Marina
e a Borboleta
“Eu achei que era eu, Chuang Tzu, que tivesse sonhado
ser uma borboleta, mas, e se, agora, sou uma borboleta
que está sonhando ser Chuang tzu?"
que está sonhando ser Chuang tzu?"
– Olha,
mamãe! Uma flor
voando no céu.
– É
uma borboleta, Marina.
– Que
bonita ela é, mamãe.
– Marina,
não corra, tome cuidado!
– Tá,
mamãe.
Marina
brincava no jardim. A luz espalhando-se entre as folhas das árvores desenhava
no chão um caleidoscópio de sombras e luz. Alheia ao pedido da mãe, corria
atrás da flor esvoaçante. A borboleta se entregava ao calor do sol, que dava
forças a suas asas, e ao balançar às carícias do vento, subindo e descendo
entre as folhas das árvores.
Desistindo
de acompanhar as asinhas espertas, Marina brincava no chão com a sombra da
borboleta, que surgia de repente em uma malha de luz sobre o chão, e desaparecia
na sombra das folhas das árvores.
A pequena
borboleta pousou sobre uma flor. Fechando as asas para descansar, provou-lhe o
néctar. Não teve tempo de saborear a delícia, num susto desesperado, alçou voo
novamente. Fugindo do bico de um bem-te-vi, pousou sobre o ombro da menina, que
ficou imobilizada pelo prazer e pelo receio de espantar a borboletinha.
– Ai! que
susto enorme!
Marina
ficou ainda mais espantada, parecia-lhe ter ouvido a borboleta falar com ela.
– Ufa! Ainda
bem que você está aqui para me proteger! Aquele monstro de bico não vai ter
coragem de me atacar aqui.
Marina
estava ainda paralisada, mas finalmente reagiu:
– Você
fala?
– Não,
não como você, mas posso falar direto na sua cabecinha.
– O
passarinho quase te pegou
– Você
viu, escapei por pouco daquela coisa monstruosa!
– Eu
não acho que o passarinho é um monstro, eu gosto dele.
– Você
não acha porque você é grande, ele não pode fazer-lhe mal, mas ele é um perigo
enorme para as borboletas.
– Eu
não sou grande, sou pequenina.
– Para
mim, você é muito grande!
Enquanto
tudo isso acontecia, depois de algumas horas a espalhar sua luz, o sol havia
desaparecido entre as nuvens, deixando o calor murchar. As nuvens chegavam
negras e ameaçadoras. A mamãe de Marina logo chamou:
– Marina,
vamos embora que a chuva não vai demorar.
E a
borboleta novamente voltou a ficar medrosa.
– Ai,
chuva!
– Você
não gosta de chuva? Eu também não, porque tenho que ficar presa em minha casa.
– A
chuva é muito perigosa para nós, borboletas. Nossas asas são muito frágeis, e
as gotas de chuva caem como bombas sobre elas.
– Você
tem medo de uma gotinha de chuva!?
– Muito
medo! Quando chove tenho que me esconder debaixo de uma folha ou de uma flor.
Se uma gota me derrubar, minhas asas ficam encharcadas, e não posso voar. E uma
gota maior pode até furar minha asinha.
– Poxa!
Há muita coisa perigosa em sua vida!
– É
muito gostoso voar livre por aí e poder beber o suco docinho das flores, mas tenho
de estar alerta todo o tempo para evitar os perigos. Até nas flores corremos
risco de cair nas garras de uma aranha escondida.
–
Então, venha comigo, lá em casa você vai ficar protegida da chuva.
A mamãe
de Marina sorriu ao vê-la chegar saltitante com a borboleta voando ao redor
dela. Quando deu as mãos a sua mamãe, a borboleta voltou a pousar sobre o seu
ombro.
– Você
arrumou uma nova amiguinha?
– Ela
não é linda, mamãe? Ela me disse que estava com medo da chuva, e eu a convidei
para ir lá para casa.
A
mamãe de Marina sorriu com a fantasia da filhinha.
– E
você entende a linguagem das borboletas?
– Entendo
tudinho que ela fala bem aqui dentro da minha cabeça.
– Ah!
Somente
seu irmão, ao chegar em casa, entre ciúmes e disputas, disse que ela era uma
boba por acreditar que a borboleta falava com ela, e tentou pegar a borboleta.
A pequenina, novamente assustada, voou e foi descansar no alto de uma
prateleira da estante. Depois que o menino se cansou de chatear a irmã e
retirou-se, ela desceu novamente e pousou na mão de Marina.
– Ai,
tive medo novamente que aquela mãozona machucasse minhas asinhas.
–
Nossa, suas asas parecem ter dois olhos redondos e pretos! São tão bonitas!
– Os
seus olhos também são muito bonitos.
As
duas brincaram enquanto a chuva caía lá fora. Quando Marina quis brincar de
pique esconde, não teve jeito, pois a borboleta conseguia ver a menina mesmo se
ela tentava se aproximar por trás das asas dela. Mas nem por isso faltava
brincadeiras para as duas.
A
chuva se foi. A borboleta estava cansada, pois a chuva baixara a temperatura,
que era necessária para a borboleta ter energia.
– Vou
ter que ir embora, ganhar forças para passar a noite.
Marina
sentiu tristeza, mas não queria que sua amiguinha sofresse.
– Está
bem, mas volte sempre que quiser.
Marina
viu a borboletinha se afastar batendo suas asas e pensou novamente que era como
uma flor esvoaçante.
Talvez
ela tenha tentado voltar, talvez a sua natureza a tenha levado para outros
jardins. Talvez... Mas o certo é que ficou para Marina a carícia daquele dia de
tanta alegria.

Uma história bela, doce, traz uma nostalgia da infância a todos nós que enfrentamos diariamente as agruras da vida adulta.
ResponderExcluirÉ, uma forma de soltar a borboleta (alma) que insiste em ficar presa lá atrás, nos tempos que se foram.
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