Anita
1
- Ei, há quanto tempo!
- Tanto tempo... você! Você me
abandonou aqui sem utilidade!
- Isso não é verdade, eu
estive preso em minhas obrigações por estes muitos anos, e o último e derradeiro
ato que nos deixou tão longe partiu de você.
- Como de mim, se sou movida
pela sua vontade?
- Ah, não é mesmo. Você tem
autonomia para agir de acordo com o seu querer; aliás, foi uma escolha sua,
como eu poderia agir contra os meus desejos, contra a maior aspiração que
impulsionava a minha vida?
- Pode ser que tenha impulsionado
a sua obra, não a sua vida.
- E há alguma diferença entre
as duas?
- É evidente que há, você
levou todos esses anos sem voltar a sua obra, deixando-me aqui desprezada num
canto de sua memória. E sua vida seguiu sem que eu nela participasse nem sequer
nas suas lembranças.
- Mas como pode dizer isso?
Tive-a na minha memória sempre presente por todos estes anos, sua recusa aos
meus carinhos foi a força que me jogou pela vida desvariado, inseguro e
volúvel.
- Estive na sua lembrança? E
por que fui abandonada sem vida naquele canto escuro?
- Você nunca esteve num canto
escuro, eu só não sabia se devia interferir em sua vida. Lembrava-me sempre com
o mesmo amor que lhe dedicara nos primeiros dias, mas sufocava tudo, pois
pensava que você era feliz na vida que você mesma escolheu.
- Eu escolhi? Eu nada posso
escolher sendo um produto da sua pura fantasia.
- Agora diz que você é
fantasia? Quanta injustiça! Acha que todo meu amor foi realmente dedicado a uma
fantasia?
- E o que mais é uma
personagem?
- Você não é uma personagem
que mora na ficção, você sempre viveu inteiramente no meu coração, minha paixão
ficou adormecida por não saber-me aceito.
- Mas cabia a você fazer-me
aceitá-lo.
- Ora, que absurdo, você tomou
as suas próprias decisões!
- Mas eu não fui levada pelos
meus desejos, você me criou com um caráter de abnegação.
- Era para que você superasse
todos os obstáculos, que me amasse acima de todas as outras motivações, que
lutasse pelo nosso amor passando por cima de tudo.
- Se fui fraca, você me tornou
fraca, e deixou-me vivendo uma vida que não era minha.
- Eu supus que você poderia
ser mais feliz longe do meu egoísmo, que assim eu nunca poderia machucá-la.
- Estranha motivação para quem
tem o poder de modificar toda a minha cabeça.
- Mas você construiu uma vida,
uma família linda, como poderia eu interferir na vida que eu supunha a enchia
de alegria?
- Por que você não quis olhar
no fundo do meu coração e ver que eu era tão infeliz, que eu carregava a sua
memória em todos os meus atos e que minha família foi criada à força de muito
sacrifício, pois fui pisada e maltratada, sujeitando-me a humilhações que
mataram a mulher que eu era.
- Como poderia eu ter sabido?
E como poderia saber que eu não iria maltratá-la, pisá-la e humilhá-la?
- Nunca saberá, e vai lamentar
por toda a sua vida ter-me perdido.
- Eu sei, já lamentei tanto,
gostaria de mudar tudo, mas tantas páginas já foram escritas.
- Rasgue tudo e comece
novamente.
- Impossível, você se tornou
personagem de uma história real, você teve uma vida que me excluiu.
- E agora é muito tarde
realmente, tudo consolidado, e que faço deste amor que me atormenta as
lembranças?
- Você tem família, um marido
que precisa de sua atenção, e ao qual você está presa por tantos anos de
dedicação.
- Por ele nem tanto, ele me
humilhou, e tive que lutar comigo mesma para construir o que consegui.
- E você saiu-se muito bem:
uma mãe admirável que tem o amor incomensurável dos seus filhos; a admiração
dos amigos pela pessoa que é; e, ainda, o assédio das velhas paixões que não
perderam a esperança de conquistá-la.
- Ah, velhas paixões. Paixões
caducas deveria dizer.Que me importam todas as que nunca correspondi,
tornaram-se apenas incômodos, só queria a sua.
- Que você sempre teve.
- Tive? Se nunca pude sentir o
carinho da sua mão, como pode dizer isso? De que sou feita? Que matéria
insensível usou para me criar?
- Eu a criei da mais pura seda,
toda tecida pelo meu amor. Dei vida à mulher que era o meu sonho, aquela que me
embalava nas paixões juvenis, que sorria para mim de dentro do seu casto
coração, com a qual eu me deitava a sonhar e que nos meus sonhos fazia-me
viver.
- E esqueceu-se que eu era
mulher, e que não me bastava viver nos seus sonhos? Senti-me mais como uma
estátua de pedra, uma vestal de um templo grego adorada depois que o tempo tornou-a
valiosa. Onde andava a sua mão que nunca a senti sobre o meu corpo, corria
pelos papéis em branco a encher de rabiscos páginas e páginas de sonhos?
- Essa estátua tornou-se carne
e recusou a vida que eu lhe dei.
- Fiquei em cima do pedestal
criando em minhas vestes de pedra o limo que me corroía. E a corrosão fez-me
procurar um antídoto.
- Você não teve a paciência de
esperar para que eu estivesse pronto para você, foi afoita, apressou-se a se
fazer vida sem a minha participação.
- Oh, deus da minha juventude
perdida, deveria eu esperar até quando para que você amadurecesse?
- Era necessário que eu me
decidisse, eram dois mundos que nos separavam.
- Eu nunca poderia nada ser
além de uma personagem, então você sabia a resposta.
- E se eu entrasse no seu
mundo, se eu me tornasse também uma personagem, como poderíamos sobreviver?
- Da mesma forma que agora
você entrou.
- Entenda, eu não tinha a
técnica necessária para conseguir ser as duas pessoas ao mesmo tempo.
- E assim você optou por
continuar a ser apenas o autor.
- Você está sendo má, eu já
sofri tanto a sua perda, não me machuque mais.
- Foi você que me machucou,
deixando-me à deriva preso a um marido que conspurcou todo o amor que eu trazia
em meu coração, criado por você e para você.
- Eu não queria que você se
casasse, eu sabia que seu casamento se tornaria a escravidão do seu amor.
- Mas deixou-me seguir destino
tão cruel, escrava de um marido insensível que me queria apenas um troféu para
exibir a sua superioridade perante o mundo, tornando-me apenas uma a mais de
sua coleção.
- Escrava? Seria o caso de
usar palavra tão dura?
- E o que mais sou? Sujeita
aos caprichos dele que me quer apenas quando está cansado bastante para se
levantar e buscar cama alheia?
- Eu não o poderia supor. Quando
a vi namorando-o, não gostei, mas calei-me porque achei que poderia ser apenas
efeito dos meus ciúmes, que você deveria saber o que fazia, que sua escolha era
boa, e que apenas eu usava das minhas razões masculinas para desprezar o outro.
- Mas ele era também um
personagem seu, você o criou assim.
- Quando foi criado, a sua
personalidade estava definida, nada poderia mais alterá-la.
- Palavras falsas, como as que
você está acostumado a usar nas suas histórias. Que você fosse incoerente com a
lógica e criasse um acontecimento fortuito, um deus ex-machina, e me desse um marido
que fosse fiel ao meu amor.
- E perdê-la para sempre?
- E não me perdeu? Escravizada
neste casamento infeliz do qual não tenho coragem de fugir, nem coragem de
trair os meus votos de fidelidade?
- Não, não a perdi. Perdi
apenas o seu corpo, mas tenho o seu amor que nunca morreu.
- Então foi uma pequena
vingança o que você me fez. Uma vida de tristezas para que eu pudesse um dia voltar
a amá-lo e querê-lo?
- Não exagere, sua vida teve
suas compensações, seus filhos dão sabor a sua vida.
- E devo-os a você ou ao meu
patrão desalmado?
- Acredito que aos dois, um
nada poderia sem o outro.
- Ah, então agora admite que
se quisesse teria mudado tudo? Que meus filhos são uma espécie de compensação?
- Quanto drama minha heroína
faz.
- Heroína?
- E não é? Todos admiram a sua
beleza, a sua maravilhosa família, o seu amor de mãe.
- E por isso me deste este
nome ridículo?
- Ridículo? Eu lhe dei este
nome porque admirava aquela outra Anita.
- Ah, sim. Você já me contou
dela, elogiando-a bastante, até demais para o meu gosto; pretendia por acaso
fazer-me uma heroína como ela?
- Ela foi uma guerreira e teve
coragem de abandonar o marido errado pelo seu grande amor.
- Mas você não me fez como
ela.
- Eu não poderia correr o
risco de perdê-la.
- Mas mesmo assim perdeu-me.
- Não, a bravura dela levou-a
a morrer em fuga junto com o seu bebê, eu não poderia perdê-la assim, e nem
também sou um Garibaldi para poder suportar tamanha dor.
- Você é um fraco.
- Sou, confesso-o, tudo por
causa do seu amor.
- E o que será de nós, e desse
amor impossível?
- Vamos vivê-lo, ainda é
tempo.
- E como trair a meus filhos?
O meu sentimento de mãe não me permite tal traição.
- Eu não peço o seu amor
fisicamente, embora ele seria para mim o bem mais doce. Quero a sua mente, a
sua paixão espiritual, quero estar em sua vida gozando o amor que nos uniu de
maneira tão pura. Quero ser a sua alegria, destruindo toda a tristeza que você
acumulou. Quero fazê-la rir de nosso próprio ridículo em não podermos enfrentar
as barreiras que nos separam.
- E você acha que isto nos
bastará?
- É provável. Você terá um
mundo onde se refugiar se este que hoje existe a incomodar. Todas as suas
exigências adormecidas do seu plano mental poderão ser realizadas, e muito mais
do que poderia imaginar. Vou levá-la para um mundo que não conhece e deixá-la
flutuando em emoções novas. Sua alma será minha única meta.
- Minha alma sempre foi sua.
- Mas estava distante de mim. Vou
estar presente em sua vida a todo instante, seu corpo será um zumbi sem vida
própria, pois sua alma estará presa a minha.
- Há muito tempo você me
transformou neste zumbi que age só segundo a vontade alheia.
- Anita, não fui eu que a fiz
assim, foi a vida. Vamos seguir juntos, vamos preparar uma nova vida. Quem sabe
eu saberei criar um novo romance em que eu possa ser para você o amor que não
fui neste?
2
- Você me chamou?
- Chamei, Anita, quero estar
com você, passear pelos seus cabelos.
- E como você vai fazer isso?
- Como? Ouvindo a sua voz sou
capaz de fazer o impossível.
- Até chegar aqui onde estou?
- E onde você está?
- Estou no quintal olhando as
folhas das árvores balançando, pensando na vida e na tristeza que você me fez.
- Ainda não estou perdoado?
- Está, mas o que faço da
minha vontade de estar com você?
- Talvez você devesse escrever
uma história, e nessa história você nos faria viver tudo o que você sonhou.
- Que confusão seria, uma
personagem criar uma história, transformar o autor em personagem. Surgiriam
muitos conflitos, não?
- Pelo menos eu saberia tudo o
que você faria de mim.
- Ora, você sabe tudo de mim,
o que mais precisa?
- Nem tudo, você foi uma
personagem muito rebelde que criou suas próprias asas.
- Que nada, isso é só uma
mentira que você inventou para fugir do que você fez comigo.
- Bom, não vamos começar de
novo essa briga, quero passar uma tarde agradável com você.
- É difícil esquecer de tudo.
- Veja, meu amor...
- Meu amor? Não estou acostumada
a ouvir isso, acho que nem sei o que significa.
- Como? Você nunca o ouviu chamá-la
“meu amor”?
- Não, nunca fui o seu amor,
só mais uma no seu harém, e por causa dessa profusão de galinhas causei
cenas horríveis.
- Bom, eu sei, fui eu quem
escreveu as cenas, não?
- E por que você fez assim?
Causei mal para meus filhos.
- Você não, o seu descontrole era
normal, ele fez o mal.
- Mas não devia...
- Nós, homens, somos animais de
verdade, levados por instintos bárbaros.
- Você?... Não acredito.
- Acredite, eu também não valia
grande coisa, por isto escrevi as cenas.
- Será que era minha sina? Ha,
ha, ha.
- Pois é, eu lhe falei que eu me
felicito por não ter sido eu a fazê-la sofrer, achei alguém para fazer o papel.
Mas por toda a vida eu a procurei, não seria a falta que eu sentia o que me
levava a agir de maneira tão estúpida?
- Você é o autor, você que sabe.
- Não no meu caso; nada sei, eu
nada escrevi, eu vivi.
- Então, nunca saberemos...
- Não é bom continuar esta
conversa, eu acabo machucando-me.
- Verdade, eu também.
- Tenho horror por tudo aquilo.
- Sempre acabo chorando.
- Esqueça, meu amor.
- Ah, esse meu amor!
- O que tem?
- Não sei...
- Pelo menos eu terei o prazer
de ser o único a chamá-la assim, meu amor!
- Ai, não sei se quero ser
chamada assim, não posso ser uma amante, não quero traições.
- Não haverá traição, só terei
o seu amor, não o seu corpo. E o seu amor, ninguém o tem.
- Ah, que destino
insuportável.
- Você se saiu tão bem de
tudo, você preservou o que lhe era o mais importante, devia orgulhar-se muito
de si.
- Por quê?
- Porque você realizou a
função espiritual mais inebriante que uma mulher pode exercer, você foi mãe
abnegada, abandonada de si em benefício de seus filhos.
- Acha mesmo?
- Além de amar a menina que
você foi, vou amar sempre essa mulher maravilhosa.
- Você está exagerando nesses
elogios.
- Não acho, para que a modéstia?
- Ha, ha, ha!
- Todo o seu sofrimento já a
colocou no panteão das heroínas. E das mais belas!
- Mas estou feia, sem a graça
em que você me criou.
- Mas o amor que sinto é pela
alma dessa mãe que jamais lamentou a perda de sua graça, suportando tudo pela
alegria de ser mãe, e isto é a demonstração do mais puro amor.
- E você realmente ainda me
ama, feia e maltratada como estou?
- A alma não estraga, quando
ela está esquecida da vida basta uma palavra de amor para que ela ressurja com
toda a sua força.
- Mas não sou mais a mesma
menina que você conheceu.
- Eu olho para você e vejo os
mesmos olhos que me faziam derreter quando me fitavam. Quando sorri, vejo o
mesmo sorriso que me perdia em contemplar.
- Verdade? Será que posso acreditar
nessas palavras de alguém tão acostumado a fingir?
- Os meus olhos só veem o
retrato que tenho na mente, e este sempre será belo.
- Tenho medo, você está
trazendo-me novas emoções. Eu já não tinha esperança de deixar de ser esse
nada; você chegou, trouxe-me palavras de carinho que eu precisava tanto ouvir.
Tenho medo de que tudo seja um sonho.
- Eu posso transformar todos
os seus sonhos em realidade, preciso apenas que não se rebele contra o seu
criador, e amante apaixonado.
- Você já me jogou fora antes,
por que não o faria de novo?
- Eu estou aqui. Por que
brigar contra isto?
- Você voltou tão de repente,
ainda não tive tempo para acostumar-me.
- Ainda preciso provar o
quanto a quero?
- Preciso ouvi-lo todo o tempo
para lembrar-me que estou vivendo a minha realidade possível.
- Pois eu digo a todo
instante, só não ouço o mesmo de você.
- Você sabe.
- Eu sei? E por que é tão
reticente em dizê-lo?
- Eu dou voltas para dizê-lo,
mas você entende.
- Entender até posso, mas
queria ver essa boca liberar-se e não fugir ao que me pode causar prazer.
- Você sabe tudo que acontece
em mim, mas eu não sei de você.
- Por isso eu sempre lhe
confesso o meu amor, e fico preso nos seus lábios para tirar deles as migalhas
que posso. E o seu pudor me comove.
- Ha, ha, ha!
- É sério,sua mente continuou
virgem.
- Sou nada.
- Acho que sim, até hoje não ouvi
nenhuma palavra que não revelasse o enorme pudor que ainda tem.
- Não sou santa.
- Não, mas deve estar bem
próxima.
- Ha, ha, ha!
- É estranho, não é? São as mais
puras as que mais sofrem com as traições, pois as outras partem para a
vingança. O que fazia para aplacar a sua raiva?
- O tempo, acho...
- O que eu acho mais difícil no
ato de escrever é penetrar no aspecto psicológico das personagens, por isso
fico estudando-a para poder aprender mais. Preciso que me fale mais de você.
- Sou bravíssima, seriíssima.
- Mentira, você até disse que era
a palhaça na escola, mas estou duvidando.
- Você está de sacanagem comigo,
não é?
- Eu? Só estou fazendo exercícios
para entender uma mente bipolar.
- Ha, ha, ha!
- É um pêndulo, vai lá no alto,
e, de repente, uma queda bruta.
- Para me proteger mesmo.
- E depois ainda acha ruim de ser
comparada a uma virgem.
- Verdade, confesso. Eu menti,
sou uma santinha.
- Eu gostaria de poder ver o seu
rosto agora, queria ver se consigo acender a chama que eu quero ver nele.
- Tenho só pensamentos puros.
Gostou dessa mulher?
- Não tem importância, boba, não
ligo para o resto, adoro-a.
- Mas esta não sou eu, sou
normal.
- Então, mostre-me essa mulher
que eu não conheço.
- Ah, não!
- E o que é ser normal? Eu acho
que não sou normal.
- Cheia de sonhos, e desejos como
todo mundo.
- Compre uma paleta de aquarela,
pinte os seus sonhos e mande para mim.
- Ah, menino...
- Prometo que vou fazer o
possível para realizá-los todos; os sonhos são mais difíceis, mas os desejos
não.
- Ha, ha, ha!
- Não me cortou dessa vez.
- Perdi a voz.
- Agora estou curioso, vamos
desvendar o mistério dessa mulher: que será que passa nos sonhos dela?
- Depois conto.
- Não deixe para amanhã o que
pode fazer hoje.
- Deixo-o a imaginar.
- Aí eu vou exagerar e depois
você vai ficar envergonhada.
- Imagine, mas não me conte.
- Isto é covardia... ou pudor?
- Estou ficando nervosa. Vou
embora.
- Por que nervosa?
- Sei lá, você está chegando
perto.
- Ah, deixa disso, se eu pudesse
você seria levada a lugares nunca imaginados, e que não iria querer deixar
nunca.
- Brincadeira, não estou nervosa.
- Mas não posso, e só posso
brincar para ver se consigo deixá-la feliz, que é o que eu quero.
- Sei. Estou feliz.
- Isso é algo que tenho muito em
mim, quero senti-la alegre e feliz, não quero pensar em você sentindo tristezas
como as que já teve.
- Ah sim.
- Você já percebeu que eu gosto
muito de você?
- Você me criou para você desde
sempre.
- Ah, só isso, como uma
obrigação?
- Não, também gosto, mas tenho medo.
- Por quê?
- Tenho medo do futuro, meus
filhos crescidos foram viver suas vidas, estou só.
- E o seu marido?
- É apenas um dever que tenho
que cumprir, nada me traz que possa dar-me algum prazer.
- Estarei sempre a seu lado,
por todo o correr desta história.
- Prefiro entrar no seu próximo
romance, se você cumprir o que me prometeu.
- Esteja certa, estaremos
juntos.
- Então, por que não abreviar
este?
- Você quer realmente isso?
Deixar de ser?
- Não quero esperar mais nessa
vida vazia, eu o quero comigo.
- E nada mais importa?
- Nada mais, só quero o seu
amor, e tudo só depende da sua vontade.
- Está bem, até logo, meu
amor.
3
- Ha, ha, ha!
- O que é isso agora?
- Uma sonora gargalhada.
- E por quê?
- Pela sua imbecilidade.
- Como?
- Então você achou mesmo que
eu ia cair nas suas palavras doces, cheias de mel, e que só querem levar-me à
loucura?
- Não a estou entendendo,
ontem você estava dizendo-me que eu estava causando-lhe tanto bem, e agora...
- Não sou eu a bipolar? Pois
esta é a face que mais gosto. Eu apenas brinquei com sua ingenuidade todo o
tempo.
- Não pode ser, minha
personagem não poderia ter essa mente malévola. Criei-a envolta em mistério,
lavrada em beleza e pudor.
- Pois foi você mesmo que
disse que eu criei vida própria.
- Por que não mereci eu a
mesma benevolência dada pela deusa a Pigmalião?
- Talvez pelo limo que corroeu
a pele de pedra.
- E onde foi buscar as
ferramentas que puderam moldar tanta aleivosia?
- Você mesmo me deu, lembra-se
o quanto me fez instável?
- Ah, o peixinho da esquerda
desceu ao mundo escuro do meu inconsciente.
- Sim, e permanece lá a maior
parte do tempo; o outro, quando vê a luz, tem medo dela.
- E as águas desse oceano
estão tão turvas que é capaz de maltratar a quem só queria levá-la para a luz?
Tirando-a dessa sua vida inodora?
- Estou acostumada com ela, é
o luxo que eu me dei.
- Realmente, e perdeu o senso
da beleza. Estou perplexo, como achou dentro de mim esses punhais?
- Vasculhei bem fundo, e achei
muito mais.
- Achei que o tempo houvesse
eliminado tudo, mas vejo que foi apenas uma ilusão do meu ego, um pequeno
pedaço foi suficiente para inchá-lo?
- Pedaço? Não, engano cego o
seu, achei-o bem crescidinho.
- E capaz de provocar um
suicídio?
- Não, você não seria capaz.
Sua potência é apenas para sofrer a destruição de um amor que nunca pôde ser.
- Estou decepcionado, estava
começando a escrever a nossa nova história, e agora?
- Você é quem sabe, se quiser
levá-la à frente, leve.
- Não, não poderia. Foi a
segunda vez que você me machucou, não suportaria uma terceira, que fatalmente
virá, e seria mortal.
- Você pode pôr um fim nesta
história, e esquecer tudo.
- Não poderia simplesmente
terminá-la neste ponto.
- Quer continuar a sofrer por
este amor impossível?
- Não, a solução será
realmente um suicídio, um suicídio parcial.
- Não entendi...
- Volto no tempo, crio um
personagem que sempre esteve perto de sua sombra, apaixonado sem esperança.
- Assim como você mesmo?
- Suprema ironia sua; talvez,
mas não ia querer eu mesmo manchar minhas mãos.
- Quer liquidar-me
definitivamente, já não sirvo para mais nada?
- Ao contrário, as minhas
tristezas talvez me façam escrever histórias mais sérias, e você me deixará
este legado, mas vou querer apagar completamente em mim a sua memória.
- Ha, ha, ha! Será algo meio
impossível, não? Se sou parte de você...
- Por isso o suicídio parcial;
aliás, não preciso de outro personagem, poderia simplesmente acender o ciúme na
mente do seu marido.
- Ha, ha, ha! Outro feito
impossível.
- Será? E se chegar a mão dele tudo
o que escrevi para você e sobre você?
- Seria capaz de tal vingança?
- Não seria vingança, não posso
vingar-me de minhas próprias fantasias.
- Acho que o atingi seriamente,
talvez eu possa trazer à tona o outro peixinho...
- Tarde demais, não quero mais
arriscar-me. Mas não preciso destes subterfúgios, você é apenas uma página
escrita num blog. E posso gritar o seu nome:
ANITA
NITA
- Esper...
ITA
TA
A
E ponho nesta história, que não
deveria ter tido dois começos, a última palavra que jamais será escrita outra
vez:
FIM
-o-
Prece
de
nada
fui feito
e amanheci
em colo terno
Cronos irreverente
fez-me surdo ao medo
comeu as minhas entranhas
transformou matéria em saber
da cabeça do oroboro escorreguei
pelo anel de fogo da serpente
sentindo a alma reduzir-se
retraindo em dor aguda
sofrendo pelo parto
de uma memória
infinitesimal
de luz era
e agora
nada
sou
ah
chego
ao limite de
ser infinitésimo
contemplo o infinito
desfolho-me de espanto
no assombro de toda a obra
estrelas galáxias nebulosas raios
maravilha-me a extrema imponência
Senhor agora sei que amar um único ser
é a insensatez de lançar
pérola aos porcos
dai-me a vossa graça de a todos eu saber amar