A
fuga
“Os
sonhos contêm a maior de todas as verdades,
a verdade do coração humano,
a verdade da essência dos homens”.
a verdade do coração humano,
a verdade da essência dos homens”.
(Rubem
Alves comentando Ludwig Feuërbach)
A noite está por chegar. Nenhuma condescendência em sua
aleivosia. Acena-me com o vermelho, fogo que consome o cansaço do dia, que se
espalha acima dos montes no horizonte tentando encantar meus olhos, que se recusam
a captar essa luz de engodo; que se desviam com o giro do pescoço, evitando com
olhos de Epimeteu a última luz restante na caixa, procurando lá atrás os sinais
dos que me perseguem. Parariam eles para admirar as luzes mortiças deste
entardecer, desprezando a fúria fatal que os levam a perseguir a presa? Que
véus são estes que descem sobre as minhas trilhas enlanguescendo os meus pés em
farrapos, que pouco ainda têm força para continuar?
São muitas as agonias que me chegaram ao coração
impelindo-me contra todos os meus destroços, triturando as minhas entranhas em
vorazes amarguras. Perseguem-me. Abrem-se aos meus passos buracos profundos que
me ameaçam com os fogos que semeei. Contemplo-os horrorizado ao ver a inventiva
capacidade que soube acalentá-los. Salto sobre um, dois, apenas com uma infeliz
constatação que outro mais se abre, com vozes raivosas que saem do fundo
chamando-me para o nada, impelindo-me a desistir da fuga insana sem descanso.
Subir sem forças por esta colina, arquejando e tropeçando,
buscando um ponto mais alto em que possa alargar o horizonte para os meus olhos
alcançarem nas vastidões, atrás dos meus passos, as sombras dos cães ansiosos
que me farejam. Ouço-os ladrarem, mas não posso enxergá-los. Enfim, no alto,
contemplo a superfície arrasada que meus pés calcinaram.
Abre-se à direita uma trilha estreita no meio das árvores.
Escura. É noite. Ameaçadora, mas confortadora, pois as sombras também são
proteção. Invado-a protegendo-me com o braço dos galhos que tentam barrar-me o
avanço. Penetro fundo na mata. Ouço os cães, não me atrevo a voltar os olhos.
Subo arquejante pelo aclive atiçado pelos latidos. Ouço barulhos de passos
correndo. E luzes que riscam desgovernadas a mata fechada. Sei que não vou
conseguir, estão cada vez mais e mais perto. Nada vejo no escuro cerrado;
então, uma luz abre-se a minha frente, e posso ver: falta-me o chão.
Paro, transido de pavor. Estou suspenso à beira de um alto
abismo. Lá do fundo ergue-se em toda a sua imponência uma igreja com as paredes
pintadas na cor de tijolo, elevando-se no seu centro uma torre branca quadrada,
que sobe até a altura dos meus olhos. Sou tão alto quanto ela. No cimo da torre,
um sino; abaixo deste, em relevo, a figura de Cristo caído sob o peso da cruz.
Naquele breve instante em que o tempo parou para meus olhos fotografarem o
cenário, o horror do qual estava possuído fora ensurdecido. Antigas lembranças
enchem de súbito todo o palco com figuras longínquas e sons de conversas
perdidas no tempo.
Meus olhos param no Cristo caído. Um rosto de agonia capta
meu olhar de estupor. Um arrepio sacode-me. Cristo levanta-se de seu leito de
pedra, erguendo-se sob o peso da sua cruz. O cimento torna-se carne como
sacramento. O tanger entorpecente do sino invade-me os ouvidos. O choque desequilibra-me,
e caio no abismo.
Seria o fim de todos aqueles terrores que me perseguiam?
Caindo, vejo Cristo, que me estende uma mão.
Um sopro surge de um nada e uma onda sustém minha queda.
Velejo ao vento carregado por cordas tecidas com espumas dos olhos de Cristo...
Com a sensação de falta de peso, acontece-me de repente
estar na minha cama. Aquela imagem viva, que abandonara a tela em que fora
imobilizada para suster o meu voo, não deixa mais as minhas retinas.
-o-
Vida/tempo
Viviane Mosé
Quem tem olhos pra ver o tempo
Soprando sulcos na pele
Soprando sulcos na pele
Soprando sulcos?
O tempo andou riscando meu rosto
Com uma navalha fina
Sem raiva nem rancor.
O tempo riscou meu rosto com calma
Eu parei de lutar contra o tempo
ando exercendo instantes
acho que ganhei presença.
Acho que a vida anda passando a mão em mim.
A vida anda passando a mão em mim.
Acho que a vida anda passando.
A vida anda passando.
Acho que a vida anda.
A vida anda em mim.
Acho que há vida em mim.
A vida em mim anda passando.
Acho que a vida anda passando a mão em mim.
E por falar em sexo
Quem anda me comendo é o tempo
Na verdade faz tempo
Mas eu escondia
Porque ele me pegava à força
E por trás.
Um dia resolvi encará-lo de frente
E disse: Tempo,
Se você tem que me comer
Que seja com o meu consentimento
E me olhando nos olhos
Acho que ganhei o tempo
De lá pra cá
Ele tem sido bom comigo
Dizem que ando até remoçando.
Soprando sulcos na pele
Soprando sulcos na pele
Soprando sulcos?
O tempo andou riscando meu rosto
Com uma navalha fina
Sem raiva nem rancor.
O tempo riscou meu rosto com calma
Eu parei de lutar contra o tempo
ando exercendo instantes
acho que ganhei presença.
Acho que a vida anda passando a mão em mim.
A vida anda passando a mão em mim.
Acho que a vida anda passando.
A vida anda passando.
Acho que a vida anda.
A vida anda em mim.
Acho que há vida em mim.
A vida em mim anda passando.
Acho que a vida anda passando a mão em mim.
E por falar em sexo
Quem anda me comendo é o tempo
Na verdade faz tempo
Mas eu escondia
Porque ele me pegava à força
E por trás.
Um dia resolvi encará-lo de frente
E disse: Tempo,
Se você tem que me comer
Que seja com o meu consentimento
E me olhando nos olhos
Acho que ganhei o tempo
De lá pra cá
Ele tem sido bom comigo
Dizem que ando até remoçando.

