sexta-feira, 21 de abril de 2017

A fuga



A fuga
                                                                              
                                                                                                          “Os sonhos contêm a maior de todas as verdades,
                                                                                                          a verdade do coração humano, 
                                                                                                          a verdade da essência dos homens”.
                                                                                                                      (Rubem Alves comentando Ludwig Feuërbach)

A noite está por chegar. Nenhuma condescendência em sua aleivosia. Acena-me com o vermelho, fogo que consome o cansaço do dia, que se espalha acima dos montes no horizonte tentando encantar meus olhos, que se recusam a captar essa luz de engodo; que se desviam com o giro do pescoço, evitando com olhos de Epimeteu a última luz restante na caixa, procurando lá atrás os sinais dos que me perseguem. Parariam eles para admirar as luzes mortiças deste entardecer, desprezando a fúria fatal que os levam a perseguir a presa? Que véus são estes que descem sobre as minhas trilhas enlanguescendo os meus pés em farrapos, que pouco ainda têm força para continuar?

São muitas as agonias que me chegaram ao coração impelindo-me contra todos os meus destroços, triturando as minhas entranhas em vorazes amarguras. Perseguem-me. Abrem-se aos meus passos buracos profundos que me ameaçam com os fogos que semeei. Contemplo-os horrorizado ao ver a inventiva capacidade que soube acalentá-los. Salto sobre um, dois, apenas com uma infeliz constatação que outro mais se abre, com vozes raivosas que saem do fundo chamando-me para o nada, impelindo-me a desistir da fuga insana sem descanso.

Subir sem forças por esta colina, arquejando e tropeçando, buscando um ponto mais alto em que possa alargar o horizonte para os meus olhos alcançarem nas vastidões, atrás dos meus passos, as sombras dos cães ansiosos que me farejam. Ouço-os ladrarem, mas não posso enxergá-los. Enfim, no alto, contemplo a superfície arrasada que meus pés calcinaram.

Abre-se à direita uma trilha estreita no meio das árvores. Escura. É noite. Ameaçadora, mas confortadora, pois as sombras também são proteção. Invado-a protegendo-me com o braço dos galhos que tentam barrar-me o avanço. Penetro fundo na mata. Ouço os cães, não me atrevo a voltar os olhos. Subo arquejante pelo aclive atiçado pelos latidos. Ouço barulhos de passos correndo. E luzes que riscam desgovernadas a mata fechada. Sei que não vou conseguir, estão cada vez mais e mais perto. Nada vejo no escuro cerrado; então, uma luz abre-se a minha frente, e posso ver: falta-me o chão.

Paro, transido de pavor. Estou suspenso à beira de um alto abismo. Lá do fundo ergue-se em toda a sua imponência uma igreja com as paredes pintadas na cor de tijolo, elevando-se no seu centro uma torre branca quadrada, que sobe até a altura dos meus olhos. Sou tão alto quanto ela. No cimo da torre, um sino; abaixo deste, em relevo, a figura de Cristo caído sob o peso da cruz. Naquele breve instante em que o tempo parou para meus olhos fotografarem o cenário, o horror do qual estava possuído fora ensurdecido. Antigas lembranças enchem de súbito todo o palco com figuras longínquas e sons de conversas perdidas no tempo.

Meus olhos param no Cristo caído. Um rosto de agonia capta meu olhar de estupor. Um arrepio sacode-me. Cristo levanta-se de seu leito de pedra, erguendo-se sob o peso da sua cruz. O cimento torna-se carne como sacramento. O tanger entorpecente do sino invade-me os ouvidos. O choque desequilibra-me, e caio no abismo.

Seria o fim de todos aqueles terrores que me perseguiam?

Caindo, vejo Cristo, que me estende uma mão. 

Um sopro surge de um nada e uma onda sustém minha queda. Velejo ao vento carregado por cordas tecidas com espumas dos olhos de Cristo...

Com a sensação de falta de peso, acontece-me de repente estar na minha cama. Aquela imagem viva, que abandonara a tela em que fora imobilizada para suster o meu voo, não deixa mais as minhas retinas.



-o-


           Vida/tempo
                           Viviane Mosé

Quem tem olhos pra ver o tempo
Soprando sulcos na pele
Soprando sulcos na pele
Soprando sulcos?
O tempo andou riscando meu rosto
Com uma navalha fina
Sem raiva nem rancor.
O tempo riscou meu rosto com calma
Eu parei de lutar contra o tempo
ando exercendo instantes
acho que ganhei presença.
Acho que a vida anda passando a mão em mim.
A vida anda passando a mão em mim.
Acho que a vida anda passando.
A vida anda passando.
Acho que a vida anda.
A vida anda em mim.
Acho que há vida em mim.
A vida em mim anda passando.
Acho que a vida anda passando a mão em mim.
E por falar em sexo
Quem anda me comendo é o tempo
Na verdade faz tempo
Mas eu escondia
Porque ele me pegava à força
E por trás.
Um dia resolvi encará-lo de frente
E disse: Tempo,
Se você tem que me comer
Que seja com o meu consentimento
E me olhando nos olhos
Acho que ganhei o tempo
De lá pra cá
Ele tem sido bom comigo
Dizem que ando até remoçando.

 

sábado, 15 de abril de 2017

Morcego



Morcego

Antes de principiar o relato de minha aventura, quero pedir desculpa pela minha pobre capacidade com as letras, que é de muito pouco saber, já que não frequentei nenhuma escola onde pudesse melhorar o meu jeito de narrar. Não sendo treinado em leitura, não tenho como ordenar as ideias do modo como os bons autores fazem; aliás, como tenho minhas quatro patas bem plantadas no chão duro, não posso nem mesmo escrever uma linha, por isto o moço jornalista pediu-me que lhe narrasse a história, que ele cuidaria de colocá-la no papel. Ele também me disse que não me preocupasse por não dominar nem letra nem fala, porque isto daria um tom mais gente para a narrativa, que ele ia transcrever tal como tal. 

Desde pequenino fui criado livre na fazenda, sem preocupações, acompanhando minha mamãe para todo lado. O trabalho dela era levar o filho do patrão para a escola, pois ela ficava em outra fazenda, a uma légua da nossa. De tanto fazer aquele caminho, podia ir lá até de olhos fechados.

Quando cresci, ficando mais alto e mais forte que minha mãe, um moço peão jogou um laço no meu pescoço, colocou umas coisas no meu lombo e subiu em cima de mim. Eu não gostei nada daquilo, então eu dei muitos pulos para tirar o moço do meu lombo. Ele até que caiu no chão uma vez, mas só serviu para ele ficar mais bravo, o que me rendeu receber umas boas lambadas, que me doeram muito no couro. Ele subiu de novo em meu lombo. Eu pulei, pulei, corcoveei, mas nada dele cair. Cansei. Aí ele me levou para uma galopada, que era para eu acostumar-me.

Depois o patrão quis levar-me para cuidar de gado: levar os bichos de um lado para outro. Às vezes era perigoso, porque algum cismava de atacar com aquela cabeçona enorme, com aqueles ferros pregados em cima, que os moços chamavam de chifres. Eu fui deixando-me levar umas esbarradas daquelas bestas. Os moços começaram a chamar-me de Morcego, porque achavam que eu não enxergava direito. E assim me aposentaram daquele serviço, e eu fiquei bem satisfeito.

O filho do patrão se afeiçoara muito comigo desde que eu acompanhava minha mãe para a escola, e foi aí que ele pediu para o pai deixar-me levá-lo para a escola. O patrão ficou ressabiado, com receio que eu não tinha um olho bom, mas o menino mostrou para ele que não tinha perigo: ele me montou e mostrou para o pai que fazíamos uma bela dupla. E foi então que herdei de minha mãe o trabalho dela. O triste foi que minha mãe foi embora para outra fazenda, para fazer o transporte para a escola de um menino de lá. Pelo que ouvi, falaram que ela foi vendida para o outro fazendeiro, mas eu não sabia o que isso significava. O que eu sei é que passei a ver minha mãe só no pasto da escola.

Foi lá naquele pasto que conheci o Péla-Égua. Não gostei nadinha daquele mequetrefe, moço torpe, muito asqueroso, a começar pelo apelido dele, que parecia até um xingamento a minha mãe. Mas não foi só por isso que me enrabichei com ele, pois também assistia às maldades que ele fazia com os meninos da escola. Era um covarde, por puro prazer de maldade. Certa vez eu bem que tentei acertar nele uma boa patada, mas, não sei se felizmente ou infelizmente, errei, pois ele deu um salto ligeiro conseguindo safar-se do meu coice. Ouvi também o patrão em conversa com os peões dizer que o malandro era ladrão como gambá, para ninguém deixar de pôr cuidado nele quando estivesse por perto.

O acontecido, que o moço jornalista pediu para eu narrar, começou em um anoitecer quando eu estava já sossegado no pasto onde eu passo minhas noites. Veio aquele salafrário do Péla-Égua, bem de mansinho, pegou-me desprevenido no meu descanso, e jogou aquela corda que eles chamam cabresto na minha cara, prendendo-me em suas mãos. Dei alguns arrancos para tentar livrar-me do patife, mas ele estava preparado com um chicote na mão e me deu umas lambadas. Aquilo doeu demais no meu couro, o que me fez guardar um ressentimento bem ferino contra ele. Montou no meu lombo e fez-me levá-lo para a cidade. Fiquei com as orelhas em pé sem poder perceber o que estava ele maquinando, pois boa coisa não podia sair da cabeça daquele velhaco.

Lá na cidade ele parou bem em frente de uma casa muito grande, prendendo-me em uma grade. Entrou lá e depois saiu correndo. Soltou-me, jogou-se em cima de mim e, estalando aquele maldito chicote, saímos em disparada. Ouvi muitos gritos: ladrão, pega ladrão, polícia.

Como o desnaturado ficava castigando-me com aquele açoite, eu corri como um doido, mas cheio de raiva. Foi quando chegamos em uma porteira que ele ia ter que abrir, que resolvi usar das minhas artimanhas, como aquelas que já me tinham valido para uma vida mais tranquila. Quando ele se reclinou para abrir a tranca da porteira, eu arriei as minhas patas e dei um salto. O pirata se estatelou no chão. Eu deitei bem depressa ali ao lado dele e prendi o rato sob as minhas patas. Logo chegou o moço policial que saíra em perseguição do malvado ladrão. Ele prendeu as mãos do Péla-Égua com umas argolas de ferro e levou-o.

Eu fui levado de volta para o meu patrãozinho. Foi uma festa de emoção, minha e dele. Foi aí que ele, muito orgulhoso, falou que não podia mais chamar-me de Morcego, que agora o meu nome ia passar a ser Batman, o Cavalo das Trevas.

-o-

  Menino Azul

                                 Cecília Meireles

O menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.

O menino quer um burrinho
que saiba dizer
o nome dos rios,
das montanhas, das flores,
– de tudo o que aparecer.

O menino quer um burrinho
que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.

E os dois sairão pelo mundo
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.

(Quem souber de um burrinho desses,
pode escrever
para a Ruas das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)