Agkhar,
o mantenedor do fogo
Ninguém é livre senão Zeus.
(Ésquilo, Prometeu Acorrentado)
As crianças sentadas à sombra fresca de uma grande árvore
ouviam atentamente as histórias contadas pelo grande ancião da tribo. O velho
sábio falava da luta terrível que acontecera no céu entre os deuses, quando
tempestades retumbaram trovões e raios caíram na terra dizimando florestas,
explodindo as montanhas que despejavam lava quente sobre os vales e
enlouquecendo os rios que ferviam e assolavam as terras baixas. Depois de muita
destruição, Zeus se levantou como o deus supremo da justiça, e todos os rios,
vales e montes tomaram seus lugares.
Prometeu e seu irmão Epimeteu, dois Titãs, dois dos
gigantes que faziam parte da corte dos deuses, foram por eles encarregados de
fazer do barro as criaturas para povoar o paraíso que foi dado como dádiva aos
homens.
O pequeno Agkhar continha a respiração seguindo os gestos
agitados do velho que socava o ar para simular os raios dos deuses, e quando a
paz se estabeleceu, a noite já estava anunciando-se; embora olhasse
furtivamente medindo os últimos clarões do dia, desejoso já de correr para a
segurança da caverna, levantou o dedo pedindo a palavra. O ancião, embora um
tanto contrariado pela interrupção tardia, concedeu-a:
– Se vivemos em um paraíso, por que temos que tremer de
medo das feras que nos forçam a viver na escuridão da caverna como as formigas?
– Hum! Somos felizes por termos recebido a proteção da
caverna, os deuses nos deram a graça da vida e o domínio sobre toda a beleza
deste mundo maravilhoso, tudo foi posto em seu devido lugar para o nosso maior
bem.
– Mas seria muito melhor se não vivêssemos com tanto medo,
tendo que deixar guardas na entrada da caverna para proteger-nos.
– Agora, chega! todos para a caverna!
Com o cair da noite, nada restava a fazer senão entregar-se
à escuridão esperando que os deuses não estivessem zangados e que as feras não ficassem
agitadas pelo fome.
Atento àquela conversa, Prometeu compadeceu-se do medo do
menino, e, resolvido a ajudar os homens, pediu uma audiência ao deus supremo:
– Senhor dos Raios, posso estar sendo ingênuo, mas por que
mantendes os homens na escuridão, sofrendo os horrores do medo e da ignorância?
– E por que te metes nos meus assuntos? Que te importam os
homens?
– Humildemente, Senhor, tenho por eles enorme carinho
devido ao cuidado que eu e meu irmão tivemos na sua criação, por isto peço que
desvieis um olhar para a Terra para que possais perceber a angústia dos homens.
– E ainda insistes? O que chamas de ignorância é apenas
inocência, e isto é o que lhes permite serem felizes, sem conhecerem as doenças
das preocupações. E nada quero mais
ouvir deste assunto!
Prometeu não se contentou e ficou a pensar no medo daquele
menino no interior de uma caverna úmida e escura. Tanto e tanto o pensamento o
atormentou que decidiu não se submeter à proibição de não se meter no assunto.
Subiu ao cimo do monte Olimpo, no seu lado oriental, para chegar mais próximo ao
carro de Apolo, quando este preparava os cavalos para cruzar o céu levando os
raios dourados a inundar de vida o dia, e acendeu uma tocha no fogo sagrado do
sol.
***
Apolo já estava a chegar no extremo ocidental do céu.
Agkhar estava com os seus amigos na frente da caverna a brincar no jogo que
todos mais gostavam: a caça ao tigre, uma inconsciente preparação para suas
futuras obrigações para a sobrevivência. No meio da perseguição à perigosa
presa, viu um gigante descer a montanha trazendo nas mãos um vento da cor do
sol amarrado na ponta de um bastão. Com o grito de espanto que emitiu, todos
correram para a escuridão da caverna.
Os meninos gritaram de pavor quando o gigante parou na
porta da caverna elevando a tocha sobre a sua cabeça. A luz invadiu a escuridão
que reinava na caverna e Aghkar pôde ver ao seu lado o velho sábio, cujo rosto
era uma máscara de terror, apoiado na parede de pedra; nos olhos dele ele pôde
perceber a imagem da chama, na parede a sua sombra projetada fez em sua mente
clarear a imagem que o sol deixava, e ele compreendeu. Juntando a coragem que
não lhe faltava com a curiosidade, desvencilhou-se do velho que agarrara os
seus braços e acercou-se do gigante, que se apresentou:
– Não tenham medo, sou Prometeu, desci do monte Olimpo para
trazer-lhes este presente – dizendo isto, estendeu a tocha.
Embora ainda muito temeroso, a curiosidade fez a mão de
Agkhar aproximar-se da tocha, retirando-a rapidamente.
– É quente.
– Sim, é quente, é preciso ter cuidado para não tocar a
chama, mas trará muita comodidade a vocês.
– Além de iluminar a caverna, para que mais serve?
O gigante pediu que os meninos juntassem galhos e
ateou-lhes o fogo, fazendo uma grande fogueira. Usando uma vara, espetou
pedaços de carne de uma corça que os caçadores haviam acabado de trazer,
suspendeu-a sobre o fogo, e quando o cheiro da carne assada já incentivava a
fome, chamou Agkhar e lhe disse que provasse.
– Uau! Que gosto bom! – o grito de satisfação do menino
ecoou por toda a caverna.
Todos se precipitaram a disputar um pedaço e muitas línguas
ansiosas ficaram chamuscadas pela gulodice. E os homens, pela primeira vez,
comeram como os deuses.
Prometeu ensinou Agkhar a cuidar do fogo para que não se
apagasse, criando a primeira profissão social da humanidade, o mantenedor do
fogo, que deveria cuidar permanentemente de mantê-lo aceso, alimentando-o
quando necessário e não permitindo que escapasse do recinto da fogueira e,
assim, causasse um acidental incêndio, e para que ele pudesse exercer sua
função, os demais deviam suprir as suas necessidades.
Certa vez, quando tinha um cacho de bananas nas mãos, uma
delas caiu na fogueira. Aghkar retirou-a do meio das brasas, descascou-a, e
provando-a descobriu uma surpreendente delícia. Um balãozinho com uma tocha surgiu
em sua mente, e ele teve a feliz ideia de inventar a sobremesa. Tendo ensinado
a todos a receita, teve o seu nome gravado nos marcos de pedra para toda a
posteridade como benfeitor da humanidade.
O fogo foi um grande propulsor da inteligência humana, e
Agkhar continuou a descobrir muitas outras utilidades para o presente de
Prometeu.
***
Passados muitos anos, visto que para os deuses o tempo anda
mais rápido que na escala humana, um dia, distraído, Zeus deixou o olhar descer
até a terra e assustou-se com o que viu, pois seu olhar se perdeu pelo futuro e
ele viu tudo se transformando: o homem saiu das cavernas construindo suas
próprias casas, o fogo estava sendo utilizado para fabricar espadas, arados e
muitas outras novidades. Ele se enfureceu ao ver o homem usurpando os
privilégios dos deuses e pensou em mandar um dilúvio para acabar com a vida
humana, mas a raiva passou, pois ele pensou que poderia divertir-se a assistir
a vida na terra transformar-se em um inferno em meio às guerras, disputas e
invejas, mas não perdoou a insubordinação de Prometeu, chamou outros Titãs e
mandou prendê-lo, amarrando-o com fortes cadeias ao pico de uma montanha, onde
ele teria que permanecer de pé, sem dobrar os joelhos e sem dormir. Achando
pouco o castigo, determinou que uma águia enorme voasse até ele todos os dias e
comesse o seu fígado, que, por ser ele imortal, à noite regenerava.
Prometeu suportou o castigo sem degradar-se perante seu
opressor, embora suas dores fossem tão intensas que seus gritos ecoavam por
toda a Terra, apavorando os homens, e as suas lágrimas caíam em forma de chuva.
Agkhar ouvia os gritos angustiado e propôs-se a ajudar o
seu benfeitor. Embora uma lenda antiga afirme que foi o grande guerreiro
Hércules que livrou Prometeu das correntes, a história que o ancião contava nas
rodas noturnas ao redor da fogueira era outra:
Desde que forjara os grilhões que prendiam Prometeu, Hefesto,
deus das profundezas, sentia-se mal com o terrível trabalho que lhe fora
imposto por Zeus, remoendo remorsos pela crueldade que ajudara a realizar. Para
distrair-se de seus tormentos, acostumou-se a subir do seu reino para longos passeios
sobre a superfície, admirando o trabalho dos homens. A perícia com que Agkhar
usava o fogo para moldar o ferro levou-o a ensinar-lhe novas técnicas, e,
astuciosamente, ajudá-lo a forjar as ferramentas que lhe permitiriam liberar o
infeliz gigante.
Quando obteve os utensílios necessários, Agkhar subiu a
montanha com um grupo de amigos. Atingido o cume onde Prometeu sofria e iniciados
os trabalhos para quebrar as grossas correntes, foram atacados pela águia que
não queria perder sua presa. Na dura batalha contra as garras e o bico da ave
feroz, mais de um infeliz foi atirado montanha abaixo, mas as flechas com
pontas de ferro conseguiram abatê-la e o trabalho pôde, enfim, ser terminado:
Prometeu foi libertado de seu injusto castigo.
***
Zeus não
ficou satisfeito com o novo ato de desobediência a sua vontade, e para
vingar-se dos homens concebeu um fogo mais forte que o mais poderoso de seus raios. Convocou todos os
deuses a contribuírem para forjar uma criatura para mandar de presente a
Prometeu e a seu irmão Epimeteu, que apenas tinha com a história o fato de ter
participado da criação da humanidade.
Os deuses dotaram a criatura com muitos encantos: Afrodite
deu-lhe a beleza; Apolo, as artes; Hermes, a malícia, e tornando-a assim irresistível,
deram-lhe o nome de Pandora. O próprio Zeus ficou desejoso de guardá-la para
si, o que teria feito não fossem os olhares terríveis de sua esposa, Hera, uma
deusa ciumenta e vingativa.
Como Prometeu não aceitaria um presente do vingativo Zeus,
este entregou à mulher uma caixa pedindo-lhe que a levasse como presente a
Epimeteu. Pandora ficou confusa, pois pensava que ela era o presente:
– Afinal, quem é o presente, eu ou a caixa?
– Não pense, – Zeus replicou maliciosamente – apenas leve a
caixa e entregue-a, mas não queira abri-la em hipótese alguma, pois muitas
desgraças acontecerão, ouviu? De maneira alguma ouse abrir a caixa, você está
proibida de fazê-lo.
E Pandora cumpriu a ordem de Zeus indo apresentar-se a
Epimeteu, que, embora advertido por Prometeu dos perigos que as armadilhas do
astucioso deus poderiam representar, recebeu-a, e, deslumbrado com seus encantos,
alojou-a em sua morada em uma dependência adornada com todo o requinte que
podia proporcionar-lhe. Mal se viu sozinha em seu quarto, a curiosidade de
Pandora, que a estava deixando sem fôlego, levou-a a abrir a caixa.
Imediatamente, espalhou-se pela Terra o conteúdo da caixa,
todos os bens e os males irromperam da caixa: as Artes, as Guerras, a Fome, a
Doença, a Pobreza, a Riqueza e tudo mais, incluindo a Morte. Assustada, Pandora
fechou a caixa rapidamente, restando presa dentro da caixa apenas a Esperança,
último recurso dos homens, o que permanece mesmo que males terríveis os ameacem,
mesmo a morte.
***
Após a perda do seu paraíso, muitos anos foram vividos por
Agkhar cheios de trabalhos, fadigas, alegrias e tristezas. A doença, herança de
sua própria generosidade ao seu benfeitor Prometeu, encontrou-o em sua última
noite debaixo da grande árvore, onde fizera questão de repousar, tomando-lhe as
forças. Agradeceu por lhe ser permitido o descanso do seu corpo cansado, e, olhando
para a lua opulenta, que brilhava ladeada por sua corte de estrelas, aqueceu-se
na pequena chama que restara na caixa do seu peito, que nenhum deus lhe poderia
tirar: a esperança de um novo mundo.
***
Ah! Bem lembrado! O castigo de Zeus demorou, mas aconteceu.
Ele foi completamente banido dos céus pelo nascimento de uma criança pobre em
uma manjedoura.
-o-

