sábado, 29 de setembro de 2018

Agkhar, o mantenedor do fogo


Agkhar, o mantenedor do fogo




                                                                                                          Ninguém é livre senão Zeus.
                                                                                                                  (Ésquilo, Prometeu Acorrentado)

As crianças sentadas à sombra fresca de uma grande árvore ouviam atentamente as histórias contadas pelo grande ancião da tribo. O velho sábio falava da luta terrível que acontecera no céu entre os deuses, quando tempestades retumbaram trovões e raios caíram na terra dizimando florestas, explodindo as montanhas que despejavam lava quente sobre os vales e enlouquecendo os rios que ferviam e assolavam as terras baixas. Depois de muita destruição, Zeus se levantou como o deus supremo da justiça, e todos os rios, vales e montes tomaram seus lugares.

Prometeu e seu irmão Epimeteu, dois Titãs, dois dos gigantes que faziam parte da corte dos deuses, foram por eles encarregados de fazer do barro as criaturas para povoar o paraíso que foi dado como dádiva aos homens.

O pequeno Agkhar continha a respiração seguindo os gestos agitados do velho que socava o ar para simular os raios dos deuses, e quando a paz se estabeleceu, a noite já estava anunciando-se; embora olhasse furtivamente medindo os últimos clarões do dia, desejoso já de correr para a segurança da caverna, levantou o dedo pedindo a palavra. O ancião, embora um tanto contrariado pela interrupção tardia, concedeu-a:  

– Se vivemos em um paraíso, por que temos que tremer de medo das feras que nos forçam a viver na escuridão da caverna como as formigas?

– Hum! Somos felizes por termos recebido a proteção da caverna, os deuses nos deram a graça da vida e o domínio sobre toda a beleza deste mundo maravilhoso, tudo foi posto em seu devido lugar para o nosso maior bem.

– Mas seria muito melhor se não vivêssemos com tanto medo, tendo que deixar guardas na entrada da caverna para proteger-nos.

– Agora, chega! todos para a caverna!

Com o cair da noite, nada restava a fazer senão entregar-se à escuridão esperando que os deuses não estivessem zangados e que as feras não ficassem agitadas pelo fome.

Atento àquela conversa, Prometeu compadeceu-se do medo do menino, e, resolvido a ajudar os homens, pediu uma audiência ao deus supremo:

– Senhor dos Raios, posso estar sendo ingênuo, mas por que mantendes os homens na escuridão, sofrendo os horrores do medo e da ignorância?

– E por que te metes nos meus assuntos? Que te importam os homens?

– Humildemente, Senhor, tenho por eles enorme carinho devido ao cuidado que eu e meu irmão tivemos na sua criação, por isto peço que desvieis um olhar para a Terra para que possais perceber a angústia dos homens.

– E ainda insistes? O que chamas de ignorância é apenas inocência, e isto é o que lhes permite serem felizes, sem conhecerem as doenças das preocupações. E nada quero mais 
ouvir deste assunto!

Prometeu não se contentou e ficou a pensar no medo daquele menino no interior de uma caverna úmida e escura. Tanto e tanto o pensamento o atormentou que decidiu não se submeter à proibição de não se meter no assunto. Subiu ao cimo do monte Olimpo, no seu lado oriental, para chegar mais próximo ao carro de Apolo, quando este preparava os cavalos para cruzar o céu levando os raios dourados a inundar de vida o dia, e acendeu uma tocha no fogo sagrado do sol.

***

Apolo já estava a chegar no extremo ocidental do céu. Agkhar estava com os seus amigos na frente da caverna a brincar no jogo que todos mais gostavam: a caça ao tigre, uma inconsciente preparação para suas futuras obrigações para a sobrevivência. No meio da perseguição à perigosa presa, viu um gigante descer a montanha trazendo nas mãos um vento da cor do sol amarrado na ponta de um bastão. Com o grito de espanto que emitiu, todos correram para a escuridão da caverna.

Os meninos gritaram de pavor quando o gigante parou na porta da caverna elevando a tocha sobre a sua cabeça. A luz invadiu a escuridão que reinava na caverna e Aghkar pôde ver ao seu lado o velho sábio, cujo rosto era uma máscara de terror, apoiado na parede de pedra; nos olhos dele ele pôde perceber a imagem da chama, na parede a sua sombra projetada fez em sua mente clarear a imagem que o sol deixava, e ele compreendeu. Juntando a coragem que não lhe faltava com a curiosidade, desvencilhou-se do velho que agarrara os seus braços e acercou-se do gigante, que se apresentou:

– Não tenham medo, sou Prometeu, desci do monte Olimpo para trazer-lhes este presente – dizendo isto, estendeu a tocha.

Embora ainda muito temeroso, a curiosidade fez a mão de Agkhar aproximar-se da tocha, retirando-a rapidamente.

– É quente.

– Sim, é quente, é preciso ter cuidado para não tocar a chama, mas trará muita comodidade a vocês.

– Além de iluminar a caverna, para que mais serve?

O gigante pediu que os meninos juntassem galhos e ateou-lhes o fogo, fazendo uma grande fogueira. Usando uma vara, espetou pedaços de carne de uma corça que os caçadores haviam acabado de trazer, suspendeu-a sobre o fogo, e quando o cheiro da carne assada já incentivava a fome, chamou Agkhar e lhe disse que provasse.

– Uau! Que gosto bom! – o grito de satisfação do menino ecoou por toda a caverna.

Todos se precipitaram a disputar um pedaço e muitas línguas ansiosas ficaram chamuscadas pela gulodice. E os homens, pela primeira vez, comeram como os deuses.

Prometeu ensinou Agkhar a cuidar do fogo para que não se apagasse, criando a primeira profissão social da humanidade, o mantenedor do fogo, que deveria cuidar permanentemente de mantê-lo aceso, alimentando-o quando necessário e não permitindo que escapasse do recinto da fogueira e, assim, causasse um acidental incêndio, e para que ele pudesse exercer sua função, os demais deviam suprir as suas necessidades.

Certa vez, quando tinha um cacho de bananas nas mãos, uma delas caiu na fogueira. Aghkar retirou-a do meio das brasas, descascou-a, e provando-a descobriu uma surpreendente delícia. Um balãozinho com uma tocha surgiu em sua mente, e ele teve a feliz ideia de inventar a sobremesa. Tendo ensinado a todos a receita, teve o seu nome gravado nos marcos de pedra para toda a posteridade como benfeitor da humanidade.

O fogo foi um grande propulsor da inteligência humana, e Agkhar continuou a descobrir muitas outras utilidades para o presente de Prometeu.

***

Passados muitos anos, visto que para os deuses o tempo anda mais rápido que na escala humana, um dia, distraído, Zeus deixou o olhar descer até a terra e assustou-se com o que viu, pois seu olhar se perdeu pelo futuro e ele viu tudo se transformando: o homem saiu das cavernas construindo suas próprias casas, o fogo estava sendo utilizado para fabricar espadas, arados e muitas outras novidades. Ele se enfureceu ao ver o homem usurpando os privilégios dos deuses e pensou em mandar um dilúvio para acabar com a vida humana, mas a raiva passou, pois ele pensou que poderia divertir-se a assistir a vida na terra transformar-se em um inferno em meio às guerras, disputas e invejas, mas não perdoou a insubordinação de Prometeu, chamou outros Titãs e mandou prendê-lo, amarrando-o com fortes cadeias ao pico de uma montanha, onde ele teria que permanecer de pé, sem dobrar os joelhos e sem dormir. Achando pouco o castigo, determinou que uma águia enorme voasse até ele todos os dias e comesse o seu fígado, que, por ser ele imortal, à noite regenerava.

Prometeu suportou o castigo sem degradar-se perante seu opressor, embora suas dores fossem tão intensas que seus gritos ecoavam por toda a Terra, apavorando os homens, e as suas lágrimas caíam em forma de chuva.

Agkhar ouvia os gritos angustiado e propôs-se a ajudar o seu benfeitor. Embora uma lenda antiga afirme que foi o grande guerreiro Hércules que livrou Prometeu das correntes, a história que o ancião contava nas rodas noturnas ao redor da fogueira era outra:

Desde que forjara os grilhões que prendiam Prometeu, Hefesto, deus das profundezas, sentia-se mal com o terrível trabalho que lhe fora imposto por Zeus, remoendo remorsos pela crueldade que ajudara a realizar. Para distrair-se de seus tormentos, acostumou-se a subir do seu reino para longos passeios sobre a superfície, admirando o trabalho dos homens. A perícia com que Agkhar usava o fogo para moldar o ferro levou-o a ensinar-lhe novas técnicas, e, astuciosamente, ajudá-lo a forjar as ferramentas que lhe permitiriam liberar o infeliz gigante.

Quando obteve os utensílios necessários, Agkhar subiu a montanha com um grupo de amigos. Atingido o cume onde Prometeu sofria e iniciados os trabalhos para quebrar as grossas correntes, foram atacados pela águia que não queria perder sua presa. Na dura batalha contra as garras e o bico da ave feroz, mais de um infeliz foi atirado montanha abaixo, mas as flechas com pontas de ferro conseguiram abatê-la e o trabalho pôde, enfim, ser terminado: Prometeu foi libertado de seu injusto castigo.

***

Zeus não ficou satisfeito com o novo ato de desobediência a sua vontade, e para vingar-se dos homens concebeu um fogo mais forte que o mais poderoso de seus raios. Convocou todos os deuses a contribuírem para forjar uma criatura para mandar de presente a Prometeu e a seu irmão Epimeteu, que apenas tinha com a história o fato de ter participado da criação da humanidade.

Os deuses dotaram a criatura com muitos encantos: Afrodite deu-lhe a beleza; Apolo, as artes; Hermes, a malícia, e tornando-a assim irresistível, deram-lhe o nome de Pandora. O próprio Zeus ficou desejoso de guardá-la para si, o que teria feito não fossem os olhares terríveis de sua esposa, Hera, uma deusa ciumenta e vingativa.

Como Prometeu não aceitaria um presente do vingativo Zeus, este entregou à mulher uma caixa pedindo-lhe que a levasse como presente a Epimeteu. Pandora ficou confusa, pois pensava que ela era o presente:

– Afinal, quem é o presente, eu ou a caixa?

– Não pense, – Zeus replicou maliciosamente – apenas leve a caixa e entregue-a, mas não queira abri-la em hipótese alguma, pois muitas desgraças acontecerão, ouviu? De maneira alguma ouse abrir a caixa, você está proibida de fazê-lo.

E Pandora cumpriu a ordem de Zeus indo apresentar-se a Epimeteu, que, embora advertido por Prometeu dos perigos que as armadilhas do astucioso deus poderiam representar, recebeu-a, e, deslumbrado com seus encantos, alojou-a em sua morada em uma dependência adornada com todo o requinte que podia proporcionar-lhe. Mal se viu sozinha em seu quarto, a curiosidade de Pandora, que a estava deixando sem fôlego, levou-a a abrir a caixa.

Imediatamente, espalhou-se pela Terra o conteúdo da caixa, todos os bens e os males irromperam da caixa: as Artes, as Guerras, a Fome, a Doença, a Pobreza, a Riqueza e tudo mais, incluindo a Morte. Assustada, Pandora fechou a caixa rapidamente, restando presa dentro da caixa apenas a Esperança, último recurso dos homens, o que permanece mesmo que males terríveis os ameacem, mesmo a morte.

***

Após a perda do seu paraíso, muitos anos foram vividos por Agkhar cheios de trabalhos, fadigas, alegrias e tristezas. A doença, herança de sua própria generosidade ao seu benfeitor Prometeu, encontrou-o em sua última noite debaixo da grande árvore, onde fizera questão de repousar, tomando-lhe as forças. Agradeceu por lhe ser permitido o descanso do seu corpo cansado, e, olhando para a lua opulenta, que brilhava ladeada por sua corte de estrelas, aqueceu-se na pequena chama que restara na caixa do seu peito, que nenhum deus lhe poderia tirar: a esperança de um novo mundo.

***

Ah! Bem lembrado! O castigo de Zeus demorou, mas aconteceu. Ele foi completamente banido dos céus pelo nascimento de uma criança pobre em uma manjedoura.

-o-


terça-feira, 25 de setembro de 2018

Quintal


Quintal

Pã e sua flauta


                                                                                       “Digo: o real não está na saída nem na chegada:
                                                                                       ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”.

                                                                                                                                     (Guimarães Rosa)

Alô, galera, ao vivo e em cores hoje quero mostrar para vocês o mundo de alegrias do quintal aqui da minha casa; antes de pôr os pés no primeiro degrau desta escada, que dele me separa, faço todo um trabalho de higiene para não contaminar os raios de sol que o acalentam: peço às ninfas que me permitam uma metamorfose, deixando para trás esta casa que me envolve como uma casca velha, dela emergindo uma cigarra que possa voar e soprar na flauta do velho Pã a trilha sonora, que não me canso de entoar, e, que assim espero, vocês não se cansem de ouvir.

O objetivo final deste vídeo será mostrar-lhes a vida que pulsa em um ninho que ontem descobri com dois filhotinhos. Em surpresa eu passei um tempão observando os bichinhos, depois fiquei de tocaia para ver a mamãe das avezinhas a dar comida aos bicos escancarados de gulodice. Eu rodava nos meus olhos um filme de espantos e só via a alegria e a beleza da vida a se fazerem notar. Estou muito entusiasmado de ir filmando todo dia o crescimento deles, acho que vai ser muito legal e espero poder transmitir-lhes todo o meu encantamento.

Mas como o ninho se encontra lá no fundo, no meio das folhas de uma goiabeira, bem pertinho do ribeirão onde termina o quintal, enquanto caminhamos até lá vou mostrar a vida que pulsa por aqui.

Descendo a escada, este cacarejar que vocês estão ouvindo é a sinfonia das galinhas, que correm afoitas para o pé da escada tão logo alguém pisa no degrau superior. Parece que a pouca visão delas vê os pés como se fossem os do próprio Pã, cuja missão única é trazer-lhes os requintes dos restos dos banquetes divinos que acontecem sem interrupção na casa, uma espécie de Olimpo para as galinhas. Vamos frustrar as suas esperanças, deixando-as bem loucas a correrem e a brigarem por um lugar bem pertinho de mim. Coitadas, o prazer que elas esperam não se realizará em alegria, e assim posso aproveitar melhor para mostrar-lhes a estupidez desses bichos que só sabem pensar com o papo, ou seria sapiência em buscar uma migalha de sabor imaginando: para mim saberia bem um grão de milho ou de arroz, quem sabe um feijão novinho.

Mas deixemos essas tagarelas que já se frustraram ao saber que minha câmera não é nada comestível ou que, pelo menos, eu não estou disposto a jogá-la para elas. Vejam ali na frente: uma procissão de formigas vem lá do fundo do quintal em direção ao muro do lado direito. No pé do muro elas desaparecem por um buraco enorme. Quando o meu pai souber, ele vai atacá-las e destruir o formigueiro; acho que não vou contar para ele, é melhor deixar os bichinhos livres, fazendo o trabalho cansativo nesse vai e vem frenético que mais parece uma autoestrada com os carros seguindo uma rota determinada.

Eu gosto de ficar admirando a correria delas, as que saem do buraco vão encontrando as que chegam transportando as suas cargas enormes, conversam entre elas, devem perguntar sobre as coisas gostosas que as outras encontraram, perguntam onde tem isso, onde não podem ir pelos perigos que lá existem, e seguem já na certeza de aonde ir. Aqui elas são o trabalho e eu sou a vadiagem, fazendo o papel da cigarra que só quer diversão, que deixei minha casca dura lá em cima da escada para cansar-me de ver o trabalho delas só para minha alegria. Mas quê? Que mentiras aquela fábula conta, pois a cigarra não precisa de provisões de inverno, ela surge e vive apenas um verão.

No entanto, é de se admirar a inteligência das formigas, não? Sabem tudo que precisam fazer; será que lá no formigueiro tem umas professoras chatas para ensinar como se deve andar sem uma atropelar a outra? Ou qual o peso máximo que elas podem suportar? Ou como se prevenirem de serem atropeladas por esse calango que passou ligeiro cortando a fila delas, deixando algumas de pernas para cima? Embora eu cá esteja fazendo o papel da cigarra, eu gosto de vê-las em frenética atividade, fortes, ligeiras e companheiras.

Mas nem só de correria está cheio o quintal, veja ali no canto do muro aquela arte quieta da teia de uma pequena aranha, dissimulada, à espera de um mosquitinho incauto que grude suas asas em seus fios. Ferinas essas aranhas, quanta ciência em seu modo de vida calmo, mas de muita excitação. Por que será que uma mosquinha precisa lutar tanto contra uma aranha e tudo o mais? E essa bela borboleta, que passa alternando cores sob os raios do sol, por que será precisa de tanto fugir dos bicos dos pássaros?

Continuemos seguindo a fila de formigas. Ela está indo direto para o nosso objetivo, lá onde a goiabeira abriga o ninho, estão vendo? lá no fundo do quintal? Hum!? não gostei, ainda bem que o ninho se esconde entre os galhos e as folhas, e os filhotinhos estão protegidos.

Bem, aqui está a goiabeira, nesta época só tem goiabinhas verdes, no verão haverá deliciosas goiabas brancas, as minhas preferidas. Fico encabulado de pensar: como sabe a goiabeira fazer as goiabas? Mistérios do meu quintal. Oh! besteira, mais estranho seria se ela fizesse jabuticabas. Deixem-me chegar no meio das folhas para mostrar o ninho, enquanto sigo as formigas subindo pela goiabeira!

Ah, não! Posso até ouvir os passos destas malditas subindo pelos galhos. O ninho está enxameado com essas horríveis formigas! Os filhotinhos! Elas estão arrancando seus pedaços para levarem ao formigueiro! Por que será que o velho chifrudo está a punir-me transformando o meu maior prazer nessa terrível desgraça? deixando-me desvairado de ódio, frustrado em pâ-nico?

Malditas! Vou liquidar com todas vocês. Vou esmigalhar vocês. Vou chamar meu pai para liquidar com o seu formigueiro.

– Pai, pai, há uma multidão de formigas no quintal!

-o-

domingo, 19 de agosto de 2018

Transubstanciação



Transubstanciação





– Professor Flosser, suas pesquisas na genética têm revolucionado os conhecimentos sobre esta ciência, poderia explicar-nos por que o manuscrito sobre os essênios, recentemente revelado ao público, teve tanto impacto entre os seus pares?

– Os estudos mais recentes sobre o DNA vêm quebrando muitas das concepções que tínhamos sobre a herança genética. A parte do DNA, que antes chamávamos de lixo, tem-nos revelado muitas funções novas que julgávamos impossíveis existirem. Descobrimos também que o DNA não tem um padrão estático durante a vida de um ser, modificando-se no desenrolar da sua existência, e estes novos códigos adquiridos podem ser transmitidos aos descendentes. Especula-se, ainda meras teorias, que nossas emoções podem nele interferir, criando novos padrões e novas características.

 – Mas, Professor, o que estas novas pesquisas têm a ver com o manuscrito? Por que o tão grande interesse?

– Pela surpresa de nele encontrarmos, naqueles tempos remotos, noções de conhecimento sobre a genética, em contraste com, por exemplo, a Bíblia, onde temos o curioso episódio do enriquecimento de Jacó com as crias do rebanho do sogro: ele dispôs varas listradas na frente dos bebedouros do rebanho para que os animais sempre as vissem e, assim, favoreceu o nascimento das crias listradas e malhadas, que seriam suas pelo acordo que fizera com o sogro. Este conto bíblico era o que havia de mais próximo sobre os então mistérios da descendência das características.

– E no caso do manuscrito, o processo é mais palatável?

– Digamos que é surpreendente. No manuscrito é relatado um procedimento que os essênios fizeram para interferir na qualidade das sementes. Embora eles nada soubessem a respeito do DNA, eles sabiam que algo havia nas sementes que era transmitido aos descendentes, e o relato do experimento causou o nosso alvoroço.

– Obrigado pela entrevista, Professor, e aos nossos leitores interessados recomendo a leitura do manuscrito:

*

Quando sobre os montes que lhe estavam em frente, o negro que fora a noite começou a se deixar invadir pela aurora, ele já estava a esperá-la, travando batalha com os pensamentos que o colocaram naquela viagem em busca do ungido do espírito. Toda uma vida de dedicação aos preceitos da irmandade teria enfim sua recompensa atendida? Seu esforço para lançar-se naquela viagem, quase sem as energias necessárias para empreendê-la, não seria demasiado para a sua saúde tão desgastada, levando-o a perecer sem ver suas esperanças realizadas?

As trevas começavam a dissipar-se, os raios do sol refaziam aos seus olhos o verde que cobria os montes de vida, e no seu íntimo reacendiam a trilha do Caminho de Luz que o astro simbolizava.

Ainda ficou a contemplar a claridade tomando conta do céu sem nuvens, pintando-o pouco a pouco de azul. Quando o primeiro facho de luz surgiu detrás do monte, levantou-se e viu ao seu lado os dois irmãos também se apressarem a recolher as parcas cobertas que os ajudaram a passar a noite debaixo da fria laje de pedra onde se abrigaram.

Com o sol acima dos montes, o silêncio que lhes era prescrito durante a noite deixava de ser uma obrigação; tratando de limpar a mente de pensamentos impuros de temor, sintonizando-se com a luz que lançava os seus primeiros raios e elevando os braços para o representante dos poderes divinos, entoou em alta voz:

– Senhor, o espírito da verdade que tenho cultivado vem na luz de Tua bondade espalhar-se novamente por esta terra desolada pelas injustiças dos filhos das trevas. Ponho-me humildemente sob a Luz da Verdade do Espírito Santo para alcançar a meta desta penosa jornada com o coração em júbilo na graça para todos os Teus filhos. Fora de Ti, os caminhos são escuros e tortos, sem a Tua vontade nada se pode atingir. Ilumina, Senhor, a nossa missão.

Seus dois irmãos acompanharam com fervor as suas preces. Após uma parca refeição de tâmaras, pão e água, puseram-se novamente no caminho de terra ressequida coberto por uma pobre vegetação, rasteira e rala.

– Mestre, se quisermos chegar a Nazaré ao cair do sol, não poderemos nos entreter pelo caminho, embora os teus passos cansados, teremos que seguir firmes.

– Com a força do Espírito Santo seremos abençoados para hoje mesmo estarmos no destino de nossas maiores esperanças.

– Achas realmente que João está certo em afirmar que ele é o Esperado?

– Pelos relatos que nos fez da sua infância, podemos ter muitas esperanças. A sua aspiração ao mundo celestial foi grandemente enaltecida por João, e devemos amparar o seu caminho na busca da perfeição, isolando-o dos perigos das trevas.

– E como poderás ter a certeza que não é apenas outra frustração?

– Tenho a confiança que a Luz que tem brilhado em minha vida, iluminando o caminho, saberá esclarecer-me.

– E a família do menino, consentirá que o levemos para nossa irmandade?

– Quem poderá se opor à vontade do Senhor? João já alertou a mãe para a necessidade de preservá-lo dos perigos da vida mundana até que ele esteja preparado para revelar-se; não deveremos encontrar objeções, e para evitá-las é que faço este esforço em vir pessoalmente mostrar-lhe a importância de deixá-lo sob nossa tutela.

– Que o Senhor nos guie!

Buscando forças na promessa, o Mestre seguiu penosamente a jornada sob o sol, que naqueles dias de fim de inverno não era tão inclemente, parando apenas para respiros junto a um poço de água e um pouco de pão.

*

– Mestre, aquela coluna de fumaça além da colina indica que estamos próximos do fim de nossa jornada.

– Graças ao Senhor que nos deu forças!

O sol ainda iluminava as poucas construções de Nazaré quando, no topo de uma pequena colina, os viajantes aliviados puderam contemplar as primeiras habitações do lugarejo que corriam sobre outra elevação, após uma descida na estrada que os conduzia. A paisagem monótona de terra foi invadida de cores e odores por um rebanho de cabras, surgido de uma trilha lateral e conduzido por um pastor que voltava ao seu capril. Pediram-lhe indicação de um lugar onde pudessem pernoitar. O pastor, sabendo pelas suas vestes brancas que eram pessoas religiosas e merecedoras de veneração, pediu-lhes a bênção e ofereceu-lhes um quartinho que havia ao lado do seu curral.

*

A casa era pequena e muito simples, de paredes como o chão da terra que a circundava. Ao lado uma coberta abrigava uma oficina onde os trabalhos do dia já estavam iniciados pelos filhos da casa. Já avistados ao se aproximarem, a mãe os esperava na porta.

– A paz seja a luz desta casa!

– Que a vossa bênção se derrame sobre nós!

No interior da casa, iluminada por aberturas gradeadas nas suas paredes, esteiras estavam dispostas para receber os visitantes. Sentaram-se os recém-chegados acomodados em frente à mãe. Ao lado esquerdo, na abertura que dava acesso à oficina, três jovens se apertavam curiosos a seguir a conversa. O Mestre olhou-os atentamente, descobrindo no mais velho dos rapazes aquele por quem fizera a penosa viagem. Não pôde suster um suspiro de alívio ao reconhecer, nas suas feições bem delineadas, as promessas que os filhos da Luz esperavam encontrar no Prometido, onde só lhe pareceu enxergar uma mínima presença das trevas devido ao seu natural nascimento como filho do homem.

Não foram necessárias muitas palavras para explicar os motivos que os levaram ali, pois João já havia instruído à família tudo o que deveria ser feito para enriquecer o caminho do jovem. Alguns temores da mãe, normais apreensões de uma mãe carinhosa, que sofria pela futura ausência do filho, foram prontamente dirimidos pelo Mestre. Este repetiu as palavras de João sobre todo o projeto planejado para o jovem, reiterando sobre os estudos da Torá, sobre a qual ele deveria debruçar-se para enriquecer sua vida no caminho da Luz e prática da Verdade, abrigado pelos companheiros de uma disciplina rigorosa na virtude.

Com pesar no coração pela despedida do filho querido, a mãe não se opôs ao caminho que lhe era aberto. Os visitantes despediram-se, deixando à família o dia restante para os preparativos da viagem e as despedidas. Na manhã seguinte, puseram-se na viagem de volta ao mosteiro.

*

Dos montes ao redor da santa comunidade desciam as águas das chuvas que enchiam as cisternas: água de vida, necessária à purificação dos corpos e ao florescimento das plantas e culturas de autossuficiência. Naquele ambiente hostil, era necessária muita perseverança nos trabalhos de cada membro para amenizar a dureza da vida no deserto, onde por séculos se refugiaram para afastarem-se dos filhos da iniquidade, seguindo as palavras do profeta Isaías:

            "Uma voz clama: no deserto, abri um caminho para YHWH;
            na estepe, aplanai uma vereda para o nosso Deus”.

O trabalho, como fruto da vida, coloria de verde as colinas, despertando a riqueza verde da vegetação nos cuidados dos canteiros e dos pomares. Ele se entregou ao trabalho com as plantas com o prazer do descanso dos estudos a que tinha que se dedicar. As flores competiam pelos seus cuidados mostrando-se em perfeição e vigor, condensando a luz de cada dia em cores que enfeitavam os banquetes de comunhão. Os irmãos vinham em seus canteiros em busca de sementes e mudas, a alegria colorida se espalhou pela comunidade.

Estando imerso em conversa com suas plantas, o Mestre chegou sem que ele o notasse, e ficou a contemplar a sua diversão abstraída do resto do mundo; após algum tempo de admiração:

– A tua juventude trouxe um halo da Luz para todos, ele assustou-se com a voz que o trazia de volta à realidade – teu tempo de noviciado será encurtado, isentando-te dos dois anos normalmente necessários, para que possas levar tua serenidade às reuniões da comunidade, partilhando do alimento comum e da mais pura água benta. Troca esses farrapos que estás usando por uma veste nova, branca como a paz que irradias.

– Se é a tua vontade, Mestre, e pela benevolência de nosso Senhor, recebo esta graça como uma ordem a que devo me entregar com humildade, esperando fazer jus ao que de mim esperas.

– Por todos esses anos que nossa comunidade aqui se instalou, temos trabalhado com o trigo e a uva para desenvolver variedades que nos possam fornecer o pão e o vinho mais propício à comunhão da irmandade, os progressos foram escassos, mas, agora, temos esperança que possas propiciar-nos o que tanto almejamos.

– E como poderia eu ajudar nesse propósito?

– Pelo que temos observado no teu trabalho, as plantas parecem entregar-se com amor aos teus cuidados e desenvolvem-se mais belas e vigorosas, incorporando em suas sementes o amor que lhes dedicas. Queremos que trabalhes com o trigo e a uva, transmitindo-lhes essa tua energia de vida e amor e, assim, incorporando no pão e no vinho, do sacro repasto de nossa santa comunidade, o manancial da Luz que trazes em ti.

– Mestre, tuas palavras parecem querer-me uma graça muita acima das minhas parcas habilidades.

– Tenho ouvido de todos os irmãos filhos da justiça que és a resposta às nossas orações, e que se aproxima o tempo da verdade para os eleitos de Deus. Dedica-te com amor aos trabalhos, pois em ti depositamos todas as nossas esperanças de vencer os agentes das Trevas.

– Que assim seja, Mestre. Amém. Amém.

*

Tendo o sol se posto, os preparativos para o banquete da Pesach estavam sendo realizados sob uma nuvem de apreensão. O início do sábado, no calendário da comunidade, que preserva a perfeita sintonia com o dia em que o Senhor descansou após a Criação, trazia, no coração dos irmãos, sentimentos conflitantes de júbilo e tristeza. Deitado enfraquecido sobre o seu catre, o Mestre exigira estar presente à festividade para exercer, como a tradição e seus deveres exigiam, a sua última celebração daquele momento de agradecimento pela liberdade dos filhos de Israel.

Com voz débil, que somente os mais próximos podiam ouvir, transmitida em corrente destes aos demais, o Mestre recitou as orações de graças e falou de sua alegria por ter coincidido aquela celebração com o Dia do Senhor. Todos estavam temerosos que não conseguisse terminar as bênçãos do pão e do vinho, que aguardavam para realizar a santa comunhão. Agradecendo por ter podido ver o trabalho do seu protegido frutificado, que espalhava o amor mais puro entre os irmãos, advertiu-os sobre os perigos trazidos pelas asas da águia que ameaçavam a comunidade, instados pelos sacerdotes iníquos do Templo que incitavam os saduceus contra eles.

Convidou seu discípulo querido para fazer a leitura da palavra do dia, o qual leu do Testamento de José:

      “Quando ele jazia no seu leito de morte, convocou seus filhos e seus
      irmãos. E falou-lhes: “Meus irmãos, meus filhos! Ouvi José, o bem
      amado de Israel! Escutai, filhos, o vosso pai! Em minha vida, eu vi a
      inveja e a morte; nunca porém me afastei da Verdade do Senhor.
      
      Estes meus irmãos me odiaram; em contrapartida o Senhor me amava.
      Eles tencionaram matar-me; mas o Deus do meu pai protegeu-me.
      Atiraram-me numa cisterna; mas o Altíssimo tirou-me de lá. Fui vendido
      como escravo; o Senhor porém deu-me a liberdade. Fui preso; mas
      amparou-me a sua mão forte. Fui castigado pela fome; mas o próprio
      Senhor me alimentou.
      
      Estive só e Deus ofereceu-me consolo; estive doente e o Altíssimo
      visitou-me. Estive no cárcere e Deus demonstrou-me sua benevolência;
      fui algemado e Ele libertou-me. Fui caluniado e Ele esteve do meu lado;
      fui invejado pelos meus companheiros de prisão e Ele fortaleceu-me.” 

Terminada a leitura, o Mestre agradeceu todo o fervor que o jovem dedicara a transbordar para as suas colheitas a Luz que iluminava o seu espírito. Fez as bênçãos e disse que ainda naquele dia esperava-o um banquete no Paraíso. Tomou o Pão Sagrado, molhou-o no Vinho da regeneração, deu graças e comeu-o, convidando os irmãos para o acompanharem na sagrada comunhão.

*

No templo, em Jerusalém, a notícia da morte do Mestre acendeu os desejos de extirpar definitivamente aquele antro de miseráveis que tanto mal fazia aos negócios da casta. Os sacerdotes estavam ainda mais temerosos pelos rumores que chegavam de um novo espírito que iluminava aquela comunidade de deserdados, atraindo sempre mais prosélitos e diminuindo os sacrifícios no templo. Murmurava-se sobre os efeitos da embriaguez de um vinho novo e de um pão que alimentava os corações de amor e espiritualidade. Temendo que estas notícias se espalhassem causando mais danos, arregimentaram um pequeno exército de sequazes para atacar o mosteiro ao nascer do dia.

A lua já ia alta na noite quando uma boa alma chegou com a notícia do feroz ataque que os sacerdotes estavam preparando. Os irmãos coletaram seus livros sagrados apressadamente e tomaram o rumo das montanhas para se abrigarem nas cavernas. Ao amanhecer, puderam contemplar o fogo que se espalhava por toda a área onde viveram com tanta paz, destruindo as suas lavouras, suas vinhas e suas esperanças.

Permaneceram nas cavernas enquanto duraram as poucas provisões que conseguiram carregar. Deixando os livros protegidos nos jarros em que haviam sido carregados, dispersaram-se os irmãos dirigindo-se para suas terras de origem, esperando um dia reunirem-se novamente, depois que a turba deixada a guardar o mosteiro se retirasse.

Sentindo a dor da destruição de todo o trabalho pacientemente conduzido pelo Mestre, ele repassou os estudos feitos por tantos anos procurando encontrar alento nas muitas vezes em que a escravidão e a dor caíram sobre Israel. Caminhando para Nazaré, contemplando o sol a brilhar sobre os montes, que tanta alegria lhe trazia nos seus trabalhos, luz de cada dia na vida do mundo, refletia sobre os insondáveis caminhos do Senhor nas palavras do profeta Oséias:

       Quem é sábio, para que entenda estas coisas? Quem é prudente, para que as 
       saiba? Porque os caminhos do Senhor são retos, e os justos andarão neles, 
       mas os transgressores neles cairão”.

E aconteceu que, chegando ao Jordão, João ali se encontrava, e dele recebeu o batismo de regeneração e renovação no Espírito Santo.

-o-





sábado, 28 de julho de 2018

A Dança da Fantasia


              A Dança da Fantasia
















Tempo...

Houve tanto tempo.

Tempo... Tempo... Tempo...

O Amor andou maltrapilho, coxo, desgrenhado, arrastando-se

pelas inúmeras salas do seu Templo.

Queria-se cego para não ver suas dolorosas feridas.

Queria-se surdo para não ouvir a ruína de suas entranhas.

Queria-se mudo para poder esquecer-se de chorar.

Tempo...

Por falta do fogo as paredes cobriram-se de úmido esquecimento.

Por falta de alento as janelas fecharam-se ao vento.

Por falta de sombras Aurora não se fez mais acalentar.

Por não falta da dor

o Silêncio

cobriu o Templo

de escuridão sem fundo.

Tempo...

Quando Tudo já era o Nada,

da ausência do seu dote tremeluziu um Tique.

Um sopro? Um murmúrio?  Uma voz? Que falou?

Vinda longe de longe

chocalhou o esquecimento

dos sentidos.

O Amor se fez movimento a procurar o eco.

Uma sombra surgiu no mais escuro calabouço.

Sacudiu as paredes dos fechados ouvidos.

Atormentou as negras cortinas dos olhos.

Destravou os dentes cerrados do amargor.

Sempre...

Eco vibrando as paredes úmidas do Templo.

Aqui...

Sempre aqui...

Sempre aqui... Sempre aqui...

O Amor percebeu naquele canto remoto o nascer daquele Ser

florescendo a cantar

Sempre... Sempre... Sempre...

A Lua lembrou-se do Templo e despejou seus raios sobre o Ser.

O Amor reconheceu

a Fantasia.

Ela lhe estendeu os braços em um convite de dança.

O Sol inundou o Templo de Luz colorindo os acordes de uma valsa.

O Amor dançou nos braços da Fantasia.

Marchetou todas as dobradiças enferrujadas

ouvindo a Música a lhe repetir

Sempre... Sempre... Sempre...

Nos rodopios da dança

no enlaçarem-se no frêmito de vida

um fruto... ousou massacrar a infertilidade:

a Compaixão.

Acalentado nos braços do seu penhor de entrega.

Esquecido de toda a amargura do seu Eu.

O Amor soltou-se dos braços da Fantasia

e dançou a sua recompensa.

E dançou...

E sorriu...

E iluminou o seu Templo.

A Fantasia se liquefez

não devendo mais Ser.

Entregou-se às ondas que murmuravam no vento

Sempre... Sempre... Sempre...

Sempre... Sempre...

Sempre...

...