segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Non nobis, Domine




Non nobis, Domine
 
                                                                                                   
                                                                                                             Deus é o Destino e o Destino não é senão

                                                                                                             Deus manifestando-se em nós.
                                                                                  (pensamento sufi)
            




– Boa noite, professor, que música bonita é esta que estás a ouvir?

– Boa noite, estás vendo como te recebo?

– É realmente uma maravilha, professor, mas que música é?

– É um canto dos Cavaleiros Templários, sua letra é um versículo retirado do Salmo 113, que se tornou o lema da sua ordem. Ele os inspirava e empurrava nos campos de batalha:


– E em português, professor, como fica esse lema?

Não a nós, Senhor, não a nós, mas dá glória ao Teu nome.

– Pelo visto eles se lançavam em uma total entrega de corpo e alma à luta em defesa da fé.

– Realmente a função básica da Ordem do Templo foi essa. Os cavaleiros foram monges guerreiros que deviam ser puros e de coragem sobre-humana, deviam ser os primeiros nas batalhas e não podiam recuar.

– Mas isso são lendas, professor.

– Não, não são. A Regra da Ordem do Templo, a qual os cavaleiros deveriam prestar juramento ao nela ingressarem, exigia os votos de pobreza, castidade e obediência. Eles viviam como monges, tais como os da Ordem Cisterciense; ambas foram normatizadas por São Bernardo, e a grande diferença entre elas é que os templários eram guerreiros que juravam defender a fé cristã com a própria vida. São Bernardo, que em vida já era considerado um santo, embora tenha sido também o flagelo de Abelardo, para angariar adeptos para a Ordem fez malabarismos teológicos e escreveu O Elogio dos Templários, onde diz que um defensor de Cristo não mata por homicídio, mas por malecídio.


– E os templários cumpriam à risca esse juramento de defender com sua vida a fé cristã?

– Certamente. Nas batalhas eles formavam sempre a linha de frente e não podiam recuar, isto só poderia acontecer por ordem do Mestre e se fossem superados por uma força ao menos três vezes maior, sob pena de desgraça total pela expulsão. Como eles nada possuíam, pois suas armas e roupas pertenciam à Ordem, eles sofreriam enorme humilhação ao serem abandonados, nus. A morte era mais bela para o templário que a vida comprada com a covardia (Alexandre Herculano).

– E quem eram esses monges, professor, de onde vinham?

– Graças ao regime do morgado, onde o primogênito das famílias deveria conservar as linhagens, os outros filhos não tinham nenhuma expectativa de vida, dependeriam inteiramente do irmão mais velho, por isto a aventura da cavalaria era um ideal a buscar por estes filhos deserdados de famílias de posses. O terceiro filho da família normalmente já nascia com a sina de se dedicar à vida religiosa, e o espírito religioso vigente na época tornava o martírio defendendo a fé como uma meta a não ser desprezada.

– No mesmo espírito com que os muçulmanos, hoje, suicidam-se nos atentados pela glória de Allah.

– Não deixa de ser irônico que o sed nomini Tuo da gloriam fosse utilizado pelos dois lados em conflito, mas a Ordem do Templo de Salomão foi criada com o primeiro objetivo de proteger os peregrinos que se dirigiam à cidade santa de Jerusalém, conquistada pelos cristãos na Primeira Cruzada. Em seguida receberam encargos de proteger os territórios conquistados.

– E em que época ela foi criada, professor?

– Em 1118 alguns cavaleiros liderados por Hugo de Payens levaram ao Rei de Jerusalém a ideia da criação de uma ordem militar-religiosa, e dez anos depois, no Concílio de Troyes, a Ordem ganhou a Regra e o hábito branco com a cruz vermelha, a cruz do sangue de Cristo.

– Mas, professor, por que tanto interesse nesses cavaleiros medievais?

– Porque eles têm muita importância em nossa história.

– Em nossa história? 

– Por herança dos nossos patrícios portugueses, que lhe devem muitas mercês.

– Explica, professor.

– O reino de Portugal nasceu quase junto com a Ordem do Templo. Logo após sua criação e ordenação, cavaleiros voltaram para a Europa para angariar fundos e homens, entre eles pelo menos um cavaleiro originário daquelas terras, o Condado Portucalense, que dariam origem ao reino de Portugal. Dom Henrique, o primeiro conde portucalense, de origem francesa, tinha ligação com São Bernardo. Após sua morte, sua esposa Dona Teresa legou à Ordem em 1127 as primeiras possessões que tiveram em solo europeu e em 1128 o castelo em Soures, terras na fronteira com os mouros que dominavam a parte sul da Península Ibérica.

– O inimigo em Jerusalém e na península eram os mesmos, bem como a função que deviam exercer os cavaleiros.

– Pois é, por isso Dom Afonso Henriques, filho de Dom Henrique, usou a Ordem do Templo e os cruzados que seguiam para o oriente para combater os mouros. As crônicas sobre ele narram fatos difíceis de serem dissociados das lendas, desde a sua infância. Conta-se que ele nascera com sério defeito nas pernas, e que foi curado por um milagre da Virgem Maria: Egas Muniz, o fidalgo que o criou, teve uma visão da Virgem que o mandou buscar uma capela abandonada onde devia colocar o menino sobre o altar e ficar em vigília; o menino seria curado, pois dele se serviria para a derrota de muitos inimigos da fé cristã. Mais tarde, na véspera da Batalha de Ourique, já dominando as terras portuguesas, diz-se que Dom Afonso teve uma visão de Cristo assegurando-lhe a vitória, e não podemos negar que tudo parecia mesmo um milagre: com tão poucos recursos, tão grandes vitórias. E a ordem dos templários recebeu mais terras e castelos com a função de proteger os territórios, não só dos muçulmanos, mas também dos leoneses e castelhanos, que não se conformavam com a perda daquelas terras. 

– E D. Afonso Henriques teria então, como Constantino, recebido o apoio de Cristo?

– Um apoio envolto em brumas, pois, após a morte de seu pai, ele destituiu sua mãe, que se ligara a poderoso fidalgo leonês e usurpara-lhe suas terras; alguns cronistas dizem até mesmo que a manteve prisioneira até sua morte em 1130. D. Afonso passou a utilizar o título de príncipe, insatisfeito de prestar vassalagem ao rei de Leão, a quem o condado era subordinado. Ele considerava-se predestinado a expulsar os mouros das terras fronteiras ao condado e o seu sentido místico era também parte de sua força. Era tão ligado à Ordem do Templo que seu selo era estampado de tal forma que se podia ler Por-tuo-gral.

selos de D. Afonso Henriques


Ele também fez aliança e foi amigo do líder muridino Ibn Qasi, grande sábio e poeta sufi, que reinava em parte do Gharb (Algarve) sarraceno, terras no sul do Portugal atual. Deste poeta D. Afonso pôde ouvir:

Tira as sandálias e ascende altivo
Acima das estrelas cintilantes!
Une-te à verdade!
Quem a desprezou
Ficou chorando por todas as coisas.
O olhar do mais firme
- tal como o céu –
convoca a beatitude da verdade clara.
Descalça as sandálias, sinceramente,
Desde os umbrais do esplendor.
Une-te ao Ser!
Vale-te mais essa união
que todas as provas da razão.
Quem ouviu o que gritei à multidão
acerca da realidade da união,
tem de deixar o mundo da dualidade
que são duas sombras sob o sol.
O espírito venceu a dor: ficou perto do distante.
Ó mãe de meus irmãos!
O amado é ao meu lado!
Ó povo! Se a paixão me der a morte
toma o meu amor, como vingança,
e vinga-me com ele!

E Dom Afonso cingiu-se Rei de Portugal, por iniciativa dos seus cavaleiros, após a batalha de Ourique, onde venceu um exército de cinco reis mouros. Batalha perenizada na bandeira de Portugal com as cinco quinas, que representam os reis derrotados bem como as cinco chagas de Cristo.

– E assim Portugal tornou-se independente?

– Bem, não completamente. Muitas batalhas seriam ainda travadas com os mouros e com Castela até que o Papa o reconhecesse como Rei.

– O papa tinha poderes para criar um novo reino?

– Tinha. O papa era, então, uma espécie de rei dos reis; ele subordinava os reis europeus com o princípio de que o poder espiritual era superior ao terreno; ele era o último árbitro em questões territoriais e disputas entre as famílias reais. Até que...

– E então, professor, até que...

– Até que a insubordinação de alguns reis poderosos questionaram essa supremacia papal. Na França, o Rei Felipe IV, o Belo, subverteu as convenções da época acabando com o regime dos senhores feudais e centralizando o poder absoluto em suas mãos, e também ousando até mesmo a mandar prender o papa, que então era Bonifácio VIII, aquele mesmo que Dante, na Divina Comédia, ousou colocar no Inferno, embora ainda fosse vivo.

– Ele foi posto vivo no Inferno?

– Não. Dante colocou um vidente que lá estava dizendo que o papa já estava sendo esperado devido aos pecados de simonia. E este papa pouco sobreviveu ao episódio do assalto que sofreu dos emissários do Rei Felipe; dizem que morreu pela enorme humilhação que sofreu. E depois o Rei elegeu um papa francês, Clemente V, que ficou sob seu domínio, e transferiu o papado para a França, em Avignon.

– Que prepotência!

– Não é à toa que também o chamaram de Rei de Ferro; sob o seu cetro a França era poderosa, mas o povo vivia na miséria. Embora todo o poder, os cofres do rei viviam vazios, pois as guerras a sustentar exigiam somas enormes. E ele fez malabarismos com a moeda gerando inflação e descontentamento popular. Uma das suas soluções econômicas foi a expulsão dos judeus para apropriar-se dos seus bens, mas continuou com os cofres vazios. Foi então que voltou seus olhos para a Ordem do Templo: no princípio tentou nela ingressar para dominá-la, mas foi recusado, pois a Regra não admitia potestades.

– De novo os Templários, professor?

– Mas agora eles não durariam muito. A Ordem tinha se tornado financeiramente poderosa durante os seus quase duzentos anos de existência. Ela era uma rica casa bancária que emprestava somas enormes para os reis, inclusive para o Rei Felipe. Com a perda de Acra, o último reduto cristão no Oriente, a função principal da Ordem já não mais existia, como também aquela pureza dos cavaleiros. O povo francês em geral já perdera aquela veneração por eles e passou mesmo a odiá-los devido a uma campanha patrocinada pelo Rei para denegri-los com acusações de idolatria, sodomia e negação da cruz, visando apoderar-se dos seus tesouros. Em 1307 os templários foram apanhados de surpresa, pois não imaginavam que estavam em perigo; o Grão-Mestre, Jacques de Molay, era mesmo compadre do Rei. Em uma operação de grande eficiência, preparada com rigoroso segredo, foram presos quase todos os templários da França em um único dia, e foram entregues à inquisição; e como era de costume daqueles padres bárbaros, as confissões lhes foram arrancadas através de horríveis torturas.

– Sempre essa famigerada inquisição.

– E o papa Clemente V, títere do Rei, depois de longo processo publica em 1312 uma bula dissolvendo a Ordem do Templo, mandando que os seus bens fossem transferidos para a Ordem do Hospital. O Rei Felipe apodera-se de grande parte dos bens da Ordem na França e manda para a fogueira os principais mestres. Conta-se, provavelmente uma lenda, que Jacques de Molay proferiu na fogueira esta maldição:

"Papa Clemente... Cavaleiro Guilherme de Nogaret... Rei Felipe. Intimo-os a comparecerem perante o Tribunal de Deus dentro de um ano para receberem o justo castigo. Malditos! Malditos! Todos malditos até a décima terceira geração de vossas raças” (de Maurice Druon, em Os Reis Malditos)!

– E a maldição surtiu efeito?

– Os três citados realmente faleceram logo e as consequências sobre a família real foram terríveis: os três filhos do Rei Felipe governaram por períodos curtos e morreram sem herdeiros, extinguindo assim a dinastia Capétien, e, em consequência, a luta pelo trono francês desencadeou a Guerra dos Cem Anos. 

– Que história, professor! Mas estávamos lá em Portugal, queria voltar e entender: por que devemos tanto aos templários?

– Após toda a luta pela formação de Portugal, quando o papa extinguiu a Ordem do Templo, lá reinava Dom Diniz, o rei que também foi um grande trovador. Em Portugal só havia gratidão e admiração pela Ordem e jamais se acreditou nas acusações que lhe lançaram. Dom Diniz e os demais reis da península ibérica solicitaram e conseguiram que o Papa deixasse às coroas os bens da Ordem que fora extinta. Em alguns anos depois, Dom Diniz criou a Ordem de Cristo nos mesmos moldes da outra; na prática foi apenas uma troca de nome, e a nova já não tinha caráter universal, era apenas uma ordem portuguesa.

– E por que criar uma nova ordem?

– A questão religiosa era muito importante e também havia muitos cavaleiros da antiga ordem que necessitavam ser absorvidos; e a grande inteligência de Dom Diniz fez a diferença. Enquanto na França destruiu-se a Ordem para tomar-lhes os bens, em Portugal procurou-se atrair os mestres templários para absorver os seus conhecimentos, principalmente de navegação, pois a Ordem tinha uma grande frota que fazia a rota do Mediterrâneo, e tinha mapas e navegadores que conheciam matemática e astronomia, conhecimentos absorvidos dos muçulmanos, que, culturalmente, eram muito mais sofisticados e avançados. Fernando Pessoa escreveu em Mensagem sobre D. Diniz:

Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.

Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.

– E aí Portugal desenvolveu a sua navegação.

  Sim, foi criada a marinha portuguesa, e desencadeou-se o processo que posteriormente Dom João I desenvolveria sob a tutela do seu filho Dom Henrique, grão-mestre da Ordem de Cristo, criando a Escola de Sagres.

– E assim Portugal se tornou o Grande Mestre dos mares. Não foi à toa que Fernando Pessoa descreveu Portugal como o rosto da Europa mirando os mares distantes.

– E Cabral também foi um mestre da Ordem de Cristo e as suas caravelas ostentavam a cruz símbolo da Ordem, por isto também o nosso nome de batismo, Terra de Vera Cruz.

– Então, Cabral descobriu mesmo o Brasil?

– Oficialmente, sim. Mas hoje já se sabe que os portugueses já haviam navegado pela costa brasileira antes de Cabral, e que D. Manuel exigia segredo por causa das disputas com a Espanha. O Tratado de Tordesilhas teve o meridiano empurrado das 100 léguas originais da Bula para 370 léguas além de Cabo Verde porque provavelmente já se sabia da existência de terras naquela altura. Existe um manuscrito do navegador Duarte Pacheco Pereira, intitulado Esmeraldo de situ orbís (O tratado dos novos lugares da Terra) datado de 1498, com relatos de desembarque no Brasil nas proximidades da fronteira do Maranhão com o Pará. E para finalizar nossa entrevista, mais uma vez vou usar as palavras de Fernando Pessoa, em Mensagem:

E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.
                           
-o-


De Luís de Camões, um soneto de caráter sufi:

Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho logo mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semideia,
que, como o acidente em seu sujeito,
assim co’a alma minha se conforma,

está no pensamento como ideia;
e o vivo e puro amor de que sou feito,
como matéria simples busca a forma.











  

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