Revelações
Para que se possa aclarar os fatos é preciso contar e
requentar as palavras, que estão envoltas em uma nuvem de insignificados,
lavadas que estão por águas barrentas, que mais escondem que põem a nudo. Eu me
permito a repassar minhas lembradas memórias na superfície, sem desnudar o mapa
dos lugares onde foi o ocorrido real, pois é de fato o necessário resguardar a
intimidade dos seres aludidos, que não devem ser expostos à predatória
curiosidade, que sabemos ser portadora de malevolência sem limites.
Depois que se
difundiu por papéis e falas a existência em meu terreiro desses pequeninos
seres, fui solicitado por todos os tipos de curiosos a revelar como se iniciou
a minha convivência com os tais. Tranquei-me em rumoroso silêncio que enterrava
o medo das maldades que o inusitado normalmente desperta nos indiferentes ao
bem-viver dos outros, quem quer que seja o outro, gente ou bicho. E o que
seriam meus amiguinhos na boca dos fanáticos intolerantes e Ignorantes? Seres
sem alma, criaturas cuspidas das entranhas do inferno, passíveis das promessas
de eliminação, que lhes são atiradas simplesmente por não serem incapazes de
causar perplexidades. É por medo de causar prejuízos inomináveis aos de sua
estirpe que deixo em reticências o local do ninho onde os encontrei.
Em muitas décadas atrás, quando tinha a juventude como uma
deslembrada que não se sabia efêmera, eu corria pelos grandes rios do Brasil
central à cata de emoções da pescaria e da caça, de verdade um mero predador
abútrico. Sem as amarras que meu amadurecer impôs a minhas mãos, o divertido
era brigar com o bicho e conquistar a sua derrota na ponta de um anzol, que lhe
dilacerava a boca, jogo desigual onde o vitimado está de prévio definido. Tinha
como guia mais procurado, tanto que muito se tornou um vero amigo, o Beto, um
caboclo que me conduzia em uma voadeira pelas águas mais propícias. Figura
esquálida tanto física quanto em coisas de atitude, e também de fala,
divertia-me a contar com ingenuidade as suas não peripécias do aprender a vida,
desnudando um caráter isento de malícias e sem preocupações em se fazer
ridículo ao contar, não tendo intenção alguma de graça, episódios onde a sua
ingenuidade o fizera ser a diversão dos amigos, e nossa, então, nos descansos
noturnos a saborear um peixe, embalados pela fala lenta e pausada daqueles
casos.
Foi um dia, éramos apenas os dois largados a correr o rio,
talvez o calor, talvez algum rescaldo de uma refeição mal preparada, em que me
vi a tremer em desmesura em febre, que cresceu a ponto de me deixar anuviado, e
ao Beto um pouco alvoroçado por estarmos ali sem recursos ao sabor de uma
natureza que nos considerava intrusos. Antes de entregar-me ao oblívio, eu o
ouvi dizer que estávamos próximos a uma ilha que ele sabia poderia conseguir
ajuda curadora.
Não tinha eu medida do quanto fiquei a navegar no tempo
quando me vi desembarcado direto em uma cama feita de folhas. Não fosse o meu
precário estado de juízo, eu decerto teria um baita susto ao distinguir, ao meu
lado, pequenas sombras negras que cuidavam de ajeitar-me sobre as folhas com
acurada leveza. Aquele carinho de gestos me afiançava que nenhum receio deveria
ter daquelas figurinhas estranhas, e fui acostumando-me ao susto que não tive
enquanto tomava ar a minha pessoa. Do Beto, não havia presença.
Quando consegui articular palavra, perguntei:
- E Beto?
Um riso largo cobriu aquela diminuta carinha negra,
mostrando nos dentes a satisfeita recompensa de me ver ressurgido.
- Beto foi casa. E volta.
Foi então que tomei ciência da outra figurinha, de cócoras,
a cuidar sobre uma fogueira de um pote em que derramava uma erva. Terminada a
cocção, derramou a tisana em um pequeno jarro de barro e veio a mim, saltitando,
oferecendo-a debaixo de um largo sorriso branco. Talvez por já sedado pela
gentileza dos cuidados, tomei a beberagem resoluto, que me correu amargosa
pelas entranhas, deixando-me no imediato mando da minha própria postura do ser.
Em momentos de necessidade de apaziguamento, de normal lançava
mão de um cachimbo que me acompanhava por muitos invernos, e ali de lado se
achava meu bornal que o agasalhava. Enquanto aconchegava um punhado de fumo no
fornilho, os pequeninos ladearam-me em olhos curiosos a seguir meus gestos
rituais, e desdobraram risos quando botei fogo na massa. Puxei vagaroso e firme
no tabaco quente e livrei uma longa baforada. Meus enfermeirinhos lançaram
gritos de admiração. Ofereci o cachimbo. Os olhos de regozijos brilhando
provaram e aprovaram, sem engasgos nem tosses, e lá se foi o meu companheiro de
tantas jornadas, pois não fui de coragem a tomar-lhes tal alegria.
O Beto voltou para me buscar. Indaguei-lhe se na vila
conheciam a ilha.
- A ilha sim, mas os pequeninos não. Eles só se deixam ver
pelos que lhe são confiantes, e, pelas maliciosas sacizagens que eles aprontam,
a gente da vila tem medo da ilha, e correm por lá relatos que dizem ser povoada
por demônios e espíritos malfazejos.
Eu de pronto disse ao Beto que era meu querer ficar por ali
mais tempo a conhecê-los com mais apuro. Fizemos trato que viesse de retorno a
me buscar passados três dias. Assim se deu que passei o tríduo em desigual
liberdade na natureza crua daquela ilha desmapeada, no coração das brincadeiras
da corriola descompromissada com cruezas da vida. Tal foi nossa amizade que o
casal que me cuidara a mazela se me apegou talmente que quis trilhar comigo
minha viagem de retorno. O Beto nos levou à vila onde peguei a camioneta e
varei de volta para cá. Muitos desenfadamentos aprontaram, sendo vítimas
principais os frentistas dos postos de abastecimento, que levavam sustos com
barulhos saídos do nada, tratando-me com desconfiadas atitudes.
Tal e qual foi esta a origem dos meus amiguinhos.
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