segunda-feira, 23 de março de 2020

O Silêncio



O Silêncio


- Biju!

Como costumeiro nos domingos, o grito invadiu o silêncio maior da tarde, maior que tantos outros domingos. A matraca soava mais forte abafando o som da TV, mais insistente, pretendendo ferir a indiferença. Não! Que digo? Indiferença?

Os corações ouviam angustiados sem ousarem levantar-se. A matraca mais alta ressoava um grito de angústia que jazia sufocado em todos os corações. O grito de um pai a quem cortaram a mão que leva o pão de cada dia a seu filho. O grito do filho que chora pedindo o pão sem entender o porquê do lamento em resposta de seu pai.

O medo proíbe atender o seu chamado. Já não sabemos se podemos ser solidários. Aquele grito pode nos trazer o mal que nos forçou ao isolamento. Aquela matraca é uma violência que transforma o delicado sabor do biju em perigoso veneno. A mão, que sacode a matraca, sacode a pedra em que me tornei congelado pelo medo, obrigado pela responsabilidade com todos os demais.

Eu sangro. Sei que os poderes que deveriam ouvir o grito se movem pachorrentamente. 
Sei que o que prometem é um quase nada. Sei que chegará quando será tarde.

Ouço gritos que se levantam nas janelas levando orações em uníssono.

O Silêncio responde.

Pai, por que me abandonaste?

O Silêncio responde.

Vejo de branco um anjo da saúde que sai para trabalhar enfrentando os seus medos. Ele tem uma mãe em casa chorando de impotência. Isolada. Angustiada. Sem poder exercer o seu amor. E vejo o filho retornando do trabalho opressivo fugindo ao contato. Vejo o filho que se remói porque seu cuidado não foi suficiente e leva sua mãe ao hospital. E chora!

O Silêncio responde.

Vejo outro que deixa o filho em casa e vai cumprir seu papel de anjo apesar de suas próprias debilidades, e sucumbe. Ouço o seu grito ao entregar seu filho aos cuidados de...

E O Silêncio responde.

Lembro-me dos gregos, cujo espírito guerreiro confinou dentro de uma caixa o último mal. É proibido abrir a caixa: lute, conte com sua força! Morra o fraco! Foi preciso que um ser iluminado viesse ao mundo para abri-la dizendo: “Meu Reino não é deste mundo”.

E eu grito: multiplique os pães!

O Silêncio responde.

Pelos anos, andei em busca de conhecimento e deparei-me com o pensamento sufi: quando seu ego não mais for, você estará pronto para bater à porta. Fico a ouvir um eco repercutindo: "eagles don't fly together" (em português, algo assim: “águias/egos não voam em bando”). E agora me exortam a trancar-me em casa e fechar a porta, a ser um gavião solitário a alimentar-se com o que conseguiu rapinar.

Sei que nas minhas três noites escuras eu contemplei a presença dos anjos, que falam tão sutilmente que necessitei de toda a minha atenção para ouvi-los. Mas quando o dia se faz e minha atenção se dispersa, eu contemplo 

O Silêncio.

-o-


domingo, 1 de março de 2020

A Morte Desolada



A Morte Desolada




1. Pierre Pardeux

– Pierre Pardeux? Que surpresa vos encontrar por aqui.

– Surpresa, Madame, por quê?

– Realmente não deveis vos lembrar que tínhamos um encontro marcado hoje, mas lá em Paris. Não sabia de sua fuga para cá, mas os fados não deixaram que nos perdêssemos.

– A Madame está enganada, nada tenho agendado. Aliás, nem tenho uma agenda, não gosto de compromissos.

– Com certeza não vos lembrais, pois memórias de lá não são aqui permitidas, mas aqui tenho o vosso contrato de nascimento, que estipula o vosso resgate precisamente para hoje. Como vedes, de nada adiantou a vossa fuga.

– Fuga, Madame? Não houve fuga nenhuma de Paris, não tinha motivos para fazê-lo. Eu apenas vim para Salvador conhecer o carnaval, deslumbrei-me com isto aqui e decidi ficar.

– De qualquer forma, aqui estamos frente a frente, estou surpresa por encontrar-vos assim tão bem-disposto, pois este documento diz que estaríeis definhando com um câncer nos pulmões decorrente dos vossos excessos com o fumo.

– Ah, é por isso? Désolé! A Madame não sabe dos progressos da nossa medicina? Aquilo me causou realmente alguns transtornos, mas foi descoberto a tempo para uma cura perfeita. Aliás, foi para comemorar que vim para esbanjar no carnaval, e tanta farra deu-me disposição. Cigarros!? Pas plus! Nunca mais foi necessário.

– Nada disso me importa, estou aqui para executar a minha tarefa. Se não foi o câncer, temos que encontrar outra causa.

– Ha, ha! Désolé! Não tenho tempo nem disposição para lidar com sua decepção! Quero muito à minha vidinha para desperdiçar com lamúrias de uma velha decrépita, e bem anacrônica.

– Se não vai por bem, vai por mal. Terei que usar a força da minha foice para vos convencer a não opor obstáculos ao desenvolvimento natural dos desígnios do universo?

– Ah, com essa ridícula ferramenta enferrujada acha que vai amedrontar-me? O máximo que você conseguiria seria causar-me uma pequena escoriação, mas, isto, se antes conseguisse pegar-me, não me venha com ilusão tamanha.

– E ainda me tratais com tamanho desrespeito! Se estou aqui, conduzida pelas forças que regem o mundo, é para cumprir minhas obrigações, e não podeis furtar-vos a vos aquiescerdes.

– Ha, ha! Désolé! Volte daqui a cem anos, mas esteja certa que de tudo farei para decepcioná-la novamente com as graças da santa ciência. Aconselho-a a procurar por aí um - quelle horreur! - um suicida para que sua fome seja saciada.

– Vou queixar-me ao tribunal dos santos!

– Vá, vá. Adieu.


2. Maria Augusta Comodoro

– Droga! Como posso cumprir desse jeito a droga das minhas obrigações? Isso está deixando-me enlouquecida e sem o respeito que deveria ter pelas almas que deveria carregar.

– Oh, minha boa senhora, não estás passando bem? O que houve?

– O que houve!? Ainda perguntas? Audácia! Ou vais negar que és a Maria Augusta Comodoro?

– Mas sou eu mesma! Nós nos conhecemos de algum lugar? Já te fiz algum mal para te mostrares assim tão agressiva para com a minha pessoa?

– Decerto que não te lembras, se aqui memória lá de cima não se consente. Mas de acordo com o contrato que firmaste, quando da sua partida para cá, eu hoje deveria encontrar-te em cima de uma cama após tua razão e tuas forças se terem esvaído durante quinze anos.

– Eu? Não me lembro de contrato nenhum. Mas se te referes àquele mal que me ia deixando aluadinha, não prosperou. A medicina tem avançado muito e os meus neurônios avariados foram repostos, e cá estou em minha mais perfeita sanidade. E não tenho nenhuma pena de ti se o que me querias era encontrar-me acabada daquela forma.

– E como vou apresentar-me no tribunal dos céus com as mãos vazias?

– Pois procure quem não goste da vida, por que teimar em tirá-la de quem lhe tem tanto apreço?

– Precisamos de almas experientes lá em cima, esses que se apressam em ir não têm acumulados os predicados suficientes para executar tarefas importantes.

– Pois então vais ter que esperar, eu sou apenas uma bisavó, e quero conhecer os meus trinetos, os tetranetos, os pentanetos, e nem sei mais seguir nomeando os meus rebentos.

– E o céu vai ficar deserto? E por aqui os empedernidos vão continuar a gerar problemas para a previdência, recebendo aposentadoria por dezenas e centenas de anos?

– Problema para os governantes e o Todo-Poderoso lá de cima, mas vamos ter muita disposição para trabalhar.

– Haja emprego por aqui, enquanto lá em cima há vagas em profusão.

– Sabes o que falta por lá? Um departamento de propaganda que funcione com eficiência.

– Propaganda?

– E não? O que sabemos nós de lá?

– Será que funcionaria?

– Pois vou te dizer que por aqui até os cemitérios estão aumentando a publicidade, prometendo uma morte mais feliz, embora saibamos que não está dando muito resultado, pois tenho ouvido falar de falência de cemitérios, o que confirma que tua empresa está muito pior, pois nenhuma publicidade faz.

– Pois aí está, deste-me uma ideia.


 3. Férias da Morte


Desolada por não poder executar as suas obrigações com a antiga eficiência, a Morte resolveu tirar férias e vagar por este mundo para poder entender aquela gente que se recusava a ir para o Paraíso. Queria saber dos seus motivos para se apegarem tanto a suas vidas por aqui, onde agora se encontrava livre de compromissos, centrada apenas em aprender para poder recuperar sua antiga força.

Desfez-se de seus poderes, fantasiou-se como uma mulher do povo, que pudesse vagar por qualquer lugar sem atrair demasiada atenção. Como primeiro objetivo, decidiu ir a Salvador para conhecer o carnaval tão louvado por aquele francês ingrato. Vasculhou a internet para saber tudo o que poderia antecipar sobre aquela festa, surpreendeu-se ao saber que era uma preparação à entrada dos rigores da quaresma: antes das práticas ascéticas, um período onde a alegria devia ser obrigatória.

Viajou para Salvador, adquiriu um abadá como lhe fora recomendado para apreciar melhor a festa e se deixou levar nas ondas do povo. Daqui e dali ofereciam-lhe algo para comer, beber e cheirar. Inebriou-se.

Acordou na quarta-feira pelo vozerio de pessoas. Estava deitada debaixo das multicoloridas fitas esvoaçantes no alto da escadaria da Igreja de Nosso Senhor do Bonfim. Entorpecida em uma sensação de sonho pelo tremeluzir das fitas, olhando para cima reconheceu vagamente o guarda municipal, ainda uniformizado, que lhe oferecera o último gole da véspera em meio à folia, cuja coxa servia-lhe de travesseiro, e que ainda dormia com a boca escancarada. Acordou-o. Viu-o abrir os olhos assustados e rapidamente desaparecer escada abaixo.

Curiosa em saber o porquê de tantas fitas, indagou-o a uma baiana vestida toda de branco. Ela lhe contou da história e da esperança dos três pedidos. A Morte escolheu uma fita branca, de Oxalá, e seguiu o ritual, pedindo a cada nó dado na fita somente que pudesse voltar a executar a contento as suas tarefas. Desceu a escadaria e prosseguiu pela cidade para conhecer a sua rotina, surpreendeu-se ao ainda encontrar muitas manifestações da folia, pois ela apenas sentia o cansaço de tudo que vivenciara.

Continuou a vagar pelo país onde a publicidade das agências de viagens a conduziam no meio das pessoas em férias ansiosas por conhecer e admirar os mais diversos cenários. E como se lembrava reiteradamente dos conselhos da abusada Maria Augusta, pensou em procurar onde pudesse estudar os meandros da propaganda, aceitando a crítica que os seus não sabiam utilizar os eficientes meios de divulgação para alardear as delícias do Paraíso.


4. Novas diretrizes


– Acorda, velha decrépita, não temos tempo a perder.

– Ah, o que é isso!?

– Vamos logo, de pé, vamos trabalhar!

– Ah, é você. Mas... Que liberdades são essas com que me toma?

– Vamos, sua negligência não lhe permite mais tomar ares, temos que recuperar o tempo enorme que você desperdiçou. Precisamos urgentemente de novas almas.

– Como se eu não estivesse envidando os meus esforços para consegui-las, mas os meus métodos normais não mais estão funcionando. Estou planejando lançar uma grande campanha de publicidade para atraí-los espontaneamente, mostrando-lhes que no Paraíso terão o carnaval o ano todo, com apenas três dias para descanso e recolhimento.

– Não vai funcionar, os crentes vão achincalhar dizendo que é tudo uma armação de Satanás para enganá-los. É preciso usar as mesmas armas que eles estão utilizando para nos derrotar. É por isso que aqui estou, mandaram-me para ajudá-la a consegui-las.

– E o que seriam essas armas?

– As Ciências!

– As Ciências... E como vamos usar as ciências se são ferramentas deles para justamente nos atrapalharem?

– Ora, vamos criar os nossos métodos próprios. Vamos deixar de lado que o acaso nos ajude e seremos nós a criarmos as condições para que possamos interferir no mundo deles a nosso favor.

– Bom, a ideia é interessante, mas o meu departamento não tem recursos para desenvolver uma ciência da Morte.

– Não lhe cabe tal, deixe por minha conta e dos outros cavaleiros. Não vamos mais ficar à espera que a evolução nos forneça as armas para infectar os corpos deles, os meus acólitos já estão nos laboratórios criando novas formas que possam suplantar as suas defesas.

– E por que não incrementar o método mais antigo que já utilizamos enviando-lhes a Guerra com armas mais poderosas?

– Fizemos muitos estudos a respeito, o uso da tecnologia nuclear seria devastador e contrário a nossos interesses, e a guerra convencional não é eficiente, pois atinge demasiado os menos favorecidos, e os possuidores de recursos escapam com facilidade.

– E eles não escapariam seja qual for o método que utilizarmos?

– É por isso que estamos utilizando todos os nossos recursos para interferir no DNA de muitos organismos, acelerando a sua evolução para que sejam altamente contagiosos através do ar. Vamos pegá-los com o que eles não podem deixar de usar.

– Você me animou, Peste, vou recuperar minha foice para voltar ao trabalho com muita vontade! E faça-me um grande favor, pegue primeiro aquele Pierre Pardeux.

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