sábado, 29 de setembro de 2018

Agkhar, o mantenedor do fogo


Agkhar, o mantenedor do fogo




                                                                                                          Ninguém é livre senão Zeus.
                                                                                                                  (Ésquilo, Prometeu Acorrentado)

As crianças sentadas à sombra fresca de uma grande árvore ouviam atentamente as histórias contadas pelo grande ancião da tribo. O velho sábio falava da luta terrível que acontecera no céu entre os deuses, quando tempestades retumbaram trovões e raios caíram na terra dizimando florestas, explodindo as montanhas que despejavam lava quente sobre os vales e enlouquecendo os rios que ferviam e assolavam as terras baixas. Depois de muita destruição, Zeus se levantou como o deus supremo da justiça, e todos os rios, vales e montes tomaram seus lugares.

Prometeu e seu irmão Epimeteu, dois Titãs, dois dos gigantes que faziam parte da corte dos deuses, foram por eles encarregados de fazer do barro as criaturas para povoar o paraíso que foi dado como dádiva aos homens.

O pequeno Agkhar continha a respiração seguindo os gestos agitados do velho que socava o ar para simular os raios dos deuses, e quando a paz se estabeleceu, a noite já estava anunciando-se; embora olhasse furtivamente medindo os últimos clarões do dia, desejoso já de correr para a segurança da caverna, levantou o dedo pedindo a palavra. O ancião, embora um tanto contrariado pela interrupção tardia, concedeu-a:  

– Se vivemos em um paraíso, por que temos que tremer de medo das feras que nos forçam a viver na escuridão da caverna como as formigas?

– Hum! Somos felizes por termos recebido a proteção da caverna, os deuses nos deram a graça da vida e o domínio sobre toda a beleza deste mundo maravilhoso, tudo foi posto em seu devido lugar para o nosso maior bem.

– Mas seria muito melhor se não vivêssemos com tanto medo, tendo que deixar guardas na entrada da caverna para proteger-nos.

– Agora, chega! todos para a caverna!

Com o cair da noite, nada restava a fazer senão entregar-se à escuridão esperando que os deuses não estivessem zangados e que as feras não ficassem agitadas pelo fome.

Atento àquela conversa, Prometeu compadeceu-se do medo do menino, e, resolvido a ajudar os homens, pediu uma audiência ao deus supremo:

– Senhor dos Raios, posso estar sendo ingênuo, mas por que mantendes os homens na escuridão, sofrendo os horrores do medo e da ignorância?

– E por que te metes nos meus assuntos? Que te importam os homens?

– Humildemente, Senhor, tenho por eles enorme carinho devido ao cuidado que eu e meu irmão tivemos na sua criação, por isto peço que desvieis um olhar para a Terra para que possais perceber a angústia dos homens.

– E ainda insistes? O que chamas de ignorância é apenas inocência, e isto é o que lhes permite serem felizes, sem conhecerem as doenças das preocupações. E nada quero mais 
ouvir deste assunto!

Prometeu não se contentou e ficou a pensar no medo daquele menino no interior de uma caverna úmida e escura. Tanto e tanto o pensamento o atormentou que decidiu não se submeter à proibição de não se meter no assunto. Subiu ao cimo do monte Olimpo, no seu lado oriental, para chegar mais próximo ao carro de Apolo, quando este preparava os cavalos para cruzar o céu levando os raios dourados a inundar de vida o dia, e acendeu uma tocha no fogo sagrado do sol.

***

Apolo já estava a chegar no extremo ocidental do céu. Agkhar estava com os seus amigos na frente da caverna a brincar no jogo que todos mais gostavam: a caça ao tigre, uma inconsciente preparação para suas futuras obrigações para a sobrevivência. No meio da perseguição à perigosa presa, viu um gigante descer a montanha trazendo nas mãos um vento da cor do sol amarrado na ponta de um bastão. Com o grito de espanto que emitiu, todos correram para a escuridão da caverna.

Os meninos gritaram de pavor quando o gigante parou na porta da caverna elevando a tocha sobre a sua cabeça. A luz invadiu a escuridão que reinava na caverna e Aghkar pôde ver ao seu lado o velho sábio, cujo rosto era uma máscara de terror, apoiado na parede de pedra; nos olhos dele ele pôde perceber a imagem da chama, na parede a sua sombra projetada fez em sua mente clarear a imagem que o sol deixava, e ele compreendeu. Juntando a coragem que não lhe faltava com a curiosidade, desvencilhou-se do velho que agarrara os seus braços e acercou-se do gigante, que se apresentou:

– Não tenham medo, sou Prometeu, desci do monte Olimpo para trazer-lhes este presente – dizendo isto, estendeu a tocha.

Embora ainda muito temeroso, a curiosidade fez a mão de Agkhar aproximar-se da tocha, retirando-a rapidamente.

– É quente.

– Sim, é quente, é preciso ter cuidado para não tocar a chama, mas trará muita comodidade a vocês.

– Além de iluminar a caverna, para que mais serve?

O gigante pediu que os meninos juntassem galhos e ateou-lhes o fogo, fazendo uma grande fogueira. Usando uma vara, espetou pedaços de carne de uma corça que os caçadores haviam acabado de trazer, suspendeu-a sobre o fogo, e quando o cheiro da carne assada já incentivava a fome, chamou Agkhar e lhe disse que provasse.

– Uau! Que gosto bom! – o grito de satisfação do menino ecoou por toda a caverna.

Todos se precipitaram a disputar um pedaço e muitas línguas ansiosas ficaram chamuscadas pela gulodice. E os homens, pela primeira vez, comeram como os deuses.

Prometeu ensinou Agkhar a cuidar do fogo para que não se apagasse, criando a primeira profissão social da humanidade, o mantenedor do fogo, que deveria cuidar permanentemente de mantê-lo aceso, alimentando-o quando necessário e não permitindo que escapasse do recinto da fogueira e, assim, causasse um acidental incêndio, e para que ele pudesse exercer sua função, os demais deviam suprir as suas necessidades.

Certa vez, quando tinha um cacho de bananas nas mãos, uma delas caiu na fogueira. Aghkar retirou-a do meio das brasas, descascou-a, e provando-a descobriu uma surpreendente delícia. Um balãozinho com uma tocha surgiu em sua mente, e ele teve a feliz ideia de inventar a sobremesa. Tendo ensinado a todos a receita, teve o seu nome gravado nos marcos de pedra para toda a posteridade como benfeitor da humanidade.

O fogo foi um grande propulsor da inteligência humana, e Agkhar continuou a descobrir muitas outras utilidades para o presente de Prometeu.

***

Passados muitos anos, visto que para os deuses o tempo anda mais rápido que na escala humana, um dia, distraído, Zeus deixou o olhar descer até a terra e assustou-se com o que viu, pois seu olhar se perdeu pelo futuro e ele viu tudo se transformando: o homem saiu das cavernas construindo suas próprias casas, o fogo estava sendo utilizado para fabricar espadas, arados e muitas outras novidades. Ele se enfureceu ao ver o homem usurpando os privilégios dos deuses e pensou em mandar um dilúvio para acabar com a vida humana, mas a raiva passou, pois ele pensou que poderia divertir-se a assistir a vida na terra transformar-se em um inferno em meio às guerras, disputas e invejas, mas não perdoou a insubordinação de Prometeu, chamou outros Titãs e mandou prendê-lo, amarrando-o com fortes cadeias ao pico de uma montanha, onde ele teria que permanecer de pé, sem dobrar os joelhos e sem dormir. Achando pouco o castigo, determinou que uma águia enorme voasse até ele todos os dias e comesse o seu fígado, que, por ser ele imortal, à noite regenerava.

Prometeu suportou o castigo sem degradar-se perante seu opressor, embora suas dores fossem tão intensas que seus gritos ecoavam por toda a Terra, apavorando os homens, e as suas lágrimas caíam em forma de chuva.

Agkhar ouvia os gritos angustiado e propôs-se a ajudar o seu benfeitor. Embora uma lenda antiga afirme que foi o grande guerreiro Hércules que livrou Prometeu das correntes, a história que o ancião contava nas rodas noturnas ao redor da fogueira era outra:

Desde que forjara os grilhões que prendiam Prometeu, Hefesto, deus das profundezas, sentia-se mal com o terrível trabalho que lhe fora imposto por Zeus, remoendo remorsos pela crueldade que ajudara a realizar. Para distrair-se de seus tormentos, acostumou-se a subir do seu reino para longos passeios sobre a superfície, admirando o trabalho dos homens. A perícia com que Agkhar usava o fogo para moldar o ferro levou-o a ensinar-lhe novas técnicas, e, astuciosamente, ajudá-lo a forjar as ferramentas que lhe permitiriam liberar o infeliz gigante.

Quando obteve os utensílios necessários, Agkhar subiu a montanha com um grupo de amigos. Atingido o cume onde Prometeu sofria e iniciados os trabalhos para quebrar as grossas correntes, foram atacados pela águia que não queria perder sua presa. Na dura batalha contra as garras e o bico da ave feroz, mais de um infeliz foi atirado montanha abaixo, mas as flechas com pontas de ferro conseguiram abatê-la e o trabalho pôde, enfim, ser terminado: Prometeu foi libertado de seu injusto castigo.

***

Zeus não ficou satisfeito com o novo ato de desobediência a sua vontade, e para vingar-se dos homens concebeu um fogo mais forte que o mais poderoso de seus raios. Convocou todos os deuses a contribuírem para forjar uma criatura para mandar de presente a Prometeu e a seu irmão Epimeteu, que apenas tinha com a história o fato de ter participado da criação da humanidade.

Os deuses dotaram a criatura com muitos encantos: Afrodite deu-lhe a beleza; Apolo, as artes; Hermes, a malícia, e tornando-a assim irresistível, deram-lhe o nome de Pandora. O próprio Zeus ficou desejoso de guardá-la para si, o que teria feito não fossem os olhares terríveis de sua esposa, Hera, uma deusa ciumenta e vingativa.

Como Prometeu não aceitaria um presente do vingativo Zeus, este entregou à mulher uma caixa pedindo-lhe que a levasse como presente a Epimeteu. Pandora ficou confusa, pois pensava que ela era o presente:

– Afinal, quem é o presente, eu ou a caixa?

– Não pense, – Zeus replicou maliciosamente – apenas leve a caixa e entregue-a, mas não queira abri-la em hipótese alguma, pois muitas desgraças acontecerão, ouviu? De maneira alguma ouse abrir a caixa, você está proibida de fazê-lo.

E Pandora cumpriu a ordem de Zeus indo apresentar-se a Epimeteu, que, embora advertido por Prometeu dos perigos que as armadilhas do astucioso deus poderiam representar, recebeu-a, e, deslumbrado com seus encantos, alojou-a em sua morada em uma dependência adornada com todo o requinte que podia proporcionar-lhe. Mal se viu sozinha em seu quarto, a curiosidade de Pandora, que a estava deixando sem fôlego, levou-a a abrir a caixa.

Imediatamente, espalhou-se pela Terra o conteúdo da caixa, todos os bens e os males irromperam da caixa: as Artes, as Guerras, a Fome, a Doença, a Pobreza, a Riqueza e tudo mais, incluindo a Morte. Assustada, Pandora fechou a caixa rapidamente, restando presa dentro da caixa apenas a Esperança, último recurso dos homens, o que permanece mesmo que males terríveis os ameacem, mesmo a morte.

***

Após a perda do seu paraíso, muitos anos foram vividos por Agkhar cheios de trabalhos, fadigas, alegrias e tristezas. A doença, herança de sua própria generosidade ao seu benfeitor Prometeu, encontrou-o em sua última noite debaixo da grande árvore, onde fizera questão de repousar, tomando-lhe as forças. Agradeceu por lhe ser permitido o descanso do seu corpo cansado, e, olhando para a lua opulenta, que brilhava ladeada por sua corte de estrelas, aqueceu-se na pequena chama que restara na caixa do seu peito, que nenhum deus lhe poderia tirar: a esperança de um novo mundo.

***

Ah! Bem lembrado! O castigo de Zeus demorou, mas aconteceu. Ele foi completamente banido dos céus pelo nascimento de uma criança pobre em uma manjedoura.

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terça-feira, 25 de setembro de 2018

Quintal


Quintal

Pã e sua flauta


                                                                                       “Digo: o real não está na saída nem na chegada:
                                                                                       ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”.

                                                                                                                                     (Guimarães Rosa)

Alô, galera, ao vivo e em cores hoje quero mostrar para vocês o mundo de alegrias do quintal aqui da minha casa; antes de pôr os pés no primeiro degrau desta escada, que dele me separa, faço todo um trabalho de higiene para não contaminar os raios de sol que o acalentam: peço às ninfas que me permitam uma metamorfose, deixando para trás esta casa que me envolve como uma casca velha, dela emergindo uma cigarra que possa voar e soprar na flauta do velho Pã a trilha sonora, que não me canso de entoar, e, que assim espero, vocês não se cansem de ouvir.

O objetivo final deste vídeo será mostrar-lhes a vida que pulsa em um ninho que ontem descobri com dois filhotinhos. Em surpresa eu passei um tempão observando os bichinhos, depois fiquei de tocaia para ver a mamãe das avezinhas a dar comida aos bicos escancarados de gulodice. Eu rodava nos meus olhos um filme de espantos e só via a alegria e a beleza da vida a se fazerem notar. Estou muito entusiasmado de ir filmando todo dia o crescimento deles, acho que vai ser muito legal e espero poder transmitir-lhes todo o meu encantamento.

Mas como o ninho se encontra lá no fundo, no meio das folhas de uma goiabeira, bem pertinho do ribeirão onde termina o quintal, enquanto caminhamos até lá vou mostrar a vida que pulsa por aqui.

Descendo a escada, este cacarejar que vocês estão ouvindo é a sinfonia das galinhas, que correm afoitas para o pé da escada tão logo alguém pisa no degrau superior. Parece que a pouca visão delas vê os pés como se fossem os do próprio Pã, cuja missão única é trazer-lhes os requintes dos restos dos banquetes divinos que acontecem sem interrupção na casa, uma espécie de Olimpo para as galinhas. Vamos frustrar as suas esperanças, deixando-as bem loucas a correrem e a brigarem por um lugar bem pertinho de mim. Coitadas, o prazer que elas esperam não se realizará em alegria, e assim posso aproveitar melhor para mostrar-lhes a estupidez desses bichos que só sabem pensar com o papo, ou seria sapiência em buscar uma migalha de sabor imaginando: para mim saberia bem um grão de milho ou de arroz, quem sabe um feijão novinho.

Mas deixemos essas tagarelas que já se frustraram ao saber que minha câmera não é nada comestível ou que, pelo menos, eu não estou disposto a jogá-la para elas. Vejam ali na frente: uma procissão de formigas vem lá do fundo do quintal em direção ao muro do lado direito. No pé do muro elas desaparecem por um buraco enorme. Quando o meu pai souber, ele vai atacá-las e destruir o formigueiro; acho que não vou contar para ele, é melhor deixar os bichinhos livres, fazendo o trabalho cansativo nesse vai e vem frenético que mais parece uma autoestrada com os carros seguindo uma rota determinada.

Eu gosto de ficar admirando a correria delas, as que saem do buraco vão encontrando as que chegam transportando as suas cargas enormes, conversam entre elas, devem perguntar sobre as coisas gostosas que as outras encontraram, perguntam onde tem isso, onde não podem ir pelos perigos que lá existem, e seguem já na certeza de aonde ir. Aqui elas são o trabalho e eu sou a vadiagem, fazendo o papel da cigarra que só quer diversão, que deixei minha casca dura lá em cima da escada para cansar-me de ver o trabalho delas só para minha alegria. Mas quê? Que mentiras aquela fábula conta, pois a cigarra não precisa de provisões de inverno, ela surge e vive apenas um verão.

No entanto, é de se admirar a inteligência das formigas, não? Sabem tudo que precisam fazer; será que lá no formigueiro tem umas professoras chatas para ensinar como se deve andar sem uma atropelar a outra? Ou qual o peso máximo que elas podem suportar? Ou como se prevenirem de serem atropeladas por esse calango que passou ligeiro cortando a fila delas, deixando algumas de pernas para cima? Embora eu cá esteja fazendo o papel da cigarra, eu gosto de vê-las em frenética atividade, fortes, ligeiras e companheiras.

Mas nem só de correria está cheio o quintal, veja ali no canto do muro aquela arte quieta da teia de uma pequena aranha, dissimulada, à espera de um mosquitinho incauto que grude suas asas em seus fios. Ferinas essas aranhas, quanta ciência em seu modo de vida calmo, mas de muita excitação. Por que será que uma mosquinha precisa lutar tanto contra uma aranha e tudo o mais? E essa bela borboleta, que passa alternando cores sob os raios do sol, por que será precisa de tanto fugir dos bicos dos pássaros?

Continuemos seguindo a fila de formigas. Ela está indo direto para o nosso objetivo, lá onde a goiabeira abriga o ninho, estão vendo? lá no fundo do quintal? Hum!? não gostei, ainda bem que o ninho se esconde entre os galhos e as folhas, e os filhotinhos estão protegidos.

Bem, aqui está a goiabeira, nesta época só tem goiabinhas verdes, no verão haverá deliciosas goiabas brancas, as minhas preferidas. Fico encabulado de pensar: como sabe a goiabeira fazer as goiabas? Mistérios do meu quintal. Oh! besteira, mais estranho seria se ela fizesse jabuticabas. Deixem-me chegar no meio das folhas para mostrar o ninho, enquanto sigo as formigas subindo pela goiabeira!

Ah, não! Posso até ouvir os passos destas malditas subindo pelos galhos. O ninho está enxameado com essas horríveis formigas! Os filhotinhos! Elas estão arrancando seus pedaços para levarem ao formigueiro! Por que será que o velho chifrudo está a punir-me transformando o meu maior prazer nessa terrível desgraça? deixando-me desvairado de ódio, frustrado em pâ-nico?

Malditas! Vou liquidar com todas vocês. Vou esmigalhar vocês. Vou chamar meu pai para liquidar com o seu formigueiro.

– Pai, pai, há uma multidão de formigas no quintal!

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