A
pedra do túmulo
Maria
Madalena foi ao sepulcro bem cedo
E viu
que a pedra estava tirada do sepulcro.
(João, 20:1)
– Ei,
seu Jair, como sempre perdido em seus pensamentos?
– Pois
é, estava lembrando-me de uma frase que tempos idos me atormentou bastante.
– E eu
posso saber que frase era essa?
– “Não se agarre aí, Jair”.
– Só
isso, seu Jair?
– Só
isso. O detalhe principal foi como ela foi ouvida, pois ninguém falou, mas ela
foi suficientemente articulada para ser ouvida em minha mente.
–
Parece então mais ter sido uma espécie de alucinação.
– É o
que mais pôde parecer ou, talvez, o meu próprio inconsciente falando comigo.
Mas o meu nome, fazendo-me um apelo, tornou a frase mais assertiva.
– E
por que essa frase o perturbou?
–
Porque eu sabia o significado dela e não entendia o porquê do alerta. Levou
tempo para que tudo ficasse esclarecido.
– O
senhor está enigmático hoje.
– É
necessário. É um assunto meu, e só meu.
– Um
psicólogo diria que o assunto lhe é bastante dolorido, e que você tem medo de
abordá-lo.
– Já
doeu, não o faz mais. Mas ainda não é tempo de falar dela. Há coisas
inexplicáveis que devemos aprender a com elas conviver; estas coisas deixam-nos
em um estado de perplexidade, pois não temos explicações razoáveis das suas
causas, mas os efeitos são concretos.
–
Nesses casos é melhor então esquecer tudo.
–
Quando é possível, sim. Mas é como você ter uma abelha girando em torno de sua
cabeça, que o deixa alerta e prevenido, mas que não lhe vai dar uma ferroada.
As voltas e voltas que ela dá em torno de você vão lhe contando coisas, como é
habitual na linguagem das abelhas.
– E o
senhor entende a linguagem das abelhas?
–
Destas minhas abelhas, sim. Eu gosto delas. Elas são o resultado do que a vida
me fez, e quando passei a conhecê-las, passei também a deixar de lutar com a
imagem que eu mostrava ao mundo: um Dorian Gray às avessas. Aliás, parei mesmo
foi de brigar com o mundo.
– Quer
dizer que o retrato é que acumulava os seus dons interiores?
– Acho
que ficavam encerrados pela moldura que o sustinha, e foi necessário três
noites escuras para quebrar a barreira e deixar os dois conciliarem-se.
– E em
três noites tudo se resolveu?
–
Maneira de falar, cada noite durou um período de tempo bem longo. Naquelas
noites o imponderável deixava suas marcas, enquanto o fogão negro de ferro foi
lambido pelas labaredas que lhe foram atiçadas no interior, transformando tudo
em carvão. Era assustador, mas uma mão tranquilizadora aparecia de quando em
vez para lembrar-me que não estava sozinho.
– Uma
mão, seu Jair, e como ela agia?
– Agia
de maneira imprevisível, através das tais coincidências que alertam nossa
esquecida memória. Certa vez estava eu sentado à cabeceira da cama com minhas
duas filhas, tinha em meu colo, em um livro grande, o Evangelho de João aberto no
capitulo 20 e estava lendo para elas:
"Maria, contudo, ficara chorando perto do sepulcro. Enquanto
soluçava, inclinou-se para o túmulo,
e viu dois anjos vestidos de branco, sentados, um à cabeceira, outro aos
pés do lugar onde o corpo de Jesus tinha sido colocado".
–
Maria neste caso era a Madalena?
– Sim,
e no instante em que lia esse último versículo, minha irmã entrou no quarto e
parei aturdido, pois vi que minhas duas filhas estavam dispostas como descrito:
a mais velha ao meu lado direito, recostada com a cabeça no meu ombro; a mais
nova, deitada com a cabeça nos meus pés.
– E
sua irmã entrando era como a Maria Madalena.
– A
fotografia só aconteceu na minha mente, mas como era possível que as quatro
pessoas envolvidas na cena se comportassem de maneira aleatória para
reconstituir o quadro?
– Uma
coincidência estranha.
– E
muitas vezes chamamos de coincidência coisas que não podemos compreender.
– E o
senhor acha que existe algo além de coincidência?
– Eu
simplesmente acho que a coincidência foi preparada por algo que queria chamar
minha atenção, pois, na época em que tal fato aconteceu, eram muitas
coincidências que me assaltavam.
– O
senhor acha que alguém estava agindo?
–
Alguém? Não seria tão simples assim, não? Algo agiu simultaneamente na mente de
minha filha para colocá-la deitada aos meus pés; algo fez com que minha irmã
fosse me procurar naquele mesmo instante; algo fez a sincronia da minha leitura
com todos os outros fatos.
– E
que nome você deveria dar a esse algo, seu Jair?
– Não
me atrevo a nomeá-lo. Muitos nomes diferentes poderiam ser usados para definir
esse algo, basta-me saber que o algo me acompanha e pode agir em minha mente
mesmo que eu não tenha nenhuma consciência de sua ação. Houve uma certa época
em que ele quis mostrar-se, e depois escondeu-se novamente.
– E
houve muitos momentos semelhantes àquele?
–
Bastantes, e assim a pedra que fechava o túmulo foi retirada, e uma criança
pôde sair à luz do sol para tomar seu lugar.
– E
quem era essa criança, seu Jair?
– E
quem sou eu? Foi essa criança que crescendo ensinou-me a dizer, como
disse Joseph
Campbel: "eu não preciso da fé, pois eu tenho a experiência".
– E há
outros casos de coincidências assim que o senhor pode nos relatar, seu Jair?
– É
difícil traduzir em palavras o que sentimos nesses momentos, pois é algo que
nos fala diretamente em resposta à vida que vivemos, tudo envolto por nossos mais
profundos sentimentos, e conseguir fazer um amálgama de tudo em palavras é
impossível.
–
Tente um pouco mais.
–
Houve um caso acontecido por causa de um telefonema: liguei para uma empresa
cliente minha, uma cliente de relações muito especiais, para agradecer a uma
amiga algo que me sentia no dever de fazê-lo. Liguei, a telefonista me atendeu
e disse que ia chamar a pessoa que eu queria. O telefone da empresa estava
ligado a uma estação de rádio e enquanto esperava entrou uma música. A
telefonista voltou e disse-me que a pessoa havia saído. Pus o telefone no
gancho e pensei: “liguei só para ouvir essa música”.
– E
que música foi essa, seu Jair?
– Era
“Tudo o que se quer”, parte do
musical “O Fantasma da Ópera”. E ouvi
assim:
Olha nos meus olhos
Esquece o que passou
Tanta felicidade
– Mas
eu conheço bem a letra, não é assim, a letra real diz:
Olha nos meus olhos
Esquece o que passou
Aqui neste momento
– Pois
é, não sei explicar mais nada, sei apenas que “tanta felicidade” foi a partir daquele momento uma realidade.
-o-
Assim que o dia amanheceu
Lá no mar alto da paixão
Dava pra ver o tempo ruir
Cadê você? Que solidão!
Esquecera de mim?
Enfim, de tudo o que há na Terra
Não há nada em lugar nenhum
Que vá crescer sem você chegar
Longe de ti tudo parou
Ninguém sabe o que eu sofri
Amar é um deserto e seus temores
Vida que vai na sela dessas dores
Não sabe voltar, me dá teu calor
Vem me fazer feliz porque eu te amo
Você deságua em mim, e eu, oceano
Me esqueço que amar é quase uma dor
Só sei viver se for por você!
(para ouvir/ver Djavan cantando clique em Oceano)

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