sábado, 20 de janeiro de 2018

Paixão diferida



Paixão diferida




Se lhe conto a história destrambelhada e inconexa de meu pai, vai me dizer que sou de muita lorota, mas não sou mesmamente de invencionices, comigo é no pau que matou cobra e inda guardo o couro da desdita para o conferido.

Num é que tenho que ditar que o velho no ultimamente estava de um todo alterado, cioso de engomar o restolho do branco cabelo ralo, e no cioso também das maneiras e modos de suspirar um não sei quê, que não se faz ouvido no capaz de entender bem direito a murmuração:

– Ah, bela... vai voltar!

Nestes entrecurtos que não se podia atinar com a significância, ele desmudava um pouco da casmurrice que passara a conceder a todos, depois que o infarto lhe lambeu um pedaço do coração, e desandava na sua cadeira de balanço a vagar o olho pelas estrelas que no céu de meio-dia ele parecia vislumbrar.

Não, não era que ele revertera em inlucidez a sua costumeira ladinagem, pois a sua pensatriz inda dava conta de suas lides diárias, mas o estranho a nós se alevantava que vivia assim como aluado, e, tenho um vero medo de denegar que parecia, não vá julgar que retorço a réstia para dar valor, mas parecia mesmamente apaixonado.

E também não é de preconceito ou prejuízo que, de velho, não pode ter uma paixonite. Não, acho que decerto seria até de bom feitio que fosse assim, mas quem? O papel da desvalida que faria a meta do velho, quem?

Eu confesso propriamente meus desmandos: que mandei o Zeca botar tento quando o velho se perdesse na cismaeira, que restasse perto a jogar bolinhas de gude ou outra fingição de atarefado no brincar, que desse azo nos suspiros do vô.

– Ahhh... certo... minha.

Foi o tudo que o Zeca soube decifrar para redizer.

E foi nesses entrementes que o Zé da Aninha me gritou lá de fora me apelando comadre, pra modo me alucinar no relato que o pai tivera um entrevero com o Vasquinho, lá no jardim da praça. Bem no entretanto, para a paz do meu costume, ele assegurou que o sucedido foi só de altercação, mas que os ambos dois estavam cada qual num lado da ala de palmeiras, em bancos distintos, a discutir incongruências que uma tal haveria de ser minha.
Eu me afligi num tanto que as consequências do fato foi que fiquei desmentruada por uns dois ciclos faltantes, o que me ferveu o afligido que estivesse em prenhez tardia, que o Zeca já estava pelos seus nove anos. Tanto assim fiquei arrazoada, foi, porque o pai e o Vasquinho eram amigos de eternidade.

Pra você fazer o entendimento do meu afligido, é de bom grado que lhe conte a história de mais valor das amizades que embolavam os dois. Em que diga no certo mesmo, os amigos foram três, que além do Vasquinho cresceu junto o Alfredinho. Mas os tempos não eram mais de modorra debaixo das palmeiras que cresciam com eles, e foi no assim que os moleques acordaram em fardas no gelado chão de Lucca, na Itália. Turismo? Não, imagina! Era deveras na guerra. Em não querer ficar para trás, deles o mais caçulo, o pai se voluntariou quando os amigos foram alistados para embarcar na FEB. Nos meus desmandos de menina, em sabendo disso, fiquei bronqueada com ele em pôr em ameaça a minha não nascença. E tinha ele um infindo de histórias de agruras do despreparo e pobreza da cobra fumante, que ele sempre fez muito gosto em mostrar, se instado a perorar, que explicitava nas fotos que expunha com aprumo.

Mas era emotivado que rememorava a desconsolação maior: que estava o pelotão gelado de frio, em patrulhamento sobre o branco da neve, de beleza dos olhos e de perigo de tiro, na paz de engano que o solzinho decalcava uma casa que se aprumava mais no fundo valado. Foram achegando no temor de cuidados, espalhados um pouco na paisagem de amedrontamento. A bem cerca da casa, foram saudados com uma chuva de granadas, assobiantes, que inda mais que o frio, enregelava o medo. Desprovidos de abrigo, afundaram na neve do chão, os olhos no apavoramento de ver uma cair no perto. O pai fala que gastou uma vida naquele pouco esperar dos seus vinte anos destroçados no detonamento do petardo. Viu a mãe, toda linda em um vestido verde, a chorar ao lado de uma senhora gravada de preto a balançar a cabeça sem face. Um calor de vento queimou seu rosto. Quando se deu de volta na neve, levantou a cabeça só para ver, e viu. Poucos metros de si, Alfredinho expunha sua barriga e sua dor em berros desmesurados. Arrastou-se até a dor, susteve-lhe a cabeça no colo. O corpo do amigo, estremecido em desalivio, agitava tremores. E parou. Vasquinho chegou junto, só para chorar junto. O tenente deu ordem de retirada. Carregaram o corpo do amigo de retorno.

E foi nesses despropósitos desarrazoados de acontecimentos que os amigos restaram só em dois. A memória do Alfredinho foi o grude que nunca deixou que eles se descolassem. Se acaso me faço clara no seu entendimento, foi isso que me causou a pororoca que congelou meu sangue no saber do entrevero dos dois.

No aposentado dos dois, viúvos ambos, foi que ainda mais se aferraram. Como o dito, onde vai a corda, vai a caçamba. E a corda apreciava era rolar a caçamba na frescura das árvores do jardim, parolando no breve com os que passavam sem tempo de lerdeza e nos desocupados enrolando obscenidades e chacotas. E sempre que o minguado da aposentadoria permitia, tomando umas cervejas no bar da esquina, que verdade seja dita, de cachaça passavam longe.

Mas agora mais um desassossego com a tal de injúria entre os dois. Quando pai chegou de volta naquele dia, fui na intromissão de indagar o motivo da querela. Como resposta tive um encolher de ombros e um resmungo que me mandava cuidar das minhas trouxas.

Agora então que ficou mais desinquieto. O Vasquinho nem apareceu mais para as partidas de buraco, ficando o baralho voltado para a noite longa e calada das paciências, interrompidas de momentos pelo suspirar já vezeiro que levantava os olhos das cartas para enrolar:

– Ela há de ser minha.

Ou em uma versão que mais parecia consequência da urucubaca das cartas:

– A parada será minha.

E foi nesse desenrolar de uma falta dos costumes antigos, que o pai contou que vira ou que sonhara, o confuso do relato não deixou pista para mais tomar ciência do fato ou desfato, que a dona aparecera pra ele, de anos passados, mas com a beleza dos desejos tremeluzindo no seu olhar, que ele repetia sem cessar que agora ela tinha olhos, e os mais vivos de brilho de uma luz alaranjada, que envolvia seu corpo de um amor fulgurante. E repetia:

– É minha, é minha, é minha.

Foi quando para quebrar os devaneios chegou a nota de dolor que no improviso da tarde quente foi trazida pelo vizinho:

– Seu Jurandir, sinto um tanto de trazer tristeza, mesmo que vocês estavam estremecidos, mas o Vasquinho...

– Que tem aquele derrotado?

– Ele teve um novo infarto...

– Deve ser só de manha..

– E faleceu.

O grito que bateu nas conchas dos ouvidos a princípio embarafustou susto, no temor do choque da notícia, mas o pai, atarantado, desandou a berrar:

– Traidora! Ela me traiu deslavadamente! só me engabelou no sonho.

Ainda encurralada pelo não saber se de choque ou de loucura, perguntei pro pai o que estava a dizer, mas ele, em desconexo agir, só embolava as mãos na cabeça, chorando no arrebatado gesto:

– Ela escolheu ele!

-o-

domingo, 14 de janeiro de 2018

Marina e a Borboleta



Marina e a Borboleta

                                                                                                   
                                                                                           “Eu achei que era eu, Chuang Tzu, que tivesse sonhado
                                                                                           ser uma borboleta, mas, e se, agora, sou uma borboleta
                                                                                           que está sonhando ser Chuang tzu?"




– Olha, mamãe! Uma flor voando no céu.

– É uma borboleta, Marina.

– Que bonita ela é, mamãe.

Marina, não corra, tome cuidado!

– Tá, mamãe.

Marina brincava no jardim. A luz espalhando-se entre as folhas das árvores desenhava no chão um caleidoscópio de sombras e luz. Alheia ao pedido da mãe, corria atrás da flor esvoaçante. A borboleta se entregava ao calor do sol, que dava forças a suas asas, e ao balançar às carícias do vento, subindo e descendo entre as folhas das árvores.

Desistindo de acompanhar as asinhas espertas, Marina brincava no chão com a sombra da borboleta, que surgia de repente em uma malha de luz sobre o chão, e desaparecia na sombra das folhas das árvores.

A pequena borboleta pousou sobre uma flor. Fechando as asas para descansar, provou-lhe o néctar. Não teve tempo de saborear a delícia, num susto desesperado, alçou voo novamente. Fugindo do bico de um bem-te-vi, pousou sobre o ombro da menina, que ficou imobilizada pelo prazer e pelo receio de espantar a borboletinha.

– Ai! que susto enorme!

Marina ficou ainda mais espantada, parecia-lhe ter ouvido a borboleta falar com ela.

– Ufa! Ainda bem que você está aqui para me proteger! Aquele monstro de bico não vai ter coragem de me atacar aqui.

Marina estava ainda paralisada, mas finalmente reagiu:

– Você fala?

– Não, não como você, mas posso falar direto na sua cabecinha.

– O passarinho quase te pegou

– Você viu, escapei por pouco daquela coisa monstruosa!

– Eu não acho que o passarinho é um monstro, eu gosto dele.

– Você não acha porque você é grande, ele não pode fazer-lhe mal, mas ele é um perigo enorme para as borboletas.

– Eu não sou grande, sou pequenina.

– Para mim, você é muito grande!

Enquanto tudo isso acontecia, depois de algumas horas a espalhar sua luz, o sol havia desaparecido entre as nuvens, deixando o calor murchar. As nuvens chegavam negras e ameaçadoras. A mamãe de Marina logo chamou:

– Marina, vamos embora que a chuva não vai demorar.

E a borboleta novamente voltou a ficar medrosa.

– Ai, chuva!

– Você não gosta de chuva? Eu também não, porque tenho que ficar presa em minha casa.

– A chuva é muito perigosa para nós, borboletas. Nossas asas são muito frágeis, e as gotas de chuva caem como bombas sobre elas.

– Você tem medo de uma gotinha de chuva!?

– Muito medo! Quando chove tenho que me esconder debaixo de uma folha ou de uma flor. Se uma gota me derrubar, minhas asas ficam encharcadas, e não posso voar. E uma gota maior pode até furar minha asinha.

– Poxa! Há muita coisa perigosa em sua vida!

– É muito gostoso voar livre por aí e poder beber o suco docinho das flores, mas tenho de estar alerta todo o tempo para evitar os perigos. Até nas flores corremos risco de cair nas garras de uma aranha escondida.

– Então, venha comigo, lá em casa você vai ficar protegida da chuva.

A mamãe de Marina sorriu ao vê-la chegar saltitante com a borboleta voando ao redor dela. Quando deu as mãos a sua mamãe, a borboleta voltou a pousar sobre o seu ombro.

– Você arrumou uma nova amiguinha?

– Ela não é linda, mamãe? Ela me disse que estava com medo da chuva, e eu a convidei para ir lá para casa.

A mamãe de Marina sorriu com a fantasia da filhinha.

– E você entende a linguagem das borboletas?

– Entendo tudinho que ela fala bem aqui dentro da minha cabeça.

– Ah!

Somente seu irmão, ao chegar em casa, entre ciúmes e disputas, disse que ela era uma boba por acreditar que a borboleta falava com ela, e tentou pegar a borboleta. A pequenina, novamente assustada, voou e foi descansar no alto de uma prateleira da estante. Depois que o menino se cansou de chatear a irmã e retirou-se, ela desceu novamente e pousou na mão de Marina.

– Ai, tive medo novamente que aquela mãozona machucasse minhas asinhas.

– Nossa, suas asas parecem ter dois olhos redondos e pretos! São tão bonitas!

– Os seus olhos também são muito bonitos.

As duas brincaram enquanto a chuva caía lá fora. Quando Marina quis brincar de pique esconde, não teve jeito, pois a borboleta conseguia ver a menina mesmo se ela tentava se aproximar por trás das asas dela. Mas nem por isso faltava brincadeiras para as duas.

A chuva se foi. A borboleta estava cansada, pois a chuva baixara a temperatura, que era necessária para a borboleta ter energia.

– Vou ter que ir embora, ganhar forças para passar a noite.

Marina sentiu tristeza, mas não queria que sua amiguinha sofresse.

– Está bem, mas volte sempre que quiser.

Marina viu a borboletinha se afastar batendo suas asas e pensou novamente que era como uma flor esvoaçante.

Talvez ela tenha tentado voltar, talvez a sua natureza a tenha levado para outros jardins. Talvez... Mas o certo é que ficou para Marina a carícia daquele dia de tanta alegria.





sábado, 6 de janeiro de 2018

A porta negra


A porta negra




Quando a porta que se abriu desta vez a sua frente, só lhe mostrou um negro sem luz alguma, ele olhou para baixo com olhar interrogativo, e viu que o Guardião o embalava com o olhar, e lhe fez um aceno com a mão espalmada, por ele interpretado como um desejo de paz para o seu coração. Não foi sem inquietude que ele se afundou pela escuridão, ouvindo um murmúrio que congelou suas apreensões.

– Observa bem este trecho de estrada. Saindo da curva que termina no alto do aclive, existe um restaurante à direita muito frequentado, um grande entra e sai de veículos e pessoas. A estrada desce novamente por cerca de trezentos metros e faz uma curva acentuada para a direita, assentada sobre uma ponte, depois ela corre reta por mais algumas centenas de metros. Logo à frente da ponte, à direita, um entroncamento dá acesso a uma cidade. A noite está adiantada, já é quase meia-noite. Voltemos lá no alto do trecho, no restaurante, e vamos esperar esse carro que agora aparece no alto, contornando a curva. O motorista tem ao seu lado sua, desde a tarde deste mesmo dia, esposa; somente eles no veículo, aconchegados um ao outro.

– Ela recostou-se no ombro dele, cansada do dia atarefado e da recepção, e adormeceu.

– O carro passou, vamos acompanhá-lo. O motorista está cansado, tentara de todo jeito sair mais cedo, não conseguiu, pois os convidados necessitavam atenção. Neste momento ele se alegra, porque em mais uns dez quilômetros eles chegarão onde vão pernoitar. Pela cabeça um pensamento também relaxante lhe traz a doce sensação de que as cansativas viagens semanais estavam terminadas, eles estariam sempre juntos; mas, logo, como um choque num espelho invisível, um pensamento não tão agradável corre em sentido contrário, que ele afugenta com certo ar de enfado. Ele relaxa ouvindo o ressonar de sua esposa, enquanto o carro percorre o declive sem muita pressa. Chega ao final da descida, começa a fazer a curva à direita. Os olhos pesam, demoram um pouco mais do que o necessário para subir novamente as pálpebras pesadas.

– Oh, não

–  Saídos do escuro, os olhos veem o farol do carro em direção à lateral da ponte. Susto. A reação do motorista se faz com excessiva força e brusco golpe no volante. O carro faz uma curva acentuada para a esquerda, ultrapassa o limite da estrada, falta-lhe o chão. O choque com o solo provoca um tremendo barulho que o morador daquela casinha, que fica ali, cerca de quinhentos metros da estrada, ouviu. Observa-o, ele vai à janela procurando na escuridão da noite, mas nenhum sinal do que teria provocado o barulho, apenas ouve o ronco dos motores dos carros que se aproximam e se afastam ao longo da estrada.

– Mas por que você não interferiu?

– Não podia interferir, era necessário que ele fizesse uma parada em sua trajetória pela vida.

– E a menina, ela também tinha que fazer a parada?

– A trajetória dos dois é totalmente emaranhada, os efeitos e os resultados não se podem discernir, não podem ser separados e isolados.

– Mas veja o carro, o fogo se propaga pelo motor, eles vão ser carbonizados!

– Não, não há risco de dano semelhante. O tanque de gasolina fica na parte de trás, o cano que a conduz ao motor está amassado e o carro está inclinado com o motor mais alto.
Eles ficarão inconscientes cerca de meia hora. Vamos nos adiantar. Agora ele acorda. Está confuso, olha para sua querida esposa desacordada ao seu lado, ainda não tem consciência do que aconteceu. Sobressalta-se quando entende que houve um acidente. Ele vê um clarão subindo do motor do carro, a tampa do motor levantada impede sua visão. Ele chama: July! Só tem como resposta um gemido débil.

Ele sai do carro e vê o fogo que está consumindo o motor. Apavorado, volta e retira como pode sua esposa; ela ainda não acordou. Carrega-a um pouco mais longe do carro, o terreno é alagadiço, seus pés afundam na água e no barro mole, ele deita-a no chão, porque não tem mais forças para aguentá-la.

O fogo agora já acabou, ele apenas vira o final. Ele precisa de ajuda e grita por socorro. Arrasta-se pela rampa que leva ao piso da estrada. Ele retira a camisa, agita-a, e grita por socorro. Os carros passam direto por ele, quem poderia parar para um louco à beira da estrada àquela hora da noite? O carro está lá embaixo, nenhum sinal do acidente. Ele desce novamente para ir atrás de sua esposa, quer se inteirar do seu estado. Ela ainda está desacordada. Ele chora. Não sabe o que fazer. Sobe de novo para a estrada, grita, agita a camisa. Ninguém para. Ele desce novamente, vai vê-la. Ela continua no mesmo estado, mas pelo menos ele sabe que ela está viva. Sobe novamente para a estrada. Vê uma Kombi chegando devagar. Ela está parando!

– Você não podia ter interferido para que algum carro parasse antes?

– E você acha que seria fácil vencer o medo do desconhecido que apavora os motoristas que passam, mesmo de uma alma assaz benevolente? Além do mais, já lhe disse que é necessário o seu estágio nestas paragens. Busquei ajuda naquela casa ali perto da estrada, onde alguém aparecera na janela. O morador da casa, não tendo percebido nada de anormal, foi tomar um banho, e depois foi jantar. Foi então que ele ouviu os gritos de socorro. Terminando afobadamente seu prato, pegou sua Kombi e foi ver se podia fazer algo pelos acidentados.

Aquele ser compassivo tomou a menina inconsciente nos braços, levou-a para a Kombi e seguiram para o hospital de Leopoldina. No trajeto as perguntas do samaritano ajudaram a desviá-lo da sua insegura situação. Em alguns minutos chegaram ao hospital. Ela foi atendida, estava em estado de choque. Os médicos lhe acalmaram dizendo-lhe que o pior já passara, e que agora ele é que precisava ser atendido, pois o sangue lhe manchava quase todo o corpo, mas pouco era dele mesmo. O sangue que lhe manchava a roupa quase todo era de sua esposa, apenas o que lhe escorria pelo pé era de um ferimento no joelho que precisou de alguns pontos.

Recebidos os pontos e vendo sua esposa ser atendida, ele relaxou um pouco. Uma dor imensa cresceu-lhe no peito, que doía intensamente quando ele puxava o ar para o pulmão. Ele queria parar de respirar, pois a dor era muita. Fazia-o com dificuldade. Ele já havia percebido, quando ainda no carro, que o volante do carro havia se quebrado contra o seu peito, e, somente agora, esfriado, a dor do choque começara a fazer efeito. Foi medicado e ficou ao lado da esposa que esperava as providências para fazer os exames de Raio X.

E desde aquele momento a sua situação começou a mostrar-lhe o horror dos dias futuros. E não se conformava. Seria a viagem toda de apenas uma hora até Leopoldina, e já tão perto... Voltou-lhe à mente as preocupações que estava tendo já há alguns dias antes do casamento: havia mudado de emprego, em uma situação muito vantajosa, mas descobrira depois que seus novos patrões não estavam em situação de cumprir tudo o que lhe fora prometido; recebia em atraso, e as dívidas da empresa com ele se acumulavam.
Os exames revelaram que sua esposa tinha quebrado três costelas, e que o fêmur direito se tinha partido em três pedaços. Dor. Os seus dentes da frente também estavam quebrados ou arrancados. Dor. Só dor. Madrugada de horror naquela enfermaria, e ela ainda nada sabia, mas agora estava sedada. De manhã, foram levados para um quarto. As chapas revelaram que as fraturas do fêmur teriam que ser corrigidas com uma placa de platina para juntar os fragmentos.

A família no dia seguinte começou a aparecer. Primeiro seu pai, que lhe deu o apoio necessário para ajudar a tranquilizá-lo; depois, sua irmã, que chegando em Belo Horizonte, recebeu a notícia, e retornou imediatamente. Lá em Leopoldina morava um tio do seu cunhado, sua referência na cidade, e ao dar entrada no hospital pedira que ele fosse avisado; pessoa muito querida na cidade e conhecido por todos no hospital, logo que soube, chegou bem cedo para prestar ajuda.

Onde poderia ser feito a intervenção cirúrgica? Ali mesmo havia um grande ortopedista, foi-lhe garantido. O Professor assegurava a capacidade e a eficiência do cirurgião, que também era médico de renome no Rio de janeiro. O seu pai consultou um primo médico em Juiz de Fora, que também reforçou as habilidades do cirurgião.

A operação não poderia ser realizada enquanto o estado da paciente não estivesse adequado, pois além do estado de choque, um princípio de pneumonia havia aparecido. Ficaram à espera, e algumas visitas incômodas também apareciam para aumentar-lhes o desconforto. E a operação foi realizada, aparentemente muito bem executada. Porém, somente com os exames realizados mais tarde em Belo Horizonte, seria percebido que, embora a cirurgia tenha sido realizada com a mais perfeita técnica, o apoio do fêmur na bacia ficara com um erro de inclinação, o que deixou a perna direita mais curta que a esquerda.

Mas, ainda no hospital, os dias se arrastavam. Sua única atividade era cuidar da esposa. Um sentimento de culpa não deixava de atormentá-lo, mas dela jamais ouviu qualquer palavra que não fosse apenas um gemido por uma dor, ou um incômodo pelo gesso que lhe imobilizava a perna até a cintura. Ele aliava, com a sua preocupação com as condições da esposa, uma outra, referente ao estado da sua nova empregadora, que sem ele ficaria ainda mais em apuros. Disse-lhe o diretor que estavam conseguindo equacionar os trabalhos e que não se preocupasse, gastasse quanto dias fossem necessários, o que não foi suficiente para acalmá-lo, pois sabia da falta que faria.

E foram se acumulando os dias no hospital até que os médicos a liberassem para viajar, vinte e sete dias, e na sua cabeça havia um emaranhado de indolência, preocupação e, crescendo com obstinação, algo que ele ainda não acreditava que pudesse estar acontecendo.

– E o que era?

– Veja a luz que brilha além da porta, desperta, você está novamente no salão das portas.


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