O Virgem
– Bom dia, Dona Menina.
– Bom dia, Maria, tá de passeio cedo assim, é?
– Tô, Dona Menina, eu mais a Darlene, que arrastei comigo
para espairecer, que ela tá com muita precisão.
– Muito prazer, Darlene. Mas vamos entrar, que beija-flor
nenhum passa aqui por minha morada sem gastar tempo para provar do nosso mel.
– Obrigado, Dona Menina, eu estava mesmo a querer que sua
prosa pudesse valer um pouco pra Darlene.
– Pelo que tá a parecer, a Darlene tá carregando uma tristura
danada de mofina. Diga, cá, minha filha, tá tudo firme?
– Firme igual prego no angu, Dona Menina, pois é o que me
dá de permissão este luto que me confrange o coração.
– Tô vendo, minha filha, tô vendo pela cor preta que até me
encabulei de falar, mas já que você mesmo que tocou no desgosto, luto por quem,
minha filha?
– É uma muito longa história, Dona Menina, uma mui longa e
triste artimanha que o malfadado destino me tocaiou...
– Olha que sou boa de escuta, Darlene, taí a Maria que sabe
dos meus predicados; se for de seu alvitre discorrer, sou toda ouvidos.
– Pois bem, Dona Menina, é que este luto preto é mesmo por
memória do meu filho querido, que Deus o tenha em sua paz.
– Ai, que triste! Num existe que seja luto mais pior que
esse de filho!
– Pior, pior mesmo, e mais piorado ainda que sou mesmo eu
que sou culpada de ter sido causa dele.
– Ara, que num há de ser de tal monta! Com certeza. Mas,
antão, começa bem do começo e desfia tudinho pra modo dividir com a gente esta
tristeza medonha.
– Pra começar bem lá do começo de tudo, tenho que primeiro
relatar do sonho de meu casamento com o Neco, meu marido, que foi carregado com
a ânsia de encher nosso terreiro com as peraltices de crianças.
– E que Deus Nosso Senhor deve de ter satisfeita com muita
graça.
– Que nada, Dona Menina, nem diantou de nada toda nossa fé,
minha mais a do Neco, não fomos de um nada abençoados. Até fiz promessa a Virge
Nossa Senhora pra que se ela me desse um, em menos só um que fosse, que ele
seria criado e dedicado a ela, guri ou guria, por toda a vida.
– Pois é mesmo triste, Darlene, é deveras muito triste um
casamento sem frutos.
– Mas foi aí, já que as nossas carnes não faziam por bem a destravar,
que a Virge interveio e prestimou-se a minguar a nossa desdita com um gurizinho
que perdeu a mãe logo no nascer.
– Ah bom! Pois é por isso que também deposito minha fé em
nossa santa mãezinha.
– Satisfeita nossa ânsia, tratamos, eu mais o Neco, de executar
bem no devido a promessa que fizemos pra Virge, e com muita atenção fomos
dirigindo o menino estreitinho para as coisas santas da fé, principiando por
lhe dar o nome de José Pio, e trabalhando no aperto de deixar ele bem afastado
das coisas malévolas do mundo.
– Ih, já me põe a pulga atrás da orelha. Só fico no aguardo,
Darlene, que vocês não tenham entrado nas veredas dos corretivos
destrambelhados.
– A gente, eu mais o Neco, só tinha intenção do melhor pro
Piozinho. Inda mesmo não contei, Dona Menina, mas bem junto com a consagração a
Virge, de simultâneo fizemos também promessa pra Nossa Santa Maria que seria nossa
mais reta função manter ele puro e casto, com intenção, se ela quisesse, de fazer
dele padre devoto.
– Ai, meu Jesus!
– Pois é, Dona Menina, minha pena maior foi me ter
prestado, eu mais o Neco, pelo desespero que de mim se servia, a tão malfadada
sina, mas com o prometido não podia remediar. Um dia, que ele estava curioso,
como criança que era, a brincar com o pingolim lá dele, fizemos, eu mais o
Neco, tal terror com o pobre sobre os castigos do inferno que poderiam advir
pra ele, que o menino, pelo que eu sei, nunca mais num teve o atrevimento de
usar o dito cujo pra bolinação. E foi assim crescendo bem pio cumprindo à risca
seu nome.
– Criança tem que cuidar é de tornar a canga dos pais mais
leve, né mesmo?
– Logo que teve idade o Pio, pra nossa grande graça e
satisfação, quis ir para o seminário, e o Padre Joaquim arrumou tudo pra ele
direitinho. E lá foi o menino, com nossa tristura pela falta e nossa muita soberba.
No seminário ele foi sempre exemplo de dedicado às funções das orações, não
muito feliz nos estudos, mas sem faltar no esforço.
– O esforço é que sempre mais tem valor, num é mesmo?.
– Por ser muito dado pra música, os padres arrumaram pra
ele uma professora de piano, pra ele poder acurar seu dom e tocar mais bonito
no órgão da igreja. Ele tinha inté que sair do seminário pra ir lá na casa dela
pras... desculpe a palavra, Dona Menina, mas num consigo deixar pra menos, pras
desgraçadas aulas. E a dona professora tinha uma filha que principiou a lançar
uns olhares cobiçosos pro Pio e tramar umas armadilhas pra enfeitiçar o menino.
– Foi aí então que a promessa pegou o atalho do perigo, Darlene?
– Eu mais o Neco só atinamos do perigo quando ele ferroou
os dois com uma dor danada quando disse que não ia voltar pro seminário, que
queria era terminar os estudos pra ser professor e casar com a menina.
– E não adiantou os choros e velas pra adocicar o menino?
– De nada adiantou que eu, mais o Neco, lembrasse pra ele
que ele era da Virge e que não podia quebrar as promessas dele ser casto e pio.
– Mas a promessa não foi dele, né?
– Foi isso mesmo que ele respondia, e sem mais ouvir,
apesar das ladainhas que eu mais o Neco fizemos e oramos, deixou o seminário.
– E os dois se casaram.
– Senhora Dona Menina, nem lhe digo! Mas mesmo assim
dizendo, não sei se as minhas preces que deram causa ao que se sucedeu ou se
foi mesmo por pena de castigo.
– Mas, Darlene, castigo haveria de ser por quê?
– Pela promessa quebrada, ara! Pois o que mesmo aconteceu é
que a menina de repente ficou adoecida e em um nada morreu.
– Coitado do menino!
– Senhora Dona Menina, com todo o egoísmo que me era
possível, meu e do Neco, eu só achava mesmo é que a Virge tinha atendido as
minhas preces e que ele haveria de voltar pro seminário.
– E ele voltou, Darlene?
– Não, não voltou, num quis mais saber de ser padre.
– Acaso, talvez, ele já não era mais casto e já tinha
pegado gosto pela coisa.
– Não foi isso que ele falou, e por amor da menina ele
disse que num tinha intenção de deixar de ser.
– Então, você mais o Neco, ficaram felizes, né?
– Felizes não, porque o Pio andava agoniado, mas nos sentimos
aliviados, pois a promessa não foi quebrada. E passado um tempo de agonia ele
resolveu ir pra capital pra continuar os estudos. E lá se foi pra morar em uma
pensão.
– E tão despreparado pras artes da vida...
– Mas ele continuava a ser firme no chamego da religião pra
suster a promessa, agora, também dele a sua amada morta, de seguir como casto.
– Mas há sempre um porém, né, Darlene?
– Não um só, mas vários, Dona Menina. Num é que mesmo que
vivesse num quartinho só dele, havia lá bem do lado dele um outro que era pouso
de um casalzinho casado de novo? E ele contou que passava noites e noites no
tormento, a ouvir os dois a gozar e falar das delícias lá deles.
– Essas paredes de hoje em dia inté parecem feitas de
papel, né?
– E a promessa foi inflando com os ares vindo do outro
quarto e foi ficando cada vez mais pesada, mas a gente, eu mais o Neco, lembrava
pra ele da nossa e que ele devia cuidar pra juntar forças para se entregar a
Virge.
– Tá me parecendo mais é querer prender um touro com um fio
de barbante.
– E o menino foi antão que arrumou uma namorada lá das
lides da igreja, uma menina boa e pura como ele. Só temia mesmo, eu mais o
Neco, por um novo casamento.
– Que de certo haveria de acontecer.
– Mas num aconteceu! Pra minha dor e desgraça, minha e do
Neco!
– E o que foi dessa vez, Darlene?
– Aconteceu que fomos um dia lá na capital fazer uma visita
pra ele. Chegamos na pensão, eu mais o Neco, e fomos recebidos por um morador
de lá que nos dirigiu ao quartinho do Pio.
– A saudade devia ser bem grande, né?
– Pois a porta estava fechada, e querendo fazer uma
surpresa pra ele, eu mais o Neco abrimos a porta sem bater e...
– E que aconteceu, Darlene, tá sentindo mal?
– Não, não, é só pelo nó na goela de alembrar.
– E o que aconteceu, vocês abriram a porta e...
– Os dois estavam lá em cima da cama... quase nus... em
ponto de quebrar a promessa...
– Oh, minha Virge, coitados dos meninos apanhados assim de surpresa!
– E que surpresa, Dona Menina! A menina se escafedeu num
átimo e o Pio ficou lá, parado, estático, paralisado, com o olho estuporado a olhar
pra mim mais o Neco.
– E eles não chegaram a consumar o ato?
– Não, não chegaram, o Pio ainda era casto. Nunca mais teria,
eu mais o Neco, a estar preocupada com a quebra da promessa.
– Mas por quê, Darlene? O que mais aconteceu?
– Nada mais aconteceu, Dona Menina, nada mais. O Piozinho
nunca mais saiu daquele estado de estupor.
– Calma, Darlene, calma. Vai, Maria, vai buscar um copo
d’água pra ela.
– E poucos dias depois ele morreu de fraqueza e inanição,
sem quebrar a minha promessa, minha mais do Neco.
-o-
Vidência
Paulo
César Pinheiro
Eu vi uma velha, um velho e vi um
menino.
E sobre as mãos e o colo da anciã
Eu vi a renda, a agulha, o bilro e a lã
Com que tecia as malhas do Destino.
Eu vi uma velha, e vi um menino e um
velho.
E o quase cego olhar desse ancião
Tentava achar em nosso coração
Vestígio ao menos de seu Evangelho.
Eu vi um menino, um velho e vi uma
velha.
E esse menino me arrastava a ela.
E a luz do velho se fechava em breus.
Chama-se Tempo esse menino forte.
E a costureira, pois, chama-se Morte.
E o velho cego, então, chama-se Deus.

