Murica
- Bom
dia, Dona Menina!
-
Bom... Mas, o quê que é isso, seu Tião?
- Ara,
num sabe, Dona Menina? Num conhece macaco, não?
-
Conhecer, conheço, mas de celular na mão, nunca vi.
- Num
é chique?
- Num
sei não, seu Tião, nesse mundo que mais tá doido de tudo, é de se crer que até
mesmo macaco tem celular?
- Mas
num é este um macaco, macaco, Dona Menina, é um bichim cheio de esperteza,
diria até que um sabedor de coisas.
- E
que ele tem de tão sabido assim?
- A
Senhora Dona menina num tá vendo? Quiçá já viu até um bando de macaco usando
celular, né?
– Lá
vem você com essas malcriações, seu Tião, mas já vi sim, até que já vi sim,
muita macaquice por aí nessas coisas.
- Ué,
mas a Dona menina também tem um?
- Eu
não, Deus me livre e guarde, num preciso de ficar ligada nesse mundo
atarantado, a mim me basta meu cantinho e meus amores.
- E
como a senhora vem a tomar conhecença das macaquices?
- Só
sei no bisbilhotamento que minha gente me faz ver. E você, seu Tião, já tá
assim moderninho pra estar na sabença de usar isso?
- Até
que eu provei, Dona Menina, mas estes dedos desarranjados num cabe nessas
teclinha, aí só uso mesmo na precisão de chamar algum vivente, quando o Murica
deixa!
-
Murica, seu Tião, quem é?
- Ara,
Dona menina, este que cá está, ele num consegue mais apartar dessa maquininha.
- Ah
ha, e pra que raios um macaco usa uma?
- Para
falar com nós, Dona Menina, e pra que mais havera de ser?
- E em
desde quando macaco fala, seu Tião?
- Pois
aí que tá o desusado, Dona Menina, com o celular ele inté pode falar.
- Tá
mangando comigo, seu Tião, como pode um macaco falar pelo celular?
- Uai,
Dona Menina, no comum, a senhora num sabe que colocando as palavras lá, tem um
moço lá dentro que fala elas?
- Já
ouvi falar, mas nunca vi, mas precisa colocar as palavras, né? E como o dito
cujo pode fazer isso?
- Ara,
Dona Menina, batendo nas teclinha, como mais havera de ser?
- Cê tá
querendo dizer que o macaco sabe escrever nas teclinhas?
-
Olha, Dona menina, que ele é rápido. Parece que nem pensa pra bater as letras.
- Acho
que o compadre veio aqui foi mais pra caçoar desta pobre velhinha, onde já se
viu falar de macaco que escreve?
- Num
sei de outro, Dona Menina, mas asseguro no firme que esse aprendeu bem rapidim.
- Sei,
seguro como prego no angu.
- Mas
num tô de burla não, Dona Menina, se a senhora tá na dúvida, vou mostrar.
-
Então mostra, seu Tião, agora tô mais que curiosa.
-
Murica, dá um tempo, deixa um pouco isso, fale cá com a Senhora Dona Menina,
que é senhora de muita distinção. Agora a senhora vai ver a rapidez dele.
-
Muito prazer, Senhora Dona Menina.
- Ara,
num é que falou mesmo?
- A
senhora viu que foi ele que fez, né? Num fiz um nadinha.
-
Virge, e ele conversa mesmo de tudo?
- Mal
sabe a senhora, inda mesmo agora, em desde que tava a senhora a duvidar dele,
ele bateu umas palavra feia que num posso nem arrepetir; é que ele é um tanto
que despudorado também, e num tem paciência com a lerdidez.
- Já
pegou a malcriação dos meninos, né? Pois é assim mesmo, com os meus netinhos é
igual, logo que aprendem a mexer nessas coisinhas passam a desdenhar dizendo
que num sei de nada, que eles tudo podem saber nessa tal de internete.
- E
num é, Dona Menina? Eu nem num sei o modo de sair buscando nesse treco, mas o
Murica busca de tudinho e mostra pra mim.
- Mas,
diga lá, seu Tião, aonde você foi arrumar este macaquinho letrado?
- Num
é que eu tive uma sorte das danada, Dona menina, pois foi que naquele ermo lá
do lado de casa veio um circo bão, lembra, e eu fui fazer um servicinho pra ele.
Ele tinha lá uma tropinha desses macaquinhos; aí eu ficava lá abestaiado vendo
o treinador lidar com eles.
- E
dava para aprender também a fazer os truques deles?
- Que
é isso, Dona menina? Eu até faço minhas macacadas, mas sem necessitar de
treinador. Pois, antão, havia lá este diabim que não fazia nada de direito, num
arrespeitava nadinha do moço treinador, que ficou no nervoso com ele e soltou
umas lambada no pobre. E num é que o bichim veio me pedir amparo?
- Ele
correu pro seu colo, é? Deve ter reconhecido alguém da família.
- Ara,
Dona Menina, a senhora tá mesmo na acidez ferina, num tem importância, vou
relevar. Vai daí que o moço treinador gritou “já vai tarde, num precisa voltar”.
Eu perguntei pro moço se era sério, que num queria mais o bichim. Ele
arrespondeu irritado: “se quer, leva, e que o diabo os carregue”. E eu levei
ele pra casa.
- E
você não teve medo que ele fosse mais levado que menino endiabrado?
- Do
jeitim que ele me olhava, eu logo afeiçoei com ele. Eu apercebi que aquilo de
não obedecer o moço foi pura macaquice dele.
- Eta
macaco ladino, soube bem procurar um tal!
- O
bichim era danado de esperto, Dona Menina, quando fui fazer teste com ele pra
ver se ele sabia pedir comida, peguei o celular, pus uma tela com umas frutas e
mostrei uma banana, ele quis garrar a danada, num deixei e mostrei o celular.
Num é que ele logo entendeu? Bateu na tela bem em cima da banana.
- Ara,
bichinho esperto.
-
Passei a falar com ele assim desse modo mesmo, e ele foi aprendendo a achar as
coisa que ele queria pedir.
- Mas
como ele aprendeu a escrever, seu Tião?
- Bão,
aí a senhora me apertou, Dona Menina, num é que num sei, quando apercebi, tava
ele lá usando palavra pra pedir, acho que ele achou mais fácil escrever do que
buscar as imagem.
-
Nesse mato tem coelho, seu Tião, tá me dizendo que o macaco é que aprende tudo
sozinho?
- Se
tem coelho, Dona Menina, nem não vi, só sei que o Murica aprendeu.
- E
agora fica a macaquear usando o celular que nem menino?
- Senhora
Dona Menina, se eu disser que ele não perde tempo com essas besteirinha de que
a tal internete tá cheia, será que a senhora vai em mim acreditar?
- Ah
é, seu Tião, e o que ele fica fazendo?
- Pois
foi que ele me disse que queria aprender das coisas do homem.
- E
como é isso, o quê que ele faz?
- Anteontem
mesmo eu peguei ele bem na concentração da leitura de um livro, fui averiguá o
que era e só vi que falava de um cabra grego que fazia uma viagem danada de custosa
pra voltar pra casa.
- Num
acredito, o bichinho tava na leitura da Odisseia?
- É
isso, Dona Menina, é bem esse o nome do tal livro. Ele disse pra mim que era
uma fonte de muito saber sobre o proceder dos homem. Será devera, Dona Menina?
- Tô
abobada, seu Tião, como será que ele chegou nesse livro?
- Óia,
Dona Menina, que ele me contou, nem sei se apercebi direito o dito, que o livro
era uma metáfora da vida dos homem, que ele aprendeu muito. Como a senhora já
tinha me explicado essa tal de metáfora, fiquei a pensar no quê que ele tava
querendo dizer.
- Que
bichinho danado de esperto, seu Tião, e o senhor perguntou?
- Foi
aí que fui esmiuçar mais e ele me falou num resumido que um moço lá do livro,
um Odisseu, depois de ter cometido um pecado feio numa guerra braba e sem
motivo, foi punido pelos deuses a vagar numa viagem de descobrimento e
enfrentou um tanto de monstro e feiticeira.
-
Devera, seu Tião, uma jornada interior das mais belas dos feitos de heróis.
- E aí
ele explicou que o moço, depois de tanta briga e muito penar de sofrência do
coração, tava pronto pra ter perdão e foi deixado a pegar o rumo da casa dele.
- É
mesmo belo, seu Tião, a ninfa Calipso até ofereceu pra ele a vida eterna se ele
ficasse com ela em sua ilha. Ele nem aceitou porque queria voltar para a sua Penélope.
- E
num foi, Dona Menina? Aí o Murica me falou que ele teve uma luta das brava pra tomar
seu lugar de volta, dessa vez sozinho, sem ajuda além das arma que suas
conquista de guerreiro ganhou.
- Tô
admirada, seu Tião, aprendeu a lição direitinho.
- Pois
é, Dona Menina, agora até tenho um mestre particular, o Murica me tem dado
muita lição de coisas bonitas assim que num podia nem imaginá de existir.
- Num
é só você que deixa de imaginar, seu Tião.
- Bem
sei, Dona Menina, do desperdiçamento que é o que o povo faz, mas o Murica num
fica ocioso nessas besteira, ele tem concuspiscência de aprender.
- Ah,
seu Tião, falou bonito agora.
-
Aprendi com o Murica, Dona Menina, tô ficando ilustrado.
-
Bichinho danado de esperto, seu Tião, e ele tá sempre assim desejoso de
aprender mais e mais?
- E
num é, Dona Menina? Ele diz assim pra mim que tem tanto de beleza nessa nuvem
que não vai dar tempo de ele conhecer tudo, e que num quer perder tempo com
coisa sem tino.
-
Benza Deus, se os meninos tivessem um pouco dessa avidez, podíamos até ter uma
terra melhor.
- Mas
aí é que tá o busílis da questão, Dona Menina, tem um velhinho industrioso, bem
da sua aptidão, foi o que o Murica me narrou, que falou que num é bem assim,
que o homem só é de boa cepa mesmo quando ele é apavorado de medo de castigo.
-
Devera, seu Tião? E que velhinho será esse tal?
- Um
tal de Platão, e foi daí que o Murica falô que ele falô que conhecia um tal de
Giges.
- Tá
aí, esse Giges não ouvi falar não.
- Pois
antão, o tal Giges tava numa tormenta que abriu uma vala no chão; ele entrando
no buraco deu com a cara com um defunto morto que portava um anel no dedo, de
ouro bem dos genuíno.
- E
ele roubou o defunto...
- E
foi que ele descobriu que volteando o anel para o oco da mão, ele sumia dos
olhos dos outros.
- Ele
ficava invisível, seu Tião?
- E
num é que era, Dona Menina? E se volteava pra fora, aparecia de outra vez.
- Que
anel danado de bom esse!
- Aí o
Giges aprontou, dona Menina, fez um arrazoado próprio de falta de hombridade,
inté mesmo cantou a rainha do rei e tomou tudinho dele, ficando rei no lugar.
- Tudo
com o poder de ficar invisível?
- E
num é, Dona Menina? Pois foi aí que o tal de Platão falou que todo homem ia
fazer do modo igual do Giges, que fosse homem bão de justiça ou de injustiça.
-
Devera, seu Tião, se num puser rédea nas bestas, num tem modo de segurar.
- A
senhora também, Dona Menina, pois foi que eu discordei e o Murica por vez ficou
bem do lado do Platão. Ele bem falou que a gente chama eles de besta animal,
mas que animal é gente que é.
- Cê num
tá de acordo, seu Tião?
- Tô
não, Dona Menina.
- Mas
outro dia, quando aquele caminhão de bugigangas capotou na estrada, num foi
você que se apossou de uma televisão bem das graúdas?
- Ara,
Dona Menina, foi, né, todo mundo tava pegando.
- E o
senhor acha mesmo justo, seu Tião?
-
Bão...
- Então,
Murica, que você acha?
- ...
(inaudível)
- Quê
que ele falou, seu Tião?
-
Olha, Dona Menina, antão estamos dito, até mais ver.
-o-
meus amigos
Paulo Leminski
quando
me dão a mão
sempre
deixam
outra
coisa
presença
olhar
lembrança
calor
meus
amigos
quando
me dão
deixam
na minha
a sua
mão
