sexta-feira, 7 de julho de 2017

A pedra do túmulo




A pedra do túmulo

                             Maria Madalena foi ao sepulcro bem cedo
                               E viu que a pedra estava tirada do sepulcro.
                                                                      (João, 20:1)









– Ei, seu Jair, como sempre perdido em seus pensamentos?

– Pois é, estava lembrando-me de uma frase que tempos idos me atormentou bastante.

– E eu posso saber que frase era essa?

– “Não se agarre aí, Jair”.

– Só isso, seu Jair?

– Só isso. O detalhe principal foi como ela foi ouvida, pois ninguém falou, mas ela foi suficientemente articulada para ser ouvida em minha mente.

– Parece então mais ter sido uma espécie de alucinação.

– É o que mais pôde parecer ou, talvez, o meu próprio inconsciente falando comigo. Mas o meu nome, fazendo-me um apelo, tornou a frase mais assertiva.

– E por que essa frase o perturbou?

– Porque eu sabia o significado dela e não entendia o porquê do alerta. Levou tempo para que tudo ficasse esclarecido.

– O senhor está enigmático hoje.

– É necessário. É um assunto meu, e só meu.

– Um psicólogo diria que o assunto lhe é bastante dolorido, e que você tem medo de abordá-lo.

– Já doeu, não o faz mais. Mas ainda não é tempo de falar dela. Há coisas inexplicáveis que devemos aprender a com elas conviver; estas coisas deixam-nos em um estado de perplexidade, pois não temos explicações razoáveis das suas causas, mas os efeitos são concretos.

– Nesses casos é melhor então esquecer tudo.

– Quando é possível, sim. Mas é como você ter uma abelha girando em torno de sua cabeça, que o deixa alerta e prevenido, mas que não lhe vai dar uma ferroada. As voltas e voltas que ela dá em torno de você vão lhe contando coisas, como é habitual na linguagem das abelhas.

– E o senhor entende a linguagem das abelhas?

– Destas minhas abelhas, sim. Eu gosto delas. Elas são o resultado do que a vida me fez, e quando passei a conhecê-las, passei também a deixar de lutar com a imagem que eu mostrava ao mundo: um Dorian Gray às avessas. Aliás, parei mesmo foi de brigar com o mundo.

– Quer dizer que o retrato é que acumulava os seus dons interiores?

– Acho que ficavam encerrados pela moldura que o sustinha, e foi necessário três noites escuras para quebrar a barreira e deixar os dois conciliarem-se.

– E em três noites tudo se resolveu?

– Maneira de falar, cada noite durou um período de tempo bem longo. Naquelas noites o imponderável deixava suas marcas, enquanto o fogão negro de ferro foi lambido pelas labaredas que lhe foram atiçadas no interior, transformando tudo em carvão. Era assustador, mas uma mão tranquilizadora aparecia de quando em vez para lembrar-me que não estava sozinho.

– Uma mão, seu Jair, e como ela agia?

– Agia de maneira imprevisível, através das tais coincidências que alertam nossa esquecida memória. Certa vez estava eu sentado à cabeceira da cama com minhas duas filhas, tinha em meu colo, em um livro grande, o Evangelho de João aberto no capitulo 20 e estava lendo para elas:

"Maria, contudo, ficara chorando perto do sepulcro. Enquanto soluçava, inclinou-se para o túmulo,
e viu dois anjos vestidos de branco, sentados, um à cabeceira, outro aos pés do lugar onde o corpo de Jesus tinha sido colocado".

– Maria neste caso era a Madalena?

– Sim, e no instante em que lia esse último versículo, minha irmã entrou no quarto e parei aturdido, pois vi que minhas duas filhas estavam dispostas como descrito: a mais velha ao meu lado direito, recostada com a cabeça no meu ombro; a mais nova, deitada com a cabeça nos meus pés.

– E sua irmã entrando era como a Maria Madalena.

– A fotografia só aconteceu na minha mente, mas como era possível que as quatro pessoas envolvidas na cena se comportassem de maneira aleatória para reconstituir o quadro?

– Uma coincidência estranha.

– E muitas vezes chamamos de coincidência coisas que não podemos compreender.

– E o senhor acha que existe algo além de coincidência?

– Eu simplesmente acho que a coincidência foi preparada por algo que queria chamar minha atenção, pois, na época em que tal fato aconteceu, eram muitas coincidências que me assaltavam.

– O senhor acha que alguém estava agindo?

– Alguém? Não seria tão simples assim, não? Algo agiu simultaneamente na mente de minha filha para colocá-la deitada aos meus pés; algo fez com que minha irmã fosse me procurar naquele mesmo instante; algo fez a sincronia da minha leitura com todos os outros fatos.

– E que nome você deveria dar a esse algo, seu Jair?

– Não me atrevo a nomeá-lo. Muitos nomes diferentes poderiam ser usados para definir esse algo, basta-me saber que o algo me acompanha e pode agir em minha mente mesmo que eu não tenha nenhuma consciência de sua ação. Houve uma certa época em que ele quis mostrar-se, e depois escondeu-se novamente.

– E houve muitos momentos semelhantes àquele?

– Bastantes, e assim a pedra que fechava o túmulo foi retirada, e uma criança pôde sair à luz do sol para tomar seu lugar.

– E quem era essa criança, seu Jair?

– E quem sou eu? Foi essa criança que crescendo ensinou-me a dizer, como disse Joseph Campbel: "eu não preciso da fé, pois eu tenho a experiência".

– E há outros casos de coincidências assim que o senhor pode nos relatar, seu Jair?

– É difícil traduzir em palavras o que sentimos nesses momentos, pois é algo que nos fala diretamente em resposta à vida que vivemos, tudo envolto por nossos mais profundos sentimentos, e conseguir fazer um amálgama de tudo em palavras é impossível.

– Tente um pouco mais.

– Houve um caso acontecido por causa de um telefonema: liguei para uma empresa cliente minha, uma cliente de relações muito especiais, para agradecer a uma amiga algo que me sentia no dever de fazê-lo. Liguei, a telefonista me atendeu e disse que ia chamar a pessoa que eu queria. O telefone da empresa estava ligado a uma estação de rádio e enquanto esperava entrou uma música. A telefonista voltou e disse-me que a pessoa havia saído. Pus o telefone no gancho e pensei: “liguei só para ouvir essa música”.

– E que música foi essa, seu Jair?

– Era “Tudo o que se quer”, parte do musical “O Fantasma da Ópera”. E ouvi assim:

Olha nos meus olhos
Esquece o que passou
Tanta felicidade

– Mas eu conheço bem a letra, não é assim, a letra real diz:

Olha nos meus olhos
Esquece o que passou
Aqui neste momento

– Pois é, não sei explicar mais nada, sei apenas que “tanta felicidade” foi a partir daquele momento uma realidade.


-o-



           Oceano
                         Djavan

Assim que o dia amanheceu
Lá no mar alto da paixão
Dava pra ver o tempo ruir
Cadê você? Que solidão!
Esquecera de mim?

Enfim, de tudo o que há na Terra
Não há nada em lugar nenhum
Que vá crescer sem você chegar
Longe de ti tudo parou
Ninguém sabe o que eu sofri

Amar é um deserto e seus temores
Vida que vai na sela dessas dores
Não sabe voltar, me dá teu calor

Vem me fazer feliz porque eu te amo
Você deságua em mim, e eu, oceano
Me esqueço que amar é quase uma dor
Só sei viver se for por você!
 

(para ouvir/ver Djavan cantando clique em Oceano)


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