domingo, 26 de novembro de 2017

A Casa da Rua do Biongo


A Casa da Rua do Biongo

Infância
Rua do Biongo,
a casa velha dava asas
ao voar trilongo.



– Venha comigo, Miguelim, hoje vou levá-lo para conhecer a parte mais ativa e mais saudosa da minha infância. Vamos subir por aqui, nesta Rua do Biongo. Bem ao longo desta ladeira espalha-se esta casa antiga no lado esquerdo da rua, mas apenas em nossa imaginação, pois há muito suas paredes já não mais existem. À sua frente sobe um barranco por cerca de sete metros; lá no alto uma outra rua corre com casas mais humildes.

– Tem uma escada que sobe até o alto do morro.

– Uma escada cortada na própria terra do barranco, mas vamos deixá-la a querer atingir as nuvens, vamos subir este degrau que nos permite entrar pela porta da casa. As suas perninhas pequeninas vão se sentir mais à vontade se você subir pelo canto direito, mais baixo. Pronto, esta é a sala de visitas da casa. As tábuas velhas que fazem seu assoalho não são precisamente ajustadas, vê? Mas isto fazia graça para as crianças que ali brincavam de enxergar, pelas gretas entre as peças, os fantasmas que no escuro abaixo do assoalho faziam sua morada.

– Fantasmas, Doutor, de verdade?

– Fantasmas de muitas épocas passadas, mas eles eram até simpáticos, percebiam lá do escuro a nossa curiosidade e sorriam de nossos medos. Vê aquela cadeira de balanço? Além do balanço que acalentou vários fantasmas, foi cenário também de muitas disputas dos primos que vinham povoar estas paredes austeras com algazarras.

– Eu também gosto de balançar numa cadeira assim.

– A sala tem mais algumas cadeiras de braços e janelas que se abrem para a vista do barranco. Por aqui eu vinha atrás do jornalzinho Ave Maria para rir um pouco com as tirinhas do Pinduca - criação de Carl Thomas Anderson -, um menino carequinha, sem voz nem balõezinhos, e do Bidu, o primeiro personagem do Maurício de Souza, que ainda não era azul, pois o jornal não sabia de cores.

– Não tinha o Cebolinha, Doutor?

– Não, Miguilim, só o Franjinha que era o dono dele. Venha, quero lhe mostrar aqui neste lado, bem em frente a esta janela era armado todo ano o presépio da tia Dinah. Era uma atração famosa nas vizinhanças, não havia nas redondezas quem não passasse por aqui para admirar o trabalho; pessoas batiam, pediam licença para entrar, algumas tímidas, outras invasivas; paravam a admirar o menino em sua manjedoura e faziam preces devotas  Para nós, crianças, que esperávamos com ansiedade a época de montagem, o divertido era descobrir as novas figuras que o presépio ganhava, sem descuidar das antigas que enchiam nossos olhos de prazer: o laguinho com os patinhos nadando, o pó-de-serra colorido fazendo caminhos e campos, a gruta feita de papel imitando a rocha, e a estrela que os magos seguiam, mas estes só chegavam em janeiro. Um ano houve que casinhas construídas com palitos de fósforo ganharam lugares na paisagem dos campos; eram um retrato da paciência da tia, que colava palito a palito.

- Doutor, eu já fui figura de presépio vivo!

- Sério, Miguilim? Deve ter sido bastante divertido. Agora chega para cá, aqui neste lado da sala; esta porta nos leva a um quarto onde a tia Dinah tinha seu quarto de costura para fazer vestidos para as suas freguesas. Houve uma cama grande aqui neste quarto onde se amontoavam os primos a brincar e, às vezes, a brigar; por conta destas brigas foi que ganhei uma martelada na cabeça. Cruzemos a sala: esta outra porta nos leva à sala de jantar, mas antes de observá-la, viremos um pouco à direita, pois aqui existe um quarto que era sempre nossa primeira passagem quando vínhamos a esta casa.

– Era uma obrigação, Doutor?

– Não, Miguelim, entrávamos ali para pedir a bênção à tia Lenira, irmã da minha avó. Ela sempre estava ali na sua cama, parecendo uma espécie de sereia; só podíamos ver o seu busto, pois suas pernas estavam sempre cobertas. Ela nos recebia com o encanto de um sorriso alegre, como é mister das sereias, e sempre com um pano nas mãos fazendo crivo, seu trabalho de Sísifo, como ela gostava de brincar: desfiar um paninho e preencher os buraquinhos novamente.

– Ela não podia levantar-se da cama?

– Não, não podia. Não a conheci de outra forma, uma doença degenerativa a colocou na cama. Não a víamos lamentar-se, tinha sempre o sorriso e uma brincadeira para receber-nos. Mas voltando à sala de jantar, esta mesa juntava a família nas noites de domingo, quando minha avó se sentava à cabeceira com os filhos ao redor. Os netos pequeninos brincavam sobre a mesa. Um dia fiquei muito ressentido com ela, pois foi ela a dizer-me que já era muito grande para ficar em cima da mesa, e este quadro tenho-o bem presente na minha memória, pois ali tomei consciência da boca do tempo que me comia os anos, embora ainda ansiasse que se fossem depressa; e ali naquela parede de cabeceira da mesa, preguiçosamente ficava um relógio antigo de pêndulo a tiquetaquear os segundos, lembrando a cada meia-hora, com suas batidas, que o tempo não se esquecia de nós.

– E seu avô?

– Só conheci o seu retrato que ficava pendurado ali no meio da sala, ao lado do da minha avó, mas ela também logo se despediu nos meus cinco anos, em um dia em que fui acordado muito cedo pela minha irmã dizendo-me que a vovó morrera. Em minhas lembranças foi o meu primeiro contato com a velha senhora, ainda na minha insensibilidade infantil, que se espantava com o choro desconsolado das tias.

– Que triste, Doutor.

– Mas vem, vamos descer esta escada, ela nos leva ao jardim, onde a planta mais agitada, que nos ficava a espezinhar, era a tia Tal.

– Tia Tal?

– Isso, Miguelim, foi um apelido que nossa prima mais velha lhe deu. Seu nome era Maria do Carmo, assim mesmo, sem sobrenome algum, maluquice de um tabelião distraído, mas os sobrinhos nem pareciam saber deste nome, só era mesmo a tia Tal. Ela até tentava impor-nos algum respeito com gritos e pitos, mas nem ligávamos para os seus chiliques. Bom, este era o jardim, não era nenhum primor, mas sempre havia as flores. Subamos novamente as escadas de volta à sala de jantar, ali em frente, o quarto das tias, lugar mais sagrado da casa.

– Mas quantas eram as suas tias, Doutor?

– Bom, já falamos de três, faltam ainda outras duas: a mais velha das irmãs era a tia Analita, uma professorinha, uma espécie de santa, piedosa Filha de Maria que dedicava muito do seu tempo a cuidar da Igreja Matriz, das flores e toalhas dos altares e, na ocasião do Natal, do grande presépio que se armava no canto direito do braço da cruz formada no interior da igreja, ocupando toda a sua largura. Este belo trabalho, que ajudei algumas vezes a montar, era uma atração invulgar, que causava muita admiração nos fiéis. Após as missas do primeiro domingo em que o tapume que o escondia era retirado, todos acorriam curiosos para ver o presépio.

– Que bonito devia ser!

–  E completando as tias, havia ainda a Cleonice, sem o tia.

– Sem o tia, por quê?

– Ela ficava muito sentida que a tratássemos assim. Mas nem sei direito porquê o fazíamos. Ela foi criada pelos meus avós, não era filha deles, e talvez não nos tenham ensinado, quando pequenos, a tratá-la como tia. Ela dizia que era preconceito nosso, porque ela era negra.

– Talvez ela tivesse um pouco de razão.

– Talvez, Miguilim, talvez porque o reduto dela era a cozinha. E como! Ela era uma doceira, ou melhor, ela era a doceira. Quando chegávamos na casa, o cheiro que vinha da cozinha deixava-nos enfeitiçados, e ficávamos torcendo para haver alguma raspa de panela para nós. Raspa de cocada preta! Nunca provei doce mais gostoso!

– Eu também gosto muito de cocada, Doutor.

– A cocada da Cleonice era diferente de qualquer outra que já provei. Diz-se que quando a gente cresce, e deixa a criança para trás, os sabores da infância nos acompanham, e a gente acha que eles eram muito superiores, mas isto não é verdade, pois mesmo quando pequenos não queríamos saber de outras cocadas, só serviam aquelas. Mas a cocada era que a gente podia mais apreciar por causa da raspa da panela, mas o meu doce preferido era o cajuzinho.

- Era de amendoim com chocolate?

- Isso mesmo, Miguilim, e sempre que me acho na frente de algum, tento reaver aquele gosto que me persegue, só para me decepcionar.

– Puxa, Doutor, estou com água na boca.

– Vem, vamos deixar este cheiro gostoso desta cozinha escura para trás, pois a fumaça que se espalha do fogão à lenha já está me intoxicando. Atravessemos a cozinha, desçamos esta escada, penduricalho mais tardio da casa que dá acesso ao quintal; antes só existia uma passagem pelo jardim.  Este espaço sempre foi a maior alegria que tivemos quando crianças.

– Uau! É grande!

– Vamos descer esta escada. Estamos agora debaixo da casa, onde os velhos fantasmas vistos das gretas da sala tinham sua morada. Observe por estes cantos escuros onde a luz do sol não se reflete, há muito lugar onde eles podiam espreitar-nos e tingir de medo nossas caras.

– E não tem nada aqui, Doutor.

– Era pouco usado este espaço, mas atrás daquela porta ali tem um quarto onde meu pai guardava ferramentas, selas e acessórios para os cavalos, milho e rações, e cacarias que ainda pudessem ter serventia. E tinha também um baú antigo onde se achavam cartas e coisas muito velhas, onde algumas vezes eu vasculhei à procura de um tesouro.

– E o que você achou?

– Só papéis a que então não dava valor. Mas vamos ao terreiro. Aqui ao lado era uma área de serviço onde se cuidava dos cavalos, e tinha sempre uma pilha de lenha. Muitas tardes meu pai passava ali exercitando-se a rachar as toras. E ali, no final do muro, há esse portão grande que dá para a rua. Todos os dias esse portão era aberto às sete horas da manhã, e uma procissão ali acontecia até as onze horas, quando era fechado.

– Uai, Doutor, procissão de quê?

– Os moradores das casas do alto do morro ali em frente não tinham água em suas casas, e as mulheres, e mesmo algumas crianças, desciam o morro com suas latas para pegar água aqui no terreiro.

– E onde tinha água?

– Lá embaixo, já vou lhe mostrar; mas repare na altura da escada que sobe o morro, elas tinham que subir carregando as latas, e também aquela outra escada da cacimba até aqui. Elas carregavam as latas sobre a cabeça e nem usavam as mãos para segurá-las.

– Puxa, Doutor, é muita escada para subir!

– E elas o faziam diversas vezes a cada dia para encher suas caixas-d´água ou barris. Quando chovia, as escadas ficavam escorregadias, e mais difícil ficava ainda a dura tarefa. Vamos por aqui descer as escadas que levam à parte baixa do terreiro. Aqui no meio da escada tem um abacateiro que nos enchia os pratos de massa verde com açúcar, uma delícia! E ali embaixo, veja, a cacimba que fornecia a boa água para toda aquela gente. De manhã cedo a água estava no seu nível máximo; quando o portão se fechava, ela ficava bem baixa, exigindo que se debruçasse sobre a borda para conseguir tirar a água.

– E como era tirada?

– Com um balde normal, e vertia-se a água nas latas. Neste trabalho muitas vezes a água espalhava-se ao lado da cacimba fazendo lama, e a tia Tal, que sempre descia com uma bacia para ali ao lado lavar suas roupas, esbravejava para que não deixassem a água cair no chão. Para nós era um espetáculo divertido, pois sempre vislumbrávamos algumas caretas que lhe eram dirigidas. O portão era fechado às onze horas para que o nível da água pudesse ser recuperado para o dia seguinte.

– Que bom que existia a cacimba, Doutor!

– Realmente, Miguelim, era um bom serviço que as tias prestavam àquela gente sofrida. E veja o terreiro, todo coberto de árvores: goiabas de todos os tipos e, ali naquele canto, essa enorme mangueira. Nos meses de verão, quando estávamos de férias, íamos cedo buscar as mangas que caíam durante a noite, pois, se tardássemos, o pessoal que ia buscar água também pegava as manguinhas, embora fosse acordado que não deveriam fazê-lo.

– Quem pode resistir a uma manga, né?

– Pois é, quando chegávamos mais tarde ficávamos bravos se não achávamos nada. Ali do outro lado tem uma construção com um chiqueiro, mas no canto de cá, um alpendre onde havia uma trempe no chão para tacho. Ali cozinhávamos inhame para os porcos, derretia-se sebo de boi, e fazíamos muita goiabada.

– Com tanto pé de goiaba deviam fazer bastante!

– Quando minha avó era viva, juntava-se toda a família, armava-se uma bancada sobre cavaletes e todos ajudavam a preparar as goiabas: a eliminar os caroços e moer toda a massa que ia para um tacho enorme. Depois, meu pai passou a fazer apenas com nossa ajuda, mas para um tacho bem menor e sem moer a massa, fazendo a goiabada cascão. E, então, sobrou para mim e meu irmão, que fomos encarregados de fazer o doce; fazíamos duas vezes por semana. Uma parte podíamos vender para nós e assim juntávamos dinheiro para brincar o carnaval. E fazíamos todo o serviço: desde subir nos pés para apanhar as goiabas, limpá-las, amassá-las, até o cozimento. E sofríamos ainda os acidentes. Certa vez, em cima de uma goiabeira, uma taturana verde enorme achou uma minha coxa e a ardência me fez despencar lá de cima.

– E machucou muito, Doutor?

– Só mesmo a queimadura e uma pancada forte nas costas. Lembro-me ainda de uma vez em que estávamos com a goiabada quase no ponto, meu irmão foi tirar o ponto sem me advertir e eu, mexendo a massa sem parar para não agarrar no tacho, joguei uma porção em cima da mão dele.

– Coitado, Doutor!

– Como ela estava chegando no ponto, felizmente não agarrou na pele dele e ele se livrou logo da massa quente. Era penoso o nosso serviço, mas também nos divertíamos muito. Nada divertido era quando o pai resolvia plantar arroz na vargem ali detrás desta cerca de bambu. Pior trabalho não podia existir. E quando depois do corte do arroz tínhamos que batê-lo, ufa! Ficávamos com arranhões por todo o corpo, e pinicando.

– Cruz credo, só de pensar já estou arrepiando.

– E no terreiro ainda havia um pé de laranja, carambola e pinha, que você conhece como fruta do conde. Ali na vargem também tinha um pé de jambolão, fruta sem graça, mas que servia para deixar a boca arroxeada.

– Uau, quanta fruta!

– E o terreiro terminava à beira do córrego, que o separava do quintal da serraria do Suquinha. Ali juntava em ocasiões uma turminha para caçar com bodoques as rolinhas que se empoleiravam nos fios.

– E no córrego dava para nadar?

– Não, era raso, além de já ser naquela época escoadouro de esgoto de diversas casas, mas gostávamos de brincar por ali; usar um bambu para pular para o outro lado era bastante divertido, longe dos olhares das tias que não se aventuravam por aqueles fundos.

– Que bom, Doutor, quanta diversão em sua infância!

– Muita mesmo, Miguelim, éramos muito felizes e hoje o sabemos.

-o-



domingo, 19 de novembro de 2017

Menina-flor


Menina-flor


– Acho que hoje eu vou conseguir voar; pelo menos eu quero tentar. Se eu não conseguir, e cair lá embaixo, o que vai acontecer? Será que consigo voltar aqui para minha caminha gostosa? Acho que não, pois teria que voar de volta aqui para cima. Se não conseguir, minha mamãe vai me encontrar? Se ela não me encontrar, vou conseguir sozinho minha comida? Sinto tanta vontade de soltar minhas asas e conhecer o que existe além desta árvore. Já treinei tanto com pulinhos de galho em galho, minhas asas já estão fortes, vou conseguir! Vou voar para aquela outra árvore lá.

E assim ele se lançou além da árvore onde nasceu, atendendo ao chamado silencioso de seu espírito de beija-flor. Agora estava sozinho, e a vida escancarava sua boca para permitir-lhe gozar daquele belo jardim onde nascera. Suas asas se fortificaram na exploração daquele parque em busca das flores que lhe davam o alimento.

– Ufa! Como é divertido provar de tantas flores! Tantos sabores diferentes, mas é tão cansativo ficar parado batendo as asas para beber o néctar, preciso de um pouco de descanso. Gosto mais das flores vermelhas, são mais saborosas e mais bonitas. Mas o que será que existe além deste jardim? O verde das árvores acaba, e depois? Quero ver!

E o pequeno beija-flor aventurou-se entre um corredor de casas que se estendia além do jardim. Voou muito e se aventurou dentro de uma das casas.  Lá dentro encontrou uma enorme flor vermelha que lhe prometia muito néctar. Voou ao redor dela, procurando onde sugar o seu mel.

– Estranha essa flor!

E voando parou no ar bem em frente ao rosto da menina, que o olhava divertida com o adejar ao redor dela da pequenina ave. Provou na flor o sabor entre duas pétalas:

– Não tem o doce que conheço, mas é tão doce, tão gostoso.


Cansado, pousou sobre o murinho e ficou olhando-a. A menina estava agitada e alegre com aquela visita inesperada que lhe beijara os lábios. A avezinha partiu em sua corrida frenética, e ela também, animada, entusiasmou-se a arrumar um frasco para manter água com açúcar para atrair o bichinho. No mercado conseguiu um adequado e protegido. Pendurou o bebedouro na varanda e ficou na ansiedade do desejo de retorno da sua nova paixão. E o beija-flor não a decepcionou.

– A flor estranha hoje mudou de cor, está amarela, mas é bonita assim mesmo. E esta florzinha nova aqui, hum! Deliciosa e refrescante.

E como para agradecer à menina e provar novamente o seu néctar, voou ao redor de seu rosto e beijou-lhe os lábios.

E assim, todos os dias a menina limpava o frasco, adicionava água pura de fonte com açúcar cristalizado, e o pendurava na beira da varanda. A avezinha, atraída pelo néctar daquela estranha flor, fazia o trajeto do jardim onde morava para a casa da menina, traçando a sua rota alimentar naquele corredor de casas. Na varanda, pulava do bebedouro para os lábios da menina-flor, e ali voltava várias vezes ao dia.

Em seu voo pela rua, deixava os pólens das flores caírem no chão de terra, e o sol e a chuva cuidavam de fazer nascer as plantas que botavam fora suas belas flores, embelezando aquela rota de amor. E assim, a história de amor entre a menina e o beija-flor caiu nos ouvidos de toda gente, e a rota da pequenina ave passou a ser conhecida como Rua das Flores.

-o-




sábado, 11 de novembro de 2017

Epifania de Dona Menina



Epifania de Dona Menina
 
– Dona Menina!
– ...
– Dona Menina!
– Oi, quem me chama?
– Aqui, Dona Menina, sou eu.
– Eu, quem? Não há mais viva alma aqui!
– Ah, Senhora Dona Menina, viva até que não, mas você me chama tantas vezes e, quando respondo ao seu chamado, não acredita que possa ser verdade?
– Minha santinha! Devo estar desvairando! ou então deixei de vez os meus amores!
– Que drama! Só porque eu vim pessoalmente para uma conversinha íntima?
– Tô abobalhada! Num acredito nos meus olhos: quedar assim defronte a minha Santa Virgem envolvida nesta luz de paz!
– Na Luz dos meus olhos lhe trago a minha bênção.
– Seus olhos! são dois brilhantes vivos que encegam os meus!
– Mas o que há para fazê-la sentir-se assim tão agitada?
– É que a Senhora há de concordar com esta pobre vivente, não é de comum receber uma visita assim majestática. Estou deveras atarantada. Deixe-me tempo para resgatar o fôlego e dirimir o meu deslumbramento!
– Fique à vontade, Dona Menina, e vamos parar com isso de Senhora, somos velhas conhecidas e não precisamos de cerimônias.
– Mas eu, pobrezinha de mim, não me dou o atrevimento de um trato assim de vivência íntima.
– E quem é que sempre falou comigo assim como se eu fosse uma sua filha, sem cerimônia nenhuma?
– Ara, mas assim de frente, fico até avexada de alembrar da minha falta de liturgia.
– Qual! Gosto muito desse seu jeito, como você diz: atarantado e sem pompa, de falar comigo. Também sou uma simples mãe como você, de família humilde, e com os muito afazeres de uma dona de casa.
– Nem posso pôr na cachola a estampa da Senhora a faxinar uma casa, imagine! Com tanto atarefamento para cuidar do mundo!
– Ah, Dona Menina, fico muito triste com o pouco que consigo nas minhas tarefas de aliviar o sofrimento do mundo.
– Uai, a Senhora dá tanto alívio pra nós!
– Mas são tão poucos os nós. As pessoas só sabem pedir, pedir e pedir. Acham que tudo pode ser consertado assim com um pequeno propósito meu ou do meu filho.
– Deveras, Senhora! Acho que são vícios aparecidos das lendas de fadas, sabe como é, né? Varinhas que se agitam com um tremelique e zás!
– Zás!?
– Ou lâmpadas mágicas que num esfregão, zás! e aparece um gênio para cumprir todas as veleidades.
– Ou mesmo deusas antigas que se misturavam nos afazeres terrenos com flechas e raios.
– Pois! É uma pedição danada! E não conseguem tirar a trava do olho, né?
– E pedem de tudo para satisfazer as vontades deles.
– É bem assim mesmo, mais fácil que dobrar as vontades é dobrar os joelhos.
– E quando se levantam, Dona Menina, tudo volta ao que era: as mesmas convicções, os mesmos preconceitos.
– E com o eu enfatuado destilando empáfia de serem as mais corretas gentes do mundo.
– Tenho um pesar tão grande, Dona Menina, meu filho repetiu tantas vezes sobre o caminho a seguir.
– E bulhufas ficou aprendido, né? E seguem a achar que num é possível nascer outra vez, que barriga de mãe não suporta carregar tal peso.
– Como se o anjo não tivesse vindo anunciar-me a beleza do nascimento da criança de luz!
– Ah! Que bom a Senhora falar nessa ocorrência que tenho entranhada aqui dentro como um quadro pintado de belo, sou um mar de bisbilhotice pra saber se o susto foi grande.
– Susto, Dona Menina?
– Pois antão, num foi um baita susto quando aquele anjão bonito demais apareceu assim no improviso?
– Ara, Dona Menina!... Olha que já estou até pegando os seus modos!
– Está bem, num tá mais aqui quem ousou indagar... Mas, voltando aos pidões...
– Então, e tem uns, que desplante!, que ainda dão graças por terem conseguido surrupiar tesouros conseguidos em trapaças e falcatruas, tomando dos mais infelizes a parte pouca que lhes caberiam.
– Ave Maria!
– Hem?
– Desculpe, Senhora, é a impudência de um mau de praxe.
– Ara, não é nada, para que preocupação com coisinhas inconsequentes enquanto tanta maldade reina por aí?
– Senhora, que fazer pra nossa terrinha ter mais distinção nas gentes de poder?
– Senhora Dona Menina, que tristeza nos dá tão grande desprezo pelo benefício alheio, tanta voracidade sem fim.
– É de muita tristeza, Minha Santinha, e não há deveras nada a fazer para dirimir a ganância desmesurada?
– Nosso trabalho só pode ser feito na consciência dos humildes, mas quando ela está toda ocupada pela concupiscência, não há lugar que nossa voz possa tomar.
– Mas o povo é sofrido de tanta precisão, Senhora!
– Humildade não quer dizer pobreza material, Dona Menina, e gente que não deixa oportunidade para satisfazer sua cobiça não tem percepção nenhuma do que ela seja.
– Ah, sim! Na hora de agir para obter o merecimento a atuação é apoucada, bem sei. Qualquer vantagenzinha vale a malfeitoria!
– E assim se vai construindo uma gente sem freios!
– Mas ficamos tão atormentados por tudo que sucede nesta terrinha!
– Imagine a nossa desolação, Dona Menina!
– E num seria, talvez... possível... um milagrezinho para reverter o imbróglio em que nos embarafustamos?
– A tarefa é inglória, Dona Menina, se juntarmos todos os santos, e olhe que digo todos, não só os católicos, ainda assim não se daria conta de tanto desmazelo com a justiça... e a educação dessa gente.
– Educação! Eu, na minha despropositada insapiência, não posso entender como os mestres, que devem erigir a ciência das gentes, sejam espezinhados e menosprezados!
– Um processo muito antigo de erros, uma bem arquitetada armadilha de nosso grande inimigo.
– À vez eu sinto a estada do dito chifrudo bem plantada em nosso firmamento de estrelas de pano, com o escárnio daquela faixa branca a fazer chiste...
– Estou sendo chamada, Dona Menina, urge que me vá! perigo próximo... até...
– Virge! Por que se vai?
– ...
– Minha santinha! que luzeiro de fogo é este que irrompe agora?
– Ha, ha, ha!
– Ajude-me, Senhora, não posso crer nesta desalmada visão!
– Ha, ha, ha! Pode crer, bruxa asquerosa!
– Meu Jesus Cristinho, valha-me agora!
– Aha! de que adianta agora gritar por ajuda, este é meu território.
– Não aqui na minha casa, cá dentro não há pouso para teus cornos.
– É meu o governo desta terra, aqui ganhei o direito de plantar a minha Igreja!
– Igreja? E desde quando Nosso Senhor te permitiu alçar uma Igreja?
– Não preciso da permissão dele, a gente desta terra me tornou soberano.
– Oh, meu Senhor, minha Santa Mãezinha, socorro! Livrem-me deste pesadelo!
– Ha, ha, ha! Bruxa! De que valem agora as suas preces? Já espalhei minha lei por muitas casas com dissimuladas arapucas de agarrar os gananciosos que pagam para obter favores meus!
– Não é possível!
– Ah, não? E não é sua a voz que sempre diz que esses pastores são orientados do diabo? Qual é então a sua dúvida? Achava que era apenas um desabafo que fazia? Lembra das palavras dele? - "Se um cego conduz outro cego, ambos cairão no abismo".
 
 
– Isto não pode estar sucedendo!
– E não foi você que disse que precisava desinfetar o país com creolina? Nem toda a creolina do mundo poderá limpar a mente desses senhores que aqui instalei.
– Eu rezo, rezo para que esta assombração horrível desapareça!
– Ha, ha, ha! Reze, reze, de que adiantam palavras ante o meu poder de persuasão sobre essa gente egoísta? Minhas insídias são como vírus que infestam as mentes ávidas.
– Proteja-me, Senhora!
– São minhas esta terra e toda a gente que rasteja sobre ela. Acumulei uma riqueza enorme contaminando as cabeças desta gentinha que se vende por um troquinho qualquer. Povo cordial! ha, ha, ha! povo tonto, repleto de ganâncias. Destruí aquela gente selvagem que cultuava as florestas e os rios com esta gentinha ávida por uma pedrinha qualquer. Terra de Santa Cruz, ha, ha, ha! A madeira da cruz era vermelha do brasil e me foi vendida para tingir a minha capa! Vermelha, bem vermelha! Minha insígnia cravada aqui desde seu batismo derradeiro: Brasil! Minha injustiça foi a arma que selou minhas conquistas, são meus os juízes corrompidos que impõem a minha Lei. Nunca serão uma nação, pois nunca terão uma Justiça! Aqui é o meu terreiro.
– Não, não é possível!
– Ha, ha, ha! E agora, bruxa, é sua hora! ajoelhe-se ante o seu novo Senhor!
...
– Vovó!
– ...
– Vovó!
– Ah, Mariinha, ah, filhinha, dê-me um aperto bem forte aqui, ah, que bom!
– Que foi, vovó? Você está tremendo.
– Você nem imagina o bom que é ver os seus olhos inocentes!
– Ai, vovó, você está me apertando muito forte!
 
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Clarice Lispector, em A paixão segundo G.H.:

Não é para nós que o leite da vaca brota, mas nós o bebemos. A flor não foi feita para ser olhada por nós nem para que sintamos seu cheiro, e nós a olhamos e cheiramos. A Via-Láctea não existe para que saibamos da existência dela, mas nós sabemos. E nós sabemos Deus. E o que precisamos Dele, extraímos. (Não sei o que chamo de  Deus, mas assim pode ser chamado.)  Se só sabemos muito pouco de Deus, é porque precisamos pouco: só temos Dele o que fatalmente nos basta, só temos de Deus o que cabe em nós. (A nostalgia não é do Deus que nos falta, é a nostalgia de nós mesmos que não somos bastante; sentimos falta de nossa grandeza impossível -  minha atualidade inalcançável é o meu paraíso perdido.)