O Olhar de Dona Menina
(obs.: o texto faz referência à história publicada neste
blog: “O Chá de Dona Menina”.)
─ Ei, Mariinha, bom dia! Tá bem disposta
hoje, hem? Tão cedo e fugida da quarentena!
─ E a Senhora Dona Menina aí já de
namoradeira, dependurada na janela?
─ Ah, tô aqui desfadigando da cama
que fica dura quando os olhos se recusam a ficar cerrados. Por corretivo,
dou-lhes o belo da manhã a se alargar. Mas o que foi que a fez deixar a
reclusão da chácara?
─ Pra aproveitar a fresca, Dona
Menina, premida da precisão que me está a fazer roer o pé da minha última
galinha, finada já de semana.
─ Imagino, Mariinha, tristeza é o
que resta dessa encomenda do tinhoso, mas com fé em nossa Santa Mãezinha isso
vai passar.
─ Mas tá custoso, comadre, a pena
tá dura de fazer dó até praquele mazelado de ódio. Minhas juntas tão chagadas e
rangidas que nem carro de boi gemedor de tanto me dobrar pra pedir piedade pra
Nossa Senhora.
─ Coragem, Mariinha, que ela não
desampara!
─ Coragem é que não tem faltança, Dona
Menina, já fiz minha novena e promessa de me afastar de carne por um ano.
─ De novo com suas promessas,
comadre, já não bastam os males maiores?
─ Ah, mas também... cá pra nós,
Dona Menina, tenho até medo de falar, já que a senhora tem chamego bom com a Sua
Mãezinha Nossa Senhora e vai que conte pra ela... nem faz muita diferença, pois
recurso nem sobra nenhum pra arrumar um tico de carne.
─ Basta a arrelia que você tá
passando, Mariinha, num tem precisão dessas artimanhas. Tá faltando muita
coisa?
─ Falta é que não falta, Dona
Menina, mas de compenso temos nossa hortinha que socorre nossa aflitude.
─ Ainda bem que pode contar com
ela, tá bem fornida?
─ Assim assim de folhas bem, tamos até
ficando verde. No mais, mandioca e inhame não falta pra agarantir o de manhã.
─ Vou lhe arranjar uma cesta,
Mariinha, pra ajudar a cuidar dos meninos.
─ Eu muito agradeço, Dona Menina,
mas sabe, eu cá vim com intenção mesmo foi de...
─ De quê? Mariinha, diga logo, não
se avexe.
─ Daquela nossa velha conversa...
─ Que conversa, comadre? Foram
tantas.
─ A senhora sabe... Quiçá, devido a
essa mazela danada, a senhora muda de ideia...
─ Mas de que ideia você está
falando?
─ Do chá...
─ Ah, Mariinha, outra vez! Eu já
lhe disse e bem informei que não pode ser, que mais mal faria do que bem.
─ Num seria o fato de tentar, assim
como se fosse o caso de uma vacina pra prevenir os meninos?
─ É por ter muita afeição por eles
e por você que não posso, Mariinha.
─ Ah, que tristura! E a senhora
fica aí de privilégio sem medo desses bichinhos.
─ Que lhe parece, Mariinha, sem
medo? Isolada dos meus netinhos, sem os seus afagos? Não há chá de lenho que
arrefeça esta solitude.
─ Estamos sem chão, Dona Menina, sem
ciência de que lado pode vir a cacetada, temos suspeição de tudo: de gente, de
coisas e de bichos.
─ É. Tudo passou a ser estrangeiro,
baixado por ordem do não se achegue.
─ Pois num é? Eu que tenho meus meninos
em casa não me aventuro a um abraço, só chinelo em mão para afastar os
pobrezinhos.
─ Nesses meus devaneios venho
assuntando uns tempos que agora o olho é nossa mais premente ferramenta, com um
tanto de ajuda da boca.
─ Que diz, Dona Menina?
─ Se a mão está assoberbada com o
sabão e atrapalhada em tocar, o toque de um doce olhar é que resta para a nossa
alegria...
─ E secundado de um sorriso...
─ Pois é, Mariinha, a gente se
sente aconchegada se vê a ternura em um olhar assim como o da minha Santinha, um
olhar espelho dos olhos dela.
─ É o que eu vejo no seu, Dona
Menina, que está sempre arrumada pra nos confortar, mesmo que negue o chá...
─ Miseravelmente, Mariinha, não
posso compartilhar o chá.
─ Só me cabe me acontentar com o
seu bom olhar, Dona Menina, e com a sua dádiva possível. Vou guardá-lo no meu
para não enxergar aquele outro desvairado.
─ Desvairado?
─ É, Dona Menina, aquele olhar alucinado
a balbuciar sob o barulho das panelas.
─ Ah, deveras, Mariinha, um olhar
de louco a pregar jejuns e rezas sem misericórdia, que nada sabe do que seja
compaixão...
─ E a abrir igrejas para garantir o
dízimo dos mercadores...
─ A nossa igreja está cá, bem funda,
imersa no meu olhar de aflição, mas com compaixão.
─ Assim seja, Dona Menina.
─ Assim seja, Mariinha.
-o-

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