domingo, 5 de abril de 2020

O Olhar de Dona Menina



O Olhar de Dona Menina



(obs.: o texto faz referência à história publicada neste blog: “O Chá de Dona Menina”.)


─ Ei, Mariinha, bom dia! Tá bem disposta hoje, hem? Tão cedo e fugida da quarentena!

─ E a Senhora Dona Menina aí já de namoradeira, dependurada na janela?

─ Ah, tô aqui desfadigando da cama que fica dura quando os olhos se recusam a ficar cerrados. Por corretivo, dou-lhes o belo da manhã a se alargar. Mas o que foi que a fez deixar a reclusão da chácara?

─ Pra aproveitar a fresca, Dona Menina, premida da precisão que me está a fazer roer o pé da minha última galinha, finada já de semana.

─ Imagino, Mariinha, tristeza é o que resta dessa encomenda do tinhoso, mas com fé em nossa Santa Mãezinha isso vai passar.

─ Mas tá custoso, comadre, a pena tá dura de fazer dó até praquele mazelado de ódio. Minhas juntas tão chagadas e rangidas que nem carro de boi gemedor de tanto me dobrar pra pedir piedade pra Nossa Senhora.   

─ Coragem, Mariinha, que ela não desampara!

─ Coragem é que não tem faltança, Dona Menina, já fiz minha novena e promessa de me afastar de carne por um ano.

─ De novo com suas promessas, comadre, já não bastam os males maiores?

─ Ah, mas também... cá pra nós, Dona Menina, tenho até medo de falar, já que a senhora tem chamego bom com a Sua Mãezinha Nossa Senhora e vai que conte pra ela... nem faz muita diferença, pois recurso nem sobra nenhum pra arrumar um tico de carne.

─ Basta a arrelia que você tá passando, Mariinha, num tem precisão dessas artimanhas. Tá faltando muita coisa?

─ Falta é que não falta, Dona Menina, mas de compenso temos nossa hortinha que socorre nossa aflitude.

─ Ainda bem que pode contar com ela, tá bem fornida?

─ Assim assim de folhas bem, tamos até ficando verde. No mais, mandioca e inhame não falta pra agarantir o de manhã.

─ Vou lhe arranjar uma cesta, Mariinha, pra ajudar a cuidar dos meninos.

─ Eu muito agradeço, Dona Menina, mas sabe, eu cá vim com intenção mesmo foi de...

─ De quê? Mariinha, diga logo, não se avexe.

─ Daquela nossa velha conversa...

─ Que conversa, comadre? Foram tantas.

─ A senhora sabe... Quiçá, devido a essa mazela danada, a senhora muda de ideia...

─ Mas de que ideia você está falando?

─ Do chá...

─ Ah, Mariinha, outra vez! Eu já lhe disse e bem informei que não pode ser, que mais mal faria do que bem.

─ Num seria o fato de tentar, assim como se fosse o caso de uma vacina pra prevenir os meninos?

─ É por ter muita afeição por eles e por você que não posso, Mariinha.

─ Ah, que tristura! E a senhora fica aí de privilégio sem medo desses bichinhos.

─ Que lhe parece, Mariinha, sem medo? Isolada dos meus netinhos, sem os seus afagos? Não há chá de lenho que arrefeça esta solitude.

─ Estamos sem chão, Dona Menina, sem ciência de que lado pode vir a cacetada, temos suspeição de tudo: de gente, de coisas e de bichos.

─ É. Tudo passou a ser estrangeiro, baixado por ordem do não se achegue.

─ Pois num é? Eu que tenho meus meninos em casa não me aventuro a um abraço, só chinelo em mão para afastar os pobrezinhos.

─ Nesses meus devaneios venho assuntando uns tempos que agora o olho é nossa mais premente ferramenta, com um tanto de ajuda da boca.

─ Que diz, Dona Menina?

─ Se a mão está assoberbada com o sabão e atrapalhada em tocar, o toque de um doce olhar é que resta para a nossa alegria...

─ E secundado de um sorriso...

─ Pois é, Mariinha, a gente se sente aconchegada se vê a ternura em um olhar assim como o da minha Santinha, um olhar espelho dos olhos dela.

─ É o que eu vejo no seu, Dona Menina, que está sempre arrumada pra nos confortar, mesmo que negue o chá...

─ Miseravelmente, Mariinha, não posso compartilhar o chá.

─ Só me cabe me acontentar com o seu bom olhar, Dona Menina, e com a sua dádiva possível. Vou guardá-lo no meu para não enxergar aquele outro desvairado.

─ Desvairado?

─ É, Dona Menina, aquele olhar alucinado a balbuciar sob o barulho das panelas.

─ Ah, deveras, Mariinha, um olhar de louco a pregar jejuns e rezas sem misericórdia, que nada sabe do que seja compaixão...

─ E a abrir igrejas para garantir o dízimo dos mercadores...

─ A nossa igreja está cá, bem funda, imersa no meu olhar de aflição, mas com compaixão.

─ Assim seja, Dona Menina.

─ Assim seja, Mariinha.

-o-






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