As travessuras do Jesus
Tenho
na memória, talvez fabricada, as estórias que minha avó me contava, não sei se
saídas da sua invenção ou da sua capacidade de simples narração para embalar o meu
sono, sobre as peripécias de Jesus, quando menino, carregadas de espertezas que
os seus poderes potencializavam. Vou tentar aqui deixar fluir neste papel essa
memória, onde espero poder transmitir a graça com que me divertia.
3. A
amarelinha
No
tempo em que Jesus era menino, uma certa tardinha, quando o sol baixava sobre
os morros distantes, uma turma de meninos juntou-se sob o seu comando para
brincar. Naquele dia Jesus contou para a turma que inventara um novo jogo e
para jogá-lo desenhou no chão de terra com uma varinha, enquanto os demais
ficaram atentos esperando o resultado.
Jesus explicou aos meninos que criara o jogo representando
o caminho que cada um devia percorrer para um dia chegar a entrar no Paraíso.
Neste ponto minha avó alertava que os sábios daquela época acreditavam que o
firmamento era composto por onze esferas, cada vez maiores à medida que se ia em direção ao céu, que era a última
esfera.
Desenhados os retângulos,
que representavam as dez primeiras esferas, Jesus numerou-os do um até o dez e
sobre eles desenhou o céu, assim:
Feito o desenho, Jesus pegou uma pedra que já escolhera e
preparara antes, de faces retangulares bem lisas e que lhe cabia na palma da
mão, e mostrando-a para a turminha disse que ela representava a alma pura, que precisava
encontrar o seu caminho para o céu. Saindo da terra, a área fora do desenho
abaixo do número um, pulando com uma perna só, como um espelho das difíceis
tarefas que a vida tem, o jogador devia empurrar a alma para o céu, passando
por cada esfera, cuidando em não cometer erros e faltas para não cair no
inferno: era proibido pisar nas linhas dos retângulos;
era proibido pisar com os dois pés nas esferas isoladas; e todas as regras que você
bem conhece, disse minha avó.
A turma gostou tanto do jogo que não percebeu que a tarde
ia morrendo e a luz diminuía, e que era a hora das mães chamarem os seus filhos
para o repouso noturno. Quando os primeiros chamados aconteceram, houve choro
dos atrasados, os que ainda não haviam conseguido chegar ao céu. E algum disse:
“Bem que a luz podia esperar até eu conseguir”.
Jesus sentiu pena dos atrasados e pensou consigo: “Se Josué
fez e não causou nenhum dano além da destruição dos seus inimigos, não deve
haver mal se eu fizer. E fez como Josué, fazendo o Sol parar onde estava, preservando
o resto de luz da tarde até que os pequenos chegassem ao céu, de onde saíam
correndo para voltar para casa.
E todos os meninos chegaram ao céu, e o Sol seguiu a sua
rota.
– Mas, vó, parar o
Sol não impede a noite de chegar.
– É, sabidão! Mas
naquele tempo eles não sabiam disso.

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