sábado, 26 de setembro de 2020

As travessuras do Jesus Menino - 8. Bolinhas de barro

 

As travessuras do Jesus Menino




Tenho na memória, talvez fabricada, as estórias que minha avó me contava, não sei se saídas da sua invenção ou da sua capacidade de simples narração para embalar o meu sono, sobre as peripécias de Jesus, quando menino, carregadas de espertezas que os seus poderes potencializavam. Vou tentar aqui deixar fluir neste papel essa memória, onde espero poder transmitir a graça com que me divertia. 


8. Bolinhas de barro


Naquele tempo, era uma tarde tórrida de verão, Jesus e seu grupo estavam a jogar com bolinhas. Como o vidro ainda era um produto de difícil acesso para os filhos de trabalhadores pobres de Nazaré, as bolinhas eram feitas de barro pelos próprios meninos, que se juntavam em algumas ocasiões para bater o barro e moldar as bolinhas no côncavo das mãos; nesses momentos de trabalho sério, havia ocasiões em que se deixavam levar pelas traquinagens, quando o barro se tornava fonte de brincadeiras de sujar uns aos outros, que quase sempre terminavam em uma guerra de barro. Mas quando a seriedade voltava, as bolinhas sobreviventes eram deixadas sob o sol escaldante a secar e endurecer.

Na tarde em questão brincavam com o jogo preferido da turma, onde a pontaria era a habilidade exigida: traçada uma meia-lua no chão de terra, cada menino colocava uma bolinha dentro dela e de uma linha de tiro, traçada a três metros de distância, procurava tirar, com uma outra, uma bolinha do círculo, ganhando-a.

O Levi estava a cada lance mais nervoso, reclamando muito dos colegas mais habilidosos. Quando em nova rodada tinha apenas a sua última bolinha, perdeu de vez o espírito de brincadeira e desistindo de colocá-la na meia-lua, com choro e grito atirou-a com raiva na direção do bando de pintassilgos que saltitavam em um pequeno pinheiro ali próximo. E, desta vez, acertou.

Um passarinho caiu ao chão, o bando voou assustado, e apenas um outro permaneceu onde estava pousado.

O choro do Levi intensificou-se em pranto, pois não tivera a intenção de acertar o bichinho que encantava a todos.

Jesus correu a pegar o pássaro caído, e o Levi, chegando ao seu lado, ouviu-o dizer:

Ele foi atingido na cabecinha, veja aqui a ferida. Ele é a Raiva, o descontrole dos seus atos, e aquele que lá ficou quietinho é a Culpa, presa no galho.

Pegando na mão de Levi, levou-a a acariciar a cabecinha do bichinho.

Se você sente tanto, talvez a Culpa possa voar e o Perdão voltar. Talvez ele esteja apenas desacordado.

O passarinho que ficara no galho veio a pousar no ombro de Jesus, arrancando um sorriso de Levi. O pintassilgo ferido agitou suas asas e se pôs em pé. Um outro pintassilgo apareceu e foi aninhar-se na palma de Levi, que soube reconhecer o Perdão.

E os três voaram em busca do seu bando.

– Vó, que mistureba danada você fez de pintassilgos, palavras e sentimentos.

– São apenas metáforas que fazem mais fáceis o entender das nossas emoções.

– Metáfora, Vó, como é isso?

– São invenções ou às vezes mentirinhas que ajudam a compreensão através de comparações.

– Ah! Assim como dizer que você é uma bruxa!

 

 

 


domingo, 20 de setembro de 2020

As travessuras do Jesus Menino - 7. A Primeira Ceia

 

 

As travessuras do Jesus Menino

 
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Tenho na memória, talvez fabricada, as estórias que minha avó me contava, não sei se saídas da sua invenção ou da sua capacidade de simples narração para embalar o meu sono, sobre as peripécias de Jesus, quando menino, carregadas de espertezas que os seus poderes potencializavam. Vou tentar aqui deixar fluir neste papel essa memória, onde espero poder transmitir a graça com que me divertia.

 

7. A Primeira Ceia

Naquele tempo, por vontade de Jesus, Maria concordou em oferecer à turminha do filho uma ceia de confraternização por ocasião da Pessach. Foi armada uma mesa de tábuas na oficina de José para receber a relembrança daquela famosa ceia futura, que ficou para a posteridade como a Última Ceia, e doze amiguinhos de Jesus compareceram fazendo uma algazarra alegre e divertida.

Como anfitrião, Jesus recebia os amigos e os convidava a tomarem lugar à mesa, posta com treze pratos e taças de barro. Quando todos estavam em seus lugares, Jesus circulou com uma ânfora enchendo as taças com água e pediu que não tocassem nelas enquanto o peixe com azeite e o pão não fossem trazidos por sua mãe. Em seguida, colocou-se à cabeceira da mesa e pegando uma flauta de chifre começou a soprar uma melodia doce. Pode-se ouvir, em certas ocasiões, alguém a dizer que, quando a música é divina, até as taças celebram dançando, mas, nesse caso, conforme atestaram os meninos, isso realmente aconteceu: as taças giraram até que a música parou.

Maria serviu a cada um a sua porção, e, após a oração de graças, foram liberados para a refeição, que todos iniciaram com prazer, exceto o Mateus, que por um bom tempo ainda se entreteve a desenhar a cena que bem lhe parecia digna de registro - diz-se que esse belo papiro está preservado e guardado em cofre secreto no Vaticano, que não pode vir à luz por ser muito frágil.

Uma grande surpresa ainda estava reservada a todos os amiguinhos de Jesus, pois, ao levarem as taças aos lábios, os meninos não provaram água, mas um doce líquido impregnado pela melodia da flauta, que tinha o sabor delicado de uva.

Foi uma ceia onde os meninos se embriagaram de alegria.

– Vó, se tem um papiro guardado que não pode ser visto, para que serve?

– Sei lá.

– Se ele for retirado do cofre e virar cinzas, guardar as cinzas seria igual, né?

– Acho que sim, talvez o poder da posse, o ter, seja a resposta.