A
Casa da Rua do Biongo
Infância
Rua do Biongo,
a casa velha dava asas
ao voar trilongo.
– Venha comigo, Miguelim, hoje vou levá-lo para conhecer a
parte mais ativa e mais saudosa da minha infância. Vamos subir por aqui, nesta
Rua do Biongo. Bem ao longo desta ladeira espalha-se esta casa antiga no lado
esquerdo da rua, mas apenas em nossa imaginação, pois há muito suas paredes já
não mais existem. À sua frente sobe um barranco por cerca de sete metros; lá no
alto uma outra rua corre com casas mais humildes.
– Tem uma escada que sobe até o alto do morro.
– Uma escada cortada na própria terra do barranco, mas
vamos deixá-la a querer atingir as nuvens, vamos subir este degrau que nos
permite entrar pela porta da casa. As suas perninhas pequeninas vão se sentir
mais à vontade se você subir pelo canto direito, mais baixo. Pronto, esta é a
sala de visitas da casa. As tábuas velhas que fazem seu assoalho não são
precisamente ajustadas, vê? Mas isto fazia graça para as crianças que ali
brincavam de enxergar, pelas gretas entre as peças, os fantasmas que no escuro
abaixo do assoalho faziam sua morada.
– Fantasmas, Doutor, de verdade?
– Fantasmas de muitas épocas passadas, mas eles eram até
simpáticos, percebiam lá do escuro a nossa curiosidade e sorriam de nossos
medos. Vê aquela cadeira de balanço? Além do balanço que acalentou vários
fantasmas, foi cenário também de muitas disputas dos primos que vinham povoar
estas paredes austeras com algazarras.
– Eu também gosto de balançar numa cadeira assim.
– A sala tem mais algumas cadeiras de braços e janelas que
se abrem para a vista do barranco. Por aqui eu vinha atrás do jornalzinho Ave
Maria para rir um pouco com as tirinhas do Pinduca - criação de Carl Thomas
Anderson -, um menino carequinha, sem voz nem balõezinhos, e do Bidu, o
primeiro personagem do Maurício de Souza, que ainda não era azul, pois o jornal
não sabia de cores.
– Não tinha o Cebolinha, Doutor?
– Não, Miguilim, só o Franjinha que era o dono dele. Venha,
quero lhe mostrar aqui neste lado, bem em frente a esta janela era armado todo
ano o presépio da tia Dinah. Era uma atração famosa nas vizinhanças, não havia
nas redondezas quem não passasse por aqui para admirar o trabalho; pessoas batiam,
pediam licença para entrar, algumas tímidas, outras invasivas; paravam a
admirar o menino em sua manjedoura e faziam preces devotas Para nós, crianças, que esperávamos com
ansiedade a época de montagem, o divertido era descobrir as novas figuras que o
presépio ganhava, sem descuidar das antigas que enchiam nossos olhos de prazer:
o laguinho com os patinhos nadando, o pó-de-serra colorido fazendo caminhos e
campos, a gruta feita de papel imitando a rocha, e a estrela que os magos
seguiam, mas estes só chegavam em janeiro. Um ano houve que casinhas
construídas com palitos de fósforo ganharam lugares na paisagem dos campos;
eram um retrato da paciência da tia, que colava palito a palito.
- Doutor, eu já fui figura de presépio vivo!
- Sério, Miguilim? Deve ter sido bastante divertido. Agora
chega para cá, aqui neste lado da sala; esta porta nos leva a um quarto onde a
tia Dinah tinha seu quarto de costura para fazer vestidos para as suas
freguesas. Houve uma cama grande aqui neste quarto onde se amontoavam os primos
a brincar e, às vezes, a brigar; por conta destas brigas foi que ganhei uma
martelada na cabeça. Cruzemos a sala: esta outra porta nos leva à sala de
jantar, mas antes de observá-la, viremos um pouco à direita, pois aqui existe
um quarto que era sempre nossa primeira passagem quando vínhamos a esta casa.
– Era uma obrigação, Doutor?
– Não, Miguelim, entrávamos ali para pedir a bênção à tia
Lenira, irmã da minha avó. Ela sempre estava ali na sua cama, parecendo uma
espécie de sereia; só podíamos ver o seu busto, pois suas pernas estavam sempre
cobertas. Ela nos recebia com o encanto de um sorriso alegre, como é mister das
sereias, e sempre com um pano nas mãos fazendo crivo, seu trabalho de Sísifo,
como ela gostava de brincar: desfiar um paninho e preencher os buraquinhos
novamente.
– Ela não podia levantar-se da cama?
– Não, não podia. Não a conheci de outra forma, uma doença
degenerativa a colocou na cama. Não a víamos lamentar-se, tinha sempre o
sorriso e uma brincadeira para receber-nos. Mas voltando à sala de jantar, esta
mesa juntava a família nas noites de domingo, quando minha avó se sentava à
cabeceira com os filhos ao redor. Os netos pequeninos brincavam sobre a mesa.
Um dia fiquei muito ressentido com ela, pois foi ela a dizer-me que já era
muito grande para ficar em cima da mesa, e este quadro tenho-o bem presente na
minha memória, pois ali tomei consciência da boca do tempo que me comia os
anos, embora ainda ansiasse que se fossem depressa; e ali naquela parede de
cabeceira da mesa, preguiçosamente ficava um relógio antigo de pêndulo a
tiquetaquear os segundos, lembrando a cada meia-hora, com suas batidas, que o
tempo não se esquecia de nós.
– E seu avô?
– Só conheci o seu retrato que ficava pendurado ali no meio
da sala, ao lado do da minha avó, mas ela também logo se despediu nos meus
cinco anos, em um dia em que fui acordado muito cedo pela minha irmã dizendo-me
que a vovó morrera. Em minhas lembranças foi o meu primeiro contato com a velha
senhora, ainda na minha insensibilidade infantil, que se espantava com o choro
desconsolado das tias.
– Que triste, Doutor.
– Mas vem, vamos descer esta escada, ela nos leva ao
jardim, onde a planta mais agitada, que nos ficava a espezinhar, era a tia Tal.
– Tia Tal?
– Isso, Miguelim, foi um apelido que nossa prima mais velha
lhe deu. Seu nome era Maria do Carmo, assim mesmo, sem sobrenome algum,
maluquice de um tabelião distraído, mas os sobrinhos nem pareciam saber deste
nome, só era mesmo a tia Tal. Ela até tentava impor-nos algum respeito com
gritos e pitos, mas nem ligávamos para os seus chiliques. Bom, este era o
jardim, não era nenhum primor, mas sempre havia as flores. Subamos novamente as
escadas de volta à sala de jantar, ali em frente, o quarto das tias, lugar mais
sagrado da casa.
– Mas quantas eram as suas tias, Doutor?
– Bom, já falamos de três, faltam ainda outras duas: a mais
velha das irmãs era a tia Analita, uma professorinha, uma espécie de santa, piedosa
Filha de Maria que dedicava muito do seu tempo a cuidar da Igreja Matriz, das
flores e toalhas dos altares e, na ocasião do Natal, do grande presépio que se
armava no canto direito do braço da cruz formada no interior da igreja, ocupando
toda a sua largura. Este belo trabalho, que ajudei algumas vezes a montar, era
uma atração invulgar, que causava muita admiração nos fiéis. Após as missas do
primeiro domingo em que o tapume que o escondia era retirado, todos acorriam curiosos
para ver o presépio.
– Que bonito devia ser!
– E completando as
tias, havia ainda a Cleonice, sem o tia.
– Sem o tia, por quê?
– Ela ficava muito sentida que a tratássemos assim. Mas nem
sei direito porquê o fazíamos. Ela foi criada pelos meus avós, não era filha
deles, e talvez não nos tenham ensinado, quando pequenos, a tratá-la como tia.
Ela dizia que era preconceito nosso, porque ela era negra.
– Talvez ela tivesse um pouco de razão.
– Talvez, Miguilim, talvez porque o reduto dela era a
cozinha. E como! Ela era uma doceira, ou melhor, ela era a doceira. Quando
chegávamos na casa, o cheiro que vinha da cozinha deixava-nos enfeitiçados, e
ficávamos torcendo para haver alguma raspa de panela para nós. Raspa de cocada
preta! Nunca provei doce mais gostoso!
– Eu também gosto muito de cocada, Doutor.
– A cocada da Cleonice era diferente de qualquer outra que
já provei. Diz-se que quando a gente cresce, e deixa a criança para trás, os
sabores da infância nos acompanham, e a gente acha que eles eram muito
superiores, mas isto não é verdade, pois mesmo quando pequenos não queríamos
saber de outras cocadas, só serviam aquelas. Mas a cocada era que a gente podia
mais apreciar por causa da raspa da panela, mas o meu doce preferido era o
cajuzinho.
- Era de amendoim com chocolate?
- Isso mesmo, Miguilim, e sempre que me acho na frente de
algum, tento reaver aquele gosto que me persegue, só para me decepcionar.
– Puxa, Doutor, estou com água na boca.
– Vem, vamos deixar este cheiro gostoso desta cozinha
escura para trás, pois a fumaça que se espalha do fogão à lenha já está me
intoxicando. Atravessemos a cozinha, desçamos esta escada, penduricalho mais
tardio da casa que dá acesso ao quintal; antes só existia uma passagem pelo
jardim. Este espaço sempre foi a maior
alegria que tivemos quando crianças.
– Uau! É grande!
– Vamos descer esta escada. Estamos agora debaixo da casa,
onde os velhos fantasmas vistos das gretas da sala tinham sua morada. Observe
por estes cantos escuros onde a luz do sol não se reflete, há muito lugar onde
eles podiam espreitar-nos e tingir de medo nossas caras.
– E não tem nada aqui, Doutor.
– Era pouco usado este espaço, mas atrás daquela porta ali
tem um quarto onde meu pai guardava ferramentas, selas e acessórios para os
cavalos, milho e rações, e cacarias que ainda pudessem ter serventia. E tinha
também um baú antigo onde se achavam cartas e coisas muito velhas, onde algumas
vezes eu vasculhei à procura de um tesouro.
– E o que você achou?
– Só papéis a que então não dava valor. Mas vamos ao
terreiro. Aqui ao lado era uma área de serviço onde se cuidava dos cavalos, e
tinha sempre uma pilha de lenha. Muitas tardes meu pai passava ali exercitando-se
a rachar as toras. E ali, no final do muro, há esse portão grande que dá para a
rua. Todos os dias esse portão era aberto às sete horas da manhã, e uma
procissão ali acontecia até as onze horas, quando era fechado.
– Uai, Doutor, procissão de quê?
– Os moradores das casas do alto do morro ali em frente não
tinham água em suas casas, e as mulheres, e mesmo algumas crianças, desciam o
morro com suas latas para pegar água aqui no terreiro.
– E onde tinha água?
– Lá embaixo, já vou lhe mostrar; mas repare na altura da
escada que sobe o morro, elas tinham que subir carregando as latas, e também aquela
outra escada da cacimba até aqui. Elas carregavam as latas sobre a cabeça e nem
usavam as mãos para segurá-las.
– Puxa, Doutor, é muita escada para subir!
– E elas o faziam diversas vezes a cada dia para encher
suas caixas-d´água ou barris. Quando chovia, as escadas ficavam escorregadias,
e mais difícil ficava ainda a dura tarefa. Vamos por aqui descer as escadas que
levam à parte baixa do terreiro. Aqui no meio da escada tem um abacateiro que
nos enchia os pratos de massa verde com açúcar, uma delícia! E ali embaixo,
veja, a cacimba que fornecia a boa água para toda aquela gente. De manhã cedo a
água estava no seu nível máximo; quando o portão se fechava, ela ficava bem
baixa, exigindo que se debruçasse sobre a borda para conseguir tirar a água.
– E como era tirada?
– Com um balde normal, e vertia-se a água nas latas. Neste
trabalho muitas vezes a água espalhava-se ao lado da cacimba fazendo lama, e a
tia Tal, que sempre descia com uma bacia para ali ao lado lavar suas roupas,
esbravejava para que não deixassem a água cair no chão. Para nós era um
espetáculo divertido, pois sempre vislumbrávamos algumas caretas que lhe eram
dirigidas. O portão era fechado às onze horas para que o nível da água pudesse
ser recuperado para o dia seguinte.
– Que bom que existia a cacimba, Doutor!
– Realmente, Miguelim, era um bom serviço que as tias
prestavam àquela gente sofrida. E veja o terreiro, todo coberto de árvores: goiabas
de todos os tipos e, ali naquele canto, essa enorme mangueira. Nos meses de
verão, quando estávamos de férias, íamos cedo buscar as mangas que caíam
durante a noite, pois, se tardássemos, o pessoal que ia buscar água também pegava
as manguinhas, embora fosse acordado que não deveriam fazê-lo.
– Quem pode resistir a uma manga, né?
– Pois é, quando chegávamos mais tarde ficávamos bravos se
não achávamos nada. Ali do outro lado tem uma construção com um chiqueiro, mas
no canto de cá, um alpendre onde havia uma trempe no chão para tacho. Ali
cozinhávamos inhame para os porcos, derretia-se sebo de boi, e fazíamos muita
goiabada.
– Com tanto pé de goiaba deviam fazer bastante!
– Quando minha avó era viva, juntava-se toda a família,
armava-se uma bancada sobre cavaletes e todos ajudavam a preparar as goiabas: a
eliminar os caroços e moer toda a massa que ia para um tacho enorme. Depois,
meu pai passou a fazer apenas com nossa ajuda, mas para um tacho bem menor e
sem moer a massa, fazendo a goiabada cascão. E, então, sobrou para mim e meu
irmão, que fomos encarregados de fazer o doce; fazíamos duas vezes por semana.
Uma parte podíamos vender para nós e assim juntávamos dinheiro para brincar o
carnaval. E fazíamos todo o serviço: desde subir nos pés para apanhar as
goiabas, limpá-las, amassá-las, até o cozimento. E sofríamos ainda os
acidentes. Certa vez, em cima de uma goiabeira, uma taturana verde enorme achou
uma minha coxa e a ardência me fez despencar lá de cima.
– E machucou muito, Doutor?
– Só mesmo a queimadura e uma pancada forte nas costas.
Lembro-me ainda de uma vez em que estávamos com a goiabada quase no ponto, meu
irmão foi tirar o ponto sem me advertir e eu, mexendo a massa sem parar para
não agarrar no tacho, joguei uma porção em cima da mão dele.
– Coitado, Doutor!
– Como ela estava chegando no ponto, felizmente não agarrou
na pele dele e ele se livrou logo da massa quente. Era penoso o nosso serviço,
mas também nos divertíamos muito. Nada divertido era quando o pai resolvia
plantar arroz na vargem ali detrás desta cerca de bambu. Pior trabalho não
podia existir. E quando depois do corte do arroz tínhamos que batê-lo, ufa!
Ficávamos com arranhões por todo o corpo, e pinicando.
– Cruz credo, só de pensar já estou arrepiando.
– E no terreiro ainda havia um pé de laranja, carambola e
pinha, que você conhece como fruta do conde. Ali na vargem também tinha um pé
de jambolão, fruta sem graça, mas que servia para deixar a boca arroxeada.
– Uau, quanta fruta!
– E o terreiro terminava à beira do córrego, que o separava
do quintal da serraria do Suquinha. Ali juntava em ocasiões uma turminha para
caçar com bodoques as rolinhas que se empoleiravam nos fios.
– E no córrego dava para nadar?
– Não, era raso, além de já ser naquela época escoadouro de
esgoto de diversas casas, mas gostávamos de brincar por ali; usar um bambu para
pular para o outro lado era bastante divertido, longe dos olhares das tias que
não se aventuravam por aqueles fundos.
– Que bom, Doutor, quanta diversão em sua infância!
– Muita mesmo, Miguelim, éramos muito felizes e hoje o
sabemos.
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