Paixão diferida
Se lhe
conto a história destrambelhada e inconexa de meu pai, vai me dizer que sou de
muita lorota, mas não sou mesmamente de invencionices, comigo é no pau que
matou cobra e inda guardo o couro da desdita para o conferido.
Num é que
tenho que ditar que o velho no ultimamente estava de um todo alterado, cioso de
engomar o restolho do branco cabelo ralo, e no cioso também das maneiras e
modos de suspirar um não sei quê, que não se faz ouvido no capaz de entender bem
direito a murmuração:
– Ah,
bela... vai voltar!
Nestes
entrecurtos que não se podia atinar com a significância, ele desmudava um pouco
da casmurrice que passara a conceder a todos, depois que o infarto lhe lambeu
um pedaço do coração, e desandava na sua cadeira de balanço a vagar o olho
pelas estrelas que no céu de meio-dia ele parecia vislumbrar.
Não, não
era que ele revertera em inlucidez a sua costumeira ladinagem, pois a sua
pensatriz inda dava conta de suas lides diárias, mas o estranho a nós se
alevantava que vivia assim como aluado, e, tenho um vero medo de denegar que
parecia, não vá julgar que retorço a réstia para dar valor, mas parecia
mesmamente apaixonado.
E também
não é de preconceito ou prejuízo que, de velho, não pode ter uma paixonite. Não,
acho que decerto seria até de bom feitio que fosse assim, mas quem? O papel da
desvalida que faria a meta do velho, quem?
Eu
confesso propriamente meus desmandos: que mandei o Zeca botar tento quando o
velho se perdesse na cismaeira, que restasse perto a jogar bolinhas de gude ou
outra fingição de atarefado no brincar, que desse azo nos suspiros do vô.
– Ahhh...
certo... minha.
Foi o
tudo que o Zeca soube decifrar para redizer.
E foi
nesses entrementes que o Zé da Aninha me gritou lá de fora me apelando comadre,
pra modo me alucinar no relato que o pai tivera um entrevero com o Vasquinho,
lá no jardim da praça. Bem no entretanto, para a paz do meu costume, ele
assegurou que o sucedido foi só de altercação, mas que os ambos dois estavam
cada qual num lado da ala de palmeiras, em bancos distintos, a discutir
incongruências que uma tal haveria de ser minha.
Eu me
afligi num tanto que as consequências do fato foi que fiquei desmentruada por
uns dois ciclos faltantes, o que me ferveu o afligido que estivesse em prenhez
tardia, que o Zeca já estava pelos seus nove anos. Tanto assim fiquei arrazoada,
foi, porque o pai e o Vasquinho eram amigos de eternidade.
Pra você
fazer o entendimento do meu afligido, é de bom grado que lhe conte a história
de mais valor das amizades que embolavam os dois. Em que diga no certo mesmo,
os amigos foram três, que além do Vasquinho cresceu junto o Alfredinho. Mas os
tempos não eram mais de modorra debaixo das palmeiras que cresciam com eles, e
foi no assim que os moleques acordaram em fardas no gelado chão de Lucca, na
Itália. Turismo? Não, imagina! Era deveras na guerra. Em não querer ficar para
trás, deles o mais caçulo, o pai se voluntariou quando os amigos foram
alistados para embarcar na FEB. Nos meus desmandos de menina, em sabendo disso,
fiquei bronqueada com ele em pôr em ameaça a minha não nascença. E tinha ele um
infindo de histórias de agruras do despreparo e pobreza da cobra fumante, que
ele sempre fez muito gosto em mostrar, se instado a perorar, que explicitava
nas fotos que expunha com aprumo.
Mas era
emotivado que rememorava a desconsolação maior: que estava o pelotão gelado de
frio, em patrulhamento sobre o branco da neve, de beleza dos olhos e de perigo
de tiro, na paz de engano que o solzinho decalcava uma casa que se aprumava
mais no fundo valado. Foram achegando no temor de cuidados, espalhados um pouco
na paisagem de amedrontamento. A bem cerca da casa, foram saudados com uma
chuva de granadas, assobiantes, que inda mais que o frio, enregelava o medo. Desprovidos de abrigo,
afundaram na neve do chão, os olhos no apavoramento de ver uma cair no perto. O
pai fala que gastou uma vida naquele pouco esperar dos seus vinte anos
destroçados no detonamento do petardo. Viu a mãe, toda linda em um vestido
verde, a chorar ao lado de uma senhora gravada de preto a balançar a cabeça sem
face. Um calor de vento queimou seu rosto. Quando se deu de volta na neve,
levantou a cabeça só para ver, e viu. Poucos metros de si, Alfredinho expunha
sua barriga e sua dor em berros desmesurados. Arrastou-se até a dor,
susteve-lhe a cabeça no colo. O corpo do amigo, estremecido em desalivio,
agitava tremores. E parou. Vasquinho chegou junto, só para chorar junto. O
tenente deu ordem de retirada. Carregaram o corpo do amigo de retorno.
E foi
nesses despropósitos desarrazoados de acontecimentos que os amigos restaram só
em dois. A memória do Alfredinho foi o grude que nunca deixou que eles se descolassem.
Se acaso me faço clara no seu entendimento, foi isso que me causou a pororoca
que congelou meu sangue no saber do entrevero dos dois.
No
aposentado dos dois, viúvos ambos, foi que ainda mais se aferraram. Como o
dito, onde vai a corda, vai a caçamba. E a corda apreciava era rolar a caçamba
na frescura das árvores do jardim, parolando no breve com os que passavam sem
tempo de lerdeza e nos desocupados enrolando obscenidades e chacotas. E sempre
que o minguado da aposentadoria permitia, tomando umas cervejas no bar da
esquina, que verdade seja dita, de cachaça passavam longe.
Mas agora
mais um desassossego com a tal de injúria entre os dois. Quando pai chegou de
volta naquele dia, fui na intromissão de indagar o motivo da querela. Como
resposta tive um encolher de ombros e um resmungo que me mandava cuidar das
minhas trouxas.
Agora
então que ficou mais desinquieto. O Vasquinho nem apareceu mais para as
partidas de buraco, ficando o baralho voltado para a noite longa e calada das
paciências, interrompidas de momentos pelo suspirar já vezeiro que levantava os
olhos das cartas para enrolar:
– Ela há
de ser minha.
Ou em uma
versão que mais parecia consequência da urucubaca das cartas:
– A
parada será minha.
E foi
nesse desenrolar de uma falta dos costumes antigos, que o pai contou que vira
ou que sonhara, o confuso do relato não deixou pista para mais tomar ciência do
fato ou desfato, que a dona aparecera pra ele, de anos passados, mas com a
beleza dos desejos tremeluzindo no seu olhar, que ele repetia sem cessar que
agora ela tinha olhos, e os mais vivos de brilho de uma luz alaranjada, que
envolvia seu corpo de um amor fulgurante. E repetia:
– É
minha, é minha, é minha.
Foi
quando para quebrar os devaneios chegou a nota de dolor que no improviso da
tarde quente foi trazida pelo vizinho:
– Seu
Jurandir, sinto um tanto de trazer tristeza, mesmo que vocês estavam
estremecidos, mas o Vasquinho...
– Que tem
aquele derrotado?
– Ele
teve um novo infarto...
– Deve
ser só de manha..
– E faleceu.
O grito
que bateu nas conchas dos ouvidos a princípio embarafustou susto, no temor do
choque da notícia, mas o pai, atarantado, desandou a berrar:
–
Traidora! Ela me traiu deslavadamente! só me engabelou no sonho.
Ainda
encurralada pelo não saber se de choque ou de loucura, perguntei pro pai o que
estava a dizer, mas ele, em desconexo agir, só embolava as mãos na cabeça,
chorando no arrebatado gesto:
– Ela
escolheu ele!
-o-


