segunda-feira, 20 de abril de 2020

Revelações


Revelações




Para que se possa aclarar os fatos é preciso contar e requentar as palavras, que estão envoltas em uma nuvem de insignificados, lavadas que estão por águas barrentas, que mais escondem que põem a nudo. Eu me permito a repassar minhas lembradas memórias na superfície, sem desnudar o mapa dos lugares onde foi o ocorrido real, pois é de fato o necessário resguardar a intimidade dos seres aludidos, que não devem ser expostos à predatória curiosidade, que sabemos ser portadora de malevolência sem limites.


 Depois que se difundiu por papéis e falas a existência em meu terreiro desses pequeninos seres, fui solicitado por todos os tipos de curiosos a revelar como se iniciou a minha convivência com os tais. Tranquei-me em rumoroso silêncio que enterrava o medo das maldades que o inusitado normalmente desperta nos indiferentes ao bem-viver dos outros, quem quer que seja o outro, gente ou bicho. E o que seriam meus amiguinhos na boca dos fanáticos intolerantes e Ignorantes? Seres sem alma, criaturas cuspidas das entranhas do inferno, passíveis das promessas de eliminação, que lhes são atiradas simplesmente por não serem incapazes de causar perplexidades. É por medo de causar prejuízos inomináveis aos de sua estirpe que deixo em reticências o local do ninho onde os encontrei.

Em muitas décadas atrás, quando tinha a juventude como uma deslembrada que não se sabia efêmera, eu corria pelos grandes rios do Brasil central à cata de emoções da pescaria e da caça, de verdade um mero predador abútrico. Sem as amarras que meu amadurecer impôs a minhas mãos, o divertido era brigar com o bicho e conquistar a sua derrota na ponta de um anzol, que lhe dilacerava a boca, jogo desigual onde o vitimado está de prévio definido. Tinha como guia mais procurado, tanto que muito se tornou um vero amigo, o Beto, um caboclo que me conduzia em uma voadeira pelas águas mais propícias. Figura esquálida tanto física quanto em coisas de atitude, e também de fala, divertia-me a contar com ingenuidade as suas não peripécias do aprender a vida, desnudando um caráter isento de malícias e sem preocupações em se fazer ridículo ao contar, não tendo intenção alguma de graça, episódios onde a sua ingenuidade o fizera ser a diversão dos amigos, e nossa, então, nos descansos noturnos a saborear um peixe, embalados pela fala lenta e pausada daqueles casos.

Foi um dia, éramos apenas os dois largados a correr o rio, talvez o calor, talvez algum rescaldo de uma refeição mal preparada, em que me vi a tremer em desmesura em febre, que cresceu a ponto de me deixar anuviado, e ao Beto um pouco alvoroçado por estarmos ali sem recursos ao sabor de uma natureza que nos considerava intrusos. Antes de entregar-me ao oblívio, eu o ouvi dizer que estávamos próximos a uma ilha que ele sabia poderia conseguir ajuda curadora.

Não tinha eu medida do quanto fiquei a navegar no tempo quando me vi desembarcado direto em uma cama feita de folhas. Não fosse o meu precário estado de juízo, eu decerto teria um baita susto ao distinguir, ao meu lado, pequenas sombras negras que cuidavam de ajeitar-me sobre as folhas com acurada leveza. Aquele carinho de gestos me afiançava que nenhum receio deveria ter daquelas figurinhas estranhas, e fui acostumando-me ao susto que não tive enquanto tomava ar a minha pessoa. Do Beto, não havia presença.
Quando consegui articular palavra, perguntei:

- E Beto?

Um riso largo cobriu aquela diminuta carinha negra, mostrando nos dentes a satisfeita recompensa de me ver ressurgido.

- Beto foi casa. E volta.

Foi então que tomei ciência da outra figurinha, de cócoras, a cuidar sobre uma fogueira de um pote em que derramava uma erva. Terminada a cocção, derramou a tisana em um pequeno jarro de barro e veio a mim, saltitando, oferecendo-a debaixo de um largo sorriso branco. Talvez por já sedado pela gentileza dos cuidados, tomei a beberagem resoluto, que me correu amargosa pelas entranhas, deixando-me no imediato mando da minha própria postura do ser.

Em momentos de necessidade de apaziguamento, de normal lançava mão de um cachimbo que me acompanhava por muitos invernos, e ali de lado se achava meu bornal que o agasalhava. Enquanto aconchegava um punhado de fumo no fornilho, os pequeninos ladearam-me em olhos curiosos a seguir meus gestos rituais, e desdobraram risos quando botei fogo na massa. Puxei vagaroso e firme no tabaco quente e livrei uma longa baforada. Meus enfermeirinhos lançaram gritos de admiração. Ofereci o cachimbo. Os olhos de regozijos brilhando provaram e aprovaram, sem engasgos nem tosses, e lá se foi o meu companheiro de tantas jornadas, pois não fui de coragem a tomar-lhes tal alegria.

O Beto voltou para me buscar. Indaguei-lhe se na vila conheciam a ilha.

- A ilha sim, mas os pequeninos não. Eles só se deixam ver pelos que lhe são confiantes, e, pelas maliciosas sacizagens que eles aprontam, a gente da vila tem medo da ilha, e correm por lá relatos que dizem ser povoada por demônios e espíritos malfazejos.

Eu de pronto disse ao Beto que era meu querer ficar por ali mais tempo a conhecê-los com mais apuro. Fizemos trato que viesse de retorno a me buscar passados três dias. Assim se deu que passei o tríduo em desigual liberdade na natureza crua daquela ilha desmapeada, no coração das brincadeiras da corriola descompromissada com cruezas da vida. Tal foi nossa amizade que o casal que me cuidara a mazela se me apegou talmente que quis trilhar comigo minha viagem de retorno. O Beto nos levou à vila onde peguei a camioneta e varei de volta para cá. Muitos desenfadamentos aprontaram, sendo vítimas principais os frentistas dos postos de abastecimento, que levavam sustos com barulhos saídos do nada, tratando-me com desconfiadas atitudes.

Tal e qual foi esta a origem dos meus amiguinhos.

-o-


domingo, 5 de abril de 2020

O Olhar de Dona Menina



O Olhar de Dona Menina



(obs.: o texto faz referência à história publicada neste blog: “O Chá de Dona Menina”.)


─ Ei, Mariinha, bom dia! Tá bem disposta hoje, hem? Tão cedo e fugida da quarentena!

─ E a Senhora Dona Menina aí já de namoradeira, dependurada na janela?

─ Ah, tô aqui desfadigando da cama que fica dura quando os olhos se recusam a ficar cerrados. Por corretivo, dou-lhes o belo da manhã a se alargar. Mas o que foi que a fez deixar a reclusão da chácara?

─ Pra aproveitar a fresca, Dona Menina, premida da precisão que me está a fazer roer o pé da minha última galinha, finada já de semana.

─ Imagino, Mariinha, tristeza é o que resta dessa encomenda do tinhoso, mas com fé em nossa Santa Mãezinha isso vai passar.

─ Mas tá custoso, comadre, a pena tá dura de fazer dó até praquele mazelado de ódio. Minhas juntas tão chagadas e rangidas que nem carro de boi gemedor de tanto me dobrar pra pedir piedade pra Nossa Senhora.   

─ Coragem, Mariinha, que ela não desampara!

─ Coragem é que não tem faltança, Dona Menina, já fiz minha novena e promessa de me afastar de carne por um ano.

─ De novo com suas promessas, comadre, já não bastam os males maiores?

─ Ah, mas também... cá pra nós, Dona Menina, tenho até medo de falar, já que a senhora tem chamego bom com a Sua Mãezinha Nossa Senhora e vai que conte pra ela... nem faz muita diferença, pois recurso nem sobra nenhum pra arrumar um tico de carne.

─ Basta a arrelia que você tá passando, Mariinha, num tem precisão dessas artimanhas. Tá faltando muita coisa?

─ Falta é que não falta, Dona Menina, mas de compenso temos nossa hortinha que socorre nossa aflitude.

─ Ainda bem que pode contar com ela, tá bem fornida?

─ Assim assim de folhas bem, tamos até ficando verde. No mais, mandioca e inhame não falta pra agarantir o de manhã.

─ Vou lhe arranjar uma cesta, Mariinha, pra ajudar a cuidar dos meninos.

─ Eu muito agradeço, Dona Menina, mas sabe, eu cá vim com intenção mesmo foi de...

─ De quê? Mariinha, diga logo, não se avexe.

─ Daquela nossa velha conversa...

─ Que conversa, comadre? Foram tantas.

─ A senhora sabe... Quiçá, devido a essa mazela danada, a senhora muda de ideia...

─ Mas de que ideia você está falando?

─ Do chá...

─ Ah, Mariinha, outra vez! Eu já lhe disse e bem informei que não pode ser, que mais mal faria do que bem.

─ Num seria o fato de tentar, assim como se fosse o caso de uma vacina pra prevenir os meninos?

─ É por ter muita afeição por eles e por você que não posso, Mariinha.

─ Ah, que tristura! E a senhora fica aí de privilégio sem medo desses bichinhos.

─ Que lhe parece, Mariinha, sem medo? Isolada dos meus netinhos, sem os seus afagos? Não há chá de lenho que arrefeça esta solitude.

─ Estamos sem chão, Dona Menina, sem ciência de que lado pode vir a cacetada, temos suspeição de tudo: de gente, de coisas e de bichos.

─ É. Tudo passou a ser estrangeiro, baixado por ordem do não se achegue.

─ Pois num é? Eu que tenho meus meninos em casa não me aventuro a um abraço, só chinelo em mão para afastar os pobrezinhos.

─ Nesses meus devaneios venho assuntando uns tempos que agora o olho é nossa mais premente ferramenta, com um tanto de ajuda da boca.

─ Que diz, Dona Menina?

─ Se a mão está assoberbada com o sabão e atrapalhada em tocar, o toque de um doce olhar é que resta para a nossa alegria...

─ E secundado de um sorriso...

─ Pois é, Mariinha, a gente se sente aconchegada se vê a ternura em um olhar assim como o da minha Santinha, um olhar espelho dos olhos dela.

─ É o que eu vejo no seu, Dona Menina, que está sempre arrumada pra nos confortar, mesmo que negue o chá...

─ Miseravelmente, Mariinha, não posso compartilhar o chá.

─ Só me cabe me acontentar com o seu bom olhar, Dona Menina, e com a sua dádiva possível. Vou guardá-lo no meu para não enxergar aquele outro desvairado.

─ Desvairado?

─ É, Dona Menina, aquele olhar alucinado a balbuciar sob o barulho das panelas.

─ Ah, deveras, Mariinha, um olhar de louco a pregar jejuns e rezas sem misericórdia, que nada sabe do que seja compaixão...

─ E a abrir igrejas para garantir o dízimo dos mercadores...

─ A nossa igreja está cá, bem funda, imersa no meu olhar de aflição, mas com compaixão.

─ Assim seja, Dona Menina.

─ Assim seja, Mariinha.

-o-