Curupira
Ele saiu correndo mostrando a sua sede de vida sem dar
atenção aos gritos que lhe pediam de não o fazer. E, como a vida cobra dos
apressados o seu preço, foi ralar-se no chão. O joelho, que não cabia mais pele
sem marcas de outras corridas, tingiu-se de sangue e de lágrimas e de mais um remendo.
O brincar com toda a sua energia e alegria não deixa tempo
para lamentos, e logo a pressa travessa volta a brilhar na sua face de prisma
em sorrisos azuis, verdes, vermelhos e amarelos.
Agora é a luta que lhe traz o rosto em fogo, os golpes
ligeiros destroem um exército inimigo que invade seu sonho de herói. Um inimigo
mortal consegue vencer sua defesa descuidada por excesso de confiança, e um braço
sem atenção é agredido pelo canto da mesa que se aproximou escondido. Um cotovelo
rasgado de vergonha tingiu-se de sangue e de lágrimas e de mais um remendo.
De que vale ficar parado se a vida é boa de ser vivida em
gritos e festas. Todo minuto tem que ser comemorado. Agora o prisma está na
água com raios de feitiços coloridos.
Água agitada, água em ondas deslizando pelo corpo como um
dardo a correr até o fundo, a virar uma enorme onda que explode ao vazar na
superfície girando como um parafuso. Escamas feitas de gotas de sol refletem
raios de energia que explodem bolhas de orgulho e poder. Um degrau despreocupado
aproxima-se mais ligeiro que o olhar e tinge a água de sangue e de lágrimas e
de mais um remendo.
Não há tempo para uma lágrima descer até o vale do nariz,
pois ele já se lançou atrás de uma bola que corre em atrevida fuga dos seus
pés.
A pressa que joga seus pés na corrida embalada não permite
que a escada pare antes de alcançá-lo. A imprudente não pôde furtar-se de
causar-lhe o susto, que o seu grito de perigo não teve tempo de suster o tombo
degraus abaixo como um foguete, jorrando labaredas em giros, em ais e
silêncio... a escada tingiu-se de sangue, desacordo sem lágrimas e de mais um
remendo.
E que remendo! Depois de todos os ossos trabalhados, tudo
consertado... Não, nem tudo foi consertado... há algo de estranho...
Ele anda e seus pés estão virados para trás... Não só os
pés... Ele não tem mais os joelhos... Onde está a barriga? Oh, deus, ele vê
suas costas ao andar.
E agora, para fazer xixi... o pinto está lá atrás. E o
buraco do vaso para acertar, onde está?
-o-
este rosto
dourado
por uma
estrela
esta estrela
dourada
por uma
chama
esta chama
dourada
por uma
menina
esta menina
dourada
por uma
estrela
esta estrela
dourada
é uma
menina

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