O
Trovador
– Ei, Miguilim, tudo pronto pra dormir?
– Tudo pronto, Doutor, já escovei meus dentes e já rezei pro
anjo.
– Então é hora da nossa história de hoje.
– E o que vai ser, Doutor? Tô com gana de saber.
– Bom, hoje nós vamos visitar um tio meu.
– Uai, Doutor, eu já tô de pijama e prontinho pra dormir.
– Não, Miguilim, foi só um modo de falar para dizer que vou
contar sobre o meu tio Jair.
– Era um tio legal que você tinha, Doutor?
– Legal? Era, muito legal, embora tivesse problemas bem sérios.
– Problemas, por quê?
– Bom, esse tio era irmão de minha avó, e uma terrível
doença manifestou-se nele quando ele estava ali por beira dos quarenta anos;
aliás não só nele, mas também em um seu irmão e uma irmã.
– E que doença era essa, Doutor?
– Não me lembro do nome que deram naquela época, porque
era um nome muito complicado, mas ela ataca os músculos e a pessoa pouco a
pouco vai definhando. Eu já o conheci com dificuldades para andar; nas minhas
primeiras lembranças vejo-o a caminhar lentamente, arrastando os pés,
apoiando-se nas paredes ou nos canos que fechavam a varanda de sua casa.
– Que triste!
– Eu era bem criança quando ele ainda conseguia sair para a
varanda para sentir o sol e o vento, e para trocar algumas palavras com os
conhecidos que passavam pela rua, mas, aos poucos, ele perdeu até mesmo aqueles
movimentos e teve que usar uma cadeira de rodas.
– Ele reclamava?
– Não era comum ouvir alguma reclamação, mas os incômodos
eram muitos. Nos meus tempos de criança ele vivia naquela casa junto com a
família de outro tio, este irmão de meu pai. Algum tempo depois este tio
mudou-se para ficar mais próximo do seu trabalho, pois ali era muito longe, e
passou a fazer-lhe companhia um senhor bonachão, que já trazia na maneira de
andar a imagem daquela calma que lhe era comum.
– Pra lidar com seu tio devia ser preciso de muita, né?.
– E isso não faltava para o Alzir. Certas vezes podíamos
vê-lo responder com um sorriso de paciência aos imperativos irritados de meu
tio, pois as feridas incomodavam, mas um tanto de irritação é uma característica
natural de nossa família. Nossa casa era muito pobre em assunto de livros e
era do tio Jair que eu conseguia algum material de leitura. Ele assinava a
revista Seleções de Reader’s Digest,
que lhe chegava pelo correio, mas antes que eu pudesse pôr as mãos em uma
revista, ela tinha que fazer um longo caminho. Meu tio a lia, mandava para sua
irmã doente, tia Lenira, um amor de sereia que só tinha o busto de mulher, já
que suas pernas nunca saíam de debaixo do lençol; tinha um sorriso travesso que
nunca tirava do seu rosto e nela só encontrávamos alegria quando íamos vê-la.
Depois que ela lia, a revista retornava para a casa do tio Jair e eu poderia
finalmente pôr-lhe as mãos. Além das revistas, aquela assinatura trazia todo
ano um livro com romances de aventuras que eu devorava. Quando atingi os meus
dez anos fui estudar fora e fiquei por três anos, voltando para casa apenas nas
férias, e quando deixei o internato, entrado na adolescência, foi que fiquei
mais amigo dele.
– Você ia sempre na casa dele?
– Ia sim, meu pai tinha uma atenção muito grande para com
ele e nos pedia que também tivéssemos, mas naquela época eu gostava mesmo de
estar com ele, pois foi quando descobri que ele era um trovador. Ele mostrou-me
os livros de trovas que ele tinha, iniciando-me nos segredos daquelas
quadrinhas. Ele também tinha alguns cadernos cheios de trovas que ele mesmo
compunha.
– A trova é uma poesia?
– É sim, Miguilim, uma poesia pequenina. Por isto era
divertido fazer trovas, era como um quebra-cabeças a montar: achar um tema,
desenvolvê-lo em quatro versinhos de sete sílabas, procurar as melhores palavras
que coubessem no verso, achar as rimas mais ricas.
– Ah, Doutor, então eu também
sei uma trova, ouça:
Minha
mãezinha querida,
mãezinha
do coração,
fiz pra
ti esta cantiga
Com muito
amor e paixão.
– Pois é isso, Miguilim, essa é uma trovinha cheia de
carinho. E foi assim, quando o tio Jair mostrou-me sua paixão pelas trovas, que eu também fui contaminado por ela e passei a fazê-las. Algumas eu nunca me
esqueci, pois até hoje as tenho na memória. E como na época minha cabeça era virada para
as meninas, eu compus uma assim:
Roubar-te
um gostoso beijo
Vou
tentar com toda astúcia
Um
beijo como um arpejo
Vou
roubar-te Carmem Lúcia.
– E você conseguiu, Doutor?
– Consegui o quê, Miguilim?
– Roubar o beijo da Carmem Lúcia?
– Ah, dela eu nunca consegui roubar, por mais que tenha
tentado.
– E você se lembra de outra trova sua, Doutor?
– Sim, gosto muito desta:
Esta
linda trova fiz
Embora
longe de ti
Quão
mais linda ela seria
Se tu estivesses aqui.
– Ah, já sei, você estava
pensando na Carmem Lúcia pertinho de você.
– É provável, Miguilim, é
provável.
– E do seu tio, você sabe alguma trova?
– O tempo levou tudo embora, Miguilim, minha memória não
reteve nenhuma.
– E os cadernos dele, Doutor?
– Os cadernos... Bom, eu logo deixei novamente a minha
terra para estudar e trabalhar, e as minhas andanças por lá ficaram mais
limitadas. Meu tio já nem podia mais ficar na cadeira de rodas, ficava só na
cama aos cuidados daquele senhor. Até que um dia foi levado pra sua morada
final. Eu nem estive presente, pois a distância e as minhas obrigações tornavam
difícil a tarefa. E os cadernos... Minha vida naquela época era uma azáfama,
quando me lembrei dos cadernos, tempos depois, ainda perguntei ao meu pai se
sabia deles, mas ele não deu notícia. Provavelmente foi parar...
– Que ruim, Doutor, teria sido bom guardar as suas
palavras.
– Teria, Miguilim, suas tristezas, suas esperanças, suas
crenças, tudo estava naqueles cadernos.
– Doutor, você podia fazer uma trovinha pra ele.
– Vou tentar, Miguilim, talvez eu ainda saiba:
Uma
trova me pediste,
Mas
como poder conter
Em
quatro versos, a triste
Dor da ausência de um ser.
– Ai que sono, boa noite,
Doutor.
– Boa noite, Miguilim.
– Doutor, eu acho que eu também posso ser um trovador, olha
o que pensei:

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