O
Silêncio
- Biju!
Como costumeiro nos domingos, o grito invadiu o silêncio
maior da tarde, maior que tantos outros domingos. A matraca soava mais forte
abafando o som da TV, mais insistente, pretendendo ferir a indiferença. Não! Que
digo? Indiferença?
Os corações ouviam angustiados sem ousarem levantar-se. A
matraca mais alta ressoava um grito de angústia que jazia sufocado em todos os
corações. O grito de um pai a quem cortaram a mão que leva o pão de cada dia a
seu filho. O grito do filho que chora pedindo o pão sem entender o porquê do
lamento em resposta de seu pai.
O medo proíbe atender o seu chamado. Já não sabemos se
podemos ser solidários. Aquele grito pode nos trazer o mal que nos forçou ao isolamento.
Aquela matraca é uma violência que transforma o delicado sabor do biju em perigoso
veneno. A mão, que sacode a matraca, sacode a pedra em que me tornei congelado
pelo medo, obrigado pela responsabilidade com todos os demais.
Eu sangro. Sei que os poderes que deveriam ouvir o grito se
movem pachorrentamente.
Sei que o que prometem é um quase nada. Sei que chegará
quando será tarde.
Ouço gritos que se levantam nas janelas levando orações em
uníssono.
O Silêncio responde.
Pai, por que me abandonaste?
O Silêncio responde.
Vejo de branco um anjo da saúde que sai para trabalhar
enfrentando os seus medos. Ele tem uma mãe em casa chorando de impotência.
Isolada. Angustiada. Sem poder exercer o seu amor. E vejo o filho retornando do
trabalho opressivo fugindo ao contato. Vejo o filho que se remói porque seu cuidado
não foi suficiente e leva sua mãe ao hospital. E chora!
O Silêncio responde.
Vejo outro que deixa o filho em casa e vai cumprir seu
papel de anjo apesar de suas próprias debilidades, e sucumbe. Ouço o seu grito
ao entregar seu filho aos cuidados de...
E O Silêncio responde.
Lembro-me dos gregos, cujo espírito guerreiro confinou dentro
de uma caixa o último mal. É proibido abrir a caixa: lute, conte com sua força!
Morra o fraco! Foi preciso que um ser iluminado viesse ao mundo para abri-la dizendo:
“Meu Reino não é deste mundo”.
E eu grito: multiplique os pães!
O Silêncio responde.
Pelos anos, andei em busca de conhecimento e deparei-me com
o pensamento sufi: quando seu ego não mais for, você estará pronto para bater à
porta. Fico a ouvir um eco repercutindo: "eagles don't fly together" (em português, algo assim: “águias/egos
não voam em bando”). E agora me exortam a trancar-me em casa e fechar a
porta, a ser um gavião solitário a alimentar-se com o que conseguiu rapinar.
Sei que nas minhas três noites escuras eu contemplei a
presença dos anjos, que falam tão sutilmente que necessitei de toda a minha
atenção para ouvi-los. Mas quando o dia se faz e minha atenção se dispersa, eu
contemplo
O Silêncio.
-o-

Belíssima crônica e muito apropriada para nossa crise. Sangramos!
ResponderExcluirLinda crônica! Para esses dias de isolamento social, para não ficarmos com o tempo ocioso...vamos ler...ouvir música....cantar....dançar. ..orar...todos separados e juntos em pensamentos.
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