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quarta-feira, 19 de agosto de 2020

As travessuras do Jesus Menino - 6. Lagarta

 

As travessuras do Jesus Menino

 


 

Tenho na memória, talvez fabricada, as estórias que minha avó me contava, não sei se saídas da sua invenção ou da sua capacidade de simples narração para embalar o meu sono, sobre as peripécias de Jesus, quando menino, carregadas de espertezas que os seus poderes potencializavam. Vou tentar aqui deixar fluir neste papel essa memória, onde espero poder transmitir a graça com que me divertia.

 

6. Lagarta

Naquele tempo, Jesus, criança ainda pequena, gostava de andar pelo quintal aproveitando o fresco sol da manhã, que dá vida às plantas e movimenta os pequenos bichinhos que existem entre elas. Cada nova flor desabrochada era razão para ficar a admirar o milagre da sua beleza doadora, cada bichinho a passear era motivo para uma prosinha de boas-vindas.

Uma lagarta riscadinha entre o preto e o amarelo, agitando a cabeça de um lado para outro, pareceu-lhe nervosa e o incitou a indagar-lhe o motivo da sua ansiedade. Respondeu-lhe o bichinho que, por contemplar tanta beleza das flores ao seu redor, estava pesarosa por carregar sua aparência asquerosa rastejando por aquele galho; que gostaria de, como elas, ser um enfeite para o jardim e, ao invés de se encolher de medo, sempre a temer o bico afiado de um pássaro, de poder lançar-se pelos ares enchendo de graça o quintal.

Embora Jesus achasse que cada bichinho, a seu modo, contribuísse para a beleza, ficou sensibilizado pela ansiedade da lagarta e, pensando em como poderia ajudá-la sem interferir demais na sua natureza, achou uma solução que lhe pareceu bastante satisfatória e lhe propôs:

– Acho que você poderia resolver sua tristeza passando um tempo com sua forma atual e depois se transformando em uma flor com asas. Seria assim: enquanto você estiver nessa sua forma atual, você comeria muito para acumular energia; estando bem forte, você teceria um casulo ao seu redor com fios que você produziria e passaria nele o tempo necessário para transformar-se, colorir-se e gerar asas fortes; nos seus pés você poderia sentir o gosto de todas as flores em que pousaria e seus filhos nasceriam dos seus ovos como novas lagartas. Que tal?

A lagarta aprovou a ideia com muita alegria e pediu logo que ele lhe desse a genética necessária para mudar o seu destino, o que lhe foi prontamente concedido. Ela então com muita gana passou a comer as folhas para se preparar, engordou e iniciou o seu casulo. Duas semanas depois, deixando o casulo, um azul intenso com extremidades negras jogou-se no ar a provar o sol, o vento e as flores.

Jesus viu cedinho a bela borboleta a dançar sob a luz do sol e, felicitando-a, ouviu o seu agradecimento por lhe ter dado tamanha beleza. Jesus respondeu-lhe: “Obrigado a você por alegrar tanto a minha manhã”.

– Ih, Vó, desta vez a senhora embolou bem os milagres da genética com os do Jesus menino!

E a vó se foi a resmungar:

– Com essas crianças de hoje, fica difícil desenrolar uma boa estória!


terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Na Figueira



Na Figueira




Caraco estendeu as suas antenas espreguiçando-se:  – Ah, que preguiça, que sono bom. Pôs a cabeça para fora, a lua brilholhava no céu alto. – Ah, que preguiça, já serão horas de mastigar? Procurou o relógio no bolso para saber do adiantado da hora, só então se lembrou que não tinha bolso nem relógio. Mas devia ser hora, pois sentia como se na sua casinha pudesse caber outro ele, de tão esmagriçado, a concha larga; de tanta fome seria capaz de comer uma árvore inteira! Inclinou a cabeça, encaracolou-se todo, depois se esticou e lá foi ao léu a procurar as folhas que mais gostava para empaturrar-se, sem destino, no caminho traçado pelo seu leeento rastro brilhante.

– Ah, bom seria parar debaixo de uma goiabeira, estou a morrer de saudade de um jantar de uma goiabada de folhas.

Caraco era um andatrilho. Onde pudesse e quisesse estacionar sua concha, deixava-se tombar, de preferência onde o cheirinho de folhas tenras agitasse as suas antenas. Morava em todo lugar e não morava em deslugar nenhum.

– Cansei, andei tanto, devo ter cruzado uma lonjuritude de dez metros, vou abarracar-me aqui debaixo desta figueira.

Em cima, sobre uma folha da figueira, Lagata interrompeu a sua comilança para observar o caracol que abocanhava as folhas decaídas no chão. Esqueceu-se da sua gulodice atraída por um não sei o quê que bisbilhotava nos seus meandros dos miolos. Sentiu-se infeliz presa naquele ramo de figueira, sem novos horizontes a conhecer.

– Que belo ele é desfilando com sua casa por todo o jardim, que bom seria fazer morada onde se quisesse - no meio de tanta tristeza, caiu no sono.

Quando acordou, escarafunchou o chão em busca do belo caracol e não o encontrou mais. Suspirou. O bichinho do amor havia penetrado em sua pele novinha e lá fizera morada. Contou as suas saudades para uma formiga, sua velha conhecida, e pediu-lhe que escrevesse em uma folha uma carta de amor. A formiga, compadecida e prestimosa, usou os seus ferrões para picotar uma folha com as letras mais bonitas.

– CEP? - pediu a formiga.

– Oh, como fazer? se ele não tinha morada fixa?

Vendo a aflição de Lagata, Dona Joaninha se ofereceu, como boa mensageira que era, para procurar o andatrilho. Mesmo com suas asas ligeiras, demorou alguns dias para encontrar o lento nômade a dorminhocar debaixo de uma goiabeira. A carta lhe foi entregue, e, para dizer a verdade, causou-lhe comoção. Pôs-se a caminho para voltar à figueira, sem pressa, que não a sabia cultivar. Bom, vamos ser mais justos, não a podia cultivar.

Muitos dias depois, Caraco chegou à figueira onde morava sua esperançosa apaixonada. Esperou pacientemente que ela se revelasse. E nada aconteceu. A formiga que picotara a carta viu o caracol perdido a olhar para o alto e lhe contou:

– Ela esperou tanto, e a tristeza a fez recolher-se em um casulo. Vê, ali em cima? mas agora ele está vazio, pois ela está voando ali – ela apontou para uma borboleta – e em sua nova forma ela nem mais se lembra que um dia sentiu tristeza por viver presa em um galho de figueira, acho que ela não tem recordações de sua vida passada, nem de seu antigo amor.

E aquele bichinho que um dia picou a lagarta, fez ponto nas antenas do caracol:

– Que belo seria voar ao seu lado!

-o-

domingo, 14 de janeiro de 2018

Marina e a Borboleta



Marina e a Borboleta

                                                                                                   
                                                                                           “Eu achei que era eu, Chuang Tzu, que tivesse sonhado
                                                                                           ser uma borboleta, mas, e se, agora, sou uma borboleta
                                                                                           que está sonhando ser Chuang tzu?"




– Olha, mamãe! Uma flor voando no céu.

– É uma borboleta, Marina.

– Que bonita ela é, mamãe.

Marina, não corra, tome cuidado!

– Tá, mamãe.

Marina brincava no jardim. A luz espalhando-se entre as folhas das árvores desenhava no chão um caleidoscópio de sombras e luz. Alheia ao pedido da mãe, corria atrás da flor esvoaçante. A borboleta se entregava ao calor do sol, que dava forças a suas asas, e ao balançar às carícias do vento, subindo e descendo entre as folhas das árvores.

Desistindo de acompanhar as asinhas espertas, Marina brincava no chão com a sombra da borboleta, que surgia de repente em uma malha de luz sobre o chão, e desaparecia na sombra das folhas das árvores.

A pequena borboleta pousou sobre uma flor. Fechando as asas para descansar, provou-lhe o néctar. Não teve tempo de saborear a delícia, num susto desesperado, alçou voo novamente. Fugindo do bico de um bem-te-vi, pousou sobre o ombro da menina, que ficou imobilizada pelo prazer e pelo receio de espantar a borboletinha.

– Ai! que susto enorme!

Marina ficou ainda mais espantada, parecia-lhe ter ouvido a borboleta falar com ela.

– Ufa! Ainda bem que você está aqui para me proteger! Aquele monstro de bico não vai ter coragem de me atacar aqui.

Marina estava ainda paralisada, mas finalmente reagiu:

– Você fala?

– Não, não como você, mas posso falar direto na sua cabecinha.

– O passarinho quase te pegou

– Você viu, escapei por pouco daquela coisa monstruosa!

– Eu não acho que o passarinho é um monstro, eu gosto dele.

– Você não acha porque você é grande, ele não pode fazer-lhe mal, mas ele é um perigo enorme para as borboletas.

– Eu não sou grande, sou pequenina.

– Para mim, você é muito grande!

Enquanto tudo isso acontecia, depois de algumas horas a espalhar sua luz, o sol havia desaparecido entre as nuvens, deixando o calor murchar. As nuvens chegavam negras e ameaçadoras. A mamãe de Marina logo chamou:

– Marina, vamos embora que a chuva não vai demorar.

E a borboleta novamente voltou a ficar medrosa.

– Ai, chuva!

– Você não gosta de chuva? Eu também não, porque tenho que ficar presa em minha casa.

– A chuva é muito perigosa para nós, borboletas. Nossas asas são muito frágeis, e as gotas de chuva caem como bombas sobre elas.

– Você tem medo de uma gotinha de chuva!?

– Muito medo! Quando chove tenho que me esconder debaixo de uma folha ou de uma flor. Se uma gota me derrubar, minhas asas ficam encharcadas, e não posso voar. E uma gota maior pode até furar minha asinha.

– Poxa! Há muita coisa perigosa em sua vida!

– É muito gostoso voar livre por aí e poder beber o suco docinho das flores, mas tenho de estar alerta todo o tempo para evitar os perigos. Até nas flores corremos risco de cair nas garras de uma aranha escondida.

– Então, venha comigo, lá em casa você vai ficar protegida da chuva.

A mamãe de Marina sorriu ao vê-la chegar saltitante com a borboleta voando ao redor dela. Quando deu as mãos a sua mamãe, a borboleta voltou a pousar sobre o seu ombro.

– Você arrumou uma nova amiguinha?

– Ela não é linda, mamãe? Ela me disse que estava com medo da chuva, e eu a convidei para ir lá para casa.

A mamãe de Marina sorriu com a fantasia da filhinha.

– E você entende a linguagem das borboletas?

– Entendo tudinho que ela fala bem aqui dentro da minha cabeça.

– Ah!

Somente seu irmão, ao chegar em casa, entre ciúmes e disputas, disse que ela era uma boba por acreditar que a borboleta falava com ela, e tentou pegar a borboleta. A pequenina, novamente assustada, voou e foi descansar no alto de uma prateleira da estante. Depois que o menino se cansou de chatear a irmã e retirou-se, ela desceu novamente e pousou na mão de Marina.

– Ai, tive medo novamente que aquela mãozona machucasse minhas asinhas.

– Nossa, suas asas parecem ter dois olhos redondos e pretos! São tão bonitas!

– Os seus olhos também são muito bonitos.

As duas brincaram enquanto a chuva caía lá fora. Quando Marina quis brincar de pique esconde, não teve jeito, pois a borboleta conseguia ver a menina mesmo se ela tentava se aproximar por trás das asas dela. Mas nem por isso faltava brincadeiras para as duas.

A chuva se foi. A borboleta estava cansada, pois a chuva baixara a temperatura, que era necessária para a borboleta ter energia.

– Vou ter que ir embora, ganhar forças para passar a noite.

Marina sentiu tristeza, mas não queria que sua amiguinha sofresse.

– Está bem, mas volte sempre que quiser.

Marina viu a borboletinha se afastar batendo suas asas e pensou novamente que era como uma flor esvoaçante.

Talvez ela tenha tentado voltar, talvez a sua natureza a tenha levado para outros jardins. Talvez... Mas o certo é que ficou para Marina a carícia daquele dia de tanta alegria.