Non
nobis, Domine
Deus é o Destino e o Destino não é senão
Deus
manifestando-se em nós.
(pensamento
sufi)
– Boa noite, professor, que música bonita é esta que estás
a ouvir?
– Boa noite, estás vendo como te recebo?
– É realmente uma maravilha, professor, mas que música é?
– É um canto dos Cavaleiros Templários, sua letra é um
versículo retirado do Salmo 113, que se tornou o lema da sua ordem. Ele os
inspirava e empurrava nos campos de batalha:
– E em português, professor, como fica esse lema?
– Não a nós, Senhor,
não a nós, mas dá glória ao Teu nome.
– Pelo visto eles se lançavam em uma total entrega de corpo
e alma à luta em defesa da fé.
– Realmente a função básica da Ordem do Templo foi essa. Os
cavaleiros foram monges guerreiros que deviam ser puros e de coragem
sobre-humana, deviam ser os primeiros nas batalhas e não podiam recuar.
– Mas isso são lendas, professor.
– E os templários cumpriam à risca esse juramento de defender
com sua vida a fé cristã?
– Certamente. Nas batalhas eles formavam sempre a linha de
frente e não podiam recuar, isto só poderia acontecer por ordem do Mestre e se
fossem superados por uma força ao menos três vezes maior, sob pena de desgraça
total pela expulsão. Como eles nada possuíam, pois suas armas e roupas
pertenciam à Ordem, eles sofreriam enorme humilhação ao serem abandonados, nus.
A morte era mais bela para o templário
que a vida comprada com a covardia (Alexandre Herculano).
– E quem eram esses monges, professor, de onde vinham?
– Graças ao regime do morgado, onde o primogênito das famílias
deveria conservar as linhagens, os outros filhos não tinham nenhuma expectativa
de vida, dependeriam inteiramente do irmão mais velho, por isto a aventura da
cavalaria era um ideal a buscar por estes filhos deserdados de famílias de
posses. O terceiro filho da família normalmente já nascia com a sina de se
dedicar à vida religiosa, e o espírito religioso vigente na época tornava o
martírio defendendo a fé como uma meta a não ser desprezada.
– No mesmo espírito com que os muçulmanos, hoje,
suicidam-se nos atentados pela glória de Allah.
– Não deixa de ser irônico que o sed nomini Tuo da gloriam fosse utilizado pelos dois lados em
conflito, mas a Ordem do Templo de Salomão foi criada com o primeiro objetivo
de proteger os peregrinos que se dirigiam à cidade santa de Jerusalém,
conquistada pelos cristãos na Primeira Cruzada. Em seguida receberam encargos
de proteger os territórios conquistados.
– E em que época ela foi criada, professor?
– Em 1118 alguns cavaleiros liderados por Hugo de Payens
levaram ao Rei de Jerusalém a ideia da criação de uma ordem militar-religiosa,
e dez anos depois, no Concílio de Troyes, a Ordem ganhou a Regra e o hábito
branco com a cruz vermelha, a cruz do sangue de Cristo.
– Mas, professor, por que tanto interesse nesses cavaleiros medievais?
– Porque eles têm muita importância em nossa história.
– Em nossa história?
– Por herança dos nossos patrícios portugueses, que lhe
devem muitas mercês.
– Explica, professor.
– O reino de Portugal nasceu quase junto com a Ordem do
Templo. Logo após sua criação e ordenação, cavaleiros voltaram para a Europa
para angariar fundos e homens, entre eles pelo menos um cavaleiro originário daquelas
terras, o Condado Portucalense, que dariam origem ao reino de Portugal. Dom Henrique, o primeiro conde portucalense, de origem francesa, tinha ligação com São Bernardo. Após sua morte, sua esposa Dona Teresa legou à Ordem em 1127 as primeiras
possessões que tiveram em solo europeu e em 1128 o castelo em Soures, terras
na fronteira com os mouros que dominavam a parte sul da Península Ibérica.
– O inimigo em Jerusalém e na península eram os mesmos, bem
como a função que deviam exercer os cavaleiros.
– Pois é, por isso Dom Afonso Henriques, filho de Dom Henrique,
usou a Ordem do Templo e os cruzados que seguiam para o oriente para combater
os mouros. As crônicas sobre ele narram fatos difíceis de serem
dissociados das lendas, desde a sua infância. Conta-se que ele nascera com sério
defeito nas pernas, e que foi curado por um milagre da Virgem Maria: Egas
Muniz, o fidalgo que o criou, teve uma visão da Virgem que o mandou buscar uma
capela abandonada onde devia colocar o menino sobre o altar e ficar em vigília;
o menino seria curado, pois dele se serviria para a derrota de muitos inimigos
da fé cristã. Mais tarde, na véspera da Batalha de Ourique, já dominando as
terras portuguesas, diz-se que Dom Afonso teve uma visão de Cristo
assegurando-lhe a vitória, e não podemos negar que tudo parecia mesmo um
milagre: com tão poucos recursos, tão grandes vitórias. E a ordem dos
templários recebeu mais terras e castelos com a função de proteger os
territórios, não só dos muçulmanos, mas também dos leoneses e castelhanos, que
não se conformavam com a perda daquelas terras.
– E D. Afonso Henriques teria então, como Constantino,
recebido o apoio de Cristo?
– Um apoio envolto em brumas, pois, após a morte de seu pai,
ele destituiu sua mãe, que se ligara a poderoso fidalgo leonês e usurpara-lhe
suas terras; alguns cronistas dizem até mesmo que a manteve prisioneira até sua
morte em 1130. D. Afonso passou a utilizar o título de príncipe, insatisfeito de
prestar vassalagem ao rei de Leão, a quem o condado era subordinado. Ele
considerava-se predestinado a expulsar os mouros das terras fronteiras ao
condado e o seu sentido místico era também parte de sua força. Era tão ligado à
Ordem do Templo que seu selo era estampado de tal forma que se podia ler
Por-tuo-gral.
![]() | |
| selos de D. Afonso Henriques |
Ele também fez aliança e foi amigo do líder muridino Ibn Qasi, grande
sábio e poeta sufi, que reinava em parte do Gharb (Algarve) sarraceno, terras no sul do Portugal atual. Deste poeta D.
Afonso pôde ouvir:
Tira as sandálias e ascende altivo
Acima das estrelas cintilantes!
Une-te à verdade!
Quem a desprezou
Ficou chorando por todas as coisas.
O olhar do mais firme
- tal como o céu –
convoca a beatitude da verdade clara.
Descalça as sandálias, sinceramente,
Desde os umbrais do esplendor.
Une-te ao Ser!
Vale-te mais essa união
que todas as provas da razão.
Quem ouviu o que gritei à multidão
acerca da realidade da união,
tem de deixar o mundo da dualidade
que são duas sombras sob o sol.
O espírito venceu a dor: ficou perto do
distante.
Ó mãe de meus irmãos!
O amado é ao meu lado!
Ó povo! Se a paixão me der a morte
toma o meu amor, como vingança,
e vinga-me com ele!
E Dom Afonso cingiu-se Rei de Portugal, por iniciativa dos seus cavaleiros, após a batalha de Ourique, onde venceu um exército de cinco reis
mouros. Batalha perenizada na bandeira de Portugal com as cinco quinas, que representam
os reis derrotados bem como as cinco chagas de Cristo.
– E assim Portugal tornou-se independente?
– Bem, não completamente. Muitas batalhas seriam ainda
travadas com os mouros e com Castela até que o Papa o reconhecesse como Rei.
– O papa tinha poderes para criar um novo reino?
– Tinha. O papa era, então, uma espécie de rei dos reis;
ele subordinava os reis europeus com o princípio de que o poder espiritual era
superior ao terreno; ele era o último árbitro em questões territoriais e
disputas entre as famílias reais. Até que...
– E então, professor, até que...
– Até que a insubordinação de alguns reis poderosos
questionaram essa supremacia papal. Na França, o Rei Felipe IV, o Belo,
subverteu as convenções da época acabando com o regime dos senhores feudais e
centralizando o poder absoluto em suas mãos, e também ousando até mesmo a
mandar prender o papa, que então era Bonifácio VIII, aquele mesmo que Dante, na
Divina Comédia, ousou colocar no Inferno, embora ainda fosse vivo.
– Ele foi posto vivo no Inferno?
– Não. Dante colocou um vidente que lá estava dizendo que o
papa já estava sendo esperado devido aos pecados de simonia. E este papa pouco
sobreviveu ao episódio do assalto que sofreu dos emissários do Rei Felipe; dizem
que morreu pela enorme humilhação que sofreu. E depois o Rei elegeu um papa
francês, Clemente V, que ficou sob seu domínio, e transferiu o papado para a França,
em Avignon.
– Que prepotência!
– Não é à toa que também o chamaram de Rei de Ferro; sob o
seu cetro a França era poderosa, mas o povo vivia na miséria. Embora todo o
poder, os cofres do rei viviam vazios, pois as guerras a sustentar exigiam
somas enormes. E ele fez malabarismos com a moeda gerando inflação e
descontentamento popular. Uma das suas soluções econômicas foi a expulsão dos
judeus para apropriar-se dos seus bens, mas continuou com os cofres vazios. Foi
então que voltou seus olhos para a Ordem do Templo: no princípio tentou
nela ingressar para dominá-la, mas foi recusado, pois a Regra não admitia potestades.
– De novo os Templários, professor?
– Mas agora eles não durariam muito. A Ordem tinha se tornado
financeiramente poderosa durante os seus quase duzentos anos de existência. Ela
era uma rica casa bancária que emprestava somas enormes para os reis, inclusive
para o Rei Felipe. Com a perda de Acra, o último reduto cristão no Oriente, a
função principal da Ordem já não mais existia, como também aquela pureza dos
cavaleiros. O povo francês em geral já perdera aquela veneração por eles e
passou mesmo a odiá-los devido a uma campanha patrocinada pelo Rei para
denegri-los com acusações de idolatria, sodomia e negação da cruz, visando
apoderar-se dos seus tesouros. Em 1307 os templários foram apanhados de surpresa, pois
não imaginavam que estavam em perigo; o Grão-Mestre, Jacques de Molay, era mesmo compadre do Rei. Em uma
operação de grande eficiência, preparada com rigoroso segredo, foram presos quase
todos os templários da França em um único dia, e foram entregues à inquisição;
e como era de costume daqueles padres bárbaros, as confissões lhes foram
arrancadas através de horríveis torturas.
– Sempre essa famigerada inquisição.
– E o papa Clemente V, títere do Rei, depois de longo processo publica em 1312 uma
bula dissolvendo a Ordem do Templo, mandando que os seus bens fossem
transferidos para a Ordem do Hospital. O Rei Felipe apodera-se de grande parte
dos bens da Ordem na França e manda para a fogueira os principais mestres.
Conta-se, provavelmente uma lenda, que Jacques de Molay proferiu na fogueira
esta maldição:
"Papa
Clemente... Cavaleiro Guilherme de Nogaret... Rei Felipe. Intimo-os a
comparecerem perante o Tribunal de Deus dentro de um ano para receberem o justo
castigo. Malditos! Malditos! Todos malditos até a décima terceira geração de
vossas raças” (de Maurice Druon, em Os Reis Malditos)!
– E a maldição surtiu efeito?
– Os três citados realmente faleceram logo e as consequências
sobre a família real foram terríveis: os três filhos do Rei Felipe governaram
por períodos curtos e morreram sem herdeiros, extinguindo assim a dinastia Capétien,
e, em consequência, a luta pelo trono francês desencadeou a Guerra dos Cem
Anos.
– Que história, professor! Mas estávamos lá em Portugal,
queria voltar e entender: por que devemos tanto aos templários?
– Após toda a luta pela formação de Portugal, quando o papa
extinguiu a Ordem do Templo, lá reinava Dom Diniz, o rei que também foi um
grande trovador. Em Portugal só havia gratidão e admiração pela Ordem e jamais
se acreditou nas acusações que lhe lançaram. Dom Diniz e os demais reis da
península ibérica solicitaram e conseguiram que o Papa deixasse às coroas os
bens da Ordem que fora extinta. Em alguns anos depois, Dom Diniz criou a Ordem
de Cristo nos mesmos moldes da outra; na prática foi apenas uma troca de nome,
e a nova já não tinha caráter universal, era apenas uma ordem portuguesa.
– E por que criar uma nova ordem?
– A questão religiosa era muito importante e também havia
muitos cavaleiros da antiga ordem que necessitavam ser absorvidos; e a grande
inteligência de Dom Diniz fez a diferença. Enquanto na França destruiu-se a
Ordem para tomar-lhes os bens, em Portugal procurou-se atrair os mestres
templários para absorver os seus conhecimentos, principalmente de navegação,
pois a Ordem tinha uma grande frota que fazia a rota do Mediterrâneo, e tinha
mapas e navegadores que conheciam matemática e astronomia, conhecimentos
absorvidos dos muçulmanos, que, culturalmente, eram muito mais sofisticados e avançados.
Fernando Pessoa escreveu em Mensagem sobre D. Diniz:
Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.
Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.
– E aí Portugal desenvolveu a sua navegação.
– Sim, foi criada a
marinha portuguesa, e desencadeou-se o processo que posteriormente Dom João I
desenvolveria sob a tutela do seu filho Dom Henrique, grão-mestre da Ordem de
Cristo, criando a Escola de Sagres.
– E assim Portugal se tornou o Grande Mestre dos mares. Não
foi à toa que Fernando Pessoa descreveu Portugal como o rosto da Europa mirando
os mares distantes.
– E Cabral também foi um mestre da Ordem de Cristo e as
suas caravelas ostentavam a cruz símbolo da Ordem, por isto também o nosso nome
de batismo, Terra de Vera Cruz.
– Então, Cabral descobriu mesmo o Brasil?
–
Oficialmente, sim. Mas hoje já se sabe que os portugueses já haviam navegado pela
costa brasileira antes de Cabral, e que D. Manuel exigia segredo por causa das
disputas com a Espanha. O Tratado de Tordesilhas teve o meridiano empurrado das
100 léguas originais da Bula para 370 léguas além de Cabo Verde porque provavelmente
já se sabia da existência de terras naquela altura. Existe um manuscrito do
navegador Duarte Pacheco Pereira, intitulado Esmeraldo de situ orbís (O tratado dos novos lugares da Terra) datado
de 1498, com relatos de desembarque no Brasil nas proximidades da fronteira do
Maranhão com o Pará. E para finalizar nossa entrevista, mais uma vez vou usar
as palavras de Fernando Pessoa, em Mensagem:
E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.
-o-
De Luís de Camões,
um soneto de caráter sufi:
Transforma-se
o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho logo mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.
por virtude do muito imaginar;
não tenho logo mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela
está minha alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
pois consigo tal alma está liada.
que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
pois consigo tal alma está liada.
Mas esta
linda e pura semideia,
que, como o acidente em seu sujeito,
assim co’a alma minha se conforma,
que, como o acidente em seu sujeito,
assim co’a alma minha se conforma,
está no
pensamento como ideia;
e o vivo e puro amor de que sou feito,
como matéria simples busca a forma.
e o vivo e puro amor de que sou feito,
como matéria simples busca a forma.


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