Morcego
Antes de principiar o relato de minha aventura, quero pedir
desculpa pela minha pobre capacidade com as letras, que é de muito pouco saber,
já que não frequentei nenhuma escola onde pudesse melhorar o meu jeito de
narrar. Não sendo treinado em leitura, não tenho como ordenar as ideias do modo
como os bons autores fazem; aliás, como tenho minhas quatro patas bem plantadas
no chão duro, não posso nem mesmo escrever uma linha, por isto o moço
jornalista pediu-me que lhe narrasse a história, que ele cuidaria de colocá-la
no papel. Ele também me disse que não me preocupasse por não dominar nem letra
nem fala, porque isto daria um tom mais gente para a narrativa, que ele ia
transcrever tal como tal.
Desde pequenino fui criado livre na fazenda, sem
preocupações, acompanhando minha mamãe para todo lado. O trabalho dela era
levar o filho do patrão para a escola, pois ela ficava em outra fazenda, a uma
légua da nossa. De tanto fazer aquele caminho, podia ir lá até de olhos fechados.
Quando cresci, ficando mais alto e mais forte que minha
mãe, um moço peão jogou um laço no meu pescoço, colocou umas coisas no meu
lombo e subiu em cima de mim. Eu não gostei nada daquilo, então eu dei muitos
pulos para tirar o moço do meu lombo. Ele até que caiu no chão uma vez, mas só
serviu para ele ficar mais bravo, o que me rendeu receber umas boas lambadas,
que me doeram muito no couro. Ele subiu de novo em meu lombo. Eu pulei, pulei,
corcoveei, mas nada dele cair. Cansei. Aí ele me levou para uma galopada, que
era para eu acostumar-me.
Depois o patrão quis levar-me para cuidar de gado: levar os
bichos de um lado para outro. Às vezes era perigoso, porque algum cismava de
atacar com aquela cabeçona enorme, com aqueles ferros pregados em cima, que os
moços chamavam de chifres. Eu fui deixando-me levar umas esbarradas daquelas bestas.
Os moços começaram a chamar-me de Morcego, porque achavam que eu não enxergava
direito. E assim me aposentaram daquele serviço, e eu fiquei bem satisfeito.
O filho do patrão se afeiçoara muito comigo desde que eu
acompanhava minha mãe para a escola, e foi aí que ele pediu para o pai deixar-me
levá-lo para a escola. O patrão ficou ressabiado, com receio que eu não tinha
um olho bom, mas o menino mostrou para ele que não tinha perigo: ele me montou
e mostrou para o pai que fazíamos uma bela dupla. E foi então que herdei de
minha mãe o trabalho dela. O triste foi que minha mãe foi embora para outra
fazenda, para fazer o transporte para a escola de um menino de lá. Pelo que
ouvi, falaram que ela foi vendida para o outro fazendeiro, mas eu não sabia o
que isso significava. O que eu sei é que passei a ver minha mãe só no pasto da
escola.
Foi lá naquele pasto que conheci o Péla-Égua. Não gostei
nadinha daquele mequetrefe, moço torpe, muito asqueroso, a começar pelo apelido
dele, que parecia até um xingamento a minha mãe. Mas não foi só por isso que me
enrabichei com ele, pois também assistia às maldades que ele fazia com os
meninos da escola. Era um covarde, por puro prazer de maldade. Certa vez eu bem
que tentei acertar nele uma boa patada, mas, não sei se felizmente ou
infelizmente, errei, pois ele deu um salto ligeiro conseguindo safar-se do meu
coice. Ouvi também o patrão em conversa com os peões dizer que o malandro era
ladrão como gambá, para ninguém deixar de pôr cuidado nele quando estivesse por
perto.
O acontecido, que o moço jornalista pediu para eu narrar,
começou em um anoitecer quando eu estava já sossegado no pasto onde eu passo
minhas noites. Veio aquele salafrário do Péla-Égua, bem de mansinho, pegou-me
desprevenido no meu descanso, e jogou aquela corda que eles chamam cabresto na
minha cara, prendendo-me em suas mãos. Dei alguns arrancos para tentar
livrar-me do patife, mas ele estava preparado com um chicote na mão e me deu
umas lambadas. Aquilo doeu demais no meu couro, o que me fez guardar um
ressentimento bem ferino contra ele. Montou no meu lombo e fez-me levá-lo para
a cidade. Fiquei com as orelhas em pé sem poder perceber o que estava ele
maquinando, pois boa coisa não podia sair da cabeça daquele velhaco.
Lá na cidade ele parou bem em frente de uma casa muito
grande, prendendo-me em uma grade. Entrou lá e depois saiu correndo. Soltou-me,
jogou-se em cima de mim e, estalando aquele maldito chicote, saímos em
disparada. Ouvi muitos gritos: ladrão, pega ladrão, polícia.
Como o desnaturado ficava castigando-me com aquele açoite,
eu corri como um doido, mas cheio de raiva. Foi quando chegamos em uma porteira
que ele ia ter que abrir, que resolvi usar das minhas artimanhas, como aquelas
que já me tinham valido para uma vida mais tranquila. Quando ele se reclinou
para abrir a tranca da porteira, eu arriei as minhas patas e dei um salto. O
pirata se estatelou no chão. Eu deitei bem depressa ali ao lado dele e prendi o
rato sob as minhas patas. Logo chegou o moço policial que saíra em perseguição
do malvado ladrão. Ele prendeu as mãos do Péla-Égua com umas argolas de ferro e
levou-o.
Eu fui levado de volta para o meu patrãozinho. Foi uma
festa de emoção, minha e dele. Foi aí que ele, muito orgulhoso, falou que não
podia mais chamar-me de Morcego, que agora o meu nome ia passar a ser Batman, o
Cavalo das Trevas.
-o-
Menino Azul
Cecília Meireles
O
menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.
O
menino quer um burrinho
que saiba dizer
o nome dos rios,
das montanhas, das flores,
– de tudo o que aparecer.
que saiba dizer
o nome dos rios,
das montanhas, das flores,
– de tudo o que aparecer.
O
menino quer um burrinho
que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.
que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.
E
os dois sairão pelo mundo
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.
(Quem
souber de um burrinho desses,
pode escrever
para a Ruas das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)
pode escrever
para a Ruas das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)

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