sábado, 25 de fevereiro de 2017

O Virgem




O Virgem

– Bom dia, Dona Menina.

– Bom dia, Maria, tá de passeio cedo assim, é?

– Tô, Dona Menina, eu mais a Darlene, que arrastei comigo para espairecer, que ela tá com muita precisão.

– Muito prazer, Darlene. Mas vamos entrar, que beija-flor nenhum passa aqui por minha morada sem gastar tempo para provar do nosso mel.

– Obrigado, Dona Menina, eu estava mesmo a querer que sua prosa pudesse valer um pouco pra Darlene.

– Pelo que tá a parecer, a Darlene tá carregando uma tristura danada de mofina. Diga, cá, minha filha, tá tudo firme?

– Firme igual prego no angu, Dona Menina, pois é o que me dá de permissão este luto que me confrange o coração.

– Tô vendo, minha filha, tô vendo pela cor preta que até me encabulei de falar, mas já que você mesmo que tocou no desgosto, luto por quem, minha filha?

– É uma muito longa história, Dona Menina, uma mui longa e triste artimanha que o malfadado destino me tocaiou...

– Olha que sou boa de escuta, Darlene, taí a Maria que sabe dos meus predicados; se for de seu alvitre discorrer, sou toda ouvidos.

– Pois bem, Dona Menina, é que este luto preto é mesmo por memória do meu filho querido, que Deus o tenha em sua paz.

– Ai, que triste! Num existe que seja luto mais pior que esse de filho!

– Pior, pior mesmo, e mais piorado ainda que sou mesmo eu que sou culpada de ter sido causa dele.

– Ara, que num há de ser de tal monta! Com certeza. Mas, antão, começa bem do começo e desfia tudinho pra modo dividir com a gente esta tristeza medonha.

– Pra começar bem lá do começo de tudo, tenho que primeiro relatar do sonho de meu casamento com o Neco, meu marido, que foi carregado com a ânsia de encher nosso terreiro com as peraltices de crianças.

– E que Deus Nosso Senhor deve de ter satisfeita com muita graça.

– Que nada, Dona Menina, nem diantou de nada toda nossa fé, minha mais a do Neco, não fomos de um nada abençoados. Até fiz promessa a Virge Nossa Senhora pra que se ela me desse um, em menos só um que fosse, que ele seria criado e dedicado a ela, guri ou guria, por toda a vida.

– Pois é mesmo triste, Darlene, é deveras muito triste um casamento sem frutos.

– Mas foi aí, já que as nossas carnes não faziam por bem a destravar, que a Virge interveio e prestimou-se a minguar a nossa desdita com um gurizinho que perdeu a mãe logo no nascer.

– Ah bom! Pois é por isso que também deposito minha fé em nossa santa mãezinha.

– Satisfeita nossa ânsia, tratamos, eu mais o Neco, de executar bem no devido a promessa que fizemos pra Virge, e com muita atenção fomos dirigindo o menino estreitinho para as coisas santas da fé, principiando por lhe dar o nome de José Pio, e trabalhando no aperto de deixar ele bem afastado das coisas malévolas do mundo.

– Ih, já me põe a pulga atrás da orelha. Só fico no aguardo, Darlene, que vocês não tenham entrado nas veredas dos corretivos destrambelhados.

– A gente, eu mais o Neco, só tinha intenção do melhor pro Piozinho. Inda mesmo não contei, Dona Menina, mas bem junto com a consagração a Virge, de simultâneo fizemos também promessa pra Nossa Santa Maria que seria nossa mais reta função manter ele puro e casto, com intenção, se ela quisesse, de fazer dele padre devoto.


– Ai, meu Jesus!

– Pois é, Dona Menina, minha pena maior foi me ter prestado, eu mais o Neco, pelo desespero que de mim se servia, a tão malfadada sina, mas com o prometido não podia remediar. Um dia, que ele estava curioso, como criança que era, a brincar com o pingolim lá dele, fizemos, eu mais o Neco, tal terror com o pobre sobre os castigos do inferno que poderiam advir pra ele, que o menino, pelo que eu sei, nunca mais num teve o atrevimento de usar o dito cujo pra bolinação. E foi assim crescendo bem pio cumprindo à risca seu nome.

– Criança tem que cuidar é de tornar a canga dos pais mais leve, né mesmo?

– Logo que teve idade o Pio, pra nossa grande graça e satisfação, quis ir para o seminário, e o Padre Joaquim arrumou tudo pra ele direitinho. E lá foi o menino, com nossa tristura pela falta e nossa muita soberba. No seminário ele foi sempre exemplo de dedicado às funções das orações, não muito feliz nos estudos, mas sem faltar no esforço.

– O esforço é que sempre mais tem valor, num é mesmo?.

– Por ser muito dado pra música, os padres arrumaram pra ele uma professora de piano, pra ele poder acurar seu dom e tocar mais bonito no órgão da igreja. Ele tinha inté que sair do seminário pra ir lá na casa dela pras... desculpe a palavra, Dona Menina, mas num consigo deixar pra menos, pras desgraçadas aulas. E a dona professora tinha uma filha que principiou a lançar uns olhares cobiçosos pro Pio e tramar umas armadilhas pra enfeitiçar o menino.

– Foi aí então que a promessa pegou o atalho do perigo, Darlene?

– Eu mais o Neco só atinamos do perigo quando ele ferroou os dois com uma dor danada quando disse que não ia voltar pro seminário, que queria era terminar os estudos pra ser professor e casar com a menina.

– E não adiantou os choros e velas pra adocicar o menino?

– De nada adiantou que eu, mais o Neco, lembrasse pra ele que ele era da Virge e que não podia quebrar as promessas dele ser casto e pio.

– Mas a promessa não foi dele, né?

– Foi isso mesmo que ele respondia, e sem mais ouvir, apesar das ladainhas que eu mais o Neco fizemos e oramos, deixou o seminário.

– E os dois se casaram.

– Senhora Dona Menina, nem lhe digo! Mas mesmo assim dizendo, não sei se as minhas preces que deram causa ao que se sucedeu ou se foi mesmo por pena de castigo.

– Mas, Darlene, castigo haveria de ser por quê?

– Pela promessa quebrada, ara! Pois o que mesmo aconteceu é que a menina de repente ficou adoecida e em um nada morreu.

– Coitado do menino!

– Senhora Dona Menina, com todo o egoísmo que me era possível, meu e do Neco, eu só achava mesmo é que a Virge tinha atendido as minhas preces e que ele haveria de voltar pro seminário.

– E ele voltou, Darlene?

– Não, não voltou, num quis mais saber de ser padre.

– Acaso, talvez, ele já não era mais casto e já tinha pegado gosto pela coisa.

– Não foi isso que ele falou, e por amor da menina ele disse que num tinha intenção de deixar de ser.

– Então, você mais o Neco, ficaram felizes, né?

– Felizes não, porque o Pio andava agoniado, mas nos sentimos aliviados, pois a promessa não foi quebrada. E passado um tempo de agonia ele resolveu ir pra capital pra continuar os estudos. E lá se foi pra morar em uma pensão.

– E tão despreparado pras artes da vida...

– Mas ele continuava a ser firme no chamego da religião pra suster a promessa, agora, também dele a sua amada morta, de seguir como casto.

– Mas há sempre um porém, né, Darlene?

– Não um só, mas vários, Dona Menina. Num é que mesmo que vivesse num quartinho só dele, havia lá bem do lado dele um outro que era pouso de um casalzinho casado de novo? E ele contou que passava noites e noites no tormento, a ouvir os dois a gozar e falar das delícias lá deles.

– Essas paredes de hoje em dia inté parecem feitas de papel, né?

– E a promessa foi inflando com os ares vindo do outro quarto e foi ficando cada vez mais pesada, mas a gente, eu mais o Neco, lembrava pra ele da nossa e que ele devia cuidar pra juntar forças para se entregar a Virge.

– Tá me parecendo mais é querer prender um touro com um fio de barbante.

– E o menino foi antão que arrumou uma namorada lá das lides da igreja, uma menina boa e pura como ele. Só temia mesmo, eu mais o Neco, por um novo casamento.

– Que de certo haveria de acontecer.

– Mas num aconteceu! Pra minha dor e desgraça, minha e do Neco!

– E o que foi dessa vez, Darlene?

– Aconteceu que fomos um dia lá na capital fazer uma visita pra ele. Chegamos na pensão, eu mais o Neco, e fomos recebidos por um morador de lá que nos dirigiu ao quartinho do Pio.

– A saudade devia ser bem grande, né?

– Pois a porta estava fechada, e querendo fazer uma surpresa pra ele, eu mais o Neco abrimos a porta sem bater e...

– E que aconteceu, Darlene, tá sentindo mal?

– Não, não, é só pelo nó na goela de alembrar.

– E o que aconteceu, vocês abriram a porta e...

– Os dois estavam lá em cima da cama... quase nus... em ponto de quebrar a promessa...

– Oh, minha Virge, coitados dos meninos apanhados assim de surpresa!

– E que surpresa, Dona Menina! A menina se escafedeu num átimo e o Pio ficou lá, parado, estático, paralisado, com o olho estuporado a olhar pra mim mais o Neco.

– E eles não chegaram a consumar o ato?

– Não, não chegaram, o Pio ainda era casto. Nunca mais teria, eu mais o Neco, a estar preocupada com a quebra da promessa.

– Mas por quê, Darlene? O que mais aconteceu?

– Nada mais aconteceu, Dona Menina, nada mais. O Piozinho nunca mais saiu daquele estado de estupor.

– Calma, Darlene, calma. Vai, Maria, vai buscar um copo d’água pra ela.

– E poucos dias depois ele morreu de fraqueza e inanição, sem quebrar a minha promessa, minha mais do Neco.

                                               -o-

                         Vidência
                               Paulo César Pinheiro

        Eu vi uma velha, um velho e vi um menino.
        E sobre as mãos e o colo da anciã
        Eu vi a renda, a agulha, o bilro e a lã
        Com que tecia as malhas do Destino.

        Eu vi uma velha, e vi um menino e um velho.
        E o quase cego olhar desse ancião
        Tentava achar em nosso coração
        Vestígio ao menos de seu Evangelho.

        Eu vi um menino, um velho e vi uma velha.
        E esse menino me arrastava a ela.
        E a luz do velho se fechava em breus.

        Chama-se Tempo esse menino forte.
        E a costureira, pois, chama-se Morte.
        E o velho cego, então, chama-se Deus.










sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

O Trovador




O Trovador

– Ei, Miguilim, tudo pronto pra dormir?

– Tudo pronto, Doutor, já escovei meus dentes e já rezei pro anjo.

– Então é hora da nossa história de hoje.

– E o que vai ser, Doutor? Tô com gana de saber.

– Bom, hoje nós vamos visitar um tio meu.

– Uai, Doutor, eu já tô de pijama e prontinho pra dormir.

– Não, Miguilim, foi só um modo de falar para dizer que vou contar sobre o meu tio Jair.

– Era um tio legal que você tinha, Doutor?

– Legal? Era, muito legal, embora tivesse problemas bem sérios.

– Problemas, por quê?

– Bom, esse tio era irmão de minha avó, e uma terrível doença manifestou-se nele quando ele estava ali por beira dos quarenta anos; aliás não só nele, mas também em um seu irmão e uma irmã.

– E que doença era essa, Doutor?

– Não me lembro do nome que deram naquela época, porque era um nome muito complicado, mas ela ataca os músculos e a pessoa pouco a pouco vai definhando. Eu já o conheci com dificuldades para andar; nas minhas primeiras lembranças vejo-o a caminhar lentamente, arrastando os pés, apoiando-se nas paredes ou nos canos que fechavam a varanda de sua casa.

– Que triste!

– Eu era bem criança quando ele ainda conseguia sair para a varanda para sentir o sol e o vento, e para trocar algumas palavras com os conhecidos que passavam pela rua, mas, aos poucos, ele perdeu até mesmo aqueles movimentos e teve que usar uma cadeira de rodas.

– Ele reclamava?

– Não era comum ouvir alguma reclamação, mas os incômodos eram muitos. Nos meus tempos de criança ele vivia naquela casa junto com a família de outro tio, este irmão de meu pai. Algum tempo depois este tio mudou-se para ficar mais próximo do seu trabalho, pois ali era muito longe, e passou a fazer-lhe companhia um senhor bonachão, que já trazia na maneira de andar a imagem daquela calma que lhe era comum.

– Pra lidar com seu tio devia ser preciso de muita, né?.

– E isso não faltava para o Alzir. Certas vezes podíamos vê-lo responder com um sorriso de paciência aos imperativos irritados de meu tio, pois as feridas incomodavam, mas um tanto de irritação é uma característica natural de nossa família. Nossa casa era muito pobre em assunto de livros e era do tio Jair que eu conseguia algum material de leitura. Ele assinava a revista Seleções de Reader’s Digest, que lhe chegava pelo correio, mas antes que eu pudesse pôr as mãos em uma revista, ela tinha que fazer um longo caminho. Meu tio a lia, mandava para sua irmã doente, tia Lenira, um amor de sereia que só tinha o busto de mulher, já que suas pernas nunca saíam de debaixo do lençol; tinha um sorriso travesso que nunca tirava do seu rosto e nela só encontrávamos alegria quando íamos vê-la. Depois que ela lia, a revista retornava para a casa do tio Jair e eu poderia finalmente pôr-lhe as mãos. Além das revistas, aquela assinatura trazia todo ano um livro com romances de aventuras que eu devorava. Quando atingi os meus dez anos fui estudar fora e fiquei por três anos, voltando para casa apenas nas férias, e quando deixei o internato, entrado na adolescência, foi que fiquei mais amigo dele.

– Você ia sempre na casa dele?

– Ia sim, meu pai tinha uma atenção muito grande para com ele e nos pedia que também tivéssemos, mas naquela época eu gostava mesmo de estar com ele, pois foi quando descobri que ele era um trovador. Ele mostrou-me os livros de trovas que ele tinha, iniciando-me nos segredos daquelas quadrinhas. Ele também tinha alguns cadernos cheios de trovas que ele mesmo compunha.

– A trova é uma poesia?

– É sim, Miguilim, uma poesia pequenina. Por isto era divertido fazer trovas, era como um quebra-cabeças a montar: achar um tema, desenvolvê-lo em quatro versinhos de sete sílabas, procurar as melhores palavras que coubessem no verso, achar as rimas mais ricas.

– Ah, Doutor, então eu também sei uma trova, ouça:
Minha mãezinha querida,
mãezinha do coração,
fiz pra ti esta cantiga
Com muito amor e paixão.

– Pois é isso, Miguilim, essa é uma trovinha cheia de carinho. E foi assim, quando o tio Jair mostrou-me sua paixão pelas trovas, que eu também fui contaminado por ela e passei a fazê-las. Algumas eu nunca me esqueci, pois até hoje as tenho na memória. E como na época minha cabeça era virada para as meninas, eu compus uma assim:

Roubar-te um gostoso beijo
Vou tentar com toda astúcia
Um beijo como um arpejo
Vou roubar-te Carmem Lúcia.

– E você conseguiu, Doutor?

– Consegui o quê, Miguilim?

– Roubar o beijo da Carmem Lúcia?

– Ah, dela eu nunca consegui roubar, por mais que tenha tentado.

– E você se lembra de outra trova sua, Doutor?

– Sim, gosto muito desta:

Esta linda trova fiz
Embora longe de ti
Quão mais linda ela seria
Se tu estivesses aqui.
– Ah, já sei, você estava pensando na Carmem Lúcia pertinho de você.
– É provável, Miguilim, é provável.
– E do seu tio, você sabe alguma trova?

– O tempo levou tudo embora, Miguilim, minha memória não reteve nenhuma.

– E os cadernos dele, Doutor?

– Os cadernos... Bom, eu logo deixei novamente a minha terra para estudar e trabalhar, e as minhas andanças por lá ficaram mais limitadas. Meu tio já nem podia mais ficar na cadeira de rodas, ficava só na cama aos cuidados daquele senhor. Até que um dia foi levado pra sua morada final. Eu nem estive presente, pois a distância e as minhas obrigações tornavam difícil a tarefa. E os cadernos... Minha vida naquela época era uma azáfama, quando me lembrei dos cadernos, tempos depois, ainda perguntei ao meu pai se sabia deles, mas ele não deu notícia. Provavelmente foi parar...

– Que ruim, Doutor, teria sido bom guardar as suas palavras.

– Teria, Miguilim, suas tristezas, suas esperanças, suas crenças, tudo estava naqueles cadernos.

– Doutor, você podia fazer uma trovinha pra ele.

– Vou tentar, Miguilim, talvez eu ainda saiba:

Uma trova me pediste,
Mas como poder conter
Em quatro versos, a triste
Dor da ausência de um ser.
– Ai que sono, boa noite, Doutor.
– Boa noite, Miguilim.

– Doutor, eu acho que eu também posso ser um trovador, olha o que pensei: