domingo, 12 de julho de 2020

As travessuras do Jesus Menino - 4. Tâmaras


As travessuras do Jesus Menino

 

Tenho na memória, talvez fabricada, as estórias que minha avó me contava, não sei se saídas da sua invenção ou da sua capacidade de simples narração para embalar o meu sono, sobre as peripécias de Jesus, quando menino, carregadas de espertezas que os seus poderes potencializavam. Vou tentar aqui deixar fluir neste papel essa memória, onde espero poder transmitir a graça com que me divertia.

 




4. Tâmaras

Naquele tempo, quando Jesus ainda era bem pequeno, seu pai, voltando certo dia de uma jornada para a entrega de uma peça que fabricara, trouxe para Jesus algumas tâmaras grandes e suculentas, as primeiras que ele provou naquele outono. Deliciado com os frutos, Jesus perguntou:

–  E quando será que a nossa tamareira vai ter cachos maduros?

E o pai lhe respondeu que breve breve elas estariam no ponto e lembrou-lhe que seriam as primeiras tâmaras daquele pé que seu querido avô plantara, e disse saudoso:

– Se o meu avô ainda estivesse por aqui para ver os belos frutos, ele ficaria encantado e muito feliz por nos ter deixado tão grande bem.

– Se foi o seu avô que plantou a tamareira, - Jesus pensativo perguntou – e se eu nem o conheci, quanto tempo ela leva para dar tâmaras?

– Muito tempo, muito tempo mesmo, pelo menos uns oitenta anos, por isso se diz: “quem planta tâmaras, não colhe tâmaras”.

– Uau, fico feliz e muito agradecido pela boa vontade dele!

E Jesus passou a vigiar mais ardentemente os belos cachos da tamareira ansiando pelo tom avermelhado das tâmaras maduras, até que o dia tão esperado chegou em que ele pôde colher o primeiro cacho, usando um artifício especial da sua vontade para fazê-lo, pois não podia alcançá-lo com as mãos. Só quem não conhece o doce sabor das tâmaras poderia dizer que ele deixou uma certa gulodice tornar-se uma tentação, pois ele comeu tantas quantas pôde.

Quando foi chamado para a sopa da ceia, ainda se sentia empaturrado e sentou-se à mesa sem nenhum apetite. Sem vontade de comer, ficou a revirar os pedaços de legumes no líquido grosso. Seu pai, vendo sua atitude indolente, como é o costume usual dos pais, recriminou-o com a cantilena costumeira de ser a comida um bem sagrado, como se ele não o soubesse, e que não devia ser desperdiçada. E Jesus continuou calado a mexer a sopa, sem fazer nenhuma alusão ao seu exagerado apetite pelas tâmaras.

Depois que o pai deixou a mesa, sua mãe foi retirar seu prato, e foi então que percebeu que estava bem arrumada com pedaços de legumes, ao redor das bordas do prato, a frase: “Meu pai está no céu”.

Sem julgar uma malcriação, Maria apenas sorriu.

– Puxa, vó, mas é verdade que leva tanto tempo para uma tamareira botar tâmaras?

– Naquele tempo era assim, mas hoje em dia, depois que os cientistas interferiram, há algumas tamareiras que produzem com apenas dois anos.

- Ainda bem. Mas, Vó, o que eu gostei mesmo foi de saber que foi Jesus que inventou a sopa de letrinhas.

– Pois é, embora naquele tempo, lá na Palestina, não existisse ainda o macarrão.

 


domingo, 5 de julho de 2020

As travessuras do Jesus Menino - 3. A amarelinha


 As travessuras do Jesus Menino

 

Tenho na memória, talvez fabricada, as estórias que minha avó me contava, não sei se saídas da sua invenção ou da sua capacidade de simples narração para embalar o meu sono, sobre as peripécias de Jesus, quando menino, carregadas de espertezas que os seus poderes potencializavam. Vou tentar aqui deixar fluir neste papel essa memória, onde espero poder transmitir a graça com que me divertia


3. A amarelinha

 No tempo em que Jesus era menino, uma certa tardinha, quando o sol baixava sobre os morros distantes, uma turma de meninos juntou-se sob o seu comando para brincar. Naquele dia Jesus contou para a turma que inventara um novo jogo e para jogá-lo desenhou no chão de terra com uma varinha, enquanto os demais ficaram atentos esperando o resultado.

Jesus explicou aos meninos que criara o jogo representando o caminho que cada um devia percorrer para um dia chegar a entrar no Paraíso. Neste ponto minha avó alertava que os sábios daquela época acreditavam que o firmamento era composto por onze esferas, cada vez maiores à medida que se ia em direção ao céu, que era a última esfera.

Desenhados os retângulos, que representavam as dez primeiras esferas, Jesus numerou-os do um até o dez e sobre eles desenhou o céu, assim:



Feito o desenho, Jesus pegou uma pedra que já escolhera e preparara antes, de faces retangulares bem lisas e que lhe cabia na palma da mão, e mostrando-a para a turminha disse que ela representava a alma pura, que precisava encontrar o seu caminho para o céu. Saindo da terra, a área fora do desenho abaixo do número um, pulando com uma perna só, como um espelho das difíceis tarefas que a vida tem, o jogador devia empurrar a alma para o céu, passando por cada esfera, cuidando em não cometer erros e faltas para não cair no inferno: era proibido pisar nas linhas dos retângulos; era proibido pisar com os dois pés nas esferas isoladas; e todas as regras que você bem conhece, disse minha avó.

A turma gostou tanto do jogo que não percebeu que a tarde ia morrendo e a luz diminuía, e que era a hora das mães chamarem os seus filhos para o repouso noturno. Quando os primeiros chamados aconteceram, houve choro dos atrasados, os que ainda não haviam conseguido chegar ao céu. E algum disse: “Bem que a luz podia esperar até eu conseguir”.

Jesus sentiu pena dos atrasados e pensou consigo: “Se Josué fez e não causou nenhum dano além da destruição dos seus inimigos, não deve haver mal se eu fizer. E fez como Josué, fazendo o Sol parar onde estava, preservando o resto de luz da tarde até que os pequenos chegassem ao céu, de onde saíam correndo para voltar para casa.

E todos os meninos chegaram ao céu, e o Sol seguiu a sua rota.

–  Mas, vó, parar o Sol não impede a noite de chegar.

–  É, sabidão! Mas naquele tempo eles não sabiam disso.