terça-feira, 25 de setembro de 2018

Quintal


Quintal

Pã e sua flauta


                                                                                       “Digo: o real não está na saída nem na chegada:
                                                                                       ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”.

                                                                                                                                     (Guimarães Rosa)

Alô, galera, ao vivo e em cores hoje quero mostrar para vocês o mundo de alegrias do quintal aqui da minha casa; antes de pôr os pés no primeiro degrau desta escada, que dele me separa, faço todo um trabalho de higiene para não contaminar os raios de sol que o acalentam: peço às ninfas que me permitam uma metamorfose, deixando para trás esta casa que me envolve como uma casca velha, dela emergindo uma cigarra que possa voar e soprar na flauta do velho Pã a trilha sonora, que não me canso de entoar, e, que assim espero, vocês não se cansem de ouvir.

O objetivo final deste vídeo será mostrar-lhes a vida que pulsa em um ninho que ontem descobri com dois filhotinhos. Em surpresa eu passei um tempão observando os bichinhos, depois fiquei de tocaia para ver a mamãe das avezinhas a dar comida aos bicos escancarados de gulodice. Eu rodava nos meus olhos um filme de espantos e só via a alegria e a beleza da vida a se fazerem notar. Estou muito entusiasmado de ir filmando todo dia o crescimento deles, acho que vai ser muito legal e espero poder transmitir-lhes todo o meu encantamento.

Mas como o ninho se encontra lá no fundo, no meio das folhas de uma goiabeira, bem pertinho do ribeirão onde termina o quintal, enquanto caminhamos até lá vou mostrar a vida que pulsa por aqui.

Descendo a escada, este cacarejar que vocês estão ouvindo é a sinfonia das galinhas, que correm afoitas para o pé da escada tão logo alguém pisa no degrau superior. Parece que a pouca visão delas vê os pés como se fossem os do próprio Pã, cuja missão única é trazer-lhes os requintes dos restos dos banquetes divinos que acontecem sem interrupção na casa, uma espécie de Olimpo para as galinhas. Vamos frustrar as suas esperanças, deixando-as bem loucas a correrem e a brigarem por um lugar bem pertinho de mim. Coitadas, o prazer que elas esperam não se realizará em alegria, e assim posso aproveitar melhor para mostrar-lhes a estupidez desses bichos que só sabem pensar com o papo, ou seria sapiência em buscar uma migalha de sabor imaginando: para mim saberia bem um grão de milho ou de arroz, quem sabe um feijão novinho.

Mas deixemos essas tagarelas que já se frustraram ao saber que minha câmera não é nada comestível ou que, pelo menos, eu não estou disposto a jogá-la para elas. Vejam ali na frente: uma procissão de formigas vem lá do fundo do quintal em direção ao muro do lado direito. No pé do muro elas desaparecem por um buraco enorme. Quando o meu pai souber, ele vai atacá-las e destruir o formigueiro; acho que não vou contar para ele, é melhor deixar os bichinhos livres, fazendo o trabalho cansativo nesse vai e vem frenético que mais parece uma autoestrada com os carros seguindo uma rota determinada.

Eu gosto de ficar admirando a correria delas, as que saem do buraco vão encontrando as que chegam transportando as suas cargas enormes, conversam entre elas, devem perguntar sobre as coisas gostosas que as outras encontraram, perguntam onde tem isso, onde não podem ir pelos perigos que lá existem, e seguem já na certeza de aonde ir. Aqui elas são o trabalho e eu sou a vadiagem, fazendo o papel da cigarra que só quer diversão, que deixei minha casca dura lá em cima da escada para cansar-me de ver o trabalho delas só para minha alegria. Mas quê? Que mentiras aquela fábula conta, pois a cigarra não precisa de provisões de inverno, ela surge e vive apenas um verão.

No entanto, é de se admirar a inteligência das formigas, não? Sabem tudo que precisam fazer; será que lá no formigueiro tem umas professoras chatas para ensinar como se deve andar sem uma atropelar a outra? Ou qual o peso máximo que elas podem suportar? Ou como se prevenirem de serem atropeladas por esse calango que passou ligeiro cortando a fila delas, deixando algumas de pernas para cima? Embora eu cá esteja fazendo o papel da cigarra, eu gosto de vê-las em frenética atividade, fortes, ligeiras e companheiras.

Mas nem só de correria está cheio o quintal, veja ali no canto do muro aquela arte quieta da teia de uma pequena aranha, dissimulada, à espera de um mosquitinho incauto que grude suas asas em seus fios. Ferinas essas aranhas, quanta ciência em seu modo de vida calmo, mas de muita excitação. Por que será que uma mosquinha precisa lutar tanto contra uma aranha e tudo o mais? E essa bela borboleta, que passa alternando cores sob os raios do sol, por que será precisa de tanto fugir dos bicos dos pássaros?

Continuemos seguindo a fila de formigas. Ela está indo direto para o nosso objetivo, lá onde a goiabeira abriga o ninho, estão vendo? lá no fundo do quintal? Hum!? não gostei, ainda bem que o ninho se esconde entre os galhos e as folhas, e os filhotinhos estão protegidos.

Bem, aqui está a goiabeira, nesta época só tem goiabinhas verdes, no verão haverá deliciosas goiabas brancas, as minhas preferidas. Fico encabulado de pensar: como sabe a goiabeira fazer as goiabas? Mistérios do meu quintal. Oh! besteira, mais estranho seria se ela fizesse jabuticabas. Deixem-me chegar no meio das folhas para mostrar o ninho, enquanto sigo as formigas subindo pela goiabeira!

Ah, não! Posso até ouvir os passos destas malditas subindo pelos galhos. O ninho está enxameado com essas horríveis formigas! Os filhotinhos! Elas estão arrancando seus pedaços para levarem ao formigueiro! Por que será que o velho chifrudo está a punir-me transformando o meu maior prazer nessa terrível desgraça? deixando-me desvairado de ódio, frustrado em pâ-nico?

Malditas! Vou liquidar com todas vocês. Vou esmigalhar vocês. Vou chamar meu pai para liquidar com o seu formigueiro.

– Pai, pai, há uma multidão de formigas no quintal!

-o-

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