As travessuras do Jesus Menino
Tenho na memória, talvez fabricada, as
estórias que minha avó me contava, não sei se saídas da sua invenção ou da sua
capacidade de simples narração para embalar o meu sono, sobre as peripécias de
Jesus, quando menino, carregadas de espertezas que os seus poderes
potencializavam. Vou tentar aqui deixar fluir neste papel essa memória, onde
espero poder transmitir a graça com que me divertia.
7. A Primeira Ceia
Naquele tempo, por vontade de Jesus, Maria concordou em
oferecer à turminha do filho uma ceia de confraternização
por ocasião da Pessach. Foi armada uma mesa de tábuas na oficina de José para
receber a relembrança daquela famosa
ceia futura, que ficou para a posteridade como a Última Ceia, e doze amiguinhos
de Jesus
compareceram fazendo uma algazarra alegre e divertida.
Como anfitrião, Jesus recebia os amigos e os convidava a
tomarem lugar à mesa, posta com treze
pratos e taças de barro. Quando todos estavam em seus lugares, Jesus circulou
com uma ânfora enchendo as taças com água e pediu que não tocassem nelas
enquanto o peixe com azeite e o pão não fossem trazidos por sua mãe. Em
seguida, colocou-se à cabeceira da mesa e
pegando uma flauta de chifre começou a soprar uma melodia doce. Pode-se ouvir,
em certas ocasiões, alguém a dizer que, quando a música é divina, até as taças
celebram dançando, mas, nesse caso, conforme atestaram os meninos, isso
realmente aconteceu: as taças giraram até que a música parou.
Maria serviu a cada um a sua
porção, e, após a oração de graças, foram liberados para a refeição, que todos
iniciaram com prazer, exceto o Mateus, que por um bom tempo ainda se entreteve
a desenhar a cena que bem lhe parecia digna de registro - diz-se que esse belo
papiro está preservado e guardado em cofre secreto no Vaticano, que não pode vir
à luz por ser muito frágil.
Uma grande surpresa ainda estava
reservada a todos os amiguinhos de Jesus, pois, ao levarem as taças aos lábios,
os meninos não provaram água, mas um doce líquido impregnado pela melodia da
flauta, que tinha o sabor delicado de uva.
Foi uma ceia onde os meninos se
embriagaram de alegria.
– Vó, se tem um papiro guardado que
não pode ser visto, para que serve?
– Sei lá.
– Se ele for retirado do cofre e
virar cinzas, guardar as cinzas seria igual, né?
– Acho que sim, talvez o poder da
posse, o ter, seja a resposta.

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