A Dança da Fantasia
Tempo...
Houve tanto tempo.
Tempo... Tempo... Tempo...
O Amor andou maltrapilho, coxo, desgrenhado, arrastando-se
pelas inúmeras salas do seu Templo.
Queria-se cego para não ver suas dolorosas feridas.
Queria-se surdo para não ouvir a ruína de suas entranhas.
Queria-se mudo para poder esquecer-se de chorar.
Tempo...
Por falta do fogo as paredes cobriram-se de úmido
esquecimento.
Por falta de alento as janelas fecharam-se ao vento.
Por falta de sombras Aurora não se fez mais acalentar.
Por não falta da dor
o Silêncio
cobriu o Templo
de escuridão sem fundo.
Tempo...
Quando Tudo já era o Nada,
da ausência do seu dote tremeluziu um Tique.
Um sopro? Um murmúrio?
Uma voz? Que falou?
Vinda longe de longe
chocalhou o esquecimento
dos sentidos.
O Amor se fez movimento a procurar o eco.
Uma sombra surgiu no mais escuro calabouço.
Sacudiu as paredes dos fechados ouvidos.
Atormentou as negras cortinas dos olhos.
Destravou os dentes cerrados do amargor.
Sempre...
Eco vibrando as paredes úmidas do Templo.
Aqui...
Sempre aqui...
Sempre aqui... Sempre aqui...
O Amor percebeu naquele canto remoto o nascer daquele Ser
florescendo a cantar
Sempre... Sempre... Sempre...
A Lua lembrou-se do Templo e despejou seus raios sobre o
Ser.
O Amor reconheceu
a Fantasia.
Ela lhe estendeu os braços em um convite de dança.
O Sol inundou o Templo de Luz colorindo os acordes de uma
valsa.
O Amor dançou nos braços da Fantasia.
Marchetou todas as dobradiças enferrujadas
ouvindo a Música a lhe repetir
Sempre... Sempre... Sempre...
Nos rodopios da dança
no enlaçarem-se no frêmito de vida
um fruto... ousou massacrar a infertilidade:
a Compaixão.
Acalentado nos braços do seu penhor de entrega.
Esquecido de toda a amargura do seu Eu.
O Amor soltou-se dos braços da Fantasia
e dançou a sua recompensa.
E dançou...
E sorriu...
E iluminou o seu Templo.
A Fantasia se liquefez
não devendo mais Ser.
Entregou-se às ondas que murmuravam no vento
Sempre... Sempre... Sempre...
Sempre... Sempre...
Sempre...
...

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