quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

A não convidada



A não convidada

                                                                                   “O homem me parece ser um animal amável, valoroso e
                                                                                   engenhoso, que não tem igual na terra e que sabe encontrar
                                                                                   o fio em todos os labirintos."
                                                                                                                               Nietzsche

 



O horizonte que se espalhava da janela do prédio era de gigantes maciços de cimento e de muitas outras janelas, olhos que nas noites produziam pontos de luz que o coloriam de alegóricas visões, e de dia criavam uma barreira que não permitia ao seu olhar deter-se nele. Da sua mesa de intensos trabalhos, ele apenas deixava seus olhos correrem livres por aquela paisagem inócua, sem deter-se em divagações, quando levantava os olhos para buscar alento e inspiração, porém logo recolhia o olhar que parecia repelido pela falta de possibilidade de expandir-se e que nem mesmo era refletido, fazendo-o sentir-se, em breves instantes, como um anti-herói das histórias de horror que não tinha reflexo.

A sua vida tinha sido uma constante fuga desse labirinto de emoções presas, guiado pelos fios dos belos olhos de Ariadnes, que lhe abriam horizontes de tons variados, de montes graciosamente sinuosos e vales profundos, que percorria com avidez em busca de novas paisagens feitas da sempre mesma matéria, mas de sabores diversos, que lhe satisfaziam os desejos mais febris, como um canibal que se apossa do espírito de suas vítimas.

Agora, Dioniso estava morto? E levou consigo as tantas princesas exauridas?

Este pensamento levou-o a quebrar o seu jejum daquele horizonte de cimento, fixando-o à grande janela de sua sala.

O seu olhar não mais se perdeu, refletiu na janela que lhe surgiu na frente como um espelho. Por tantas vezes passeara os breves olhares por ali, não querendo ver aquele velho de habituais desatividades que habitava aquela habitual janela do outro lado da rua. Aquele ócio que lhe fora incompreensível tornou-se um flagrante ato assassino da sua sólida construção de muitos anos, que fora erigida de trabalho e prazeres. Seguiu o olhar do velho por paisagens de nada, pelos raios de um sol negro de uma consciência vazia de significados. Olhou a sua imagem naquele espelho que lhe escancarava de repente as portas do Hades no futuro que se fazia presente, tornando-o parte do horizonte vazio para os outros olhos.

Ali ficou a olhar também o nada, vendo a sombra do seu prédio crescer engolindo as janelas do outro. Antes que a última janela ensombrecesse, voltou os olhos para o interior de sua sala, que, desacostumados, viram apenas o seu escuro lado, uma cela onde seus membros murchariam, rechaçados pela repulsa de suas Auroras.

O fio que lhe era oferecido enrodilhava-se em seu corpo, tornando-o objeto de uma esposa inflexível, jamais convidada, que o apertaria mais a cada grão de areia que cairia do 
relógio, impedindo as passagens no seu labirinto.

-o-





terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Libélulas



Libélulas




– Ei, Miguilim, saudade de uma história?

– Deveras, Doutor, de muita carência já estou a ouvi-las nos sonhos.

  Então, vamos, vou contar-lhe uma que termina como em um sonho.

  Deve de ser muito estranha.

  Você julgará. Há muitos anos, uma menininha crescia suas graças no carinho de sua família, em uma casa que tinha um grande quintal, onde ela podia ver a vida espalhando suas surpresas aos seus olhos curiosos.

– Com árvores, pássaros e bichinhos?

– E um pequenino regato que corria em direção à casa vizinha de uma senhorinha viúva, que ali vivia sozinha, acalentada com o amor do neto que morava longe e que passava as férias ao lado da vovó.

– Que saudades eles deviam passar!

– Muita, não é? E a pequena Helena, era este o nome da menininha, tinha o neto da senhorinha como companheiro de folguedos nos tempos de férias.

– E como ele se chamava, Doutor?

– Era Marco o seu nome, e para ele aqueles quintais eram um palco de aventuras, e nelas arrastava a sua amiguinha.

– E tinham muitos outros amigos?

– Ah, sim, havia muitos outros, mas grande parte das brincadeiras faziam apenas os dois, e assim iam crescendo, aprendendo a observar a vida que deslumbrava pelos terreiros, e, para os dois, uma atração desigual era observar as libélulas, que por aquelas bandas eram conhecidas como pica-fumos.

– Eu também gosto muito delas, Doutor, são muito ligeiras.

– E são muito atrativas às crianças, que gostam de testar suas habilidades para pegá-las. Elas têm olhos que enxergam tudo ao redor, e muitos melhores que os nossos, por isso é muito difícil serem apanhadas de surpresa.

– E parecem helicópteros voando, mas o engraçado é como elas fazem na água, com os rabinhos.

– São bichinhos muito divertidos, encantam as crianças, e os dois passavam bons momentos atrás deles. E foi devido a um desses que Helena ganhou uma pequena cicatriz na testa, no tombo que levou correndo para pegá-lo. E os anos foram passando, as curiosidades mudando de interesses, até que, não se imagina o começo, eles se perceberam sofrendo saudades intensas ao se verem longes, e as despedidas se tornaram momentos de muitos choros.

– É triste nada poder fazer a não sofrer a dor!

– Naquele último verão de ainda crianças, o voo de duas libélulas, entrelaçadas em coração, havia despertado seus olhares em direção a novas vontades, e trocaram beijos e juras de amor.

– Último verão, Doutor?

– A tristeza invadiu a vida de Marco, terminando com aquelas férias de alegrias; sua adorada avó deixou marcas profundas quando o coração a levou embora, e, para Helena, a casa fechada só lhe lembrava da tristeza de não ter mais seu amigo.

– Sem a vovó, Marco não voltava para passar as férias?

– A casa permaneceu abandonada por muito tempo, até que um casal tomou o lugar da avó de Marco.

– Marco não voltou mais?

– Passaram-se vários anos. Marco foi convidado por um amigo para ir com ele passar as férias naquela mesma cidade, que lhe era só uma lembrança gostosa. Passando em frente à antiga casa de sua avó, recordações dos dias felizes bateram forte. Será que Helena ainda morava ali ao lado? O colega lhe afirmou que sim.

– Ele não quis ir ver a Helena?

– Ele não sabia como seria recebido e se intimidou; agora moça, talvez não lhe guardasse as mesmas atrações.

– Poxa, que pena!

– Mas os ventos que sopraram não deixaram que tudo assim permanecesse. No dia seguinte a sua chegada, Marcos estava com os amigos a conversar e, bom, vamos deixar que eles mesmos continuem a história:

“– Pessoal, veja! A coisinha mais linda da cidade vem entrando na praça.”

“– Linda mesmo.” – falou o Marco – “Mas... é a Helena!”

E a Helena, tendo-o visto, aproximou-se da turma, e depois dos ois:

“– Marco, há quanto tempo, como você está?”

Marco estava pasmado com a beleza de Helena, respondeu um tudo bem, e Helena:

“– Estou indo para casa, não quer acompanhar-me?”

“– Claro, vamos.”

E eles, deixando o grupo a curtir suas brincadeiras, foram em direção ao lugar de suas saudosas lembranças.

“– Você se lembra das libélulas?”

“– Muito, elas ainda brincam lá pelo quintal?”

“– Não tanto quanto naquela época, são mais raras agora. Mas gosto de ficar no quintal a sentir o vento a quebrar o silêncio nas folhas das árvores, a lembrar-me do quanto ali brincávamos, e de quanto chorei por não mais ter esperanças de ouvi-lo a acariciar-me com nomes tão doces.”

Marco a fez parar, levando a mão ao seu rosto, acariciou a sua antiga cicatriz:

“– Ainda está aí, como uma marca indelével de nossas aventuras.”

Marco procurou a mão dela e por alguns momentos seguiram assim, calados, a recordar uma cena que só podia ter nascida de um mesmo sonho. Chegando em casa, Helena o arrastou para o quintal.

“– Parece mesmo um sonho! Juntos novamente! Olha, Marco, uma libélula na corda do varal, acho que veio a festejar a nossa alegria!”

Uma brisa leve de outono também veio fazer parte das suas saudades. A princípio, olharam-se, as mãos percorreram os rostos sorrindo, e um beijo levou-os a subirem no vento e a pairar no ar como as libélulas. Os cabelos esvoaçantes de Helena enredaram os de Marco, e desprenderam-se na viração, dançando, girando, sucumbindo ao prazer. Ainda se ouviu o Marco dizer uma frase, Helena responder, e, depois, um silêncio que matou a tarde:

“– Estou sonhando? parece-me estar flutuando nesta brisa gostosa.”

“– E estamos!”

Os dois corpos, diluindo-se, misturaram-se nas ondas em que Eos abriu o céu para o pôr-do-sol.

– Eles sumiram, Doutor?

– Aparentemente, mas ouviu-se muito falar por aquelas bandas que um casal de libélulas voava sempre enroscado em um coração, que nunca se separava, pairando alegremente na brisa.

– Que estranho, Doutor, vou embarcar nos meus sonhos, mas espero acordar ainda menino.

-o-

sábado, 3 de fevereiro de 2018

O garimpeiro



O garimpeiro




A bem da verdade, curiosa afirmação de uma história que não pode ser invencionice, o cru e o cozido aqui se dão as mãos para falar dos dois lados que todo fato tem, se é que apenas dois existam. Mas o certo é que meu amigo Ari é uma penca de habilitações pendurada em dois braços, sem falar das pernas que o carregam para todos os lados, e assaz capaz de cumprir tarefas várias com perfeita e com igual destreza.

Em mais que seja de bom tom apreciar o trabalho bem ordenado e direito, não é este o motivo que me leva a contar as suas façanhices, o real mesmo é de desfiar a sua paixão pela garimpagem. Será através de suas mesmas palavras que vou desenrolar os seus enredos, na própria moeda que me foi passada nas ocasiões de nossos entretenimentos. E foi assim o seu discorrer:

“A minha paixão das pedras maravilhas começou muito bem cedo, no acordar da minha vagabundice dos raquíticos catorze anos. Foi mesmo ali debaixo daquele vermelho pé de jambo em flor, num chão colorido de agulhinhas, que o Mortadela me mostrou aquela pedrinha brilhosa, que transluzia uma luz azulada, que fincava funduras na gente, indo bater mesmo nas chagas do coração. Num misturar das cores, não sei se na ardência da tarde ou nos meus olhos atiçados de cobiça, babei sobre a preciosa todos os ahs! que me haviam acumulado, naqueles tempos aborrecidos de crescimento, sem carregar nas algibeiras um elan.

Persegui o obter aquela beleza com todas as arapucas que as minhas ainda imaturadas apetitudes podiam conceber. Aquela Apatita prometia-me soles de alegria em banhar-me em seus raios índigos.

Depois de muitas tramas lucubradas, a vitória de ter o carinho da valiosa imergida nos meus olhos, que invejavam o poderio das mãos de possuí-la, fizeram de minha vontade este escravo da paixão pela garimpagem, que não mais se aquietou em possuir apenas aquela. E foi que me pus a varejar por terras todas as que conseguia pisar atrás das preciosas. O esforço foi dos mais recompensantes, acumulei muitas jóias.

Logo que pude deixar-me ao luxuriento prazer de buscar por terras outras, deparei-me debaixo de uma montanha mineira onde corria um riacho friinho. Dentro daquelas águas de marfim resplandecia um brilho descomum que fez-me um arrepio gélido correr pela espinha e desembocar no espantado da boca, que lançou um batizado nome: Cristalinda!

Que alegrias me trouxe aquela gema cristalina! Era um rei na exposição daquela pedrura ostentadora, rigolava de prazer das admirações mais tempestivas. Cobria-me com os seus radiantes feixes de translucidez pelas ruas, e, no egoísmo da clausura, perdia-me nas suas formas duras a gozar minha avidez de possuí-la.

Nos entrementes dos meus desejos de ajuntar mais e mais gemas, aconteceu um verão em que fui levado para mourejar nas terras baixas do Mato Grosso, num calor de cozinhar pé-de-moleque na pedra. Nos interlúdios das tarefas, punha-me a varejar o capinzal, e como sói acontecer com a recompensa do esforço, caiu-me na graça uma carminada Jaspe, lavada nas águas pantaneiras com maestria de mestre ourives. Perdi-me de gozo por ter nas mãos aquele jambo de indelicacência, servindo-me a sua contemplação de refrigerante nas redes de descanso.

De outra feita, fui parar nas terras bahianas, não por motivos fatigosos, mas no puro ócio de turismar na chapada, e decerto com o olho na vontade gulosa de desdepauperar minha coleção, que andava mais parada que bahiano em tarde de sol volumoso, o que me estava a causar depressão e ansiedade. E num foi que em uma grota onde se ficava uma lagoa emparedada de pedras, de águas mais azuis que a minha Apatita, no fundo cristalino destoou um verde charmoso que detonou todo o meu comedimento, e fez-me mergulhar sem contar os riscos na cobiça de apoderar-me da Jade. Meus olhos se tingiram daquele verde leitoso, que mais que me alegrar, alimentava minha paixão.

E foi ainda ali, nas riquezas das terras bahianas, que fui presenteado com a despudorada beleza marrom da Ágata, outra preciosidade que iluminou o meu cofre.

E correndo fui, sempre que podia furtar-me ao trabalho fatigoso, por terras muitas, nem sempre nas lonjuras, mas por veredas emburradas. Quando depois de muitos dias de faina bruta, descorajadora, no lavradio de fecundar aquela infecunda macega, bruta e desmazelada com o lodo da terra, saldou-me a esperança verde da Esmeralda. Nada havia naquele troncho bruto que deixasse brilhar um esquálido raio, mas no contrário das minhas mãos, meus olhos se desenganaram.

Ao acontecer do desenrolamento das minhas esperanças, do pouco ao muito, com o meu trato, as formas verdes foram se pondo ao mostruário. Com medo de estragar o prometido, lapidei-a, trazendo-lhe todo o desmesurado verde a encher-me os olhos, e os de todos os invejosos que a podiam ver desfilada. Esmeralda foi a joia da minha coroa.

E com a coleção engrandecida, minha cobiça se empanturrava, e foi nesses ganancismos que fui passear meus devaneios nas terras do antigo Tejuco, a ver se me encantava a dita de bamburrar uma Xica, nem tanto uma de engambelar um contratador, mas no menos uma pequetita brilhante.

E num foi que a estrela me fez convite de alvíssaras: lá estava, correndo aflita na bateia a tilintar faíscas, a minha Xica durinha, teúda e manteúda, preciosidade de um carbono puro e brioso. Fiz minhas preces de comoção, pondo o desfervor de lado e ajoelhando-me na beira do riacho, agradecendo a São Benedito sua complacência. Juntei meus trastes e deixei aquelas paragens para voltar para meu chão, rico de satisfação e orgulho, trazendo no bornal aquela delicada peça.”

– Bem fornida essa sua coleção Ari, mas diga lá, você escondeu o melhor, não foi? Pois, afinal, como aconteceu a Maria?

  Foi um tragicômico engano, a Maria.

  E por quê?

  Quando a conheci, era uma perolazinha ainda não formada, um pequenino grão. Faltava-me na coleção uma Pérola, pois cá nestas bandas não as há. E para abocanhá-la, matrimoniei-me.

– Que brinco de história!.Ela então chama-se Maria Pérola?

– Ah, pois! Nos tempos de então, eu me abestalhava no não saber que uma ostra gera a Pérola por penar na sofrência de um mal estranho em si.

– Ah, sei, e por que a desdita?

– Pelos anos de tristura desmesurada que me apenei na dor de vê-la crescer dentro da ostra, que eu fui. Por isso escondo a Pérola, só sobrou a Maria.

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