domingo, 20 de setembro de 2020

As travessuras do Jesus Menino - 7. A Primeira Ceia

 

 

As travessuras do Jesus Menino

 
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Tenho na memória, talvez fabricada, as estórias que minha avó me contava, não sei se saídas da sua invenção ou da sua capacidade de simples narração para embalar o meu sono, sobre as peripécias de Jesus, quando menino, carregadas de espertezas que os seus poderes potencializavam. Vou tentar aqui deixar fluir neste papel essa memória, onde espero poder transmitir a graça com que me divertia.

 

7. A Primeira Ceia

Naquele tempo, por vontade de Jesus, Maria concordou em oferecer à turminha do filho uma ceia de confraternização por ocasião da Pessach. Foi armada uma mesa de tábuas na oficina de José para receber a relembrança daquela famosa ceia futura, que ficou para a posteridade como a Última Ceia, e doze amiguinhos de Jesus compareceram fazendo uma algazarra alegre e divertida.

Como anfitrião, Jesus recebia os amigos e os convidava a tomarem lugar à mesa, posta com treze pratos e taças de barro. Quando todos estavam em seus lugares, Jesus circulou com uma ânfora enchendo as taças com água e pediu que não tocassem nelas enquanto o peixe com azeite e o pão não fossem trazidos por sua mãe. Em seguida, colocou-se à cabeceira da mesa e pegando uma flauta de chifre começou a soprar uma melodia doce. Pode-se ouvir, em certas ocasiões, alguém a dizer que, quando a música é divina, até as taças celebram dançando, mas, nesse caso, conforme atestaram os meninos, isso realmente aconteceu: as taças giraram até que a música parou.

Maria serviu a cada um a sua porção, e, após a oração de graças, foram liberados para a refeição, que todos iniciaram com prazer, exceto o Mateus, que por um bom tempo ainda se entreteve a desenhar a cena que bem lhe parecia digna de registro - diz-se que esse belo papiro está preservado e guardado em cofre secreto no Vaticano, que não pode vir à luz por ser muito frágil.

Uma grande surpresa ainda estava reservada a todos os amiguinhos de Jesus, pois, ao levarem as taças aos lábios, os meninos não provaram água, mas um doce líquido impregnado pela melodia da flauta, que tinha o sabor delicado de uva.

Foi uma ceia onde os meninos se embriagaram de alegria.

– Vó, se tem um papiro guardado que não pode ser visto, para que serve?

– Sei lá.

– Se ele for retirado do cofre e virar cinzas, guardar as cinzas seria igual, né?

– Acho que sim, talvez o poder da posse, o ter, seja a resposta.

 


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