A
não convidada
“O homem me parece ser um animal amável, valoroso e
engenhoso, que não tem igual na terra e que sabe encontrar
o fio em todos os labirintos."
Nietzsche
O horizonte que se espalhava da janela do prédio era de
gigantes maciços de cimento e de muitas outras janelas, olhos que nas noites produziam
pontos de luz que o coloriam de alegóricas visões, e de dia criavam uma
barreira que não permitia ao seu olhar deter-se nele. Da sua mesa de intensos
trabalhos, ele apenas deixava seus olhos correrem livres por aquela paisagem inócua,
sem deter-se em divagações, quando levantava os olhos para buscar alento e
inspiração, porém logo recolhia o olhar que parecia repelido pela falta de
possibilidade de expandir-se e que nem mesmo era refletido, fazendo-o
sentir-se, em breves instantes, como um anti-herói das histórias de horror que
não tinha reflexo.
A sua vida tinha sido uma constante fuga desse labirinto de
emoções presas, guiado pelos fios dos belos olhos de Ariadnes, que lhe abriam
horizontes de tons variados, de montes graciosamente sinuosos e vales profundos,
que percorria com avidez em busca de novas paisagens feitas da sempre mesma
matéria, mas de sabores diversos, que lhe satisfaziam os desejos mais febris,
como um canibal que se apossa do espírito de suas vítimas.
Agora, Dioniso estava morto? E levou consigo as tantas princesas
exauridas?
Este pensamento levou-o a quebrar o seu jejum daquele
horizonte de cimento, fixando-o à grande janela de sua sala.
O seu olhar não mais se perdeu, refletiu na janela que lhe
surgiu na frente como um espelho. Por tantas vezes passeara os breves olhares
por ali, não querendo ver aquele velho de habituais desatividades que habitava
aquela habitual janela do outro lado da rua. Aquele ócio que lhe fora
incompreensível tornou-se um flagrante ato assassino da sua sólida construção
de muitos anos, que fora erigida de trabalho e prazeres. Seguiu o olhar do
velho por paisagens de nada, pelos raios de um sol negro de uma consciência
vazia de significados. Olhou a sua imagem naquele espelho que lhe escancarava
de repente as portas do Hades no futuro que se fazia presente, tornando-o parte
do horizonte vazio para os outros olhos.
Ali ficou a olhar também o nada, vendo a sombra do seu
prédio crescer engolindo as janelas do outro. Antes que a última janela
ensombrecesse, voltou os olhos para o interior de sua sala, que,
desacostumados, viram apenas o seu escuro lado, uma cela onde seus membros
murchariam, rechaçados pela repulsa de suas Auroras.
O fio que lhe era oferecido enrodilhava-se em seu corpo,
tornando-o objeto de uma esposa inflexível, jamais convidada, que o apertaria
mais a cada grão de areia que cairia do
relógio, impedindo as passagens no seu
labirinto.
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