A
Morte Desolada
1. Pierre Pardeux
– Pierre Pardeux? Que surpresa vos encontrar por aqui.
– Surpresa, Madame, por quê?
– Realmente não deveis vos lembrar que tínhamos um encontro
marcado hoje, mas lá em Paris. Não sabia de sua fuga para cá, mas os fados não
deixaram que nos perdêssemos.
– A Madame está enganada, nada tenho agendado. Aliás, nem
tenho uma agenda, não gosto de compromissos.
– Com certeza não vos lembrais, pois memórias de lá não são
aqui permitidas, mas aqui tenho o vosso contrato de nascimento, que estipula o
vosso resgate precisamente para hoje. Como vedes, de nada adiantou a vossa
fuga.
– Fuga, Madame? Não houve fuga nenhuma de Paris, não tinha
motivos para fazê-lo. Eu apenas vim para Salvador conhecer o carnaval,
deslumbrei-me com isto aqui e decidi ficar.
– De qualquer forma, aqui estamos frente a frente, estou
surpresa por encontrar-vos assim tão bem-disposto, pois este documento diz que
estaríeis definhando com um câncer nos pulmões decorrente dos vossos excessos
com o fumo.
– Ah, é por isso? Désolé! A Madame não sabe dos progressos
da nossa medicina? Aquilo me causou realmente alguns transtornos, mas foi
descoberto a tempo para uma cura perfeita. Aliás, foi para comemorar que vim
para esbanjar no carnaval, e tanta farra deu-me disposição. Cigarros!? Pas plus! Nunca
mais foi necessário.
– Nada disso me importa, estou aqui para executar a minha
tarefa. Se não foi o câncer, temos que encontrar outra causa.
– Ha, ha! Désolé! Não tenho tempo nem disposição para lidar
com sua decepção! Quero muito à minha vidinha para desperdiçar com lamúrias de
uma velha decrépita, e bem anacrônica.
– Se não vai por bem, vai por mal. Terei que usar a força
da minha foice para vos convencer a não opor obstáculos ao desenvolvimento
natural dos desígnios do universo?
– Ah, com essa ridícula ferramenta enferrujada acha que vai
amedrontar-me? O máximo que você conseguiria seria causar-me uma pequena
escoriação, mas, isto, se antes conseguisse pegar-me, não me venha com ilusão
tamanha.
– E ainda me tratais com tamanho desrespeito! Se estou
aqui, conduzida pelas forças que regem o mundo, é para cumprir minhas
obrigações, e não podeis furtar-vos a vos aquiescerdes.
– Ha, ha! Désolé! Volte daqui a cem anos, mas esteja certa
que de tudo farei para decepcioná-la novamente com as graças da santa ciência.
Aconselho-a a procurar por aí um - quelle horreur! - um suicida para que sua fome
seja saciada.
– Vou queixar-me ao tribunal dos santos!
– Vá, vá. Adieu.
2. Maria Augusta Comodoro
– Droga! Como posso cumprir desse jeito a droga das minhas
obrigações? Isso está deixando-me enlouquecida e sem o respeito que deveria ter
pelas almas que deveria carregar.
– Oh, minha boa senhora, não estás passando bem? O que
houve?
– O que houve!? Ainda perguntas? Audácia! Ou vais negar que
és a Maria Augusta Comodoro?
– Mas sou eu mesma! Nós nos conhecemos de algum lugar? Já
te fiz algum mal para te mostrares assim tão agressiva para com a minha pessoa?
– Decerto que não te lembras, se aqui memória lá de cima
não se consente. Mas de acordo com o contrato que firmaste, quando da sua
partida para cá, eu hoje deveria encontrar-te em cima de uma cama após tua
razão e tuas forças se terem esvaído durante quinze anos.
– Eu? Não me lembro de contrato nenhum. Mas se te referes
àquele mal que me ia deixando aluadinha, não prosperou. A medicina tem avançado
muito e os meus neurônios avariados foram repostos, e cá estou em minha mais
perfeita sanidade. E não tenho nenhuma pena de ti se o que me querias era
encontrar-me acabada daquela forma.
– E como vou apresentar-me no tribunal dos céus com as mãos
vazias?
– Pois procure quem não goste da vida, por que teimar em
tirá-la de quem lhe tem tanto apreço?
– Precisamos de almas experientes lá em cima, esses que se
apressam em ir não têm acumulados os predicados suficientes para executar
tarefas importantes.
– Pois então vais ter que esperar, eu sou apenas uma
bisavó, e quero conhecer os meus trinetos, os tetranetos, os pentanetos, e nem
sei mais seguir nomeando os meus rebentos.
– E o céu vai ficar deserto? E por aqui os empedernidos vão
continuar a gerar problemas para a previdência, recebendo aposentadoria por
dezenas e centenas de anos?
– Problema para os governantes e o Todo-Poderoso lá de
cima, mas vamos ter muita disposição para trabalhar.
– Haja emprego por aqui, enquanto lá em cima há vagas em
profusão.
– Sabes o que falta por lá? Um departamento de propaganda
que funcione com eficiência.
– Propaganda?
– E não? O que sabemos nós de lá?
– Será que funcionaria?
– Pois vou te dizer que por aqui até os cemitérios estão
aumentando a publicidade, prometendo uma morte mais feliz, embora saibamos que
não está dando muito resultado, pois tenho ouvido falar de falência de
cemitérios, o que confirma que tua empresa está muito pior, pois nenhuma
publicidade faz.
– Pois aí está, deste-me uma ideia.
3. Férias da
Morte
Desolada por não poder executar as suas obrigações com a
antiga eficiência, a Morte resolveu tirar férias e vagar por este mundo para
poder entender aquela gente que se recusava a ir para o Paraíso. Queria saber
dos seus motivos para se apegarem tanto a suas vidas por aqui, onde agora se
encontrava livre de compromissos, centrada apenas em aprender para poder recuperar
sua antiga força.
Desfez-se de seus poderes, fantasiou-se como uma mulher do
povo, que pudesse vagar por qualquer lugar sem atrair demasiada atenção. Como
primeiro objetivo, decidiu ir a Salvador para conhecer o carnaval tão louvado
por aquele francês ingrato. Vasculhou a internet para saber tudo o que poderia
antecipar sobre aquela festa, surpreendeu-se ao saber que era uma preparação
à entrada dos rigores da quaresma: antes das práticas ascéticas, um período
onde a alegria devia ser obrigatória.
Viajou para Salvador, adquiriu um abadá como lhe fora
recomendado para apreciar melhor a festa e se deixou levar nas ondas do povo.
Daqui e dali ofereciam-lhe algo para comer, beber e cheirar. Inebriou-se.
Acordou na quarta-feira pelo vozerio de pessoas. Estava
deitada debaixo das multicoloridas fitas esvoaçantes no alto da escadaria da
Igreja de Nosso Senhor do Bonfim. Entorpecida em uma sensação de sonho pelo
tremeluzir das fitas, olhando para cima reconheceu vagamente o guarda
municipal, ainda uniformizado, que lhe oferecera o último gole da véspera em
meio à folia, cuja coxa servia-lhe de travesseiro, e que ainda dormia com a
boca escancarada. Acordou-o. Viu-o abrir os olhos assustados e rapidamente
desaparecer escada abaixo.
Curiosa em saber o porquê de tantas fitas, indagou-o a uma
baiana vestida toda de branco. Ela lhe contou da história e da esperança dos
três pedidos. A Morte escolheu uma fita branca, de Oxalá, e seguiu o ritual,
pedindo a cada nó dado na fita somente que pudesse voltar a executar a contento
as suas tarefas. Desceu a escadaria e prosseguiu pela cidade para conhecer a
sua rotina, surpreendeu-se ao ainda encontrar muitas manifestações da folia,
pois ela apenas sentia o cansaço de tudo que vivenciara.
Continuou a vagar pelo país onde a publicidade das agências
de viagens a conduziam no meio das pessoas em férias ansiosas por conhecer e
admirar os mais diversos cenários. E como se lembrava reiteradamente dos
conselhos da abusada Maria Augusta, pensou em procurar onde pudesse estudar os
meandros da propaganda, aceitando a crítica que os seus não sabiam utilizar os
eficientes meios de divulgação para alardear as delícias do Paraíso.
4. Novas diretrizes
– Acorda, velha decrépita, não temos tempo a perder.
– Ah, o que é isso!?
– Vamos logo, de pé, vamos trabalhar!
– Ah, é você. Mas... Que liberdades são essas com que me
toma?
– Vamos, sua negligência não lhe permite mais tomar ares,
temos que recuperar o tempo enorme que você desperdiçou. Precisamos
urgentemente de novas almas.
– Como se eu não estivesse envidando os meus esforços para
consegui-las, mas os meus métodos normais não mais estão funcionando. Estou
planejando lançar uma grande campanha de publicidade para atraí-los
espontaneamente, mostrando-lhes que no Paraíso terão o carnaval o ano todo, com
apenas três dias para descanso e recolhimento.
– Não vai funcionar, os crentes vão achincalhar dizendo que
é tudo uma armação de Satanás para enganá-los. É preciso usar as mesmas armas
que eles estão utilizando para nos derrotar. É por isso que aqui estou,
mandaram-me para ajudá-la a consegui-las.
– E o que seriam essas armas?
– As Ciências!
– As Ciências... E como vamos usar as ciências se são
ferramentas deles para justamente nos atrapalharem?
– Ora, vamos criar os nossos métodos próprios. Vamos deixar
de lado que o acaso nos ajude e seremos nós a criarmos as condições para que
possamos interferir no mundo deles a nosso favor.
– Bom, a ideia é interessante, mas o meu departamento não
tem recursos para desenvolver uma ciência da Morte.
– Não lhe cabe tal, deixe por minha conta e dos outros
cavaleiros. Não vamos mais ficar à espera que a evolução nos forneça as armas
para infectar os corpos deles, os meus acólitos já estão nos laboratórios
criando novas formas que possam suplantar as suas defesas.
– E por que não incrementar o método mais antigo que já
utilizamos enviando-lhes a Guerra com armas mais poderosas?
– Fizemos muitos estudos a respeito, o uso da tecnologia
nuclear seria devastador e contrário a nossos interesses, e a guerra
convencional não é eficiente, pois atinge demasiado os menos favorecidos, e os
possuidores de recursos escapam com facilidade.
– E eles não escapariam seja qual for o método que
utilizarmos?
– É por isso que estamos utilizando todos os nossos
recursos para interferir no DNA de muitos organismos, acelerando a sua
evolução para que sejam altamente contagiosos através do ar. Vamos pegá-los
com o que eles não podem deixar de usar.
– Você me animou, Peste, vou recuperar minha foice para
voltar ao trabalho com muita vontade! E faça-me um grande favor, pegue primeiro aquele Pierre Pardeux.
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