As
travessuras do Jesus Menino
Tenho na memória, talvez fabricada, as estórias que minha
avó me contava, não sei se saídas da sua invenção ou da sua capacidade de
simples narração para embalar o meu sono, sobre as peripécias de Jesus, quando
menino, carregadas de espertezas que os seus poderes potencializavam. Vou
tentar aqui deixar fluir neste papel essa memória, onde espero poder transmitir
a graça com que me divertia.
4. Tâmaras
Naquele tempo, quando Jesus ainda era bem pequeno, seu pai,
voltando certo dia de uma jornada para a entrega de uma peça que fabricara,
trouxe para Jesus algumas tâmaras grandes e suculentas, as primeiras que ele
provou naquele outono. Deliciado com os frutos, Jesus perguntou:
– E quando será que
a nossa tamareira vai ter cachos maduros?
E o pai lhe respondeu que breve breve elas estariam no
ponto e lembrou-lhe que seriam as primeiras tâmaras daquele pé que seu querido
avô plantara, e disse saudoso:
– Se o meu avô ainda estivesse por aqui para ver os belos
frutos, ele ficaria encantado e muito feliz por nos ter deixado tão grande bem.
– Se foi o seu avô que
plantou a tamareira, - Jesus pensativo perguntou – e se eu nem o conheci,
quanto tempo ela leva para dar tâmaras?
– Muito tempo, muito tempo mesmo, pelo menos uns oitenta
anos, por isso se diz: “quem planta tâmaras, não colhe tâmaras”.
– Uau, fico feliz e muito agradecido pela boa vontade dele!
E Jesus passou a vigiar mais ardentemente os belos cachos
da tamareira ansiando pelo tom avermelhado das tâmaras maduras, até que o dia
tão esperado chegou em que ele pôde colher o primeiro cacho, usando um
artifício especial da sua vontade para fazê-lo, pois não podia alcançá-lo com
as mãos. Só quem não conhece o doce sabor das tâmaras poderia dizer que ele
deixou uma certa gulodice tornar-se uma tentação, pois ele comeu tantas quantas
pôde.
Quando foi chamado para a sopa da ceia, ainda se sentia
empaturrado e sentou-se à mesa sem nenhum
apetite. Sem vontade de comer, ficou a revirar os pedaços de legumes no líquido
grosso. Seu pai, vendo sua atitude indolente, como é o costume usual dos pais,
recriminou-o com a cantilena costumeira de ser a comida um bem sagrado, como se
ele não o soubesse, e que não devia ser desperdiçada. E Jesus continuou calado
a mexer a sopa, sem fazer nenhuma alusão ao seu exagerado apetite pelas tâmaras.
Depois que o pai deixou a mesa, sua
mãe foi retirar seu prato, e foi então que percebeu que estava bem arrumada com
pedaços de legumes, ao redor das bordas do prato, a frase: “Meu pai está no
céu”.
Sem julgar uma malcriação, Maria
apenas sorriu.
– Puxa, vó, mas é verdade que leva tanto tempo para uma
tamareira botar tâmaras?
– Naquele tempo era assim, mas hoje em dia, depois que os
cientistas interferiram, há algumas tamareiras que produzem com apenas dois
anos.
- Ainda bem. Mas, Vó, o que eu gostei mesmo foi de saber
que foi Jesus que inventou a sopa de letrinhas.
– Pois é, embora naquele tempo, lá na Palestina, não existisse ainda o
macarrão.

