sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Panta rhei



Panta rhei




– Bom dia, Dona Menina.


– Meu Jesus Cristinho, num acredito. O senhor por cá no meu mocambo.

– Com toda a carga que carrego pelas estradas.

– Minha Virge Santíssima, nem sei o que faço. Mas entra, entra.

– Não precisa exagerar tanto, Dona Menina, é uma visita de pura cortesia. Como a senhora tem-me muito ajudado com as minhas histórias, quis retribuir, e vir até aqui para um dedinho de prosa, e também para contar-lhe uma.

– Mas é uma honra deveras inusitada. Maria Santíssima, pudera imaginar que um dia teria visita do senhor. Tô abobada.

– Ora, é natural, Dona Menina, somos tão chegados um ao outro.

– E o senhor inda fica mangando de euzinha, é Deus no céu e o senhor no meu coração.

– Acho que ficaria melhor a senhora dizer: na minha cachola.

– Ah, pois antão, na minha cachola, na minha boca, no meu tudo. Vem. Vamos sentar aqui pra eu poder apreciar melhor o senhor contar essa tal história, já tô mais curiosa que menino descobrindo o fogo.

– Sentemos então, a senhora bem aqui pertinho de mim. Espero que seu velho não seja muito ciumento.

– Ah, num caçoa de nós, o senhor conhece bem meu velho.

– Senhora Dona Menina...

– Chiii, num gostei deste jeito de me chamar, o senhor só fala assim quando o assunto é de coisa sisuda, empertigada.

– Mas vamos parar com isso de senhor, não fica bem.

– E como havera eu de chamar meu santo guia?

– Ara, Dona Menina, somos tão íntimos, use mesmo você, afinal a senhora tem idade para ser minha mãe.

– E ainda faz chiste.

– Pois é, Dona menina, eu queria contar essa história para a senhora só para ver se a tristeza ficaria menos triste.

– Meu Bom Jesus Cristinho, que será que tem nesse angu?

– Bom, a senhora já ouviu falar de um moço lá da Grécia antiga que dizia que tudo estava em movimento, não?

– Ah, sei, você tá falando daquele gajo que dizia que num podemos banhar duas vezes no mesmo rio.

– Esse aí, o Heráclito.

– E o que tem o distinto?

– É que eu fiquei pensando em como a gente nem sabe que conhece alguém, quando a gente acha uma coisa, tudo vira e mostra que uma coisa na realidade é outra coisa.

– Ai, que modo de fala mais insuspeita prum homem tão letrado, isso parece até que fui eu falando.

– Parece mesmo, né? É porque estou confuso. A senhora sabe, Heráclito foi de grande relevo para o pensamento, sua filosofia pode ser resumida no aforismo grego panta rhei, que traduzido para nossa língua diz que “tudo flui”.

– É próprio mesmo. Nesse trem aí que o senhor falou do alguém, é mesmo assim, os miúdos crescem e aprendem muito, mas os adultos também mudam de casca que nem víbora.

– É isso, Dona Menina, as águas passam e nunca mais serão as mesmas, e nem mesmo nós seríamos mais os mesmos.

– Eu, nestes vastos anos, já mudei tanta casca, que mais parece que é uma enxurrada que me banha.

– A Senhora Dona Menina está lembrando-me a Alice. Lembra das muitas mudanças dela? O tempo passa e quando percebemos parece que nossa vida foi comida por um vento misterioso. É como na história de Lewis Carroll: o abanar do leque faz a Alice encolher de repente, e em nós o vento faz o tempo desaparecer e não poderemos jogar o leque fora.

– E o senhor tempo vai comendo e mudando a gente, né?

– Muito... Mas vamos lá, vamos a essa história de muitas mudanças.

– Estou numa tremenda satisfação, assim eu aprecio mais sobre isso de panta rhei.

– Certo dia, bem cedo, estava preparando-me para ir trabalhar e a campainha tocou. Era minha irmã que chegava trazendo um jornal do dia, excitada para mostrar-me a manchete do tabloide que dizia: “Dentista mata a esposa e suicida-se”.

– Virge, que horror!

– Trágico, muito trágico, bem nos moldes daquelas tragédias dos gregos antigos. E, mostrando-me a manchete, minha irmã completou: “adivinha quem?”. Como eu não podia ter a menor noção de quem se tratava, fui ler o artigo, somente para ficar chocado ao descobrir.

– Eles eram gente do seu trato?

– E muito! O choque me lançou em lembranças. Voltei na minha infância quando tínhamos por vizinho um casal bastante querido por todos. Para nós, meninos ávidos por aventuras, o marido era uma espécie de herói, queríamos todos ser como ele.

– E por causa de quê vocês queriam?

– Morávamos na casa ao lado da dele e nossos quintais eram separados apenas por uma cerca de bambu. Ele tinha belos cães perdigueiros e até podíamos brincar com eles.

– Unh, aqueles cachorros são mesmo danados de bonitos!

– Aos domingos, fazíamos questão de acompanhar os seus preparativos para as caçadas. Admirávamos as suas botas e roupas de caçador, tudo em couro, e as suas espingardas, o que atiçava nossa imaginação de meninos leitores de Jim das Selvas. Ele saía garboso com as espingardas e depositava-as no interior de seu carro, que nos arrancava ainda mais suspiros de admiração.

– Era bonito o carro?

– Muito, Dona Menina, muito mesmo! Era um carro americano possante com paralamas pintados em marrom e lataria bege. Depois ele abria o portão do quintal de sua casa e chamava os seus cães. E lá vinham os três manchados de marrom e de preto e entravam no carro, excitados pelas corridas que fariam pelos pastos; partiam para as suas caçadas deixando-nos apenas a sonhar com os lugares aonde iriam e com as aventuras.

– E que raça de bicho era que ele caçava?

– Aves. Quando voltava sempre trazia um embornal com narcejas e marrecos. A gente de tudo fazia para vê-lo chegar, íamos atrás dele para ganhar alguma ave, pois ele não preservava nenhuma para si, presenteava-as todas aos vizinhos. Fazíamos muita festa quando ganhávamos um marreco, pois as narcejas eram muito pobres de carne, muito magrelas.

– Então vocês deviam de gostar muito dele.

– E não só dele. Sua esposa era uma grande pianista e a propulsora da arte da música na cidade. Como morávamos ao lado de sua casa, ouvíamos sempre belas melodias saídas de seu piano. Além disso ela mantinha um coral que fazia apresentações regulares na cidade. Éramos privilegiados em acompanhar os ensaios, que aconteciam ali mesmo na sua casa, e o Funiculi, Funicula deixava-nos assombrados, a gente ria muito ouvindo aquela música engraçada.

– Que esquisitice maluca é essa coisa?

– É uma música italiana. Na época não tínhamos a menor ideia do que significava e nem do que falava, e isto aumentava as nossas brincadeiras com a música. Ela canta sobre o primeiro bonde, funicolare em italiano, que subiu o Monte Vesúvio.

– Uai, e esse monte não é deveras um vulcão? Eu li na enciclopédia que ele soterrou as cidades de Pompeia 
e Herculano. Num é perigoso subir lá?

– Até que é, Dona Menina, mas atualmente ele está quietinho e os cientistas estudam os sinais para prever novas erupções e poder evacuar as pessoas ameaçadas. E foi através dessa e de outras músicas, naqueles ensaios, que tivemos nossa introdução à música erudita. Assim, em nossa infância, esse casal era muito querido; além disso, ele era nosso primo.

– E que águas lavaram essa distinção?

– Muitas águas passaram, e o panta rhei estava em ação. Durante a minha adolescência o nosso herói foi também o meu dentista. Ele queria que eu arrancasse os meus dentes sisos, dizia que não havia espaço para eles, prazer que nunca lhe concedi. Brincávamos entre nós, primos, que aquilo era o hobby dele, gozar dos pobres moleques apavorados para colocar os dentes na sua coleção.

– Virge, colecionar dentes pra modo de que seria?

– Não sei, Dona Menina, era só uma brincadeira nossa. Mas aí eu fui embora de minha terra para estudar e trabalhar, enquanto isso ele se tornara muito importante na política da cidade, sendo um elogiado administrador do município. A partir daí poucas notícias tive dele até aquela fatalidade.

– Puxa! Você deve ter ficado muito triste.

– Muito, pois o relato do que acontecera dentro das paredes daquele belo sobrado, onde então eles moravam, eram chocantes. Tempos depois, um médico amigo psiquiatra, que conhecera aquele casal, interpretou para mim que o caráter passional da nossa família era muito acentuado; isto dizia referindo-se as minhas próprias motivações. E adiantou a sua interpretação dizendo que o nosso primo fora tão apaixonado pela esposa, que não suportara a ideia da separação, pedida por ela, o que ocasionou toda a tragédia.

– E você acha que foi assim desse modo mesmo que as coisas se sucederam?

– Eu relatei essa conversa a alguém que o conheceu de longa data, e este olhou-me de maneira estranha e destruiu ainda mais minhas recordações de um herói, pois ele rebateu dizendo que não era nada daquilo, que o motivo real fora que meu ex-herói era muito sovina, que não pôde aceitar a ideia de dividir os bens que tinha.

– Tô bem inteirada agora desse panta rhei.

– Bem, talvez tenha mudado apenas a imagem que fazíamos dele, mas, de qualquer maneira, tudo fluíra e mudara. O mundo nos muda a cada instante, e, por reação, nós mudamos o mundo a nossa volta.

– E o seu herói era na verdade uma espiga chocha, só palha.

– Pelo menos tinha os pés de barro, mas como podemos saber, Dona Menina, a matéria real de que somos feitos? As verdades sobre o que aconteceu com aquele casal morreram com ele e outras verdades foram levadas pelas bocas que talvez nada soubessem.

– Estava matutando eu na minha pobre ignorância, mas tem uma anedota que é contada sobre o que no fim aconteceu com o moço do livro, o Heráclito.

– Não me lembro, o que aconteceu?

– Diz-se que ele adoeceu e um curandeiro disse pra ele afundar-se no estrume, enterrar-se todo nos estercos, pra modo que o calor cuidasse de secar o excesso de água do seu corpo, que esta era sua doença. E aí que foi que ele se estrepou, foi um baita fracasso, pois que ele morreu, e dizem até que seu corpo não pôde ser retirado e que ficou pra sempre mergulhado na merda.

– Muito engraçado, Dona Menina, panta rhei também nesse sábio filósofo, que trágica mudança.

– E pra mim também, que sou apenas um personagem seu, e que bem vivo ao sabor do seu humor.

– Ara, Dona Menina.



-o-



                          eu estou
                           tu estás
                       não não está

                              est
               arei          ou          ive

       estar não pode falar no presente
       estar não pode calar no presente
       estar não pode estar no presente

e                                n                               e
   s                                                             s
         t                        ã                        t
              o                                      o
                      u          o          u


e                                n                               e
   s                                                             s
         t                        ã                        t
              o                                      o
                      u          o          u


      a clepsidra rouba a água do tempo
          a ampulheta empulha o agora
               estar não se pode agora
                   estar sem ser agora
                      não estar agora
                          não agora
                               estar
                                  ?
                                ser
                             apenas
                         o grão de pó
                      poeira de estrela


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