sábado, 12 de agosto de 2017

Anita




Anita 

1

- Ei, há quanto tempo!
- Tanto tempo... você! Você me abandonou aqui sem utilidade!
- Isso não é verdade, eu estive preso em minhas obrigações por estes muitos anos, e o último e derradeiro ato que nos deixou tão longe partiu de você.
- Como de mim, se sou movida pela sua vontade?
- Ah, não é mesmo. Você tem autonomia para agir de acordo com o seu querer; aliás, foi uma escolha sua, como eu poderia agir contra os meus desejos, contra a maior aspiração que impulsionava a minha vida?
- Pode ser que tenha impulsionado a sua obra, não a sua vida.
- E há alguma diferença entre as duas?
- É evidente que há, você levou todos esses anos sem voltar a sua obra, deixando-me aqui desprezada num canto de sua memória. E sua vida seguiu sem que eu nela participasse nem sequer nas suas lembranças.
- Mas como pode dizer isso? Tive-a na minha memória sempre presente por todos estes anos, sua recusa aos meus carinhos foi a força que me jogou pela vida desvariado, inseguro e volúvel.
- Estive na sua lembrança? E por que fui abandonada sem vida naquele canto escuro?
- Você nunca esteve num canto escuro, eu só não sabia se devia interferir em sua vida. Lembrava-me sempre com o mesmo amor que lhe dedicara nos primeiros dias, mas sufocava tudo, pois pensava que você era feliz na vida que você mesma escolheu.
- Eu escolhi? Eu nada posso escolher sendo um produto da sua pura fantasia.
- Agora diz que você é fantasia? Quanta injustiça! Acha que todo meu amor foi realmente dedicado a uma fantasia?
- E o que mais é uma personagem?
- Você não é uma personagem que mora na ficção, você sempre viveu inteiramente no meu coração, minha paixão ficou adormecida por não saber-me aceito.
- Mas cabia a você fazer-me aceitá-lo.
- Ora, que absurdo, você tomou as suas próprias decisões!
- Mas eu não fui levada pelos meus desejos, você me criou com um caráter de abnegação.
- Era para que você superasse todos os obstáculos, que me amasse acima de todas as outras motivações, que lutasse pelo nosso amor passando por cima de tudo.
- Se fui fraca, você me tornou fraca, e deixou-me vivendo uma vida que não era minha.
- Eu supus que você poderia ser mais feliz longe do meu egoísmo, que assim eu nunca poderia machucá-la.
- Estranha motivação para quem tem o poder de modificar toda a minha cabeça.
- Mas você construiu uma vida, uma família linda, como poderia eu interferir na vida que eu supunha a enchia de alegria?
- Por que você não quis olhar no fundo do meu coração e ver que eu era tão infeliz, que eu carregava a sua memória em todos os meus atos e que minha família foi criada à força de muito sacrifício, pois fui pisada e maltratada, sujeitando-me a humilhações que mataram a mulher que eu era.
- Como poderia eu ter sabido? E como poderia saber que eu não iria maltratá-la, pisá-la e humilhá-la?
- Nunca saberá, e vai lamentar por toda a sua vida ter-me perdido.
- Eu sei, já lamentei tanto, gostaria de mudar tudo, mas tantas páginas já foram escritas.
- Rasgue tudo e comece novamente.
- Impossível, você se tornou personagem de uma história real, você teve uma vida que me excluiu.
- E agora é muito tarde realmente, tudo consolidado, e que faço deste amor que me atormenta as lembranças?
- Você tem família, um marido que precisa de sua atenção, e ao qual você está presa por tantos anos de dedicação.
- Por ele nem tanto, ele me humilhou, e tive que lutar comigo mesma para construir o que consegui.
- E você saiu-se muito bem: uma mãe admirável que tem o amor incomensurável dos seus filhos; a admiração dos amigos pela pessoa que é; e, ainda, o assédio das velhas paixões que não perderam a esperança de conquistá-la.
- Ah, velhas paixões. Paixões caducas deveria dizer.Que me importam todas as que nunca correspondi, tornaram-se apenas incômodos, só queria a sua.
- Que você sempre teve.
- Tive? Se nunca pude sentir o carinho da sua mão, como pode dizer isso? De que sou feita? Que matéria insensível usou para me criar?
- Eu a criei da mais pura seda, toda tecida pelo meu amor. Dei vida à mulher que era o meu sonho, aquela que me embalava nas paixões juvenis, que sorria para mim de dentro do seu casto coração, com a qual eu me deitava a sonhar e que nos meus sonhos fazia-me viver.
- E esqueceu-se que eu era mulher, e que não me bastava viver nos seus sonhos? Senti-me mais como uma estátua de pedra, uma vestal de um templo grego adorada depois que o tempo tornou-a valiosa. Onde andava a sua mão que nunca a senti sobre o meu corpo, corria pelos papéis em branco a encher de rabiscos páginas e páginas de sonhos?
- Essa estátua tornou-se carne e recusou a vida que eu lhe dei.
- Fiquei em cima do pedestal criando em minhas vestes de pedra o limo que me corroía. E a corrosão fez-me procurar um antídoto.
- Você não teve a paciência de esperar para que eu estivesse pronto para você, foi afoita, apressou-se a se fazer vida sem a minha participação.
- Oh, deus da minha juventude perdida, deveria eu esperar até quando para que você amadurecesse?
- Era necessário que eu me decidisse, eram dois mundos que nos separavam.
- Eu nunca poderia nada ser além de uma personagem, então você sabia a resposta.
- E se eu entrasse no seu mundo, se eu me tornasse também uma personagem, como poderíamos sobreviver?
- Da mesma forma que agora você entrou.
- Entenda, eu não tinha a técnica necessária para conseguir ser as duas pessoas ao mesmo tempo.
- E assim você optou por continuar a ser apenas o autor.
- Você está sendo má, eu já sofri tanto a sua perda, não me machuque mais.
- Foi você que me machucou, deixando-me à deriva preso a um marido que conspurcou todo o amor que eu trazia em meu coração, criado por você e para você.
- Eu não queria que você se casasse, eu sabia que seu casamento se tornaria a escravidão do seu amor.
- Mas deixou-me seguir destino tão cruel, escrava de um marido insensível que me queria apenas um troféu para exibir a sua superioridade perante o mundo, tornando-me apenas uma a mais de sua coleção.
- Escrava? Seria o caso de usar palavra tão dura?
- E o que mais sou? Sujeita aos caprichos dele que me quer apenas quando está cansado bastante para se levantar e buscar cama alheia?
- Eu não o poderia supor. Quando a vi namorando-o, não gostei, mas calei-me porque achei que poderia ser apenas efeito dos meus ciúmes, que você deveria saber o que fazia, que sua escolha era boa, e que apenas eu usava das minhas razões masculinas para desprezar o outro.
- Mas ele era também um personagem seu, você o criou assim.
- Quando foi criado, a sua personalidade estava definida, nada poderia mais alterá-la.
- Palavras falsas, como as que você está acostumado a usar nas suas histórias. Que você fosse incoerente com a lógica e criasse um acontecimento fortuito, um deus ex-machina, e me desse um marido que fosse fiel ao meu amor.
- E perdê-la para sempre?
- E não me perdeu? Escravizada neste casamento infeliz do qual não tenho coragem de fugir, nem coragem de trair os meus votos de fidelidade?
- Não, não a perdi. Perdi apenas o seu corpo, mas tenho o seu amor que nunca morreu.
- Então foi uma pequena vingança o que você me fez. Uma vida de tristezas para que eu pudesse um dia voltar a amá-lo e querê-lo?
- Não exagere, sua vida teve suas compensações, seus filhos dão sabor a sua vida.
- E devo-os a você ou ao meu patrão desalmado?
- Acredito que aos dois, um nada poderia sem o outro.
- Ah, então agora admite que se quisesse teria mudado tudo? Que meus filhos são uma espécie de compensação?
- Quanto drama minha heroína faz.
- Heroína?
- E não é? Todos admiram a sua beleza, a sua maravilhosa família, o seu amor de mãe.
- E por isso me deste este nome ridículo?
- Ridículo? Eu lhe dei este nome porque admirava aquela outra Anita.
- Ah, sim. Você já me contou dela, elogiando-a bastante, até demais para o meu gosto; pretendia por acaso fazer-me uma heroína como ela?
- Ela foi uma guerreira e teve coragem de abandonar o marido errado pelo seu grande amor.
- Mas você não me fez como ela.
- Eu não poderia correr o risco de perdê-la.
- Mas mesmo assim perdeu-me.
- Não, a bravura dela levou-a a morrer em fuga junto com o seu bebê, eu não poderia perdê-la assim, e nem também sou um Garibaldi para poder suportar tamanha dor.
- Você é um fraco.
- Sou, confesso-o, tudo por causa do seu amor.
- E o que será de nós, e desse amor impossível?
- Vamos vivê-lo, ainda é tempo.
- E como trair a meus filhos? O meu sentimento de mãe não me permite tal traição.
- Eu não peço o seu amor fisicamente, embora ele seria para mim o bem mais doce. Quero a sua mente, a sua paixão espiritual, quero estar em sua vida gozando o amor que nos uniu de maneira tão pura. Quero ser a sua alegria, destruindo toda a tristeza que você acumulou. Quero fazê-la rir de nosso próprio ridículo em não podermos enfrentar as barreiras que nos separam.
- E você acha que isto nos bastará?
- É provável. Você terá um mundo onde se refugiar se este que hoje existe a incomodar. Todas as suas exigências adormecidas do seu plano mental poderão ser realizadas, e muito mais do que poderia imaginar. Vou levá-la para um mundo que não conhece e deixá-la flutuando em emoções novas. Sua alma será minha única meta.
- Minha alma sempre foi sua.
- Mas estava distante de mim. Vou estar presente em sua vida a todo instante, seu corpo será um zumbi sem vida própria, pois sua alma estará presa a minha.
- Há muito tempo você me transformou neste zumbi que age só segundo a vontade alheia.
- Anita, não fui eu que a fiz assim, foi a vida. Vamos seguir juntos, vamos preparar uma nova vida. Quem sabe eu saberei criar um novo romance em que eu possa ser para você o amor que não fui neste?




2

- Você me chamou?
- Chamei, Anita, quero estar com você, passear pelos seus cabelos.
- E como você vai fazer isso?
- Como? Ouvindo a sua voz sou capaz de fazer o impossível.
- Até chegar aqui onde estou?
- E onde você está?
- Estou no quintal olhando as folhas das árvores balançando, pensando na vida e na tristeza que você me fez.
- Ainda não estou perdoado?
- Está, mas o que faço da minha vontade de estar com você?
- Talvez você devesse escrever uma história, e nessa história você nos faria viver tudo o que você sonhou.
- Que confusão seria, uma personagem criar uma história, transformar o autor em personagem. Surgiriam muitos conflitos, não?
- Pelo menos eu saberia tudo o que você faria de mim.
- Ora, você sabe tudo de mim, o que mais precisa?
- Nem tudo, você foi uma personagem muito rebelde que criou suas próprias asas.
- Que nada, isso é só uma mentira que você inventou para fugir do que você fez comigo.
- Bom, não vamos começar de novo essa briga, quero passar uma tarde agradável com você.
- É difícil esquecer de tudo.
- Veja, meu amor...
- Meu amor? Não estou acostumada a ouvir isso, acho que nem sei o que significa.
- Como? Você nunca o ouviu chamá-la “meu amor”?
- Não, nunca fui o seu amor, só mais uma no seu harém, e por causa dessa profusão de galinhas causei cenas horríveis.
- Bom, eu sei, fui eu quem escreveu as cenas, não?
- E por que você fez assim? Causei mal para meus filhos.
- Você não, o seu descontrole era normal, ele fez o mal.
- Mas não devia...
- Nós, homens, somos animais de verdade, levados por instintos bárbaros.
- Você?... Não acredito.
- Acredite, eu também não valia grande coisa, por isto escrevi as cenas.
- Será que era minha sina? Ha, ha, ha.
- Pois é, eu lhe falei que eu me felicito por não ter sido eu a fazê-la sofrer, achei alguém para fazer o papel. Mas por toda a vida eu a procurei, não seria a falta que eu sentia o que me levava a agir de maneira tão estúpida?
- Você é o autor, você que sabe.
- Não no meu caso; nada sei, eu nada escrevi, eu vivi.
- Então, nunca saberemos...
- Não é bom continuar esta conversa, eu acabo machucando-me.
- Verdade, eu também.
- Tenho horror por tudo aquilo.
- Sempre acabo chorando.
- Esqueça, meu amor.
- Ah, esse meu amor!
- O que tem?
- Não sei...
- Pelo menos eu terei o prazer de ser o único a chamá-la assim, meu amor!
- Ai, não sei se quero ser chamada assim, não posso ser uma amante, não quero traições.
- Não haverá traição, só terei o seu amor, não o seu corpo. E o seu amor, ninguém o tem.
- Ah, que destino insuportável.
- Você se saiu tão bem de tudo, você preservou o que lhe era o mais importante, devia orgulhar-se muito de si.
- Por quê?
- Porque você realizou a função espiritual mais inebriante que uma mulher pode exercer, você foi mãe abnegada, abandonada de si em benefício de seus filhos.
- Acha mesmo?
- Além de amar a menina que você foi, vou amar sempre essa mulher maravilhosa.
- Você está exagerando nesses elogios.
- Não acho, para que a modéstia?
- Ha, ha, ha!
- Todo o seu sofrimento já a colocou no panteão das heroínas. E das mais belas!
- Mas estou feia, sem a graça em que você me criou.
- Mas o amor que sinto é pela alma dessa mãe que jamais lamentou a perda de sua graça, suportando tudo pela alegria de ser mãe, e isto é a demonstração do mais puro amor.
- E você realmente ainda me ama, feia e maltratada como estou?
- A alma não estraga, quando ela está esquecida da vida basta uma palavra de amor para que ela ressurja com toda a sua força.
- Mas não sou mais a mesma menina que você conheceu.
- Eu olho para você e vejo os mesmos olhos que me faziam derreter quando me fitavam. Quando sorri, vejo o mesmo sorriso que me perdia em contemplar.
- Verdade? Será que posso acreditar nessas palavras de alguém tão acostumado a fingir?
- Os meus olhos só veem o retrato que tenho na mente, e este sempre será belo.
- Tenho medo, você está trazendo-me novas emoções. Eu já não tinha esperança de deixar de ser esse nada; você chegou, trouxe-me palavras de carinho que eu precisava tanto ouvir. Tenho medo de que tudo seja um sonho.
- Eu posso transformar todos os seus sonhos em realidade, preciso apenas que não se rebele contra o seu criador, e amante apaixonado.
- Você já me jogou fora antes, por que não o faria de novo?
- Eu estou aqui. Por que brigar contra isto?
- Você voltou tão de repente, ainda não tive tempo para acostumar-me.
- Ainda preciso provar o quanto a quero?
- Preciso ouvi-lo todo o tempo para lembrar-me que estou vivendo a minha realidade possível.
- Pois eu digo a todo instante, só não ouço o mesmo de você.
- Você sabe.
- Eu sei? E por que é tão reticente em dizê-lo?
- Eu dou voltas para dizê-lo, mas você entende.
- Entender até posso, mas queria ver essa boca liberar-se e não fugir ao que me pode causar prazer.
- Você sabe tudo que acontece em mim, mas eu não sei de você.
- Por isso eu sempre lhe confesso o meu amor, e fico preso nos seus lábios para tirar deles as migalhas que posso. E o seu pudor me comove.
- Ha, ha, ha!
- É sério,sua mente continuou virgem.
- Sou nada.
- Acho que sim, até hoje não ouvi nenhuma palavra que não revelasse o enorme pudor que ainda tem.
- Não sou santa.
- Não, mas deve estar bem próxima.
- Ha, ha, ha!
- É estranho, não é? São as mais puras as que mais sofrem com as traições, pois as outras partem para a vingança. O que fazia para aplacar a sua raiva?
- O tempo, acho...
- O que eu acho mais difícil no ato de escrever é penetrar no aspecto psicológico das personagens, por isso fico estudando-a para poder aprender mais. Preciso que me fale mais de você.
- Sou bravíssima, seriíssima.
- Mentira, você até disse que era a palhaça na escola, mas estou duvidando.
- Você está de sacanagem comigo, não é?
- Eu? Só estou fazendo exercícios para entender uma mente bipolar.
- Ha, ha, ha!
- É um pêndulo, vai lá no alto, e, de repente, uma queda bruta.
- Para me proteger mesmo.
- E depois ainda acha ruim de ser comparada a uma virgem.
- Verdade, confesso. Eu menti, sou uma santinha.
- Eu gostaria de poder ver o seu rosto agora, queria ver se consigo acender a chama que eu quero ver nele.
- Tenho só pensamentos puros. Gostou dessa mulher?
- Não tem importância, boba, não ligo para o resto, adoro-a.
- Mas esta não sou eu, sou normal.
- Então, mostre-me essa mulher que eu não conheço.
- Ah, não!
- E o que é ser normal? Eu acho que não sou normal.
- Cheia de sonhos, e desejos como todo mundo.
- Compre uma paleta de aquarela, pinte os seus sonhos e mande para mim.
- Ah, menino...
- Prometo que vou fazer o possível para realizá-los todos; os sonhos são mais difíceis, mas os desejos não.
- Ha, ha, ha!
- Não me cortou dessa vez.
- Perdi a voz.
- Agora estou curioso, vamos desvendar o mistério dessa mulher: que será que passa nos sonhos dela?
- Depois conto.
- Não deixe para amanhã o que pode fazer hoje.
- Deixo-o a imaginar.
- Aí eu vou exagerar e depois você vai ficar envergonhada.
- Imagine, mas não me conte.
- Isto é covardia... ou pudor?
- Estou ficando nervosa. Vou embora.
- Por que nervosa?
- Sei lá, você está chegando perto.
- Ah, deixa disso, se eu pudesse você seria levada a lugares nunca imaginados, e que não iria querer deixar nunca.
- Brincadeira, não estou nervosa.
- Mas não posso, e só posso brincar para ver se consigo deixá-la feliz, que é o que eu quero.
- Sei. Estou feliz.
- Isso é algo que tenho muito em mim, quero senti-la alegre e feliz, não quero pensar em você sentindo tristezas como as que já teve.
- Ah sim.
- Você já percebeu que eu gosto muito de você?
- Você me criou para você desde sempre.
- Ah, só isso, como uma obrigação?
- Não, também gosto, mas tenho medo.
- Por quê?
- Tenho medo do futuro, meus filhos crescidos foram viver suas vidas, estou só.
- E o seu marido?
- É apenas um dever que tenho que cumprir, nada me traz que possa dar-me algum prazer.
- Estarei sempre a seu lado, por todo o correr desta história.
- Prefiro entrar no seu próximo romance, se você cumprir o que me prometeu.
- Esteja certa, estaremos juntos.
- Então, por que não abreviar este?
- Você quer realmente isso? Deixar de ser?
- Não quero esperar mais nessa vida vazia, eu o quero comigo.
- E nada mais importa?
- Nada mais, só quero o seu amor, e tudo só depende da sua vontade.
- Está bem, até logo, meu amor.


3


- Ha, ha, ha!
- O que é isso agora?
- Uma sonora gargalhada.
- E por quê?
- Pela sua imbecilidade.
- Como?
- Então você achou mesmo que eu ia cair nas suas palavras doces, cheias de mel, e que só querem levar-me à loucura?
- Não a estou entendendo, ontem você estava dizendo-me que eu estava causando-lhe tanto bem, e agora...
- Não sou eu a bipolar? Pois esta é a face que mais gosto. Eu apenas brinquei com sua ingenuidade todo o tempo.
- Não pode ser, minha personagem não poderia ter essa mente malévola. Criei-a envolta em mistério, lavrada em beleza e pudor.
- Pois foi você mesmo que disse que eu criei vida própria.
- Por que não mereci eu a mesma benevolência dada pela deusa a Pigmalião?
- Talvez pelo limo que corroeu a pele de pedra.
- E onde foi buscar as ferramentas que puderam moldar tanta aleivosia?
- Você mesmo me deu, lembra-se o quanto me fez instável?
- Ah, o peixinho da esquerda desceu ao mundo escuro do meu inconsciente.
- Sim, e permanece lá a maior parte do tempo; o outro, quando vê a luz, tem medo dela.
- E as águas desse oceano estão tão turvas que é capaz de maltratar a quem só queria levá-la para a luz? Tirando-a dessa sua vida inodora?
- Estou acostumada com ela, é o luxo que eu me dei.
- Realmente, e perdeu o senso da beleza. Estou perplexo, como achou dentro de mim esses punhais?
- Vasculhei bem fundo, e achei muito mais.
- Achei que o tempo houvesse eliminado tudo, mas vejo que foi apenas uma ilusão do meu ego, um pequeno pedaço foi suficiente para inchá-lo?
- Pedaço? Não, engano cego o seu, achei-o bem crescidinho.
- E capaz de provocar um suicídio?
- Não, você não seria capaz. Sua potência é apenas para sofrer a destruição de um amor que nunca pôde ser.
- Estou decepcionado, estava começando a escrever a nossa nova história, e agora?
- Você é quem sabe, se quiser levá-la à frente, leve.
- Não, não poderia. Foi a segunda vez que você me machucou, não suportaria uma terceira, que fatalmente virá, e seria mortal.
- Você pode pôr um fim nesta história, e esquecer tudo.
- Não poderia simplesmente terminá-la neste ponto.
- Quer continuar a sofrer por este amor impossível?
- Não, a solução será realmente um suicídio, um suicídio parcial.
- Não entendi...
- Volto no tempo, crio um personagem que sempre esteve perto de sua sombra, apaixonado sem esperança.
- Assim como você mesmo?
- Suprema ironia sua; talvez, mas não ia querer eu mesmo manchar minhas mãos.
- Quer liquidar-me definitivamente, já não sirvo para mais nada?
- Ao contrário, as minhas tristezas talvez me façam escrever histórias mais sérias, e você me deixará este legado, mas vou querer apagar completamente em mim a sua memória.
- Ha, ha, ha! Será algo meio impossível, não? Se sou parte de você...
- Por isso o suicídio parcial; aliás, não preciso de outro personagem, poderia simplesmente acender o ciúme na mente do seu marido.
- Ha, ha, ha! Outro feito impossível.
- Será? E se chegar a mão dele tudo o que escrevi para você e sobre você?
- Seria capaz de tal vingança?
- Não seria vingança, não posso vingar-me de minhas próprias fantasias.
- Acho que o atingi seriamente, talvez eu possa trazer à tona o outro peixinho...
- Tarde demais, não quero mais arriscar-me. Mas não preciso destes subterfúgios, você é apenas uma página escrita num blog. E posso gritar o seu nome:
ANITA
NITA
- Esper...
ITA
TA
A
E ponho nesta história, que não deveria ter tido dois começos, a última palavra que jamais será escrita outra vez:
FIM


-o-

Prece

de
nada
fui feito
e amanheci
em colo terno
Cronos irreverente
fez-me surdo ao medo
comeu as minhas entranhas
transformou matéria em saber
da cabeça do oroboro escorreguei
pelo anel de fogo da serpente
sentindo a alma reduzir-se
retraindo em dor aguda
sofrendo pelo parto
de uma memória
infinitesimal
de luz era
e agora
nada
sou



ah
chego
ao limite de
ser infinitésimo
contemplo o infinito
desfolho-me de espanto
no assombro de toda a obra
estrelas galáxias nebulosas raios
maravilha-me a extrema imponência
Senhor agora sei que amar um único ser
é a insensatez de  lançar pérola aos porcos
dai-me a vossa graça de a todos eu saber amar