Panta rhei
– Bom
dia, Dona Menina.
– Meu
Jesus Cristinho, num acredito. O senhor por cá no meu mocambo.
– Com
toda a carga que carrego pelas estradas.
–
Minha Virge Santíssima, nem sei o que faço. Mas entra, entra.
– Não
precisa exagerar tanto, Dona Menina, é uma visita de pura cortesia. Como a
senhora tem-me muito ajudado com as minhas histórias, quis retribuir, e vir até
aqui para um dedinho de prosa, e também para contar-lhe uma.
– Mas
é uma honra deveras inusitada. Maria Santíssima, pudera imaginar que um dia teria
visita do senhor. Tô abobada.
– Ora,
é natural, Dona Menina, somos tão chegados um ao outro.
– E o
senhor inda fica mangando de euzinha, é Deus no céu e o senhor no meu coração.
– Acho
que ficaria melhor a senhora dizer: na minha cachola.
– Ah,
pois antão, na minha cachola, na minha boca, no meu tudo. Vem. Vamos sentar
aqui pra eu poder apreciar melhor o senhor contar essa tal história, já tô mais
curiosa que menino descobrindo o fogo.
–
Sentemos então, a senhora bem aqui pertinho de mim. Espero que seu velho não
seja muito ciumento.
– Ah,
num caçoa de nós, o senhor conhece bem meu velho.
–
Senhora Dona Menina...
– Chiii,
num gostei deste jeito de me chamar, o senhor só fala assim quando o assunto é
de coisa sisuda, empertigada.
– Mas
vamos parar com isso de senhor, não fica bem.
– E
como havera eu de chamar meu santo guia?
– Ara,
Dona Menina, somos tão íntimos, use mesmo você, afinal a senhora tem idade para
ser minha mãe.
– E
ainda faz chiste.
– Pois
é, Dona menina, eu queria contar essa história para a senhora só para ver se a
tristeza ficaria menos triste.
– Meu Bom
Jesus Cristinho, que será que tem nesse angu?
– Bom,
a senhora já ouviu falar de um moço lá da Grécia antiga que dizia que tudo
estava em movimento, não?
– Ah,
sei, você tá falando daquele gajo que dizia que num podemos banhar duas vezes
no mesmo rio.
– Esse
aí, o Heráclito.
– E o
que tem o distinto?
– É
que eu fiquei pensando em como a gente nem sabe que conhece alguém, quando a
gente acha uma coisa, tudo vira e mostra que uma coisa na realidade é outra
coisa.
– Ai,
que modo de fala mais insuspeita prum homem tão letrado, isso parece até que fui
eu falando.
–
Parece mesmo, né? É porque estou confuso. A senhora sabe, Heráclito foi de
grande relevo para o pensamento, sua filosofia pode ser resumida no aforismo
grego panta rhei, que traduzido para nossa
língua diz que “tudo flui”.
– É próprio
mesmo. Nesse trem aí que o senhor falou do alguém, é mesmo assim, os miúdos
crescem e aprendem muito, mas os adultos também mudam de casca que nem víbora.
– É
isso, Dona Menina, as águas passam e nunca mais serão as mesmas, e nem mesmo
nós seríamos mais os mesmos.
– Eu,
nestes vastos anos, já mudei tanta casca, que mais parece que é uma enxurrada
que me banha.
– A
Senhora Dona Menina está lembrando-me a Alice. Lembra das muitas mudanças dela?
O tempo passa e quando percebemos parece que nossa vida foi comida por um vento
misterioso. É como na história de Lewis Carroll: o abanar do leque faz a Alice
encolher de repente, e em nós o vento faz o tempo desaparecer e não poderemos
jogar o leque fora.
– E o senhor
tempo vai comendo e mudando a gente, né?
–
Muito... Mas vamos lá, vamos a essa história de muitas mudanças.
– Estou
numa tremenda satisfação, assim eu aprecio mais sobre isso de panta rhei.
–
Certo dia, bem cedo, estava preparando-me para ir trabalhar e a campainha
tocou. Era minha irmã que chegava trazendo um jornal do dia, excitada para
mostrar-me a manchete do tabloide que dizia: “Dentista mata a esposa e suicida-se”.
– Virge,
que horror!
–
Trágico, muito trágico, bem nos moldes daquelas tragédias dos gregos antigos.
E, mostrando-me a manchete, minha irmã completou: “adivinha quem?”. Como eu não
podia ter a menor noção de quem se tratava, fui ler o artigo, somente para
ficar chocado ao descobrir.
– Eles
eram gente do seu trato?
– E
muito! O choque me lançou em lembranças. Voltei na minha infância quando
tínhamos por vizinho um casal bastante querido por todos. Para nós, meninos
ávidos por aventuras, o marido era uma espécie de herói, queríamos todos ser
como ele.
– E
por causa de quê vocês queriam?
–
Morávamos na casa ao lado da dele e nossos quintais eram separados apenas por
uma cerca de bambu. Ele tinha belos cães perdigueiros e até podíamos brincar
com eles.
– Unh,
aqueles cachorros são mesmo danados de bonitos!
– Aos
domingos, fazíamos questão de acompanhar os seus preparativos para as caçadas.
Admirávamos as suas botas e roupas de caçador, tudo em couro, e as suas
espingardas, o que atiçava nossa imaginação de meninos leitores de Jim das
Selvas. Ele saía garboso com as espingardas e depositava-as no interior de seu
carro, que nos arrancava ainda mais suspiros de admiração.
– Era
bonito o carro?
–
Muito, Dona Menina, muito mesmo! Era um carro americano possante com paralamas
pintados em marrom e lataria bege. Depois ele abria o portão do quintal de sua
casa e chamava os seus cães. E lá vinham os três manchados de marrom e de preto
e entravam no carro, excitados pelas corridas que fariam pelos pastos; partiam
para as suas caçadas deixando-nos apenas a sonhar com os lugares aonde iriam e
com as aventuras.
– E que
raça de bicho era que ele caçava?
–
Aves. Quando voltava sempre trazia um embornal com narcejas e marrecos. A gente
de tudo fazia para vê-lo chegar, íamos atrás dele para ganhar alguma ave, pois
ele não preservava nenhuma para si, presenteava-as todas aos vizinhos. Fazíamos
muita festa quando ganhávamos um marreco, pois as narcejas eram muito pobres de
carne, muito magrelas.
–
Então vocês deviam de gostar muito dele.
– E
não só dele. Sua esposa era uma grande pianista e a propulsora da arte da
música na cidade. Como morávamos ao lado de sua casa, ouvíamos sempre belas
melodias saídas de seu piano. Além disso ela mantinha um coral que fazia
apresentações regulares na cidade. Éramos privilegiados em acompanhar os
ensaios, que aconteciam ali mesmo na sua casa, e o Funiculi, Funicula deixava-nos assombrados, a gente ria muito
ouvindo aquela música engraçada.
– Que esquisitice
maluca é essa coisa?
– É
uma música italiana. Na época não tínhamos a menor ideia do que significava e
nem do que falava, e isto aumentava as nossas brincadeiras com a música. Ela
canta sobre o primeiro bonde, funicolare
em italiano, que subiu o Monte Vesúvio.
– Uai,
e esse monte não é deveras um vulcão? Eu li na enciclopédia que ele soterrou as
cidades de Pompeia
e Herculano. Num é perigoso subir lá?
– Até
que é, Dona Menina, mas atualmente ele está quietinho e os cientistas estudam
os sinais para prever novas erupções e poder evacuar as pessoas ameaçadas. E
foi através dessa e de outras músicas, naqueles ensaios, que tivemos nossa
introdução à música erudita. Assim, em nossa infância, esse casal era muito
querido; além disso, ele era nosso primo.
– E
que águas lavaram essa distinção?
–
Muitas águas passaram, e o panta rhei
estava em ação. Durante a minha adolescência o nosso herói foi também o meu
dentista. Ele queria que eu arrancasse os meus dentes sisos, dizia que não
havia espaço para eles, prazer que nunca lhe concedi. Brincávamos entre nós,
primos, que aquilo era o hobby dele, gozar
dos pobres moleques apavorados para colocar os dentes na sua coleção.
– Virge,
colecionar dentes pra modo de que seria?
– Não
sei, Dona Menina, era só uma brincadeira nossa. Mas aí eu fui embora de minha
terra para estudar e trabalhar, enquanto isso ele se tornara muito importante
na política da cidade, sendo um elogiado administrador do município. A partir
daí poucas notícias tive dele até aquela fatalidade.
–
Puxa! Você deve ter ficado muito triste.
–
Muito, pois o relato do que acontecera dentro das paredes daquele belo sobrado,
onde então eles moravam, eram chocantes. Tempos depois, um médico amigo
psiquiatra, que conhecera aquele casal, interpretou para mim que o caráter
passional da nossa família era muito acentuado; isto dizia referindo-se as
minhas próprias motivações. E adiantou a sua interpretação dizendo que o nosso
primo fora tão apaixonado pela esposa, que não suportara a ideia da separação,
pedida por ela, o que ocasionou toda a tragédia.
– E
você acha que foi assim desse modo mesmo que as coisas se sucederam?
– Eu
relatei essa conversa a alguém que o conheceu de longa data, e este olhou-me de
maneira estranha e destruiu ainda mais minhas recordações de um herói, pois ele
rebateu dizendo que não era nada daquilo, que o motivo real fora que meu
ex-herói era muito sovina, que não pôde aceitar a ideia de dividir os bens que
tinha.
– Tô
bem inteirada agora desse panta rhei.
– Bem,
talvez tenha mudado apenas a imagem que fazíamos dele, mas, de qualquer
maneira, tudo fluíra e mudara. O mundo nos muda a cada instante, e, por reação,
nós mudamos o mundo a nossa volta.
– E o seu
herói era na verdade uma espiga chocha, só palha.
– Pelo
menos tinha os pés de barro, mas como podemos saber, Dona Menina, a matéria
real de que somos feitos? As verdades sobre o que aconteceu com aquele casal
morreram com ele e outras verdades foram levadas pelas bocas que talvez nada
soubessem.
– Estava
matutando eu na minha pobre ignorância, mas tem uma anedota que é contada sobre
o que no fim aconteceu com o moço do livro, o Heráclito.
– Não
me lembro, o que aconteceu?
– Diz-se
que ele adoeceu e um curandeiro disse pra ele afundar-se no estrume, enterrar-se
todo nos estercos, pra modo que o calor cuidasse de secar o excesso de água do
seu corpo, que esta era sua doença. E aí que foi que ele se estrepou, foi um baita
fracasso, pois que ele morreu, e dizem até que seu corpo não pôde ser retirado
e que ficou pra sempre mergulhado na merda.
–
Muito engraçado, Dona Menina, panta rhei
também nesse sábio filósofo, que trágica mudança.
– E
pra mim também, que sou apenas um personagem seu, e que bem vivo ao sabor do
seu humor.
– Ara,
Dona Menina.
-o-
eu estou
tu estás
não não está
est
arei ou ive
estar não pode
falar no presente
estar não pode
calar no presente
estar não pode estar
no presente
e n e
s
s
t ã t
o o
u
o u
e n e
s
s
t ã t
o o
u o u
a clepsidra rouba a água do tempo
a ampulheta empulha o agora
estar
não se pode agora
estar
sem ser agora
não
estar agora
não agora
estar
?
ser
apenas
o grão de pó
poeira de estrela

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