das meninas, mostrando o seu rosto sustentado por um pássaro estilizado, e a esposa não se sentia inteiramente à vontade sob o olhar dela. Ele só lhe pedia paciência, e ela não a negava. A filha mais velha pedira para levar o quadro para o seu quarto, o que não foi feito para preservar o convívio das duas com o retrato da mãe.

E assim, a esposa, assoberbada pela repentina maternidade das duas filhas, principalmente da mais nova, que ainda necessitava de mais cuidados, ela se esquecia um pouco das suas perdas e do olhar do retrato. Para que ela pudesse ter o seu, deles, quarto, entregaram tudo o que havia no quarto de casal para as suas cunhadas e o remontaram.
Mas o retrato continuava pairando na casa, lembrando sempre à esposa que ela ali era uma sucessora. Ela às vezes lhe falava sobre aquela pendência, ele lembrava-lhe que as meninas sofreriam se lhes tirassem aquela recordação; ela recolhia-se e aceitava.

Havia ali um movimento pendular que persistia: de um lado do pêndulo o carrilhão gritava eu estou aqui sempre presente, você não vai conseguir apagar minha memória, do outro lado aparecia uma voz melíflua que sussurrava eu lhe entrego todos os meus amores, cuide deles com carinho. Tempestades que se dissolviam em gestos de amor.

Os anos foram escoando, as meninas entraram nas faculdades. Houve o casamento da filha mais velha, e neste dia, ela que sempre fora muito autônoma, levou a mãe substituta para o lugar de honra da cerimônia, que esta, respeitando a memória da mãe natural, não pleiteara, formalizando sua maternidade e abrindo o caminho para a futura avó adorada de seu filho.

Foi só então que a esposa voltou a pedir-lhe para descer o retrato, pois as filhas já tinham maturidade suficiente para entender o problema. E assim foi feito, sem inconveniências e incompreensões.

Por toda a dedicação que ela teve pelas filhas da primeira esposa, ela sente a recompensa ao receber no Dia das Mães um cartão com palavras carinhosas que lhe fazem sentir não como a sucessora, mas como uma mãe de verdade, e hoje também avó de dois netinhos.

O eterno retorno de que falamos acima foi muito mais vivido pela esposa, e se ela o estivesse vivendo mais uma vez, desta vez ela o fez de maneira magistral, saindo-se de modo admirável das forças psicológicas que atuaram. E fica batendo na mente a pergunta: de onde viera a experiência necessária para lidar com tudo aquilo?

E desmentindo o que o Nietzsche falou sobre o inferno da vida repetida, sobre o amaldiçoar o demônio que nos lançasse de volta à mesma vida, ela diz que faria tudo de novo, pois tudo valeu e vale a pena, dirimindo a dúvida dele ao confirmar: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" .

E o retrato está guardado, mas é como se nunca tivesse saído daquela parede, pois ele o vê frequentemente lá.


-o-

Sobre um Poema
                    Herberto Helder

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.