Maktub
Segunda-feira, 20 de março de 2017.
– Ah! Consegui sair dentro do meu horário, apesar da noite
mal dormida.
Não com muita exigência consigo mesmo, ele procurava manter
seu horário bem-comportado na hora de ir ao trabalho. Conhecendo bem as características
do trânsito durante as primeiras horas da manhã, o tempo de trajeto variava
pouco, quando nenhum imprevisto lhe barrava o caminho.
Sentiu-se tranquilo para começar aquela semana que prometia
muita discussão e tomadas de decisão, pois a operação Carne Fraca da Polícia
Federal caiu como uma terrível avalanche sobre a diretoria da empresa.
Preparando-se mentalmente para a reunião que havia sido marcada para aquela
manhã, distraiu-se nos seus pensamentos.
Chegando no sinal da Rua Maestro Severiano, surpreendeu-se
de ali chegar sem nenhuma lembrança de ter feito aquele trajeto no qual gastara
quinze minutos.
– Poxa, como foi que cheguei aqui?
Ultrapassado o sinal, na esquina seguinte, um senhor de
cabelos brancos, trajado com bermuda e chinelos, trazendo um cachorro Golden
Retriever pela coleira, atravessou a sua frente; carregava um sorriso aberto no
rosto e fazia-lhe com a mão esquerda sinal para que diminuísse a velocidade do
carro, balbuciando alguma coisa que ele só podia imaginar que fosse um devagar,
mais devagar. Ele parou, esperando que os dois cruzassem a rua com um passo
indolente. O homem fez-lhe um gesto de agradecimento e ele seguiu para a sua
batalha do dia.
Terça-feira, 21 de março de 2017.
Satisfeito com o resultado das diretrizes alinhadas na
véspera, teve uma noite tranquila. Aprontou-se com calma, certo de haver
bastante tempo à disposição, e, na sua hora habitual de saída, lá estava dando
partida no carro.
Distraiu-se no trajeto com as músicas que corriam no MP3,
cantarolando Tuyo junto com Rodrigo Amarante. Divagou um pouco relembrando as atrocidades
de Pablo Escobar, e, como de costume, quando tais cenas apareciam, reviu a mãe
do traficante chorando ao ver o filho morto e gritando que ele era um bom
menino, um amigo dos pobres...
Quando chegou no sinal da Rua Maestro Severiano,
encontrou-o aberto e passou ligeiro. Lá na esquina divisou um senhor que
começava a atravessar a rua, fazendo-lhe sinais com a mão livre, pois a outra
estava ocupada com um cachorro Golden Retriever. Parou, contemplando os dois
atravessando com passo indolente. O cachorro, parecendo bem velho e gordo,
andava preguiçosamente. Pareceu-lhe uma repetição da cena da véspera. O senhor
vestido da mesma forma, o mesmo cachorro, nada parecia mudado. Um “déjà-vu”
feito ao vivo.
O senhor sorriu-lhe, agradeceu-lhe com o gesto repetido e se
foi. E ele também se foi para o escritório, levando uma inquietação com aquela
cena revivida, porém sem lhe gerar mais cuidado.
Quarta-feira, 22 de março de 2017.
Ao sair de casa passou-lhe pela mente as duas cenas
repetidas dos dois dias anteriores:
– Será que hoje o senhor e o cachorro também vão aparecer?
Pôs o MP3 para tocar e seguiu distraidamente seu percurso
de todos os dias.
Parado no sinal da Rua Maestro Severiano, vasculhou o
quarteirão à frente à procura do senhor e do cachorro. No final do quarteirão
conseguiu entrevê-los, parados na esquina à beira da calçada. Sinal aberto, pôs
o carro em movimento e pôde perceber que o velho só começou a atravessar a rua
quando ele se aproximou. Como antes, toda a cena se repetindo a sua frente.
Ficou intrigado. O senhor lhe fez o gesto de agradecimento colorido com um
sorriso e se foi.
Não conseguiu concentrar-se em seu trabalho. O vídeo do
velho e do cachorro passava incessantemente em sua mente. Três vezes, tudo da
mesma forma. Três, um número cabalístico. O que significava tudo aquilo? Firmou
como resolução interpelar o velho na manhã seguinte... se ele aparecesse
novamente... Quatro vezes; não, não seria provável. Três fechava o circuito
mágico. E o dia arrastou-se nessa inquietude.
Quinta-feira, 23 de março de 2017.
Saiu de casa com o propósito de não deixar o senhor do
cachorro passear a sua frente. Nada mais tinha na cabeça, estava antecipando o
vídeo do dia: o sinal abria... o velho esperava o seu carro... Com todo o
tumulto na mente, nem sequer ligou o som; fez o trajeto novamente sem perceber
por onde passava.
Chegado ao sinal da Rua Maestro Severiano, encontrou-o
aberto. Procurou no final do quarteirão o velho e o cachorro, não encontrando-os. Avançou pelo quarteirão esquadrinhando todo o seu curso...
Decepção, nada... Virou-se para trás procurando-os...
Pééééééém... Crásss.
Quando ele acordou, estava sendo colocado em uma maca.
Doía-lhe muito a cabeça e as pernas. Estava imobilizado.
– Olá, lembra-se de mim?
Ele procurou ansiosamente distinguir quem lhe falava.
Entorpecido, ainda, distinguiu um sorriso conhecido.
– Eu chamei a ambulância para você depois daquela batida
horrível.
– Mas, você... Você é o senhor que todo dia passava a minha
frente com o cachorro – ele falou com dificuldade, pois a dor martirizava-o.
– Sim, todos os dias recomendando-lhe calma, para ir com
cuidado.
– Eu me lembro bem, mas hoje eu o procurei, você não estava
lá.
– Infelizmente. Hoje o Ralph não quis sair de casa.
– Ralph?
– É, o meu cachorro, o coitado está muito velho, muito
cansado.
– Eu percebi.
– Foi por isso que me atrasei hoje, e não pude atravessar
na sua frente.
– Mas por que você fazia isso? Parece que você me esperava
na esquina para cruzar na minha frente.
– É verdade, eu esperava.
– Por quê?
– Foi por causa de um sonho. Sonhei que um Audi como o seu
sofreu um acidente ali naquela esquina. E o seu era o único carro como o do
sonho que eu sempre via passar por ali. Por isso resolvi ajudá-lo a evitar o
acidente, infelizmente hoje me atrasei.
– Infelizmente, infelizmente!
-o-
Hermandad
Octavio Paz
Homenaje a Claudio Ptolomeo
Soy
hombre: duro poco
Y es
enorme la noche.
Pero
miro hacia arriba:
Las
estrellas escriben.
Sin
entender compreendo:
También
soy escritura
Y en
este mismo instante
Alguien
me deletrea.
-o-
]
Sou
homem: duro pouco
E é
enorme a noite.
Mas
olho para cima:
As
estrelas escrevem.
Sem
entender, compreendo:
Também
fui escrito
E
neste mesmo instante
Alguém
me soletra.

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